sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FICHA 36 - EXERCÍCIOS DE ANÁLISE DE TEXTOS


UNIDADE 1
CAPÍTULO 5
Argumentação, verdade e ser

Ficha 36
Exercícios de análise de textos
TEXTO 1
Tenho vindo a dizê-lo repetidas vezes: trata-se de uma mera vingança da sociedade, mas não traz qualquer solução para os problemas sociais e económicos que levam ao crime. Daí que considere que é inaceitável a pena de morte. De facto, uma tal penalização em nada repara o sofrimento da vida ou da família; em nada serve de castigo exemplar, pois, se o fosse, bastava ter havido um só executado; em nada segue o exemplo dado pelos paí­ses civilizados, em que tem sido transformada em prisão perpétua sem que isso represente um aumento das respectivas taxas de criminalidade; em nada reduz um direito da socie­dade, pois se não foi ela que deu a vida ao criminoso, também não será ela que tem o di­reito de lha retirar; em nada simboliza um gesto da humanidade, de amor ao próximo e de fraternidade, cuja carência está, psicologicamente, na base de qualquer crime violento. Em nada se pode basear a defesa de tão repugnante, vil, odioso e chocante procedimento como a pena de morte.
     Manifesto Anónimo
1.      Identifique o problema sobre o qual o texto toma posição.
Problema: A pena de morte é aceitável?
2.  Identifique a tese central do autor.
Defende – se a tese de que a pena de morte é injustificada sob todos os ângulos: não defende a sociedade con­tra o crime, não está de acordo com a moral nem com o direito.
3.  Explicite os argumentos apresentados.
Argumento que critica a ideia da pena de morte como reparação do sofrimento:
 A pena de morte é legítima apenas se a pena de morte reparar o sofrimento. Mas a pena de morte não repara o sofrimento. Logo, a pena de morte não é legítima. (Muitas pessoas tendem a usar, como primeira premissa, a afirmação "Se a pena de morte repara o sofrimento, então a pena de morte é legítima", o que torna o ar­gumento inválido, um caso da falácia da negação do antecedente.)
Argumento que critica a ideia da pena de morte como castigo exemplar:
Se a pena de morte fosse um castigo exemplar, então bastaria uma execução para prevenir crimes susceptíveis de pena de morte. Ora, já se deram e continuam a dar execuções. Logo, é falso que as execuções previnam crimes susceptíveis de pena de morte. Logo, é falso que a pena de morte seja um castigo exemplar.
Argumento baseado no progresso civilizacional:
Os países mais civilizados substituem a pena de morte pela prisão perpétua, sem a desvantagem do aumento de crimes. Devemos seguir os países mais civilizados na substituição da pena de morte pela de prisão perpétua. Ora, os países mais civili-
zados substituem a pena de morte pela prisão perpétua e sem desvantagens. Logo, devemos, como os países mais civilizados, substituir a pena de morte pela prisão perpétua.
Argumento baseado nos princípios do direito:
Se não foi a sociedade que deu a vida ao criminoso, também não é ela que tem o direito de lha retirar. Não foi a sociedade que deu a vida ao criminoso. Logo, a so­ciedade não tem o direito de retirar a vida ao criminoso.
Argumento baseado nas condições da boa cidadania e da paz social:
Se a pena de morte é legítima, deve contribuir para a diminuição dos crimes vio­lentos.
Se a sociedade perde os laços do amor e da fraternidade, os crimes violentos au­mentam.
A pena de morte contribui para a perda dos laços de amor e fraternidade da soci­edade.
A pena de morte contribui para o aumento dos crimes violentos.
   Logo, pena de morte não é legítima.
4. Admita que tinha de atacar um dos argumentos apresentados. Escolha-o e exponha as li­nhas principais do (s) seu (s) contra argumentos.
Os três primeiros argumentos apelam a factos contra três tentativas de justificar a pena de morte. Ao apelar a factos, porém, concedem a última palavra a uma inves­tigação empírica bastante espinhosa porque não se podem relacionar apenas os da­dos relativos à pena de morte e ao crime esquecendo outros factores. Por exemplo: a afirmada diminuição dos crimes violentos nas sociedades mais civilizadas pode ser atribuída à diminuição da miséria e, por isso, não se pode facilmente eliminar a hi­pótese de que as sociedades mais civilizadas ainda teriam menos crimes violentos mantendo a pena de morte.
O argumento pelos princípios do direito tende a impressionar, mas tem dificuldades óbvias. Pode-se, por exemplo, argumentar que, num sentido importante, a sociedade dá a vida - numa espécie de contrato implícito que assegura o mínimo de ordem e protecção da vida.
O último argumento também apela a um facto - a diminuição de laços de fraterni­dade gera o aumento da criminalidade -, mas, neste caso, é difícil imaginar que a pesquisa empírica o possa desacreditar. Tem também a vantagem de permitir rever e reforçar os primeiros argumentos. Estes deixariam de ser interpretados em termos es­tatísticos, como é sugerido, para serem revistos em função das condições psicológicas do crime: eliminando a pena de morte, a sociedade repele a ideia de que matar pode ser um acto de justiça, ideia esta que, certamente, não contribui para a diminuição da violência.

TEXTO 2
Se o poder político tem por função primeira dar a sua força ao direito das liberdades a des­peito dos poderes, ele deve permanecer independente destes. Ele deve, exactamente, ter po­der sobre os outros poderes, sobre toda a força que tenda a exercer-se contra a liberdade dos fracos. Disso resulta que não pode ser nenhum dos poderes. Nem o poder económico, nem poder ideológico, nem o poder religioso. Também não pode identificar-se com o poder de mais prestígio e eficaz - o da ciência e técnicas que ela engendra. Em particular e forço­samente, pois o seu poder afecta directamente o espírito, a ciência médica. Por isso a medi­cina não deve tornar-se uma competência do Estado.
Claude Bruaire, Une éthique pour Ia medicine, Fayard, 1978, pág. 132
1. Explicite o problema abordado no texto.
O problema tratado no texto é este: Deve a medicina tornar-se uma das competências do Estado?
Observação: O problema central é obscurecido pelo facto de grande parte do texto se dedicar a estabelecer uma premissa - O Estado não pode identificar-se com o po­der da ciência e das técnicas -, desejada para a conclusão, e pelo facto de a conclu­são aparecer subitamente deduzida de uma premissa muito mais geral.
2. O texto tem dois argumentos. Um primeiro é um subargumento destinado a justificar uma tese sobre o poder político. O argumento principal usa a conclusão do anterior para justi­ficar a sua primeira premissa.
- Explicite os dois argumentos.
O poder político deve ser independente dos outros poderes.
A ciência e as técnicas que ela engendra são poderes.
Logo, o Estado deve ser independente das ciências e das técnicas.
3.A tese ou conclusão principal pode parecer um pouco surpreendente. Há material suficiente para a estabelecer? Há premissas omitidas que possam atenuar ou dissipar essa surpresa?
 O que pensa do argumento?
O argumento é muito pouco claro, o que, aliás, é frequente na argumentação polí­tica. Não é claro, por exemplo, o alvo da argumentação: o que é abrangido pela ex­pressão "medicina como competência do Estado"? Tudo - da investigação ao levan­tamento dos problemas da saúde pública - o que se relaciona com medicina? Ou o que habitualmente se designa por Saúde Pública?
Também não é claro que considerar a medicina uma competência do Estado seja "identificar" o Estado com a ciência e as técnicas: a defesa da soberania é uma com­petência do Estado, mas isso não significa identificação do Estado com a Física, a Engenharia, a Geografia e outras ciências e técnicas necessárias à instituição militar. A falta de clareza do argumento deve-se ao facto de o argumentador ter passado da discussão de princípios muitos gerais para uma questão mais específica sem os ne­cessários passos intermédios.



TEXTO 3


As descobertas da técnica tiveram por consequência dividir domínios até aqui confundidos: sexualidade, reprodução, maternidade e educação. Ora, quando se dividem domínios nos quais se pode agir selectivamente, as escolhas possíveis são introduzidas e multiplicadas: cria--se uma liberdade. A mulher é assim, cada vez mais, desalienada em relação à natureza gra­ças às ciências da natureza.
Evelyne Sullerot, Lê Fait Féminin, Centre Royaumont pour une science de rhomme,Fayard, 1978, pág. 18
1.  Que problema é tratado no texto?
Problema: Qual o papel da ciência e da técnica para a mudança da condição da mulher?
2. Qual é a tese defendida?
Defende – se a tese de que ciência e a técnica têm contribuído para a desalienação da mulher.
3. Que argumento é apresentado? (Responda usando a transcrição o menos possível e privi­legiando a clareza).
A fusão da sexualidade, da reprodução, da maternidade e da educação retira muitas possibilidades à mulher. Ora, a ciência e a técnica separaram esses domínios. Logo, a ciência e a técnica contribuem para a liberdade da mulher.
4. O texto supõe a afirmação de que, sem a separação de domínios apontada, a mulher es­taria mais alienada, isto é, teria uma vida menos humana porque estaria mais presa à na­tureza. Pode apresentar razões para defender esta suposição?
A resposta apela à reconstituição da condição da mulher anterior à separação da­queles domínios. A pressão de tais circunstâncias faz com que cada uma das funções apontadas apareça limitada pelas outras que, em conjunto, se transformem num des­tino "natural" da mulher.
TEXTO 4
Quisemos tudo, desejámos tudo, tomámos tudo, obtivemos tudo. Devorámos tudo como as vítimas da fome canina em que nos transformámos. E, assim que tivemos tudo, precisámos de nos voltar para outra coisa. A satisfação não é do nosso mundo. Um grande amor? Precisamos de um filho. Um filho? Precisamos de dois, depois de três ou quatro. Um marido? Precisamos de um amante. O emprego? Precisamos de chegar ao topo. As alturas? Precisa­mos também do dinheiro. O êxito completo? Precisamos da felicidade. Tudo ao mesmo tempo? Continua a não ser bom. Cansa ser superwoman...
Michéle Fitoussi, Lê ras-le-bol dês Superwomen, Calmann-Lévy, 1987, pág. 195

1. Identifique o problema abordado no texto.
Problema: A mulher emancipada é a mulher realizada?
2. O texto esforça-se por apresentar uma justificação indutiva da tese ou conclusão que, por sua vez, está ausente. Clarifique a tese e o argumento.
O texto pretende defender a tese de que as metas habitualmente apontadas para a realização (satisfação) da mulher são ilusórias. O argumento consiste apenas em, su­cessivamente, apontar tais metas - amor, casamento, descendência, emprego, di­nheiro, sucesso completo - e afirmar, para cada uma, o seu fracasso. Como não se de­tém em dados que confirmem este fracasso, o argumento supõe que os factos sugeridos são consensuais.
3. Discuta o argumento. A conclusão que for extraída será verdadeira para todo o ser hu­mano?
O texto admite que o destinatário conhece exemplos claros de cada uma das situa­ções de fracasso ou desilusão que aponta, mas parece contra esse conhecimento para criar a adesão a uma generalização precipitada e duvidosa, isto é, uma generalização sem base suficiente e que nem considera os casos que a podem pôr em causa. Efeito semelhante ocorre quando as pessoas, impressionadas pela meia dúzia de disparates de condução que observaram durante uma viagem de automóvel, concluem que "só há loucos na estrada" - omitindo, portanto, os milhares de condutores com que se cruzaram e que não lhe deram razão de queixa. A raiz desta generalização está no facto de os casos que fogem à regra serem, precisamente por isso mesmo, os que mais impressionam. Da mesma maneira, os exemplos de pessoas que, apesar de apa­rentarem todas as condições para se sentirem realizadas, estão insatisfeitas, são os que mais impressionam e fazem esquecer os casos de pessoas talvez anónimas, mas bem sucedidas.
Contribuindo para estabelecer a generalização precipitada está a indefinição com que é usada a ideia de "insatisfação". O texto assume que o destinatário está pronto a aceitar que a satisfação obtida pelo sucesso em alguma actividade nunca é com­pleto e fica, em regra, aquém do esperado. De facto é difícil desacreditar tal ideia, mas o texto evita, mediante a catadupa de exemplos, considerar a ideia de que um grau tolerável de insatisfação não é incompatível com a ideia de realização ou, nou­tros termos, que uma satisfação incompleta não tem de ser sinónimo de pura insa­tisfação.
Por estas razões é duvidoso que o argumento estabeleça tanto como quer estabele­cer.
TEXTO 5
Assim que uma mulher transpõe a fronteira do território masculino, a natureza do combate profissional muda. As virtudes que se exigem então de uma mulher, pergunta-se quantos ho­mens seriam capazes de mostrá-las.
Eu disse há pouco que a evolução actual das mulheres, a forma que ela se assumirá - e pode fracassar-, é a meu ver o tema de perturbação mais profundo das sociedades desenvolvidas, juntamente com a partilha do poder de decisão. Ateou-se um incêndio que diz respeito ao essencial das coisas, e em primeiro lugar à família. A origem é a pílula, naturalmente. Não porque ela permite evitar os filhos - esse é o aspecto acessório, por mais cómodo que seja -e sim porque, pela primeira vez na história da humanidade, cabe às mulheres a decisão so­bre o objectivo mais fundamental. Biologicamente. E não apenas lhes cabe a decisão, como elas não podem escapar dela, uma vez que não toma-la é uma forma de toma-la. É claro que essa responsabilidade maior está na origem do movimento de fundo que se ma­nifesta neste momento, e que ela conduz à exigência de responsabilidades sociais. Mas tudo isto é complicado. As mulheres não têm medo de perder o que elas não têm, não é mesmo?.. A autoridade, o comando, o poder; em suma, a decisão exercida por alguém que não se sente ameaçado na sua virilidade ou obrigado a tranquilizar-se a seu respeito, não terá nem os mesmos efeitos nem o mesmo carácter. Portanto, todo acesso em massa das mulhe­res a postos de responsabilidade deveria ter consequências consideráveis, inestimáveis, na condução dos assuntos humanos.
Françoise GIROUD, Si je mens, Librarie Générale Française, 1974, Paris, pp. 140-1.
Este texto pretende justificar uma tese sobre a actual relação entre a condição, em mu­dança, da mulher e a sociedade.
Apresente uma análise crítica do texto de acordo com as seguintes linhas:
  Indicação do problema abordado e da tese central.
  Apresentação do argumento, da forma mais simples possível e evitando transcrições.
  Avaliação do argumento e, se for o caso, indicação das linhas que poderiam ser segui­das para a sua crítica.
O texto aborda o problema do impacto da emancipação da mulher sobre a estrutura do poder e pretende concluir que o acesso da mulher ao poder trará mudanças profundas, re­volucionárias, ao exercício do poder.
O argumento parte de um facto: a pílula deu à mulher um poder de decisão sobre a reprodução de que não dispunha. Mas o mais importante é que esse poder de deci­são é, ao mesmo tempo, um poder de decisão sobre o seu próprio estatuto - tendo de decidir sobre o uso ou não da pílula, a mulher tem de decidir sobre se quer ou não esse poder e essa responsabilidade nova.
O poder de decisão assim adquirido desencadeia (ou reforça) o movimento da mu­lher para o aumento do seu poder e das suas responsabilidades na sociedade.
Esta primeira parte do argumento apenas expõe o impacto da pílula na luta da mu­lher para ultrapassar a seu estatuto de submissão. Mas, baseado nele, podemos pre­ver apenas uma repartição mais equitativa das responsabilidades sociais, nada foi dito ainda sobre mudanças significativas nos fins e natureza dos poderes. Este objec­tivo será atingido mostrando que a forma de a mulher exercer o poder terá, neces­sariamente, uma profunda diferença qualitativa em relação à maneira como o ho­mem o exerce.
Um homem pode desejar o poder por vários motivos e, claro, os motivos influencia­rão a maneira como se busca e exerce o poder. Mas a motivação fundamental e sub­jacente a todas as outras é, no homem, de raiz biológica: a autoridade de que o ho­mem precisa é a do "macho dominante", que encontramos em outras espécies de mamíferos onde o exercício do poder garante a virilidade, assegurando o domínio das fêmeas e a reprodução. O poder exercido pelo homem não deixará de exprimir, com ou sem disfarce, o desejo de garantir ou impor a virilidade.
A mulher, para sair da submissão, terá de enfrentar essa identificação arcaica entre o poder e a virilidade. Esse facto explica as dificuldades, referidas no primeiro pará­grafo, que a mulher enfrenta na sua competição com o homem - não lhe basta pro­var que é competente para uma posição de responsabilidade, tem ainda de enfren­tar o sentimento de ameaça à virilidade. Acontece que a mulher não tem, claro, qualquer motivo para temer a perda ou depreciação da sua virilidade. Assim, sejam quais forem as formas pelas quais ela venha a exercer o poder, ele terá um aspecto necessariamente diferente.
TEXTO 6
O texto de Freud, que apresentamos para análise, é um pouco mais longo do que os an­teriores. Porém, muito do material apresentado destina-se a esclarecer as suas premissas, po­dendo, portanto, ser consideravelmente sintetizado.
Sugerimos que na leitura exploratória procure descobrir, da forma mais simples possível:
  A distinção entre erro, ilusão e delírio e a respectiva justificação;
  A tese dos desejos infantis como origem das ilusões.
Vejamos a génese psíquica das ideias religiosas. Essas ideias que professam ser dogmas não são o resíduo da experiência ou o resultado final da reflexão: elas são ilusões, a realização dos desejos mais antigos, mais fortes, mais prementes da humanidade; o segredo de sua força é a força desses desejos. Já vimos: a impressão aterradora da angústia infantil havia despertado a necessidade de ser protegido - protegido e amado -, necessidade que o pai satisfez; o reconhecimento do facto de que essa angústia dura a vida inteira fez com que o homem se apegasse a um pai, a um pai desta vez mais poderoso. A angústia humana diante dos perigos da vida tranquiliza-se ao pensar no reino benevolente da Providência divina; a instituição de uma ordem moral do universo assegura a realização das exigências da justiça, tão irrealizadas nas civilizações humanas, e o prolongamento da existência terrestre numa vida futura fornece os quadros de tempo e de lugar em que esses desejos se realizarão. Respostas às questões colocadas pela curiosidade humana diante destes enigmas: a génese do universo, a relação entre corporal e o espiritual, elaboram-se de acordo com as premis­sas do sistema religioso. E é um formidável alívio para a alma individual ver os conflitos da infância, emanados do complexo paterno - conflitos jamais inteiramente resolvidos - se­rem-lhe, por assim dizer; retirados e receberem uma solução aceite por todos.
Quando digo: tudo isso são ilusões cumpre que eu delimite o sentido desse termo. Uma ilu­são não é a mesma coisa que um erro, uma ilusão tão pouco é necessariamente um erro. A opinião de Aristóteles, segundo a qual os vermes seriam engendrados pelo lixo era um erro. Era uma ilusão da parte de Cristóvão Colombo acreditar ter descoberto um novo ca­minho marítimo das índias. O que caracteriza a ilusão é ser derivada dos desejos humanos; deste modo ela se aproxima da ideia delirante sem psiquiatria, mas também separa-se desta, mesmo se levarmos em conta a estrutura complicada da ideia delirante. A ideia de­lirante está essencialmente - sublinhamos esse carácter - em contradição com a realidade; a ilusão não é necessariamente falsa, isto é, irrealizável ou contraditória com a realidade. Uma jovem de condição modesta pode, por exemplo, criar a ilusão de que um príncipe virá buscá-la para casar. Ora, isso é possível: alguns casos do género realmente ocorreram. Dadas essas explicações, voltemos às doutrinas religiosas. Tornaremos a dizer: as doutrinas religiosas são todas ilusões, não se pode verificá-las, e ninguém pode ser obrigado a tê-las por verdadeiras, a crer nelas.
Sigmund FREUD, L'avenir d'une i/lusion, Paris, PUF,7.a ed., 1987, pp. 43-5.
Apresente uma análise crítica do texto de acordo com a seguinte orientação:
  Indicação do problema abordado e da tese defendida pelo autor.
  Apresentação do argumento principal e da justificação das premissas.
  Avaliação do argumento contendo a indicação das linhas que poderiam ser seguidas se
tentássemos refutar a tese Freud.
O texto pretende esclarecer a natureza das crenças religiosas e defende a tese de que as crenças religiosas são ilusões sustentadas pelo desejo persistente de ultrapassar a angústia infantil.
O argumento de Freud compreende-se melhor se começarmos pela premissa que, no último parágrafo, acompanha a repetição da conclusão. Afirma Freud nesse pará­grafo: as doutrinas religiosas não são verificáveis. Se aceitarmos esta premissa, o que não será difícil se pensarmos em "verificação" à semelhança da "verificação cientí­fica", torna-se natural perguntar que motivos podem levar as pessoas a acreditar e tão fortemente numa religião. De facto, é na explicação dos mecanismos psicológi­cos da crença que reside o essencial da tese de Freud e não, como poderia sugerir o termo "ilusão", na avaliação do conteúdo da crença segundo padrões racionais de justificação.
Para evitar mal-entendidos, Freud mostra que ilusão, erro e delírio não são sinónimos e que não diferem apenas em grau. Um erro pode ser defendido no curso normal de uma investigação e mesmo que o investigador não tenha qualquer motivação para o defender. O delírio é um erro total baseado na motivação patológica do sujeito. Quanto à ilusão, é uma crença não justificada por padrões racionais, mas baseada apenas em motivos subjectivos. A ilusão pode, por acaso, vir a revelar-se verdadeira. Portanto, o facto psíquico fundamental da ilusão não está no conteúdo da crença e no facto de esse conteúdo estar ou não de acordo com a realidade, reside antes na motivação ou desejo de acreditar.
Qual é então a raiz do desejo de acreditar? A crença religiosa tem, segundo Freud, origem nas angústias infantis e no desejo de as superar. Para satisfazer os desejos in­fantis a religião oferece: um pai que ama e protege, mas não tem os limites do pai de carne e osso; a promessa de justificação e ultrapassagem dos perigos e injustiças da vida; uma resposta tranquilizadora para os enigmas do universo. Qual é a força do argumento de Freud? Freud apenas mostra que a religião responde aos medos infantis e sugere que tais medos nunca são inteiramente ultrapassados, o que justifica a persistência das crenças religiosas. Trata-se, portanto de uma hipótese plausível para explicar a força da crença e por que razão resiste ela aos esforços do cepticismo. Com isto manteve-se no plano estritamente psicológico e não provou, nem pretendeu provar, que o conteúdo de tais crenças esteja errado.
TEXTO 7
A palavra "amor" não tem o mesmo sentido para um e para o outro sexo, e essa é uma ori­gem dos graves mal-entendidos que os separam. Byron disse, com razão, que o amor é ape­nas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher. É a mesma ideia que Nietzsche exprime em A Gaia Ciência:
"A mesma palavra amor" diz ele, "significa de facto duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é apenas a dedica­ção, é uma doação total de corpo e alma, sem restrição, sem nenhuma consideração pelo que quer que seja. É essa ausência de condição que faz do seu amor uma fé, a única que ela possui. Quanto ao homem, se ele ama uma mulher, trata-se do amor que ele quer dela; por­tanto ele está muito longe de postular para si o mesmo sentimento que para a mulher; se houvesse homens que sentissem também esse desejo de abandono total, podem estar cer­tos, não seriam homens."
Há homens que em certos momentos de sua existência podem ter sido amantes apaixona­dos, mas não há um único que possamos definir como "um grande apaixonado" em seus arrebatamentos mais violentos, eles jamais abdicam totalmente; mesmo se caem de joelhos diante da amada, o que eles desejam ainda é possuí-la, anexá-la; permanecer no centro de suas vidas, como sujeitos soberanos; a mulher amada é apenas um valor entre outros; eles querem integrá-la na sua existência, não absorver a sua existência inteira nela. Para a mu­lher, ao contrário, o amor é uma submissão total em proveito de um senhor."
Simone de BEAUVOIR, Lamoureuse, Lê deuxième sexe, Folio-Essais, Paris, Gallimard, t. 11, cap. II, pp. 376-7.
O texto apresenta um argumento de tipo indutivo para, em primeiro lugar, estabelecer uma importante distinção e, em segundo lugar e com base nessa distinção, extrair uma tese central relativa à condição da mulher.
1.  Esclareça o problema, a tese principal avançada e o argumento utilizado.
O texto pretende esclarecer o significado do amor para o homem e para a mulher.
Defende a tese de que há uma profunda assimetria entre homem e mulher na re­lação amorosa: para o homem o amor é uma forma de domínio e para a mulher o amor é uma forma de submissão, de alienação.
O argumento progride somando enunciados gerais: "o amor é apenas uma ocu­pação na vida do homem", "o amor é a própria vida da mulher", "o homem ja­mais abdica totalmente por amor", "para a mulher o amor é uma submissão total em proveito de um senhor". Estas premissas são apresentadas como sendo pacífi­cas e consensuais já que nenhuma é justificada.
2.  Avalie a posição de Simone de Beauvoir. As razões apresentadas são ou não suficientes para apoiar a tese central?
               
   O conteúdo do argumento é claro e podemos facilmente admitir que há pelo me­nos um caso de relação amorosa que tem a estrutura assimétrica indicada. É óbvio que o argumentador, não dando exemplos, espera que o destinatário os tenha em mente e, por assim dizer, complete com eles o argumento. Mas isto é motivo para suspeitarmos que o argumento encaminhe o leitor para uma generalização preci­pitada, passando de alguns exemplos impressivos à totalidade das relações amo­
rosas, e totalmente desproporcionada em relação às premissas. Por outro lado, o
argumento não fornece uma explicação para a estrutura da relação amorosa que apresentou, pretende dizer-nos o que se passa e não por que razão se passa assim. O que nos permite perguntar se, no seu todo, o argumento não pretende apenas transformar situações episódicas, contingentes, em algo de essencial, permanente e imutável.







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