sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FILOSOFIA E CONHECIMENTO - FICHA 8 - HUME


UNIDADE 2
A RACIONALIDADE CIENTÍFICO-TECNOLÓGICA
CAPÍTULO 2
TEORIAS EXPLICATIVAS DO CONHECIMENTO

FICHA 8
O empirismo de David Hume
1
Esclareça o que distingue o empirismo de Hume do racionalismo de Descartes.
R: As diferenças a destacar são as seguintes:
1 – A origem do conhecimento.
Descartes considera que a experiência, dados os erros dos sentidos, não pode ser fonte credível de conhecimentos, melhor dizendo, as suas informações não podem constituir (dado que muitas vezes são enganadoras) crenças básicas que possam conduzir a outros conhecimentos. O saber constrói-se com base em ideias inatas e, desde que siga um método correcto e Deus garanta o normal funcionamento da nossa razão, podemos alcançar verdades objectivas sobre o mundo. Esta rejeição dos sentidos é uma convicção fundamental de Descartes e marca a sua orientação claramente racionalista inspirada no modelo dedutivo das matemáticas.
Para Hume, todas as ideias têm uma origem empírica. Todos os nossos conteúdos mentais são percepções. Estas são de dois tipos: impressões e ideias. As nossas ideias são cópias das nossas impressões e por isso não há ideias inatas.
2 – A possibilidade do conhecimento.
Partindo de um cepticismo metódico, Descartes liberta a razão da dependência em relação à experiência e, tornando o seu funcionamento dependente da garantia de Deus, conclui que podemos alcançar conhecimentos objectivos acerca do mundo.
Para Hume, O critério de verdade do nosso conhecimento é este: um conhecimento, uma ideia, só é válido se pudermos indicar a impressão ou impressões de que deriva. A toda e qualquer ideia tem de corresponder uma impressão sensível. Se não há correspondência, há falsidade.
Criticando a fé cega no poder da razão quanto ao conhecimento do mundo e do que transcende a natu­reza, Hume argumenta contra os racionalistas que o conhecimento científico não é como o conhecimento matemático, não o podendo ter como modelo: não é um conhecimento puramente demonstrativo, mas pro­cede da experiência.
Quanto à objectividade das leis naturais defendida por pensadores não racionalistas como Locke e Newton, o filósofo escocês argumenta que qualquer generalização, baseando-se em factos passados e pre­tendendo valer para o que ainda não foi objecto de experiência, é incerta. Nada podemos saber acerca do futuro porque nada nos garante que o futuro seja semelhante ao passado. Não há conhecimento, propria­mente falando, do que ultrapassa a nossa experiência actual ou passada: o que aconteceu não serve como fundamento seguro da previsão do que ainda não aconteceu.
Cepticismo? Sim, no sentido em que o nosso conhecimento não é certo e seguro. Mas uma coisa é o valor científico dos nossos conhecimentos e outra a sua utilidade prática e vital: sabemos que os nossos "conhecimentos científicos" são mais pretensão e desejo de segurança do que saber, mas não podemos viver sem essas sábias ilusões.

3 - Os limites do conhecimento.
Para Hume, as impressões sensíveis são, não só o critério de verdade do conhecimento humano, mas tam­bém o seu limite. Não tendo outra base que não as impressões ou sensações, o nosso conhecimento está limitado por elas: não posso afirmar nenhuma coisa ou realidade da qual não tenho qualquer impressão sensível (como, por exemplo, Deus).
Descartes afirma que a razão apoiada na veracidade divina e nas ideias inatas pode conhecer a realidade na sua totalidade ou, melhor dizendo, os princípios gerais de toda a realidade: Deus, alma e mundo são realidades que podem ser conhecidas.
4 – Ciência e metafísica
Segundo Hume, não podemos afirmar a existência de qualquer fundamento metafísico do saber. Em Descartes, temos uma fundamentação metafísica da ciência, isto é, uma fundação baseada em realidades metafísicas tais como Deus e alma (mas sobretudo Deus, que é o verdadeiro pilar do sistema científico que Descartes se propôs construir).



2
Por que razão a ideia de causalidade não tem objectividade?

R: Para David Hume, o conceito de causa não tem qualquer validade objectiva nem fundamento racional. À ideia de causa não corresponde qualquer impressão sensível.
Que regularmente vejamos ou tenhamos visto B acontecer depois de A não nos permite estabelecer uma relação causal objectiva, ou seja, que B acontecerá necessariamente de­pois de A. A experiência — para Hume o único critério quanto ao conhecimento dos fac­tos — permite-me captar uma sucessão regular entre dois fenómenos, mas não uma suces­são necessária (ou seja, só permite ver o que acontece aqui e agora e não o que sempre acontecerá). Pela experiência, sabemos que sempre no passado a água ferveu, mas não é le­gítimo concluir que no futuro sempre ferverá. E contudo acreditamos — e é, útil que acreditemos — que o aquecimento da água é a causa necessária da sua fervura. Porquê?
A explicação de Hume baseia-se em factores psicológicos. Transformamos uma suces­são temporal regular em relação causal ou necessária devido ao costume ou ao hábito: habi­tuados a ver que B sucede regularmente a A, acreditamos que A é a causa necessária de B, isto é, que sempre assim será.
O conceito de causa é o resultado de uma ilusão psicológica.
Na verdade, o que acontece é que, por nos habituarmos a ver dois objectos sucederem-se um ao outro do mesmo modo, criamos a tendência para crer que, aparecendo o primeiro, apare­cerá também o segundo. Nada mais ilusório do que esta relação de dependência, porque transformou-se uma relação de mera sucessão temporal (o antes e o depois) em relação cau­sal. Não há, segundo Hume, qualquer fundamento objectivo na experiência que confirme esta relação. Assim, o princípio de causalidade considerado um princípio racional e objec­tivo nada mais é do que uma crença subjectiva, o produto de um hábito, a transformação de uma expectativa em realidade.
Negando a origem a priori do conceito de causa e do princípio de causalidade, Hume rejeita um instrumento no qual a metafísica tradicional se baseava para as suas especula­ções. Kant, ao contrário de Descartes, reconhece, como será explicitado, que o conceito de causa não pode ter um uso metafísico ou transcen­dente, mas assume o seu carácter a priori — estrutura objectiva do espírito humano. Assim, evita que a possibilidade do conhecimento científico seja atingida no seu ponto vital.
Como usamos a ideia de causa para compreender muito do que acontece no mundo, então como ela exprime uma conexão de que não temos experiência, o nosso conhecimento do mundo não passa de conjectura que bem pode ser uma ilusão.


3
O que distingue questões de facto e relações de ideias?

R: Os conhecimentos a que Hume dá o nome de "relação entre ideias" são conhecimentos a priori. Consistem, esses conhecimentos, em analisar o significado dos elementos de uma proposição, em estabelecer relações entre as ideias que ela contém. As "relações entre ideias" são proposições cuja verdade pode ser conhecida pela simples inspecção lógica do seu conteúdo.
Vejamos: A proposição "O quadrado tem quatro lados" é um juízo necessariamente verdadeiro e para disso estarmos certos basta analisar o significado de "quadrado". Trata-se de uma verdade necessária porque a sua negação implica uma contradição.
Vemos assim que, embora todas as ideias tenham o seu fundamento nas impressões, podemos conhecer sem necessidade de recorrer às impressões, isto é, ao confronto com a experiência. É o caso dos conhecimentos da lógica e da matemática. Contudo, diz Hume, tais conhecimentos, ou seja, as proposições lógicas e matemáticas, nada nos dizem sobre o que existe e acontece no mundo. Se nos limitarmos a este tipo de conhecimentos, nada ficamos a saber sobre o mundo.
O segundo tipo de conhecimento – o conhecimento de questões de facto – já implica um confronto das proposições (do que dizemos) com a experiência. Os conhecimentos de facto são proposições cujo valor de verdade tem de ser testado pela experiência, ou seja, temos de "inspeccionar" o mundo dos factos para verificar se elas são verdadeiras ou falsas.
Assim, a proposição "Este martelo é pesado" é um juízo cujo valor de verdade não pode ser decidido pela simples inspecção a priori do significado dos termos, isto é, temos de a confrontar com uma verificação experimental elementar, ou seja, a sua verdade ou falsidade só pode ser determinada a posteriori.
Como todas as nossas ideias têm uma origem empírica, não há conhecimento a priori de questões de facto, ou seja, o nosso conhecimento do mundo depende completamente da experiência. E, quando as nossas ideias acerca do mundo exprimem mais do que aquilo que observamos ou de que nos lembramos de ter observado, estamos a ultrapassar o que a experiência nos permite e nenhum conhecimento certo e seguro podemos assim constituir. Será o caso da ideia de causalidade.

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