sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

TEXTOS SOBRE A CIÊNCIA E O SENSO COMUM


TEXTOS SOBRE A CIÊNCIA E O SENSO COMUM
TEXTO 1
A EXPLICAÇÃO E A PREVISÃO
Carl Hempel sugeriu que as explicações científicas têm tipicamente a estrutura de um argumento, isto é, um conjunto de pre­missas seguido de uma conclusão. Esta diz que o fenómeno que precisa de explicação ocorre de facto e as premissas dizem-nos por­que é que a conclusão é verdadeira. Assim, suponha-se que alguém pergunta porque é que o açúcar se dissolve na água. Para res­ponder, devemos construir um argumento cuja conclusão é «o açú­car dissolve-se na água» e cujas premissas nos dizem porque é esta conclusão verdadeira.
Primeiro, as premissas têm de implicar a conclusão, ou seja, o argumento tem de ser válido. Segundo, as premissas devem ser todas verdadeiras. Terceiro, as premissas devem conter pelo menos uma lei geral, tal como «todos os metais são condutores de electricidade», etc. Estas contrastam com factos particulares, como «este pedaço de metal conduz electricidade». Assim, explicar um fenómeno, na concepção de Hempel, é mostrar que a sua ocor­rência se segue dedutivamente de leis gerais, talvez acompanhadas por outras leis e/ou factos particulares, todas verdadeiras.
Para ilustrar isto, suponha-se que estou a tentar explicar por­que é que a planta na minha secretária morreu. Posso propor a seguinte explicação. Devido à fraca iluminação no meu escritório, a luz do Sol não tem chegado à planta; mas a luz solar é necessária para uma planta realizar a fotossíntese; e sem fotossíntese, uma planta não pode sintetizar os hidratos de carbono de que necessita para sobreviver, e irá assim morrer; por conseguinte, a minha plan­ta morreu. Esta explicação ajusta-se perfeitamente ao modelo de Hempel. Ela explica a morte da planta deduzindo-a de duas leis verdadeiras – que a luz solar é necessária para a fotossíntese e que a fotossíntese é necessária para a sobrevivência – e de um facto verdadeiro – que a planta não estava a apanhar luz solar Dada a verdade das duas leis e do facto particular, a morte da planta tinha de ocorrer. [...]
Hempel extraiu uma interessante consequência filosófica do seu modelo acerca da relação entre explicação e previsão. Ele argu­mentou que elas são duas faces da mesma medalha. Sempre que damos uma explicação de um fenómeno recorrendo ao modelo, as leis e os factos particulares que mencionamos ter-nos-iam permiti­do prever a ocorrência do fenómeno, se não soubéssemos já dele.
TEXTO 2

O que é a Ciência?
«O que é a Ciência? Esta pergunta pode parecer fácil de responder: toda a gente sabe que disciplinas como a Física, a Química e a Biologia constituem ciências, enquanto temas como a Arte, a Música e a Teolo­gia, não. Mas quando, enquanto filósofos, perguntamos o que é a Ciên­cia, […] estamos a perguntar que característica comum todas as activi­dades nessa lista partilham, ou seja, o que é que faz de algo uma ciência.
Mas ainda se pode pensar que a pergunta é relativamente fácil.
Certamente que a Ciência é apenas a tentativa de entender, explicar e prever o mundo em que vivemos. Esta é sem dúvida uma resposta razoável. Mas será completa? Afinal, as várias religiões também ten­tam entender e explicar o mundo, mas a religião não é geralmente considerada um ramo das ciências. De modo semelhante, a astrolo­gia e a adivinhação são tentativas de prever o futuro, mas a maioria das pessoas não descreveria estas actividades como ciências.
Muitos acreditam que a característica distintiva da Ciência con­siste nos métodos específicos que os cientistas usam para investigar o mundo. Esta sugestão é bastante plausível, pois muitas ciências empregam de facto métodos de investigação que não encontramos em disciplinas não científicas. Um exemplo óbvio é o uso de expe­riências, que historicamente marca o ponto de viragem no desen­volvimento da ciência moderna. No entanto, nem todas as ciências são experimentais – os astrónomos não podem, obviamente, fazer experiências com os céus, mas têm de se contentar com a observa­ção cuidadosa. O mesmo é verdade de muitas ciências sociais.
Outra característica importante da Ciência é a construção de teo­rias. Os cientistas não se limitam a registar os resultados das expe­riências e observações numa lista de entradas - querem geralmente explicar esses resultados em termos de uma teoria geral. Um dos problemas-chave da Filosofia da Ciência é compreender como é que téc­nicas como a experimentação, a observação e a construção de teorias têm permitido aos cientistas desvendar tantos segredos da Natureza.»

SAMIR OKASHA, Filosofia da Ciência (Traduzido e adaptado)

TEXTO 3
CIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA

Uma pseudociência: a Astrologia
1
O que é o pensamento crítico e como está ameaçado
Uma das maiores ameaças ao pensamento crítico, porque é uma das mais antigas e está outra vez na moda, é o relativismo. Todos somos mais ou menos relativistas em relação a certas coisas. Mas o relativismo vai mais longe. Segundo o relativismo, tudo é relativo, isto é, a verdade, o bem, etc., é sempre relativo a uma sociedade, a uma cultura, etc. Isto significa que, de acordo com o relativismo, não há critérios objectivos (isto é, independentes das sociedades, culturas, dos grupos, etc.) para decidir da verdade ou a falsidade, da correcção ou incorrecção moral de uma afirmação ou teoria. Por esse motivo, o relativismo não é compatível com o pensamento crítico e aqueles que afirmam aceitar o relativismo e o pensamento crítico, embora não o saibam, estão a cometer um erro grave. O sucesso recente do relativismo é extraordinário, uma vez que é facilmente refutável. O relativismo afirma que tudo é relativo. Isto é, segundo o relativismo qualquer afirmação, com excepção da que afirma a tese relativista, é relativa. Assim, o relativismo autocontradiz-se: afirma que todas as afirmações são relativas e ao mesmo tempo que há uma afirmação (a que afirma o próprio relativismo) que não o é. Ora, uma afirmação autocontraditória é necessariamente falsa e, por isso, o relativismo é falso. O que há de lamentável no relativismo é, paradoxalmente, o ar de Verdade Absoluta que tem. É um preconceito tão enraizado na nossa sociedade que as pessoas não se detêm uns minutos para reflectir com cuidado e criticamente sobre ele. Que a maior parte das pessoas tenham esta atitude passiva e acrítica não espanta. Mas é doloroso ver que esta é também a atitude de pessoas cuja formação intelectual e profissão levaria a esperar outra coisa. Mas, claro, a formação intelectual não nos preparou para pensar criticamente nos preconceitos do nosso tempo, mas apenas para lhes dar voz com muitas citações eruditas e palavras caras.
É também vulgar pensar-se que o relativismo, ao contrário do pensamento crítico, permite a liberdade de pensamento. Pensa-se que o relativismo admite que cada um tenha a sua opinião e, portanto, estimula a liberdade. Mas isto é falso. É o pensamento crítico que o faz. O que o relativismo estimula é a ideia errada segundo a qual todas as opiniões têm idêntico valor. Isto de modo algum é idêntico à ideia de que todos têm direito à sua opinião. Do facto de todos terem direito à sua opinião não resulta que todas as opiniões tenham valor idêntico. O pensamento crítico estimula a primeira porque estimula e favorece a criatividade, a inovação e a livre troca de opiniões, mas não favorece a segunda porque ao mesmo tempo desenvolve e estimula a utilização de instrumentos de avaliação crítica das opiniões. Dessa maneira, o pensamento crítico estimula a avaliação das nossas ideias, das nossas teorias, revelando os seus erros e permitindo a sua substituição por ideias e teorias melhores. Pelo contrário, o relativismo não permite nada disto. Se todas as opiniões têm valor idêntico, se nenhuma em si mesma é verdadeira ou falsa, boa ou má, não se pode dizer de nenhuma que é verdadeira ou falsa, que é moralmente boa ou má. E, se não se pode, que motivos teremos para substituir uma pela outra para além de motivos efémeros como a vontade da maioria ou a moda? Assim, longe de promover a liberdade e a criatividade, o relativismo promove o imobilismo e a estagnação. As ideias que impediam as mulheres de votar, de participar na vida económica ou que por qualquer outra forma não reconheciam e não lhes permitiam um estatuto idêntico ao dos homens na sociedade, reconhecemo-lo todos hoje, estavam erradas. Aqueles que primeiro o reconheceram puderam por argumentos e pela discussão crítica convencer outros disso e fazer com que, lentamente, as coisas fossem mudando. Claro que houve muitas pessoas que utilizaram o pensamento crítico para defender estas ideias. Mas, na medida em que o aceitavam, puderam perceber que estavam erradas e, a não ser que os preconceitos fortemente enraizados as impedissem, alterar a sua maneira de ver. Assim, o pensamento crítico permitiu um salto civilizacional importante. O relativismo não permite nada disto, uma vez que não permite distinguir entre ideias opostas. Para o relativismo, os defensores dos direitos das mulheres e os seus opositores estão em situação idêntica. Como escolher então? Assim, longe de favorecer a liberdade, o relativismo favorece todas as formas de opressão.
A segunda forma de ameaça ao pensamento crítico vem do pseudoconhecimento. O pseudoconhecimento é tudo aquilo que passa por conhecimento embora não o seja, quer porque os factos sobre que repousa são pseudofactos ou não foram suficientemente estabelecidos, quer porque os supostos conhecimentos não foram obtidos pelos processos adequados ou porque não foram correctamente testados. Numa palavra, o pseudoconhecimento é tudo aquilo que se afirma ser conhecimento, mas não respeita o modo de pensar crítico. A lista é infindável: a astrologia, a quiromancia, a ovnilogia, os raptos por extraterrestres, as curas milagrosas, o tarot, etc., etc. Como disse, a lista é enorme e, embora algumas só nos façam sorrir, outras têm mais aceitação do que seria recomendado, mesmo entre os professores, como é o caso da astrologia ou da ovnilogia. (O livro Astrologia ― Previsões para o Ano 2001, da Dom Quixote vai na 5.ª edição, com 25 mil exemplares vendidos!) O pensamento crítico consiste no uso adequado da dúvida, da incerteza e dos processos de inferência rigorosa. Ora, em assuntos como a influência dos astros na vida das pessoas ou a existência de ovnis, o pensamento crítico recomenda que se parta de observações tão rigorosas quanto possíveis para a formação de teorias que, por sua vez, têm de ser persistentemente testadas. Uma das formas que o teste assume é a seguinte: deve ser possível deduzir consequências ou previsões da teoria e verificar empiricamente se essas previsões se verificam. As televisões ou a nanotecnologia são exemplos de verificação prática da mecânica quântica e o lançamento de sondas espaciais para planetas distantes da teoria da relatividade. Pode-se fazer muitas outras previsões destas teorias científicas e é fácil perceber que elas ficariam em sérias dificuldades se surgissem insistentemente previsões que não se verificassem. Por exemplo, dado que a teoria da relatividade prevê que corpos de grande massa afectam a trajectória da luz, estaria em grandes dificuldades se isso não ocorresse. Uma consequência importante deste processo é que as teorias científicas (mesmo as mais bem estabelecidas) não são consideradas verdades absolutas, mas apenas teorias com uma probabilidade elevada de serem verdadeiras.
Quando aplicamos esta estratégia de pensamento critico a um pseudoconhecimento como, por exemplo, a astrologia, o que acontece? A astrologia tem uma teoria para explicar a vida humana: a vida de cada um de nós é determinada ou pelo menos influenciada pela conjugação dos astros no momento do nosso nascimento. (Nunca percebi se o facto de nascer de cesariana tinha influência ou por que é o momento do nascimento e não da concepção que determina o carácter, a personalidade e a vida das pessoas.) Com base nesta teoria, a astrologia faz inúmeras previsões, algumas menos sérias, como as que encontramos vulgarmente nos jornais e revistas; outras supostamente mais rigorosas e sérias, se feitas tendo em conta a hora, o dia e o ano de nascimento da pessoa. Mas tanto num caso como noutro, ela é incapaz de fazer previsões rigorosas do tipo: no dia tal, às tantas horas, na esplanada do café tal, cairá uma mosca na bica do Senhor X; ou importantes do tipo: vai sair a lotaria do Natal ao senhor Y no ano Z; ou mais importantes ainda: se e quando a Virgem Maria aparecerá ao Senhor W. Enfim, as previsões da astrologia são triviais e imprecisas e, apesar disso, com frequência falsas. A astrologia não cumpre ainda um outro critério de avaliação das teorias segundo os padrões do pensamento crítico: não tem conteúdo explicativo. Isto significa que é incapaz de explicar como a suposta influência dos astros nas pessoas se efectua. Não há por isso qualquer razão para supor que a teoria fundamental da astrologia seja verdadeira. Passa-se algo semelhante com todas as outras formas de pseudoconhecimento, quer se trate do tarot, da ovnilogia ou da psicanálise.
Chamo a atenção para os perigos destas formas de pseudoconhecimento porque a sua popularidade constitui um obstáculo ao pensamento crítico e é cada vez mais frequente encontrar professores que acreditam em várias das suas encarnações. Se mantivessem estas crenças no domínio privado, não haveria tantas razões para preocupação. Mas todos sabemos como estes temas são entusiasmantes e como é grande a tentação de falar neles. Isto é, no entanto, muito pernicioso porque, deste modo, não só não ensinamos pensamento crítico ou os seus resultados, como ensinamos pseudoconhecimento como se se tratasse de conhecimento genuíno obtido por processos genuinamente críticos.
Álvaro Nunes in Filosofia e educação – Uma escola para o século XXI (Adaptado)

2

O que é a pseudociência

Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada em factos científicos, ou mesmo como tendo um elevado padrão de conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.
Motivações para a defesa ou promoção de uma pseudociência variam de um simples desconhecimento acerca da natureza da ciência ou do método científico a uma estratégia deliberada para obter benefícios financeiros, filosóficos ou de outra natureza. Algumas pessoas consideram algumas ou todas as formas de pseudociências como um entretenimento sem riscos. Outros, como Richard Dawkins, consideram todas as formas de pseudociência perigosas, independentemente destas resultarem ou não em danos imediatos para os seus seguidores.

Classificação das pseudociências

Tipicamente, as pseudociências falham ao não adoptar os critérios da ciência em geral (incluindo o método científico) e podem ser identificadas por uma combinação de uma destas características:
  • Ao aceitar verdades sem o suporte de uma evidência experimental;
  • Ao aceitar verdades que contradizem resultados experimentais estabelecidos;
  • Por deixar de fornecer uma possibilidade experimental de reproduzir os seus resultados;
  • Ao aceitar verdades que violam falsificabilidade;
  • Por violar a Razão de Occam (o princípio da escolha da explicação mais simples quando múltiplas explicações viáveis são possíveis); quanto pior for a escolha, maior será a possibilidade de errar.
Pseudociências são distinguíveis de revelações, teologias ou espiritualidade, pois dizem revelar a verdade do mundo físico por meios científicos (ou seja, muitas normalmente de acordo com o método científico). Sistemas de pensamento que se baseiam em pensamentos de origem "divina" ou "inspirados" não são considerados pseudociência se não afirmarem ser científicos ou não forem contra a ciência.

O problema da demarcação

Depois de mais de um século de diálogo activo, a questão do que marca as fronteiras da ciência permanece indefinida. Como consequência a definição do que constitui uma pseudociência continua a ser controversa. Há um consenso razoável em certos casos. O critério da demarcação está tradicionalmente ligado a uma filosofia da ciência ou a outra. O Positivismo lógico, por exemplo, expõe uma teoria do significado que estabelece que apenas as assertivas sobre observações empíricas são significativas, efectivamente definindo que assertivas que não são derivadas desta forma (incluindo todas as assertivas metafísicas) são sem significado. Mais tarde, Karl Popper atacou o positivismo lógico e introduziu o seu próprio critério de demarcação, falsificabilidade. Este, por sua vez, foi criticado por Thomas Kuhn, e ainda pelo seguidor de Popper, Imre Lakatos, que propôs o seu próprio critério de demarcação que distingue entre programas de pesquisa progressivos e degenerativos.

 3
A astrologia, enquanto não provar que é uma ciência, é uma exploração da ingenuidade humana
A característica fundamental da Ciência é a observação da natureza e a experimentação. Por outras palavras, ao observar um fenómeno, o cientista cria uma teoria para o explicar, faz previsões a partir da sua teoria e realiza experiências para verificar se as previsões estão correctas. Se a astrologia aspira a ser uma Ciência deve ser julgada pelos princípios científicos. Primeiro de todos: o ónus da prova cabe a quem faz as alegações. Ou seja, cabe aos astrólogos provar que a astrologia funciona. No entanto, os efeitos das posições dos planetas e da Lua em qualquer pessoa na Terra nunca foram demonstrados em qualquer estudo sistemático revisto. Seguem exemplos de alguns estudos:

O psicólogo Bernard Silverman, da Michigan State University, estudou o casamento de 2978 casais e o divórcio de 478 casais, comparando-os com as previsões de compatibilidade ou incompatibilidade dos horóscopos, e não encontrou qualquer correlação. Pessoas "incompatíveis" casam-se e divorciam-se com a mesma frequência que as "compatíveis" (Silverman, B. I., Studies of Astrology. The Journal of Psychology, 1971, 77, 141-149). O psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961), no seu livro A Interpretação da Natureza e da Psique, chegou à mesma conclusão.
O físico John McGervey, da Case Western University, estudou as biografias e datas de nascimento de 6000 políticos e 17000 cientistas e não encontrou qualquer correlação entre a data de nascimento e a profissão, prevista pela astrologia (Innumeracy, Paulos J.A.).
Um teste duplo-cego da astrologia foi proposto e executado pelo físico Shawn Carlson, do Lawrence Berkeley Laboratory, Universidade da Califórnia. Grupos de voluntários forneceram informações para que uma organização astrológica bem estabelecida produzisse um horóscopo completo da pessoa, que também preenchia um questionário de personalidade completo, preestabelecido de comum acordo com os astrólogos. A organização astrológica que calculava o horóscopo completo da pessoa, juntamente com 28 astrólogos profissionais que tinham aprovado o procedimento antecipadamente, seleccionavam entre 3 questionários de personalidade aquele que correspondia a um horóscopo calculado. Como havia 3 questionários e um horóscopo, a hipótese de acerto aleatório era de 1/3 = 33%. Os astrólogos tinham previsto antecipadamente que a taxa de acerto deveria ser maior do que 50%, mas, em 116 testes, a taxa de acerto foi de 34%, ou seja, a esperada para escolha ao acaso. Por outras palavras, os astrólogos não foram melhor do que qualquer pessoa que estivesse a adivinhar. Os resultados foram publicados no artigo «A Double Blind Test of Astrology», S. Carlson, 1985, Nature, Vol. 318, p. 419.
Os astrónomos Roger Culver e Philip Ianna, que publicaram o livro Astrology: True or False (1988, Prometheus Books), registaram as previsões publicadas de astrólogos bem conhecidos e organizações astrológicas por 5 anos. Das mais de 3000 previsões específicas, envolvendo muitos políticos, actores e outras pessoas famosas, somente 10% se concretizaram. Esta taxa de acerto é menor do que a de opiniões de especialistas no assunto.
Ainda assim, todos estes estudos são apenas exemplos isolados. Em 1988, foi publicado um artigo histórico na revista Experientia. Nele, o autor realizou uma extensa revisão dos artigos publicados sobre a astrologia e concluiu que "a astrologia é um grande e vacilante monumento à ingenuidade humana". (Experientia, Volume 44 (4), 15 Abr., 1988, pp. 290-297).
O Famoso Efeito Marte
Um estudo muito conhecido e comentado foi realizado por Michel Gauqelin, cuja educação formal é na área de estatística. Analisando a posição de Marte no momento do nascimento de grandes atletas, obteve uma correlação acima da esperada para uma distribuição ao acaso, que ficou conhecida como Efeito Marte. Muitos cépticos fizeram críticas ao experimento afirmando que houve manipulação de dados e erros de tratamento, o que não era verdade. Simplesmente ocorreu que o universo de atletas analisados por Gauqelin naquele estudo era, não intencionalmente, tendencioso.
Aqui existem três itens a serem analisados. Primeiro, no que diz respeito ao estudo de Gauqelin: um estudo isolado não prova nada até que as afirmações nele contidas sejam testadas por pesquisadores independentes e confirmadas. Até o presente momento, não existem provas científicas de que a astrologia seja uma Ciência, mas, se mecanismos e teorias forem propostos e exaustivamente testados com resultados independentes positivos, toda a comunidade científica aceitará a Astrologia como Ciência.

Segundo, correlação entre dois factos não significa que existe uma relação entre eles. Não basta uma correlação estatística, é necessário também que exista uma explicação de como um fenómeno está relacionado com outro. Terceiro, qualquer tipo de fé cega leva a atitudes não inteligentes. Muitas das críticas ao artigo de Gauqelin foram infundadas e baseadas em opiniões pessoais. Isto também não é ciência, é fundamentalismo. De qualquer modo, o que Gauqelin afirma sobre Marte e os atletas não é verdade, de acordo com um estudo feito por cientistas franceses. Em uma amostra de 1066 atletas franceses comparada com 85 280 outros nascimentos quanto a horas, datas de nascimento e localização de Marte nesse momento, não foi detectado o "Efeito Marte."
Esta diferença de resultados pode ser explicada por um fenómeno social simples. As datas de nascimento dos atletas analisados neste último estudo eram mais recentes, ao passo que a maioria das datas de nascimento analisadas por Gauqelin eram do fim do século XIX e início do século passado na Europa ocidental. Nesta época, a astrologia estava em baixa e os poucos resquícios resumiam-se a almanaques que publicavam dados sobre o nascer e pôr dos planetas, os quais estavam associados a profissões. Então seria bastante possível que as pessoas, principalmente de famílias eminentes, modificassem as datas e horas dos nascimentos para parecer, diante da sociedade, que os seus descendentes sofriam a influência correcta dos astros. Afinal, um grande comandante militar, por exemplo, gostaria que o seu filho fosse nascido sobre a influência de Plutão e seguisse a carreira militar, continuando, assim, a tradição da família. Geofrey Dean analisou novamente os dados de Gauqelin e encontrou elementos que mostram que as horas e dias de nascimentos podem ter sido manipulados pelos pais. Por exemplo, havia poucos nascimentos em dias considerados de mau agouro pelos almanaques, como nos dias 13, em dias de lua nova, etc. Além disso, certas horas também mal-agouradas, como meia-noite, são evitadas. Por outras palavras, existe uma componente social por trás do efeito Marte: as pessoas do fim do século XIX e início do XX tinham informação, motivo e oportunidade para inadvertidamente criar um aparente efeito planetário como o efeito Marte (Skeptical Inquirer, 26(3)). Michel Gauqelin, mesmo acreditando na astrologia, durante toda a vida se comportou como um verdadeiro cientista, realizando várias experiências e estudos sobre a astrologia e publicando todos os resultados, mesmo aqueles que iam contra as suas crenças pessoais. É uma fonte imensa de artigos que são usados tanto pelos astrocrentes como pelos descrentes. Graças aos trabalhos de Gauqelin, muitos astrólogos têm-se formado em cursos relacionados com as áreas de estatística e psicologia com o intuito de produzir trabalhos de qualidade que sejam aceites pela comunidade científica. Infelizmente, nenhum deles parece estar preocupado em propor um mecanismo que explique as estastísticas que eles produzem. Correlações estatísticas, conforme comentado, não são suficientes para provar a relação entre dois fenómenos.
Qual é o mecanismo da astrologia?
Não pode ser a gravidade ou outra força conhecida pela Ciência
Muitos apontam como evidência da influência dos astros sobre as pessoas o facto da gravidade do Sol e da Lua serem fortes o suficiente para causar a subida e descida das marés. Se a Lua pode afectar as marés, pode certamente afectar uma pessoa. Afinal, assim como os oceanos, nós somos constituídos por 70% de água e passamos 9 meses a flutuar em água salgada, o líquido amniótico. No entanto, estudos sobre a influência da Lua sobre as pessoas mostram o contrário.
Além disso, tanto a teorias gravitacionais de Newton e de Einstein quanto a teoria electromagnética de Maxwell comprovam que o efeito dos astros sobre as pessoas é complemente desprezível, isto é, muito menor do que o efeito dos outros corpos na própria Terra. O obstetra que realiza o parto de uma criança exerce uma atracção gravitacional sobre ela seis vezes maior do que o planeta Marte, pois, embora a massa de Marte seja muito maior do que a do obstetra, o planeta está muito mais distante.

Roger Culver e Philip Ianna, no seu livro sobre astrologia, Astrology: True or False (1988, Prometheus Books), fizeram vários cálculos mostrando que, para qualquer força, seja ela gravitacional ou magnética, os efeitos dos planetas são desprezíveis quando comparados àqueles exercidos por objectos e pessoas na própria Terra.
Um efeito desconhecido que não depende da distância
Alguns astrólogos afirmam que realmente não é nenhuma das forças conhecidas o mecanismo por trás da astrologia. As quatro forças conhecidas pela Ciência, gravidade, electromagnetismo, forças nuclear forte e nuclear fraca, descrevem o universo muito bem sem a necessidade de nenhuma outra força. Mas a astrologia alega existir uma "efeito astrológico" que só se manifesta no que diz respeito à vida das pessoas e que não depende da distância. O efeito dos planetas, como Marte, sobre os horóscopos é o mesmo quando Marte está do mesmo lado do Sol que a Terra e quando ele está do outro lado do Sol, cinco vezes mais distante. Se o efeito não depende da distância, por que não levar em conta o efeito das estrelas mais distantes, galáxias, quasares e buracos negros? Por que motivo se consideram apenas as estrelas visíveis a olho nu e os planetas? Existem bilhões de objectos estupendos em nosso universo que podem exercer a sua "força astrológica" sobre nós. Será que um horóscopo que não leva em consideração a influência de Rigel, o pulsar existente na nebulosa do Caranguejo ou o buraco negro no centro da Via Láctea está realmente completo? É interessante notar que outros objectos do nosso Sistema Solar como os asteróides são deixados de fora da análise astrológica individual.
Não é função da luminosidade do corpo celeste
A influência astrológica também não depende da visibilidade dos corpos celestes, pois, apesar de somente as estrelas visíveis serem consideradas, os planetas invisíveis a olho nu, Úrano, Neptuno e Plutão, são considerados nos actuais cálculos astrológicos.
O mito de que a lua cheia influencia o nosso comportamento
Ao longo da história da humanidade, a lua cheia sempre esteve relacionada com os desequilíbrios emocionais, com o comportamento violento e com a loucura. Não é por acaso que a lua cheia é a lua dos amantes apaixonados, dos serial killers, dos lobisomens e de diversas criaturas do folclore nacional. Acredita-se que, durante a lua cheia, aumentem o número de crimes violentos, de suicídios e de internamentos em hospícios. A lua cheia também está relacionada com a fertilidade e não é invulgar enfermeiras e médicos acreditarem que mais mulheres dão à luz na lua cheia. No campo, muitos agricultores consultam a Lua antes de plantar ou podar, assim como nos salões de beleza muita gente faz o mesmo na altura de cortar o cabelo. Mas será que estes mitos lunares resistem aos dados da ciência?
Não é de hoje que cientistas procuram correlações entre a lua cheia e o comportamento humano. No que diz respeito aos nascimentos durante a lua cheia, o físico brasileiro Fernando Lang da Silveira foi um dos que pôs o mito à prova, no trabalho intitulado "Marés, Fases da Lua e Bebés" (a versão final do trabalho, publicada no Caderno Brasileiro de Ensino de Física está aqui). Utilizando os dados de 93 000 estudantes inscritos nos concursos da UFRGS e comparando-os com as tabelas lunares do Observatório Nacional, Fernando Lang pôde constatar que não havia correlação entre o número de nascimentos e a fase da Lua. Em Espanha, um estudo semelhante foi conduzido pelo Hospital de Cruces, na cidade de Barakald, e também não foi detectado qualquer aumento no número de nascimentos durante a lua cheia. Mas o mais abrangente estudo sobre o assunto foi feito pelo astrónomo Daniel Caton, que em 2002 analisou mais de 70 milhões de registos de nascimentos ao longo dos últimos 20 anos. A sua conclusão foi inequívoca: não há qualquer relação entre a lua cheia e o número de partos.
Quanto aos suicídios, diversos estudos mostraram que não são mais comuns durante a lua cheia, como se pensa (confira aqui e aqui); pelo contrário: um estudo realizado pelo Instituto de Saúde Pública da Finlândia divulgado em 2000 mostrou que, em 1400 casos de suicídio ocorridos ao longo de um ano na Finlândia, uma quantidade significativamente maior ocorreu durante a lua nova, quando a luminosidade é menor.

Loucos não são chamados lunáticos por acaso. O mito de que a lua cheia provoca maior actividade nos hospícios é um dos mais populares entre os mitos lunares. Também é mais um a não encontrar apoio nos lúcidos dados estatísticos. O psicólogo canadiano Ivan W. Kelly e os seus colegas da Universidade de Saskatchewan investigaram em 1996 mais de 100 estudos relacionados ao efeito lunar e não encontraram nenhuma relação entre a lua cheia e algum comportamento que possa remotamente ser rotulado como lunático. Uma boa colecção destes estudos até à década de 80 pode ser encontrada no livro Astrology: True or False? - A Scientific Evaluation de Roger Culver e Philip Lanna.

E quanto aos animais, geralmente mais irracionais que os homens? Será que pelo menos eles não ficam um tanto mais insanos na lua cheia? Não, segundo os pesquisadores Simon Chapman e Stephen Morrell, da Universidade de Sidney. A pedido dos agricultores locais, que tinham como certo o facto de que os cães mordem mais pessoas na lua cheia, os dois decidiram examinar o mito e produziram o estudo: "Barking mad? Another lunatic hypothesis bites the dust". A conclusão é de que pelo menos os cães canadianos não mordem as pessoas mais frequentemente na Lua cheia do que em outras luas (pelo menos não o suficiente para as levar ao hospital). Este estudo vai ao encontro de outro que mostrou resultado oposto com cães ingleses, mas que foi criticado por não tratar separadamente os fins-de-semana e feriados, onde normalmente os atendimentos são maiores.
E já que estamos a falar de hospitais, outro estudo – "Effect of lunar cycle on temporal variation in cardiopulmonary arrest in seven emergency departments during 11 years" – publicado no European Journal of Emergency Medicine, desmonta o mito de que há mais atendimentos de emergência a pacientes cardíacos durante a lua cheia (embora tenha encontrado uma média de 6,5 % menos ressuscitações na lua nova).
Outro mito popular é o de que durante a lua cheia acontecem mais crimes, especialmente os violentos. Durante algum tempo, este mito gozou de alguma credibilidade científica, graças ao pesquisador Arnold L. Liber, da Universidade de Miami. Liber investigou 14 anos de ocorrências policiais no estado da Florida e disse ter encontrado maior actividade criminal durante a lua cheia. Este estudo até hoje é amplamente citado, especialmente pelos esotéricos, que vêem nele a prova das suas crenças, porém nenhum outro pesquisador conseguiu chegar aos mesmos resultados de Liber. O astrónomo George Abell, da Universidade da Califórnia, por exemplo, ao analisar os mesmos dados, realmente constatou que o número de crimes aumenta nos períodos de maior calor e nos feriados, mas não encontrou qualquer relação desse fenómeno com a fase da lua. Já em Espanha, o estudo "Moon cycles and violent behaviours: myth or fact?", publicado no European Journal of Emergency Medicine, analisou 1100 casos de vítimas de agressão atendidos durante um ano no hospital universitário La Candelaria, em Tenerife, e não encontrou nenhuma relação entre os atendimentos e a fase da Lua. Nenhuma relação também foi encontrada por Alex Pokorny e Joseph Jachimczyk, da Escola de Medicina Baylor de Houston, que nos anos 70 analisaram 2500 homicídios ocorridos no Texas, durante catorze anos ("Astrology: True or False? - A Scientific Evaluation" de Roger Culver e Philip Lanna).
Já no campo, muitos agricultores acreditam que as colheitas são mais abundantes se as sementes forem plantadas nas fases certas da Lua. Mas não é só isso: em muitas regiões, os fazendeiros também consultam a Lua antes de podar plantas, colher maçãs, fertilizar o solo, cortar madeira, castrar animais, desmamar crianças, cozer bolos e mesmo lançar as fundações de uma construção. A crença nos efeitos da Lua vai além das meras tradições populares transmitidas de pai para filho; nos EUA, o "Almanaque do Agricultor" oficializa o mito e ensina, entre outras coisas, que o dia 21 de Maio é perfeito para limpar o mato, visto que a vegetação crescerá mais lentamente. O grupo Australian Skeptics foi um dos poucos a ter posto este mito à prova. Ao plantarem sementes em luas "boas" e "más", os pesquisadores não encontraram nenhuma diferença significativa no tempo de germinação ou no peso dos vegetais colhidos.
Do crescimento da vegetação ao crescimento do cabelo basta um passo para imaginação popular. Claro que já ouviu falar que cortar o cabelo de acordo com a lua pode fazê-lo crescer mais depressa ou com mais volume. O site longhairlovers.com, por exemplo, ensina: "para o cabelo crescer com mais volume corte-o quando a lua estiver cheia na casa de Touro, Caranguejo ou Leão", e por aí fora. No Rio Grande do Sul, a empresa Pilomax embalou a superstição em um produto comercial e vende desde 1968 o Calendário Lunar Pilomax, mais um revolucionário tratamento que promete resolver o problema da queda de cabelos (um cliente satisfeito do sistema diz que usa o produto há vários anos e que funciona: os pêlos das suas costas, nariz e ouvidos cresceram bastante desde que começou o tratamento, mas não tanto os da cabeça, que continua careca; certamente, pensa ele, porque não levou em conta o seu ascendente). Nem todos os cabeleireiros se deixam levar por este mito; os profissionais mais sérios colocam-no na mesma categoria de outras superstições populares conhecidas por "hair-voodoo" (do tipo: "usar boné provoca queda de cabelo". O dermatologista Valcinir Bedin, presidente da Sociedade Brasileira para Estudos do Cabelo, assegura que a Lua não influi na maneira e na velocidade com que o cabelo cresce e que, independentemente da fase lunar, a média de crescimento mensal do cabelo é de 1 centímetro.
De onde vêm os mitos lunares?
Praticamente todos os mitos relacionados com a Lua vêm de uma falácia, ou seja, de uma associação lógica que parece verdadeira, mas não é. Toda a gente sabe que a Lua afecta as marés; ora, se o nosso corpo é constituído na sua maior parte por água, não poderia também ser influenciado pela Lua, manifestando uma espécie de "maré corporal"? Esta ideia parece tão lógica que já rendeu um livro inteiro: "How the Moon Affects You" de Arnold L. Liber, publicado pela primeira vez em 1978 com o nome "The Lunar Effect". (Neste livro, entre outras coisas, Liber previu um grande terramoto na Califórnia, em 1982, provocado pelo alinhamento dos planetas que ocorreu naquele ano. O terramoto não aconteceu, mas, como isso não é coisa que costume desanimar os futurólogos, Liber renovou a previsão na nova edição de seu livro, desta vez sem marcar a data). Parece lógico, mas não é. O problema é que a influência da Lua nas marés é gravitacional (e não magnética, como espalham alguns sites esotéricos que andam por aí) e a força gravitacional é uma força muito, muito pequena (é a mais fraca das forças físicas conhecidas). Sendo tão pequena, a força gravitacional só se torna perceptível quando estão envolvidas massas muito, muito grandes, como, por exemplo, as massas da Lua e dos oceanos da Terra (esclarecendo: esta é proporcional às massas dos corpos e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles). É por isso que, assim como o leitor será incapaz de perceber marés num copo de água, também o nosso corpo não sentirá qualquer influência perceptível da Lua. De facto, um mosquito pousado no seu cabelo exerce mais força sobre ele do que a distante Lua, independentemente da fase.
Eis um outro problema para a teoria das tais marés corporais: como a força gravitacional depende da distância e como a distância entre a Lua e a Terra praticamente não se altera (a órbita da Lua é muito pouco elíptica), as marés não são provocadas pela fase da Lua. Sim, as marés são mais fortes na lua cheia e na lua nova, mas somente porque nestes períodos a Lua e o Sol estão alinhados e a força gravitacional dos dois exercida sobre os oceanos se soma. Assim, se alguém aceitar a teoria das marés corporais, terá de reeditar todos os mitos lunares e incluir a lua nova entre eles.
Finalmente, o mito de que os ciclos menstruais são regidos pelos ciclos lunares envolve um mero problemazinho de aproximação. O ciclo menstrual médio é de 28 dias (e isso porque apenas 30% das mulheres têm períodos que diferem de menos de dois dias da média), enquanto o ciclo lunar é de imutáveis 29,53 dias. A diferença de 1 dia e meio não perturbou os nossos antepassados, que colocaram mesmo na raiz da palavra menstruação a palavra grega para Lua (menus). Em todo o caso, aqueles que vêem algo de espectacular no facto de, entre todos os mamíferos, apenas a mulher apresentar um ciclo de ovulação mais ou menos parecido com o lunar está  a negligenciar a pequenina cuíca, um marsupial semelhante ao gambá, nativo das Américas. A cuíca (opossum) também tem um ciclo de aproximadamente 28 dias. É de se imaginar o misterioso desígnio que reservaria unicamente às mulheres e cuícas um ciclo de ovulação quase igual ao lunar...

TEXTO 4
            Esclarecimentos terminológicos: factos, leis, teorias ou hipóteses
Se olharmos as ciências enquanto discurso, isto é, como algo já constituído, verificamos que ele se organiza com:
l. Enunciados factuais, ou seja, com descrições de factos;
2. Enunciados de leis, que, em regra, têm a forma de enunciados universais e destinam-se a relacionar, segundo processos que tendem a matematizar-se, os enunciados factuais;
3. Teorias, tamm por vezes designadas simplesmente leis, porque, no fundo, são leis de nível superior: não se aplicam directamente aos factos, mas a conjuntos de leis. (Alguns au­tores usam o termo teoria tanto para designar as leis como as teorias.)
Temos a tentação de reduzir a evolução da ciência a uma marcha gradual dos factos às leis e das leis às teorias. Os esclarecimentos que se seguem devem, porém, conduzir à ideia de que estes três elementos estão presentes desde o início, se sustentam e evoluem em relação recíproca.
Na base desta perspectiva está a ideia, hoje quase consensual, de que a ciência, desde os seus estádios mais elementares, se apoia em hipóteses. Mesmo ao nível dos factos, como veremos, a sua descrição exige uma linguagem que contém hipóteses, conjecturas sobre a sua natureza e explicações possíveis.


FACTOS E ENUNCIADOS FACTUAIS

O termo facto designa ou denota coisas ou acontecimentos localizados no espaço e no tempo.
Os enunciados factuais serão os enunciados que descrevem factos.
A ciência pretende conhecer factos, mas só contém, claro, os enunciados que os descrevem.
Assim, partindo de factos como pessoas a trabalhar o ouro ou da panela de água a ferver, chega­mos a enunciar:
"O ouro é maleável"; "A água ferve a 100 °C."

A relação entre factos e enunciados factuais

Não considerar a diferença entre os factos e os enunciados factuais é, em regra, sintoma de certas suposições, mais ou menos ligadas entre si, que conm explicitar:
1.  Em primeiro lugar a crença de que a relação entre ambos é pacífica. Os factos são auto-evi­dentes; e as suas descrições, se não houver anomalia, são espelhos exactos do facto.

2.  A linguagem que descreve o facto é teoricamente neutra, isto é, está livre de noções "sujectivas", de "hipóteses" ou "teorias" onde o erro se poderia introduzir.

3.  Como os enunciados factuais estão estritamente ancorados na realidade, sendo descritivos e não interpretativos, estão isentos de erro, estão, por tudo isso, na base da certeza e da au­toridade da ciência.
Estas suposições têm sido alvo de críticas severas. Vamos desenvolver a que se baseia na crí­tica da distinção entre aquilo que é observacional (imposto pelos factos) e aquilo que é explicativo ou trico (acrescentado pelo sujeito).
Termos observacionais e termos teóricos
Na base das suposições descritas acima está uma rígida distinção entre os termos observacionais e os termos tricos.
Os termos observacionais seriam palavras ou expressões que apenas descrevem objectos di­rectamente observáveis e tal como o observados, "em bruto".
Como são apenas descritivos, estão isentos de qualquer conjectura ou teoria, verdadeira ou falsa, que pretenda explicar ou estabelecer relações entre as entidades descritas e outros observá­veis ou não observáveis. Uma linguagem factual, puramente descritiva, seria totalmente objectiva e neutra em relação a suposições teóricas.
Exemplos de termos "observacionais": "verde", "água", "adocicado", sólido", "maior do que".
Os termos teóricos, por outro lado, são os termos necesrios para relacionar e explicar os factos e que não teriam correspondente, pelo menos imediato, nas observações. Eles resultariam da aplicação das teorias, verdadeiras ou falsas, aos factos descritos na linguagem puramente des­critiva. Os termos tricos, segundo esta distinção, pertencem a uma linguagem ou um nível de linguagem já comprometido com interpretações.
Exemplos de termos "teóricos": "subconsciente", "reflexo Condicionado", "força da gravi­dade", "energia potencial", "causa", "grupo social".

A diferença entre observacional e teórico
De facto, pode-se mostrar que todos os termos "descritivos" ou observacionais" são tricos.
Podemos mostrar que aplicar "termos observacionais" é, afinal, avançar conjecturas ou inferências sobre as relações dos objectos denotados por esses termos com outros objectos e em diferentes circunstâncias.
Analisemos o seguinte epidio:
Adão: - Dá-me um exemplo de enunciado descritivo, sem hipóteses ou interpretações. Eva: - Este: "Aquilo é um copo de água".
Adão: - Então bebe-a.
(Eva leva o copo à boca).
Eva: - Ufff! É bagaço!
Adão: - Vês? Enunciaste, de facto, uma conjectura. A prova é que erraste.

  Este exemplo revela:
1. Dado o conteúdo da observação, Eva inferiu que se tratava de um certo líquido, bebível por ela e outros seres vivos, que apaga chamas, etc. O acto (beber descontraidamente) decorre se­gundo essa hipótese. Continuamente realizamos tais inferências: quando andamos, supomos que o passeio não é um buraco disfarçado; quando estamos confiantes de que aquele caminho leva a casa, supomos que não existe uma desconhecida lei da natureza que a qualquer momento muda a localização da casa... O facto de sermos bem sucedidos nesse tipo de conjecturas não nos autoriza a sustentar que existem enunciados infalíveis, porque apenas descrevem e não interpretam a reali­dade. O sucesso revela apenas que algumas "teorias" ou "hipóteses" foram bem sucedidas.
2. Reflectindo sobre o exemplo, verificamos que o uso dos termos "observacionais" depende ainda de um pano de fundo de teorias, de verdadeiras "leis da natureza" que, por serem triviais, normalmente não explicitamos.
Regressando ao exemplo de Eva, podemos verificar que a segurança com que realizou o teste foi dada por uma variedade de hipóteses auxiliares, de "leis da natureza" que não foram explicita­das. Indiquemos duas:
- a suposição de que diferentes substâncias têm gostos diferentes (uma hipótese química bas­tante útil no dia-a-dia, mas que pode revelar-se fatal com cogumelos ... );
- a suposição de que, mesmo que exista um líquido diferente da água e com o mesmo gosto, é, no entanto, pouco provável que ele se encontre naquele copo (uma hipótese sociológica que derivou do conhecimento de Eva sobre as pessoas que podiam envolver o facto e da aplicação de algumas regras gerais sobre a conduta das pessoas).
Concluir que os termos ditos "observacionais" também são teóricos, isto é, contêm já suposi­ções, verdadeiras ou falsas, sobre a natureza e explicação dos factos descritos, não anula o inte­resse da distinção – que passa apenas a ser relativa, de grau. Podemos dizer que "água" é mais observacional do que "potável" – dizendo com isso que o uso do primeiro termo é menos falível, envolve menos suposições.
Na ciência, os enunciados factuais podem envolver, por exemplo, complexas teorias da me­dida, mas são chamados factuais, na medida em que são a base de uma investigação que não vai questionar essas teorias da medida, mas sim teorias de nível superior. Tais investigações terão, muitas vezes, um efeito de retorno levando mesmo a alterações drásticas das suposições do obser­vador e, portanto, à alteração da linguagem "descritiva" e das teorias nela implicadas.

LEIS
O uso intuitivo do termo lei não levanta muitas dificuldades. Somos capazes de reconhecer uma lei nos nossos manuais, sabemos reconhecer os tipos de dados que requerem a aplicação de determinada lei e sabemos aplicar as fórmulas que as traduzem.
No entanto, podemos descobrir vários significados e aspectos das leis, cujo estatuto nem sem­pre é pacífico.
Assim, falamos de "leis" enquanto estruturas reais, relações constantes e objectivas, isto é, que existem independentemente de serem conhecidas ou não. É nesse sentido que falamos de "leis do mercado" ou de "leis do movimento".
Do ponto de vista lógico, "Lei" designa um enunciado universal que estabelece, entre certos tipos de dados ou enunciados factuais, relações invariantes que tendem a apresentar-se matemati­camente. Não somos obrigados a considerar que só é lei um enunciado matematizado. A afirma­ção "todo o que dá recebe" tem a forma lógica de uma lei (ainda que falsa).
As leis têm também um significado operacional, isto é, servem de regras para operações que devemos realizar para a obtenção de certos efeitos. As leis da microfísica, por exemplo, tendem a apresentar este carácter explicitamente, enunciando-se na forma: "Se fizermos a e b, obtemos o re­sultado x no instrumento k".
"Lei" toma, por vezes, o significado que se costuma atribuir a teoria. Neste caso, designa os enunciados mais gerais do corpo científico e que não se destinam a aplicação directa aos factos, mas sim a conjuntos de leis. São simultaneamente explicações de leis e guia para a criação de no­vas leis. (A caracterização e as funções das teorias será desenvolvida no item 1.3.)
Por vezes, também se designam por "Leis" certos princípios mais gerais que, não sendo cientí­ficos, orientam o trabalho científico (frutuosamente ou não). Por exemplo: "A natureza age pelas vias mais simples" - é um princípio cuja discussão não pertence à ciência, mas que, por exem­plo, orienta o cientista para a busca de leis mais simples que as já detectadas. A estes princípios dá-se o nome de hipóteses heurísticas.

ALGUNS PROBLEMAS RELATIVOS AO SIGNIFICADO DAS LEIS
Supomos que as leis existem objectivamente como estruturas permanentes da realidade, mas só as conhecemos mediante enunciados de leis que se sucedem numa relação muitas vezes crítica. Ora, se não estamos de posse de leis definitivas, permanentes, como podemos dizer que elas exis­tem na realidade?
Uma saída consiste em invocar certezas ou evidências extracientíficas (por exemplo: "Mas é óbvio que existem!").
Outra saída é afirmar, com o realismo, que as leis objectivas são uma suposição filosófica ou meta científica (ou hipóteses heurísticas) e pensar que sucessivos enunciados de lei são sucessivas aproximações a essas leis objectivas.
Exemplo:
- Suposição filosófica e/ou heurística: Existem leis objectivas do movimento mecânico.
- Aproximações mediante sucessivos enunciados das leis do movimento:
        Lei de Aristóteles: "Força = resistência x Velocidade";
Lei de Newton: "Força = massa x aceleração";
Lei de Einstein: "Força = velocidade variação do impulso";
Lei de Ehrenfest: "A força média é igual ao valor médio da velocidade da variação do im­pulso";
Lei de Broglie - Bohm: "A força exterior mais a força quântica é a velocidade de variação do impulso oculto ";
Lei que se segue: ...
Muitos cientistas e estudiosos, de tendência fenomenalista, recusam este esquema negando a primeira suposição. Segundo o fenomenalismo, as leis apenas traduzem certas regularidades dos dados da experiência. Se factos posteriores invalidarem a lei, a conclusão do fenomenalista é esta:
"Até ao momento, os factos deixaram-se descrever desta maneira e as nossas previsões eram bem sucedidas, agora descrevemo-los de outra. Se isso se devia ao acaso ou a uma lei da própria na­tureza, não sabemos."
O operacionalismo tende a reduzir as leis (e todas as noções científicas) a simples regras de operações. A definição de circunferência, por exemplo, deveria ler-se: "Se dispomos um contínuo de pontos, todos à mesma distância de um só, obtemos um objecto a que chamamos circunferên­cia." O operacionalismo pretende evitar toda a discussão sobre a existência ou não de leis objecti­vas.
Teorias ou hipóteses
Colecções de factos ou de leis não fazem uma ciência: esses materiais devem aparecer relacio­nados e explicados a partir de teorias ou hipóteses. Estas, nas ciências já desenvolvidas, apresen­tam-se como enunciados universais, dos quais os conjuntos de leis que formam uma disciplina científica se derivam ou tendem a derivar dedutivamente.
Alguns estudiosos distinguem "teoria" de "hipótese", reservando para o primeiro termo aque­las hipóteses que já receberam apoio experimental convincente, enquanto as hipóteses seriam ten­tativas de explicação ainda não suficientemente comprovadas. Outros usam indistintamente um e outro termo, baseando-se no facto de que uma teoria nunca está definitivamente comprovada ­factos novos podem vir a refutá-la.
Dada a sua generalidade, as teorias tendem a aparecer com os nomes dos seus autores ou com os nomes dos campos ou sectores da realidade cujas leis unificam: assim, falamos da física newtoniana ou da física de Einstein, da economia keynesiana ou da economia liberal, das teorias darwinianas ou das teorias lamarckistas da evolução, da psicologia condutista ou da psicologia freu­diana.
As teorias, na sua forma mais rudimentar ou já mais concretizadas (como as referidas acima), dominam todas as etapas da prática científica:
• São conjecturas sobre a solução de problemas e orientam a pesquisa em direcção a essa solu­ção (ou em direcção a outra conjectura).

   • Restringem a amplitude dos factos a serem estudados, definem os principais aspectos da in­vestigação, os tipos de dados a obter dos factos e as operações a realizar.
Tomando-se como exemplo uma bola de futebol, verificamos que ela pode ser estudada do ponto de vista económico: segundo padrões de oferta e de procura; do ponto de vista químico: pelo exame das substâncias que a constituem; do ponto de vista físico: volume, peso, pressão, resis­tência; do ponto de vista social: jogo, comunicação, formação e interacção de grupos, etc.
Com uma teoria "fixista" das espécies animais, procuramos espécimes de animais e respectiva classificação segundo ordens, géneros, espécies, etc. Com a teoria de Darwin, afirmando que as espécies animais têm uma história, somos levados à busca dos elos da história dos espéci­mes assim classificados - pesquisa que uma teoria "fixista" não desencadearia.
• Reorganizam profundamente os conhecimentos já adquiridos propondo explicações ou sínte­ses alternativas.
Dado que de premissas muito diferentes se podem derivar as mesmas conclusões, sucede que, por vezes, de teorias ou leis, digamos, de um nível de generalidade superior, se podem deduzir as mesmas leis ou conjuntos de leis de nível de generalidade inferior. Tal tem o efeito de mu­dar drasticamente a explicação destas últimas e, portanto, dos factos que relacionam. Por exemplo: a verdade da lei "com temperatura constante o produto da pressão pelo volume dum gás é constante" pode ser igualmente explicada pela teoria dos gases como fluidos constantes ou pela teoria, alternativa, dos gases como aglomerados de partículas. (De facto, a verdade da lei pode ser estabelecida experimentalmente sem se considerar uma ou outra teoria.)
1
«Instintiva e involuntariamente, o nosso pensamento forja uma observação completando, nas suas partes e consequências, o facto observado. O caçador encontra uma pena e a sua imaginação faz-lhe ver a imagem completa da ave, do gaio que a perdeu. Uma corrente marí­tima traz plantas exóticas, cadáveres de animais, madeiras esculpidas, e Colombo entrevê o país longínquo, ainda desconhecido, de onde vieram esses objectos. Os animais podem fazer algo de análogo de forma rudimentar. O gato que persegue a sua imagem por detrás do espelho, também fez, instintiva e inconscientemente, uma hipótese sobre a materialidade dessa imagem e procura verificá-la. Mas para ele o processo termina aí, enquanto que, num caso análogo, o homem se espanta e reflecte.

De facto, a formação de hipóteses científicas não é senão um aperfeiçoamento do pensa­mento instintivo, do qual podemos encontrar todos os momentos intermédios. ( ... ) Quanto mais as observações são novas e inusitadas, mais as conjecturas são, também elas, estranhas e, no entanto, elas devem ser retiradas do domínio da experiência: um trovão e a queda de um meteorito despertam a ideia de um Titã que lançou essa pedra. (...)
As ideias científicas religam-se imediatamente às opiniões populares, das quais não se distinguem no início, e a partir das quais se desenvolvem pouco a pouco. Por razões fisiológi­cas, o céu parece-nos como uma bola com um raio determinado, que não é infinito - é a ideia popular e é ela primeira ideia científica. (.)
Completando provisoriamente um facto, podemos estender rapidamente a sua experiên­cia. (...) Aquele que vai atrás do espelho em busca da imagem sem a encontrar aprende a co­nhecer um objecto visível de uma nova espécie, a imagem virtual, à qual falta a materiali­dade, mas que supõe a existência de outros objectos materiais. Quando completamos um facto pelo pensamento, fazemos uma experiência mental que exige ser controlada pela experiência física.
Se examinamos mais de perto a hipótese científica, vemos, em primeiro lugar; que tudo o que não pode ser imediatamente estabelecido pela observação, pode ser completado mental­mente por uma hipótese. Nós podemos admitir a existência de partes de um facto que não foi observado. (. .. ) Podemos fazer suposições sobre as consequências de um facto que não ocor­rem imediatamente ou que não podemos observar directamente. A forma das leis que se rela­cionam com um facto é, com frequência, hipotética (...), mas essas hipóteses ligam-se às con­dições de um facto que elas tornam compreensível. Chamamos hipótese a uma explicação provisória que tem a finalidade de fazer compreender mais facilmente os factos, mas que es­capa ainda à prova pelos factos. Essa provisoriedade pode ter uma duração das mais variá­veis. Pode não demorar mais do que um instante, como para a imagem de um espelho, pode durar séculos como para a hipótese (...) do sistema de Ptolomeu. O sentido psicológico e ló­gico da hipótese não foi modificado. Newton foi levado a pensar que as massas exercem umas sobre as outras uma acção à distância, análoga à acção da Terra sobre os corpos que caem à sua superfície, e que essa acção é inversamente proporcional ao quadrado da distância. Ele mostra pela análise [matemática} que essas suposições permitem representar realmente os movimentos do sistema solar e os movimentos terrestres (...). Ele usa as imagens para tornar os seus pensamentos mais intuitivos, mas não lhes atribui um valor particular (...), partículas dotadas de propriedades análogas aos magnetos não são, para ele, mais do que uma qual­quer imagem intuitiva, que poderíamos substituir por uma outra. (...)
O papel essencial de uma hipótese é o de nos levar a fazer novas observações e novas pesquisas, que possam confirmar a nossa conjectura, a contradizê-la e a modificá-Ia, numa palavra, a estender a nossa experiência. Priestley, na sua história da óptica, emitiu já sobre este ponto ideias muito justas: "As ideias muito imperfeitas e as conclusões desses sábios ofe­recem-nos um espectáculo divertido e instrutivo. Ele mostra que não é preciso, de modo al­gum, ter a priori ideias exactas e uma hipótese verdadeira para fazer reais descobertas. As teorias, mesmo as mais imperfeitas, são suficientes para sugerir experiências que vão corrigir as suas imperfeições e dão origem a teorias mais perfeitas. Estas levam a outras expe­riências, que nos aproximam mais da verdade, e, nesse método, de aproximação, nós devemos considerar-nos felizes, se fizermos pouco a pouco reais progressos.

Ernst Mach, O Conhecimento e o Erro (Traduzido e adaptado)

O texto de Mach é bastante claro, mas a referência a Newton e à lei da atracção exige um es­clarecimento. É habitual dizer-se que não observamos a força da gravidade, mas apenas os seus efeitos (a queda de uma caneta, o movimento da Lua...). Este modo de expressão não é aceitável para Mach. Este considera que, se uma teoria refere entidades não observáveis, estas são meras imagens que nos ajudam a pensar, isto é, a deduzir factos de outros factos – não nos deve con­vencer de que tais entidades não observáveis existem.
2
«O universo de uma lei é limitado, abrangendo apenas uma classe limitada de fenómenos.
Exemplos: a lei da queda livre dos corpos, de Galileu; as leis de Kepler, referentes às trajec­tórias dos planetas em torno do Sol (...).
Por sua vez, uma teoria é mais ampla do que a lei. Se a lei declara a existência de um pa­drão estável nas coisas e acontecimentos, a teoria assinala o mecanismo responsável por esse padrão. Exemplo: a teoria da gravitação de Newton é muito mais ampla e abrangente do que as leis de Kepler, indicando que as trajectórias dos planetas também são influenciadas pelos outros planetas e não só pelo Sol; a teoria de Newton também explica a lei de Galileu, ao postular uma força gravítica que especifica um modo de funcionamento.
Assim, se as leis geralmente expressam enunciados de uma classe isolada de factos ou fe­nómenos, as teorias caracterizam-se pela possibilidade de estruturar as regularidades num sistema cada vez mais amplo e coerente (…).
As teorias proporcionam a derivação, tanto de consequências como de efeitos e, assim, possibilitam a previsão da existência ou do comportamento de outros fenómenos.»

Eva Lakatos, Metodologia Científica (Traduzido e adaptado)



TEXTO 5
HAVERÁ CONTINUIDADE ENTRE CONHECIMENTO VULGAR E CIÊNCIA?

«Há um limite preciso entre Ciência e senso comum. É aquilo a que Gaston Bachelard (1884-1962) chamou 'corte epistemológico'. Ciência e senso comum são esferas cognitivas diferentes, embora se possam referir à mesma realidade. A Ciência acres­centa critério metodológico, rigor e maior capacidade preditiva ao conhecimento vul­gar, ainda que este, de modo trivial e assistemático, também descubra factos, formule explicações e desenvolva teorias.
Mattalo Júnior dá-nos uma excelente definição de senso comum: '[...] é um conjunto de informações não-sistematizadas que aprendemos por processos for­mais, informais e, às vezes, inconscientes, e que inclui um conjunto de valorações. Essas informações são, no mais das vezes, fragmentárias e podem incluir factos históricos verdadeiros, doutrinas religiosas, lendas ou partes delas, princípios ideoló­gicos, às vezes contraditórios, informações científicas popularizadas pelos meios de comunicação de massa, bem como a experiência pessoal acumulada. Quando emitimos opiniões, lançamos mão desse conjunto de coisas da maneira que nos parece mais apropriada para justificar e tornar os argumentos aceitáveis.'
O senso comum julga-se dono de verdades eternas. Não tendo o refinamento da Ciência, guarda as suas 'verdades' com zelo e recusa-se a aceitar as teorias científicas que as contradigam. Assim é que o heliocentrismo teve de esperar cer­ca de dois séculos para se integrar na cultura geral, enquanto a teoria da evolução ainda está muito longe de ser consensualmente aceite.
O senso comum acredita que diferentes pessoas, vendo o mesmo fenómeno, vêem sempre a mesma coisa. Isso é um puro equívoco; há figuras de cubos, pirâ­mides, escadas, rostos, etc. que examinadas, até pela mesma pessoa, podem mostrar-se, depois de alguns segundos, diferentes da forma como se mostravam a princípio. Quando duas pessoas olham uma dessas figuras, pode acontecer que, num mesmo momento, uma esteja a ver algo bem diferente do que a outra vê. A expressão 'eu vi com os meus próprios olhos' não oferece garantia alguma de que seja verdade o que se diz.
A Ciência não é o senso comum aprofundado, refinado ou 'educado'. Ele criou as teorias da Terra plana, da Terra centro estático do Universo, dos seres vivos criados instantaneamente e imutáveis desde então, do Homem sem ligações de origem com os demais seres vivos, etc. A Ciência mudou tudo isso, apesar de tudo isto estar alicerçado em 'dados'. Estes não mudaram; mudou a sua interpretação. Se as coisas fossem como parecem ser, não seria preciso a Ciência para tirar, do que está escondido, a interpretação correcta dos factos.
O conhecimento vulgar não gera o conhecimento científico. O cientista pode, através do primeiro, descobrir algo a pesquisar e, aí sim, fazer ciência. Ele realiza, então, um 'corte epistemológico', deixando de lado o que Bachelard chamou 'obs­táculo epistemológico'. Porque o conhecimento vulgar é superficial e ingénuo.»

Newton Freire Maia, A Ciência por Dentro, Ed. Vozes, pp. 20-21 (Adaptado).

TEXTO 6
EXPLICAÇÃO E COMPREENSÃO



A explicação

EXPLICAR é responder à pergunta "Porquê?" Explica-se um fenómeno ou acontecimento quando des­cobrimos a sua causa1. Há, contudo, diversas formas de responder à pergunta "Porquê?" uma vez que esta contém significados distintos. Assim sendo, podemos falar de diferentes tipos de explicação.
A EXPLICAÇÃO NOMOLÓGICO-DEDUTIVA
Consideremos o seguinte exemplo:
Pegamos num fio e atamos um dos extremos ao tecto e à outra extremidade do fio atamos um determi­nado peso. Pouco depois o fio rompe-se. Porquê? A explicação que um cientista nos dará será esta:
A — Todo o fio (e todos os corpos físicos) pode suportar sem ruptura uma tracção — neste caso um peso — de determinado valor. Se a força de tracção que um fio pode suportar ultrapassa um dado valor, o fio rompe-se.
B — Um fio grosso e feito de material resistente pode suportar sem se romper uma tracção de valor F (sem a quantificar, denominamo-la tracção de valor F). Se a força de tracção ultrapassa esse valor, o fio rompe-se.
C — O fio que ataste ao tecto e que suporta na extremidade inferior um peso é grosso e de material resistente.
O peso atado ao fio tem uma força de tracção superior a F. Logo, o fio que ataste ao tecto rompeu-se.
A este tipo de explicação dá Hempel o nome de explicação "nomológico-dedutiva". E a explica­ção científica em sentido estrito.
Designa-se nomológico-dedutiva porque o facto que é explicado (o fio atado ao tecto rompeu-se) é esclarecido mediante um argumento que tem a forma dedutiva e que se baseia em duas premissas A e B constituídas por proposições universais. Como estas proposições universais são leis científicas ("nomos" significa lei) e a conclusão exposta em C decorre ou se deduz logicamente das premissas A e B, compreende-se que Hempel tenha dado a esta forma de explicação o nome de nomológico-dedutiva2. Em suma, o modelo tipicamente científico de explicação é o modelo legal-dedutivo. Dedutivo porque o explanandum (a proposição que enuncia um facto e que se quer explicar) é consequência lógica do explanans (proposições universais que utilizamos para explicar a proposição singular — "o fio rompeu--se"). Legal porque inclui leis que explicam determinados acontecimentos.
Entendida a explicação neste sentido estrito, explicar equivale a prever. Com efeito, se é possível determinar a que se deve um determinado fenómeno, será possível afirmar que esse fenómeno se repetirá se se repetirem as mesmas circunstâncias. Assim, se determinámos que o fio se rompeu porque não pôde suportar um peso superior a F, será possível determinar que esse fio ou outro com a mesma estrutura se romperá se lhe atarmos um peso superior a F.
1Actualmente discute-se se o conceito de "causa" poderá abranger os conceitos de "função", "lei", "condição", "correlação" e outros, com que a ciência relaciona os dados ou fenómenos e que dificilmente se deixam reduzir ao uso corrente do conceito de causa.
2O exemplo dado visava simplesmente esclarecer, tornar explícito, que um facto é explicado quando o derivamos de uma ou de várias leis gerais, constituindo então um caso particular de "cumprimento" dessas leis. Normalmente, as explicações que encontra­mos são muito mais breves.

A EXPLICAÇÃO PROBABILÍSTICA
Uma explicação é probabilística se fizer um emprego essencial de pelo menos uma lei ou princípio teó­rico de carácter estatístico ou probabilístico.
Porque é que Cássio conspirou para a morte de César?
Porque Cássio alimentava um ódio inato aos tiranos. (Plutarco)
Essa explicação é insuficiente. São necessárias outras suposições gerais, por exemplo, acerca da maneira como se manifesta o ódio em determinada cultura entre pessoas de certo estrato social. De uma forma mais explícita: na Roma antiga, a frequência relativa (ou probabilidade) de um indivíduo pertencente às camadas superiores da sociedade e possuído por um grande ódio à tirania tramar a morte de homens que estão em situação de adquirir um poder tirânico era eleva­da. Cássio estava nessa situação e César era um tirano potencial. Ainda que destas premissas não se deduza que Cássio tramou a morte de César, torna provável que o tenha feito.
Uma discussão importante tem sido travada em torno das explicações probabilísticas: o uso das proba­bilidades deve-se ao conhecimento incompleto dos dados em questão — de tal modo que, se o nosso conhecimento dos factos fosse mais completo, as conclusões seriam exactas? Ou o uso das probabilidades deve-se ao próprio modo como os fenómenos são em si mesmos? Ou seja: a realidade é probabilista?
A EXPLICAÇÃO TELEOLÓGICA OU FINALISTA
As explicações finalistas são respostas a perguntas da forma "para quê 'p'?" ou a perguntas "porque é que 'p'?" interpretadas como "para quê...?". Por exemplo: a uma pergunta da forma "Porque é que temos olhos?", pode, em muitas circunstâncias (por exemplo, a uma criança), responder-se satisfatoriamente: "para ver" — não exigindo qualquer referência à história das espécies, ao código genético, etc.
Exemplo:
Porque é que, nos anos 70, o xá do Irão anulou o seu casamento?
Segundo a voz corrente, a anulação deveu-se ao facto de a soberana não ter dado ao xá os filhos que este pretendia — daí a necessidade de um segundo casamento e a consequente anulação do primeiro.
As explicações finalistas ou teleológicas (do grego telos, "fim") são usadas sobretudo nas ciências sociais e na biologia. Mas são muito discutidas: o sentido das críticas às explicações teleológicas pode apreender-se com a expressão: "As aves não têm asas para voar, voam porque têm asas." De facto, com uma explicação teleológica, corremos pelo menos dois riscos:
1.   O risco de confundir a causa com o efeito.
2.   O risco de atribuir propósitos às coisas, de as pensar como se fossem artefactos feitos de acordo com as intenções humanas.


A distinção entre explicação (entendida no seu sentido estrito: reduzir os fenómenos às suas causas ou leis, de modo que cada acontecimento seja considerado expressão particular de uma lei geral) e com­preensão (forma de dar razão dos actos e instituições dos homens recorrendo às representações, crenças e intenções que lhes dão sentido) continua a ser objecto de amplo debate na actualidade. Eis algumas consi­derações de carácter geral a esse respeito:
«l Alguns autores sustentam que esta distinção não é suficiente para reclamar um método distin­to para ciências do comportamento humano. Não há, defendem, mais do que um método cientí­fico e uma forma de explicação: estabelecer leis gerais que liguem entre si fenómenos observá­veis e aplicar tais leis aos casos particulares.
2 Outros autores exigem uma dualidade de métodos. A compreensão, para eles, exige procedi­mentos que são alheios ao método em uso nas ciências naturais, também ditas experimentais. O método próprio das ciências humanas denomina-se método hermenêutico. Este método é um procedimento destinado a obter a compreensão dos actos e factos humanos. A interpretação de acções, instituições, documentos, etc. é, nesta perspectiva, o que nos permite compreendê-los. Os pensadores de orientação hermenêutica salientaram que a compreensão se dá sempre a par­tir de uma determinada perspectiva e num dado contexto: compreendemos as outras culturas a partir da nossa própria tradição cultural, os acontecimentos, textos, instituições do passado a partir da nossa cultura presente. A esta situação deu-se o nome de círculo hermenêutico: a compreensão (plena) efectua-se a partir de uma certa pré-compreensão que nos é dada pelo nosso próprio contexto cultural. Por isso, a compreensão baseia-se sempre na interpretação.
Note-se que actualmente é, contudo, difícil manter uma distinção demasiado radical entre ciências naturais e ciências humanas. Uma separação absoluta entre compreensão (procedimento essencialmente sintético e intuitivo) e explicação (procedimento analítico e discursivo) já não é admissível. A explicação permite compreender e a compreensão reclama frequentemente novas explicações. Por isso, há quem prefira falar de um só procedimento: a explicação compreensiva.»
[T. Calvo Martinez e J. M. Navarro Cordón, Filosofia, Anaya, p. 92]
A compreensão
 O exemplo seguinte dá uma primeira aproximação à ideia de "compreensão":
Adão: — Por que é que não apareceste ontem?
Eva: — Eu bem queria vir, mas os meus pais têm passado um mau bocado com a doença dos avós e ontem precisavam de mim para os apoiar a desanuviar o ambiente. Depois, com as contrariedades do meu pai no trabalho, era má altura para o contrariar dizendo que ia chegar mais tarde... Espero que compreendas...
O argumento de Eva também apresenta "causas" da acção, mas não é esse o seu principal objectivo. Ela apela à compreensão, isto é, a que Adão seja capaz, por analogia com situações semelhantes, de viver o estado de espírito criado nas circunstâncias descritas e, então, perceber a inevitabilidade da falta ao encontro. Eva não espera ser tratada como objecto, ou seja, não quer que as causas apresentadas expli­quem a sua conduta, como a pancada do taco explica a trajectória da bola de bilhar. Espera a aprovação do modo como, dadas as circunstâncias, fez uso da autonomia ou capacidade de decisão que ela tem e a bola não.
O processo de "compreensão" é, sem dúvida, importante no dia-a-dia e na comunicação entre os homens. A ideia de lhe dar um importante estatuto nas investigações teóricas, por oposição à ideia de "explicação", foi vigorosamente defendida por Dilthey e continua actuante, ainda que, claro, seja discuti­da ou modificada.
O lema de Dilthey
Explicamos a natureza, compreendemos o espírito.
levou-o a opor totalmente as ciências da natureza, cujo objectivo é explicar, às ciências do espírito (a que hoje chamaríamos ciências humanas), cujo objectivo é compreender, isto é, estabelecer um estado de identificação ou "empatia" entre o sujeito da reflexão e os sujeitos que são alvo da compreensão.
As características que opõem a "compreensão" à "explicação"
1 — A explicação é redutora.
As ciências da natureza relacionam dois seres — o sujeito e o objecto — sem qualquer afinidade ou parentesco: o sujeito reconhece em si uma interioridade e autonomia, das quais o objecto é totalmente desprovido. A explicação, nesta perspectiva, consiste em, mediante leis, reduzir o objecto às suas causas. Os fenómenos ou acontecimentos são vistos como "mais um caso" de certas leis gerais e como derivando destas quase mecanicamente. O objecto é o alvo passivo desta redução.
2 — A compreensão impede a redução dos sujeitos a objectos.
A "compreensão" assume que não lida com objectos, mas sim com "sujeitos" (ou que o seu "objecto" são os sujeitos). Assim, o objectivo da "compreensão" é atingir a identificação com os processos espiri­tuais de outrem — para atingir o seu conhecimento, não como "objecto", mas, precisamente, como sujeito, não como alvo passivo de causas naturais, mas de centro de decisões.
O investigador procurará (re)viver a experiência de outrem do ponto de vista de outrem. O fio condu­tor será a analogia com os processos interiores que descobre em si e, mediante aproximações sucessivas, atribui a outrem. Enquanto a explicação é exterior e objectiva, a "compreensão" é um processo interior, que não pode deixar de envolver a subjectividade. A objectividade da "compreensão" residirá no grau de comunicação atingido, isto é, no grau de reconstituição do universo de outrem de que foi capaz.
A compreensão e as ciências humanas
A distinção entre compreensão e explicação é, no plano das ciências humanas, retomada, com maiores ou menores modificações, por aqueles que sustentam não serem as "explicações objectivas" suficientes, como nas ciências da natureza, para darem conta do seu objecto. Na base desta tese está a premissa segundo a qual os fenómenos sociais apresentam um aspecto essencialmente "subjectivo" impregnado de "significações" e "valorações" que escapariam à análise meramente objectiva.
O investigador deve, portanto, interpretar os materiais do seu estudo, identificando-se, pela sua ima­ginação, com os actores dos processos sociais considerando as situações que os próprios actores enfren­tam e construindo "modelos de motivações" nos quais se atribuem a esses agentes humanos certas raízes psicológicas da acção e certos compromissos entre valores.
O historiador Salvemini apresenta, com simplicidade, o lugar da analogia "compreensiva" no seu tra­balho:
"Recusamos a teoria segundo a qual o movimento intelectual do século XVIII foi a única causa da Revolução Francesa porque sabemos que neste tumulto participaram grandes massas de campo­neses e operários, massas analfabetas que careciam de qualquer conhecimento das doutrinas filosó­ficas ou políticas; e, por analogia com a nossa própria experiência pessoal, sustentamos que se fôs­semos analfabetos e ignorantes e tivéssemos de nos rebelar contra a sociedade na qual vivemos, as causas das nossas actividades revolucionárias deveriam ser imputadas, não a impulsos ideológicos, mas sim a outras causas, por exemplo, aos nossos males económicos.
Por outro lado, sustentamos que entre as causas da Revolução Francesa devem contar-se as doutrinas filosóficas e políticas elaboradas em França no meio século anterior à Revolução, porque temos observado que as classes cultas continuamente invocam tais doutrinas enquanto destroem algum regime; e, novamente, a analogia com a nossa experiência pessoal nos conduz a pensar que nenhum de nós professaria publicamente doutrinas filosóficas e políticas que não fizessem real­mente parte das nossas crenças. Todos os raciocínios do historiador e do cientista social podem ser reduzidos a este denominador comum da analogia com a nossa experiência interna, enquanto o cientista [das ciências naturais] não tem a ajuda desta analogia.»
Caetano Salvemini, The Historians and the Scientists, Cambridge, 1979, p. 71 (Adaptado)
                          3.Leis, Hipóteses e teorias
A finalidade do método hipotético-dedutivo é o estabelecimento de leis e teorias que expliquem os fenómenos. O que é uma lei científica? Que relação existe entre hipóteses e leis?
«Uma lei científica é uma hipótese de uma determinada espécie, a saber: uma hipótese confirmada. Uma hipótese é científica (uma fórmula fundamentada e contrastável) se estiverem reu­nidas as seguintes condições: a) a hipótese tem de ser geral e com algum alcance, b) tem de ser empiricamente confirmada de modo satisfatório em algum domínio.»
Mário Bunge, A Investigação Científica (Adaptado)
Distinguem-se dois tipos de leis: as leis determi­nistas e as leis estatísticas.
Leis deterministas — Se na fase da experimen­tação analisarmos as variações dos fenómenos, na generalização que conduz à formação da lei, esta­belecemos relações constantes, isto é, enunciamos o que é constante e uniforme na relação entre determinados fenómenos.
Ex.: Sempre que a temperatura de um gás aumentar, mantida a mesma pressão, o seu volume aumentará.
Isto quer dizer que estamos, ao exprimir a relação constante e necessária entre os fenóme­nos, a antecipar (a prever) o seu comportamento futuro: com efeito, o que a lei indicada enuncia é o seguinte: se aumentarmos a temperatura do gás, o seu volume aumentará e não poderá deixar de aumentar.
Leis que enunciam que um fenómeno é rigo­rosa e necessariamente condicionado pelos que o antecedem baseiam-se numa concepção deter­minista da natureza. São leis deterministas. Aplicavam-se sobretudo no campo da macrofísica e da física clássica. Consideradas leis objecti­vas, permanentes, viram-se questionadas com o surgimento da microfísica e com a aceitação do princípio do indeterminismo de Heisenberg (enuncia que o observador modifica o observa­do).
Leis estatísticas — São leis que enunciam acerca do comportamento dos fenómenos, o que prova­velmente sucederá, mas não podem fazer previsõ­es acerca do que se passará num caso concreto. Têm como suposto uma concepção do mundo em que o acaso está presente. Caso se fizessem pre­visões acerca de casos concretos e se revelassem falsas, isso não significaria que a lei geral fosse falsa, mas que seria necessário ampliar o campo de observação e de experimentação, para poder conhecer todas as circunstâncias.

4.As teorias científicas
Com grupos de leis1 que se referem a um certo tipo de fenómenos, forma-se um conjunto de leis integrado que explica a totalidade desses fenómenos. A tal sistema dá-se o nome de teoria científica.
A primeira grande teoria de que se tem notícia na moderna ciência é a da gravitação universal de Newton, que engloba as leis planetárias de Kepler e a lei da queda dos corpos de Galileu. A importân­cia da teoria já se nota nesse exemplo, pois Newton reúne leis referentes a domínios distintos numa só explicação. Daí o carácter coordenador da teoria.
l Por vezes também se designam por "Leis" certos princípios mais gerais que, não sendo científicos, orientam o trabalho cientí­fico (frutuosamente ou não). Por exemplo: "A natureza age pelas vias mais simples" — é um princípio cuja discussão não per­tence à ciência, mas que, por exemplo, orienta o cientista para a busca de leis mais simples que as já detectadas. A estes princípi­os dá-se o nome de hipóteses heurísticas.
Além disso, a teoria da gravitação universal permite calcular a massa do Sol e dos planetas, expli­car as marés etc., o que mostra o seu poder heurístico (de descoberta). Portanto, a teoria não só coordena o saber adquirido, articulando leis isoladas, mas é fecunda, possibilitando novas investiga­ções.
Outro exemplo é o da teoria cinética dos gases: a finalidade dessa teoria é explicar o comporta­mento dos gases sob várias condições. Antes de a teoria ser formulada, várias generalizações sobre o comportamento dos gases já tinham sido propostas e confirmadas. Viu-se então que essas generaliza­ções poderiam ser logicamente relacionadas e que as regularidades nelas expressas eram passíveis de explicação, caso se admitisse que um gás é realmente um aglomerado de partículas minúsculas e colidentes deslocando-se a altas velocidades em linhas rectas. Com base nesses pressupostos, somados às leis do movimento de Newton, foram deduzidas certas generalizações conhecidas acerca do comporta­mento dos gases, incluindo as leis de Boyle e de Charles, que descrevem como os gases reagem a vá­rias temperaturas e pressões. Mas os cientistas fizeram também diversas deduções sobre algumas pro­priedades até então insuspeitadas dos gases, como viscosidade, difusão e condução de calor. Portanto, como todas as boas teorias, a teoria cinética não só organizou e explicou um certo número de leis conhecidas como também produziu novas generalizações testáveis.
Consideremos ainda outro exemplo: o da teoria da luz. Newton admite a emissão corpuscular da luz, enquanto Fresnel, no século XIX, desenvolve a teoria ondulatória. Que teoria é a verdadeira? Com esta pergunta, colocamos mal o problema. A teoria corpuscular explica fenómenos como a refracção e a reflexão da luz, enquanto a teoria ondulatória explica fenómenos de interferência de ondas.
Outro exemplo: a teoria da relatividade de Einstein teria superado a teoria newtoniana da gravita­ção universal? Ora, Einstein não só parte de pressupostos diferentes daqueles utilizados por Newton, como também chega a conclusões diferentes. Isso não significa que a teoria newtoniana se tenha torna­do ultrapassada, mas que é preciso reconhecer os seus limites, já que a sua aplicação se encontra restri­ta a determinado sector da realidade. Ou seja, quando se trata do microcosmo (interior do átomo) ou do macrocosmo (universo), a teoria newtoniana mostra-se insuficiente, havendo necessidade de recorrer à teoria da relatividade.
Maria Lúcia Aranha e Maria Helena Martins, Filosofando, Editora Moderna, S. Paulo, p. 158 (Adaptado)

TEXTO 7
O CONHECIMENTO E O SENSO COMUM

«Muitas crenças quotidianas sobreviveram a séculos de expe­riência, o que contrasta com o período de vida relativamente curto a que estão frequentemente destinadas as conclusões avançadas em vários ramos da ciência moderna. Uma das razões para este facto merece atenção. Consideremos um exemplo de uma crença do senso comum, como a de que a água solidifica quando é suficiente­mente arrefecida. [...]
Devido [à] linguagem comum, o controlo experimental das crenças do senso comum é frequentemente difícil, já que não pode traçar-se facilmente a distinção entre os dados da observação que as confirmam e os que as refutam. Deste modo, a crença de que, «em geral», a água solidifica quando é suficientemente arrefecida pode corresponder às necessidades das pessoas cujo interesse pelo fenó­meno do arrefecimento está circunscrito ao seu interesse em atingir os objectivos habituais da sua vida quotidiana, apesar de a lingua­gem utilizada na codificação desta crença ser vaga e carecer de especificidade. Essas pessoas podem, por isso, não ver qualquer razão para modificar a sua crença, mesmo que reconheçam que a água do oceano não congela, embora a sua temperatura seja sensi­velmente a mesma do que a água de um poço quando começa a solidificar, ou que alguns líquidos têm de ser arrefecidos a um grau maior do que outros para mudarem para o estado sólido. Se forem pressionadas para justificar a sua crença perante estes factos, essas pessoas podem talvez excluir arbitrariamente os oceanos da classe de coisas a que dão o nome de água ou, como alternativa, podem exprimir uma confiança renovada na sua crença, defendendo que, seja qual for o grau de arrefecimento que possa ser necessário, os líquidos classificados como água acabam por solidificar quando são arrefecidos.»
Ernst Nagel, A Estrutura da Ciência (Traduzido e adaptado)

TEXTO 8
O cientista não estuda a realidade tal como ela se oferece à observação imediata

«A natureza sobre a qual opera é uma natureza que ele de antemão remodelou, recons­truiu, simplificando, idealizando. Tomemos um exemplo simples […]: quando num curso de física se estuda a queda livre dos corpos, utiliza-se um plano inclinado, uma bola de aço, uma goteira e cinco cronómetros. Notemos, primeiro, que nada disto existe na natureza! Mas o mais surpreendente é, sem dúvida, que para pôr em evidência uma lei relativa à queda dos corpos nos servimos de um plano inclinado sobre o qual o "bom senso" nos diz que a bola desliza ou rola e não que ela cai. Dito de outra maneira, o facto científico observado (deslocação da bola sobre um plano inclinado) é completamente distinto de todos os acontecimentos possíveis na natu­reza a que a percepção imediata dá o nome de queda. O sábio […] fabrica com todas as peças um único facto capaz de pôr em evidência a lei: seria pelo menos difícil lá chegar a partir de enunciados protocolares tais como "a neve cai", "cai chuva", "caem as folhas mortas no Outono", etc.
A construção do facto científico é, pois, manifesta: supõe sempre uma intenção, uma escolha, quase sempre o recurso a instrumentos feitos por medida.»

M. C. Baliholy, J. P. Despin, G. Grandpierre, La science (Traduzido e adaptado)
TEXTO 9
A realidade científica não é a realidade espontânea e passivamente obser­vada.
À diversidade empírica a ciência substitui a unificação racional. Para a quí­mica, os corpos infinitamente diversos reduzem-se a uma centena de corpos simples, susceptíveis de se combinar de diversas formas.
A realidade científica não é, pois, a realidade espontânea e passivamente obser­vada. É uma realidade construída. O facto tem significação científica quando é transposto de forma a comunicar-nos características objectivas, mensuráveis. A construção científica do facto consiste geralmente em imaginar uma série de artifícios técnicos para transpor a observação no campo visual e espacial. Por exemplo, a sensação muscular de peso, subjectiva e imprecisa, é substituída pela apreciação visual da posição da agulha da balança. A força é medida pelo alongamento comunicado a uma mola.
( .. .) A temperatura torna-se um facto científico quando já não é sentida sobre a pele mas lida sobre o termómetro. Mesmo a partir de um exemplo simples, pode apreciar-se toda a distância que separa o "vivido" imediato do "conhecido" cien­tífico: a impressão "vivida" da temperatura depende dos receptores térmicos à superfície do nosso corpo. Mas estes fazem parte de um organismo que é ele pró­prio fonte de calor. A impressão de temperatura depende não do meio com o qual o nosso corpo está em contacto, mas também do nosso próprio corpo. O uso de um instrumento, posto que tão elementar como um banal termóme­tro centígrado, introduz-nos já num mundo científico. Então a relação comple­xa entre os meus receptores térmicos, o meu organismo e o meio - da qual resulta a impressão vivida de temperatura - é substituída por uma medida fun­dada em relações muito mais simples entre um objecto e o meio: apreciar uma temperatura é medir a dilatação de uma coluna de mercúrio numa escala gra­duada.
Ao mundo percebido a ciência substitui um mundo construí do. E esta constru­ção é ao mesmo tempo conceptual e técnica. Ela vai das técnicas operatórias mais abstractas do matemático até às manipulações materiais do experimentador. Quanto mais a ciência progride, mais o facto científico se afasta do facto bruto, quer dizer. do facto tal qual se à percepção vulgar A ciência, na sua necessidade de realização, como no seu princípio, opõe-se absolutamente à opinião. Se lhe acontece, num aspecto particular, legitimar a opinião, é por outras razões que não aquelas que fundamentam a opinião; de tal maneira que a opinião nunca tem direito a qualquer razão. A opinião pensa mal; ela não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Designando os objec­tos pela sua utilidade, ela impede que os possamos conhecer. Nada se pode fundar sobre a opinião: é necessário primeiro destruí-Ia. Ela é o primeiro obstá­culo a superar. Não bastará, por exemplo, rectificá-Ia em pontos particulares, mantendo, como uma espécie de moral provisória, um conhecimento vulgar provisório. O espírito científico impede-nos de ter uma opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular clara­mente. Antes de mais, é preciso saber pôr problemas. Na vida científica, diga-se:) que se disser, os problemas não se põem a si mesmos. É precisa­mente esse sentido do problema que assinala o verdadeiro espírito científico. Para um espírito científico, todo o conhecimento é resposta a uma questão. Se não houver questão, não pode haver conhecimento científico. Nada surge por si. Nada é dado. Tudo é construído.
Eis agora a tese filosófica que vamos sustentar: o espírito científico deve formar­-se contra a Natureza, contra o que é, em nós e fora de nós, o impulso e a ins­trução da Natureza, contra a aprendizagem natural, contra o facto colorido e diverso. O espírito científico deve formar-se reformando-se. Ele não pode ins­truir-se perante a Natureza senão purificando as substâncias naturais e orde­nando os fenómenos desordenados.
Gaston Bachelard, A formação do espírito cientifico



Sem comentários:

Enviar um comentário