quarta-feira, 30 de março de 2011

A ESTÉTICA KANTIANA


A ESTÉTICA DE KANT



Podemos viver experiências estéticas ao contemplar uma paisagem ou um objecto natural, ao ler um poema ou um romance, ao ouvir uma peça musical, ao observar um quadro, uma escultura ou uma obra de arquitectura, ao assistir a um filme, a um concerto, a uma representação teatral ou a um bailado, etc. Muitas são as ocasiões que podem estar na origem de uma vivência estética, mas esta não é uma experiência vulgar. Com efeito, envolve prazer e satisfação, mas não se trata de prazer ou de satisfação meramente sensoriais.
Comecemos por caracterizá-la de uma forma ainda vaga: a experiência estética é uma vivência emocional que resulta da contemplação de determinados objectos sensíveis e provoca uma satisfação muito peculiar.
Os objectos sensíveis capazes de suscitar experiências estéticas – e que por isso recebem o nome de objectos estéticos – são de dois tipos:
1 – Objectos artísticos – são criações humanas, objectos artificiais, que, produzidos pela actividade do artista, são capazes de despertar emoções e sentimentos que os avaliem como belos, horríveis ou sublimes. Exemplos: uma pintura, uma sinfonia, uma peça teatral.
2 – Objectos naturais – são produtos da natureza e não criações humanas; descobrimo-los e são capazes de despertar emoções e sentimentos que os avaliem como belos, horríveis ou sublimes.
Assim quer a natureza quer a arte podem proporcionar prazer estético.
Na experiência estética dá-se assim a relação entre um sujeito que observa e contempla e um objecto – natural ou artístico – sobre o qual se projecta essa atitude contemplativa. Ora, é precisamente na atitude do observador que reside o segredo, o carácter especial da experiência estética. Quer isto dizer que só há prazer ou satisfação estéticos se nos relacionarmos com os objectos naturais ou artísticos de uma determinada forma, se os observarmos e apreciarmos de um certo modo. Só uma determinada atitude torna possível o prazer característico da experiência estética. Essa atitude tem o nome de atitude estética e, analisando-a, iremos esclarecer quais as características próprias da experiência estética, lançando luz sobre conceitos como contemplação e prazer estético.

1. A Atitude Estética


A experiência estética, com o prazer que a acompanha, só é possível se na relação com os objectos adoptarmos uma atitude desinteressada. Em que consiste esta atitude? Consiste numa relação que não se interessa pela utilidade do objecto observado, não o transforma em meio ao serviço de um fim. Na atitude estética, apreciamos o objecto por si mesmo afastando quaisquer considerações relativas ao proveito que nós ou alguém teríamos em possuí-lo, aos valores morais que promove ou não, e pondo “fora de circuito” a vontade de ampliar conhecimentos.

Como se vê, a caracterização da atitude estética faz-se essencialmente pela negativa, ou seja, sabemos o que é a atitude própria de quem tem uma experiência estética indicando as atitudes que a impedem ou lhe retiram intensidade.

Trataremos agora de aprofundar o que foi sublinhado: a atitude estética — a forma estética de relação com os objectos naturais e artísticos.

a) Não é uma atitude prática ou utilitária.
A atitude estética é alheia a qualquer consideração sobre a utilidade do objecto, não é determinada pelo desejo de posse, ou pelo eventual valor monetário ou comercial do objecto contemplado. A contemplação é, no caso da atitude estética, um fim em si mesma. A atitude utilitária impede que nos “aproximemos” de forma pura e desinteressada das produções artísticas e naturais, prende-nos aos nossos interesses e inclinações materiais ou sensíveis, isto é, não permite uma satisfação livre.

Podemos dar como exemplo o caso do agente imobiliário que, quando observa as paisagens do Gerês, não consegue evitar pensar no seu valor monetário, no excelente negócio que seria construir um aldeamento naquele local ou o caso de uma pessoa que, num museu, imagina o que seria ter um determinado quadro em sua casa, se ele combinaria com os móveis e tapeçarias da sala. Comprar uma pintura ou uma escultura considerando esse acto como um investimento com o qual se pretende obter benefício económico e social é também uma negação da atitude estética ou pelo menos um obstáculo à fruição das obras artísticas em todo o seu esplendor.

b) Não é uma atitude cognitiva (de conhecimento).
A relação com os objectos naturais e artísticos na contemplação estética não é motivada primordialmente pela vontade de adquirir e de ampliar conhecimentos.

Imaginemos que estudantes de História de Arte visitam vários monumentos e se revelam capazes de identificar os vários estilos arquitectónicos, as características de cada um e as diferentes épocas a que pertencem. Nada há de negativo neste comportamento porque o conhecimento permite desfrutar com mais prazer a contemplação das obras artísticas (é importante educar o gosto e neste sentido o conhecimento artístico é um auxiliar muito valioso de uma atitude — a estética — que não é em si mesma cognitiva). Contudo, se contemplam esses monumentos para consolidar conhecimentos adquiridos ou para os pôr à prova, não podemos dizer que a sua atitude seja estética. Se gostamos de arte mas predominam objectivos profissionais e sociais na nossa relação com as obras de arte corremos o risco de nos afastarmos da forma de contemplação pura e desinteressada que caracteriza a atitude estética.

Pode-se também dizer que o biólogo que estuda um bosque de árvores milenares para verificar o estado da sua flora manifesta uma atitude cognitiva e não estética, tal como o antropólogo que estuda a arquitectura e a cerâmica de uma comunidade para conhecer os seus costumes.

c) Não é uma atitude subordinada, em si mesma, a princípios e objectivos morais.
Se uma pessoa sente prazer na contemplação de um dado objecto estético (filme, poema, romance, conto…) somente por lhe reconhecer valor moral, a sua atitude não é estética. A nossa atitude só terá forma estética se dermos atenção ao objecto contemplado por si mesmo e não à relação do objecto com os nossos conceitos e princípios morais.


PARA PENSAR
1 – Qual a condição que torna possível a experiência estética?
2 – Que diferenças pensas existirem entre as obras de arte e as “obras” da natureza?
3 – Poderemos considerar semelhante a emoção estética provocada pela observação de um quadro (pintura) e de uma paisagem natural?
4 – O que significa dizer que a atitude estética não é condicionada nem por interesses teóricos nem por interesses práticos?
5 – Se gostas de ouvir uma canção ou uma melodia porque te recorda os tempos da infância ou uma relação amorosa, estás a ter uma experiência estética?
6 – Uma comida apetitosa e um banho reconfortante são experiências agradáveis. Serão por isso experiências estéticas?


Em suma, a atitude estética é desinteressada, não porque seja indiferente ou passiva, mas porque na contemplação do objecto o sujeito se comporta como se ele não tivesse qualquer utilidade. A contemplação do objecto não tem qualquer finalidade situada fora de si própria. Por isso, a atitude estética é puramente contemplativa, isto é, livre de qualquer forma interessada de relação com objectos naturais ou artísticos. O prazer estético é uma satisfação puramente desinteressada em que nos distanciamos, ao contemplar o objecto, de interesses, desejos e de convicções morais e ideológicas.

2.  O Juízo Estético


A experiência estética, possibilitada pela atitude anteriormente descrita, envolve uma avaliação do objecto estético, mais precisamente da relação com ele estabelecida. Tal avaliação traduz-se num juízo (este enuncia o que o objecto vale — se é belo ou feio, horrível ou sublime).
O que é, em termos gerais, um juízo? É uma proposição que atribui uma determinada qualidade a um objecto: “Este cavalo é rápido”. Ao acto mediante o qual formulamos esta proposição dá-se o nome de acto de julgar e à proposição formulada o nome de juízo.
O que é um juízo estético? Um acto mediante o qual formulamos uma proposição que atribui determinada qualidade estética (beleza, sublimidade, fealdade) a um objecto: “Este palácio é belo”.
Parece simples, mas temos de aprofundar a noção de juízo estético. Ao fazê-lo iremos reencontrar características fundamentais da experiência estética porque tal juízo exprime, na medida do possível, o que se passa nessa experiência. Seguiremos de perto a reflexão que Immanuel Kant efectuou sobre o tema.
Quando eu digo que algo é belo estou a transmitir uma satisfação, um sentimento de prazer que acontece na contemplação de um objecto. À primeira vista, ao atribuir a esse objecto o predicado “belo”, parece que estou a referir-me à beleza como propriedade que “está” nesse objecto. Contudo, segundo Kant, dizer que algo é belo é traduzir um sentimento, é expressar algo que acontece em mim. A beleza é um sentimento de prazer, algo que se dá na consciência do sujeito e não algo que seja propriedade do objecto.
A beleza não é uma coisa nem uma propriedade das coisas. É um sentimento que é vivido no interior do sujeito e do qual este tem consciência.
Como se traduz esse sentimento? Dizendo de uma forma não muito correcta que o objecto contemplado é belo.


O Juízo Estético não se refere nem ao Agradável nem ao Bom


Como exprime o que se passa na experiência estética, o juízo estético comunica uma satisfação desinteressada e pura. O juízo estético ou de gosto implica que o objecto julgado belo cause satisfação independentemente de qualquer desejo, interesse ou utilidade.
Para Kant, julgar que um dado objecto é belo é muito diferente de dizer que ele é agradável ou moralmente valioso (bom).
O agradável é algo que desperta os nossos apetites e desejos: é desejável por ser a promessa de um eventual prazer sensorial. O agradável está ligado ao nosso corpo, quer às suas necessidades quer aos seus desejos. É por ser desejável ou apetecível que uma coisa é agradável.

PARA PENSAR
1 – Por que razão é o juízo estético aparentemente objectivo?
2 – Imaginemos um importante palácio construído unicamente com materiais preciosos e à custa de imenso trabalho de escravos.
a) Se disser que o palácio é magnífico pelo conforto que oferece aos seus habitantes e pela sua boa exposição ao Sol, estarei a formular um juízo estético?

b) Se disser que o palácio é belo, mas é uma inadmissível ostentação de luxo num meio em que reina a miséria, estarei realmente a formular um juízo estético?
c) Para Kant é logicamente possível um juízo como este: «Esta obra é bela, mas não me agrada»?
d) E quanto a um juízo como «Esta obra agrada-me, mas não é bela», qual seria a posição de Kant?


O bom ou moralmente valioso está também ligado à faculdade de desejar, embora a satisfação decorrente da sua eventual realização seja, não sensível, mas racional. O que julgamos moralmente valioso (uma acção, uma decisão) é avaliado como tal porque está em conformidade com determinados valores morais, isto é, com o que deveria ser sempre feito e muitas vezes não o é.
O juízo estético exprime, em palavras e conceitos, uma satisfação puramente contemplativa: tenho prazer na observação do objecto sem que tal prazer esteja condicionado por um desejo de posse ou de consumo ou pela sua ligação ao que julgamos moralmente válido.
Segundo Kant, para julgarmos a qualidade estética de um objecto devemos contemplá-lo abstraindo-nos da consideração da sua possível utilidade e também da sua moralidade.

PARA PENSAR
1 – Que relação existe entre experiência estética, atitude estética e juízo estético?
2 – Segundo Kant ao dizer «Isto é belo» quero dizer que todas as pessoas estão de acordo com o meu juízo ou que todas deveriam estar de acordo com ele?


O Problema da Universalidade do Juízo Estético


Expressão de um sentimento de prazer (puro e desinteressado), o juízo estético é subjectivo. Significa isso que, segundo Kant, o juízo estético não tem validade universal, que vale para mim, mas não vale para os outros?
Kant não admite que juízos como “Este quadro é belo” ou “Esta tempestade sobre o mar é sublime” sejam meras opiniões pessoais. No seu entender, quando atribuímos beleza a um dado objecto, estamos convictos de que assim deve ser também para os outros sujeitos. O que torna legítima esta pretensão? O que me dá direito a julgar assim não só em meu nome como também em nome dos outros?
Se digo que um certo objecto é belo, implicitamente afirmo que ele é, de direito, belo para todos. Como o meu juízo não se baseia em inclinações ou interesses (por mais elevados que sejam) que me são peculiares (unicamente meus) posso julgar-me no direito de que os outros reconheçam também a beleza do objecto, isto é, experimentem o tipo de satisfação que eu sinto. Nesse sentido, o juízo estético é subjectivamente universal. Livre de qualquer interesse ou particularismo do sujeito que julga e sem demonstrar aos outros que o objecto é belo, o juízo estético tem direito à validade universal.
Embora não possamos demonstrar por que razão algo é belo (como diz Kant, o belo é o que satisfaz universalmente sem conceito), não podemos resignar-nos a aceitar que as nossas avaliações sobre a beleza sejam meros gostos pessoais como, por exemplo, gostar de futebol ou de arroz de tamboril. Há uma exigência de universalidade do nosso juízo. Esta exigência fundamenta-se na existência ideal de um sentido do gosto comum a todos os seres humanos, que permitiria avaliar os objectos estéticos da mesma forma. O sentido do gosto asseguraria a universalidade dos juízos estéticos, o consenso em questões de gosto: tais juízos não seriam o fruto de opiniões arbitrárias.
«Ao afirmar que o belo satisfaz universalmente, Kant não quer dizer que de facto todos dizemos que são belas as mesmas coisas, mas sim que só chamamos belo ao que consideramos ter direito e mérito suficiente em si mesmo para ser reconhecido como tal por toda a gente, ao passo que tal exigência de universalidade não se verifica a respeito de outros tipos de gosto: seria de uma ridícula falsa modéstia dar a entender que algo é belo só para mim».

Fernando Savater, Las Preguntas de la Vida, Ariel, p. 224

Rever

A Experiência Estética

1 – A experiência estética é uma vivência que pode acontecer na relação com certos objectos — naturais e artísticos — e exige como sua condição de possibilidade uma atitude adequada.

2 – A atitude que torna possível a experiência estética é a atitude estética, uma relação pura e desinteressada — contemplativa — com o objecto.

3 – Esta atitude, alheia a interesses de tipo prático (utilitário), cognitivo e moral, torna o prazer que envolve a experiência estética um sentimento puro e desinteressado que não se pode confundir como o simples gozo sensível (a vivência estética não é a satisfação dos desejos despertados pelas sensações). O prazer estético não deriva da satisfação das necessidades do organismo e não é uma mera reacção física a determinado estímulo. Tem uma dimensão emocional e racional, ou seja, é racional sem ser meramente intelectual e é sensível sem ser meramente sensorial.

4 – Embora seja um sentimento e por isso difícil de comunicar totalmente aos outros e de ser por estes compreendido, a experiência estética é verbalmente expressa num juízo: o juízo estético. Aparentemente objectivo, o juízo estético é a expressão, não de qualidades que o objecto possui, mas sim do que sentimos quando o contemplamos de forma pura e desinteressada. O juízo estético é subjectivamente universal, ou seja, uma avaliação subjectiva que pretende ser válida para todos os sujeitos. Kant justifica esta exigência de universalidade supondo que o sentido do gosto é um sentido que todos os seres humanos possuem sendo assim possível aos outros entender e partilhar as minhas avaliações estéticas.

Sintetizando: a experiência estética é uma vivência baseada numa atitude comtemplativa — pura e desinteressada — e exprime-se num juízo que, transmitindo um sentimento de prazer pessoal através de palavras e conceitos, não é uma opinião arbitrária.
Contemplar um quadro ou escutar uma melodia são experiências que podem fazer com que a nossa vontade se detenha e toda a nossa atenção seja “raptada” e seduzida. O prazer estético que se produz perante esses objectos estéticos é gerado pela admiração. A admiração é um momento de fascínio e de assombro mediante o qual se estabelece um processo de comunicação distinto do habitual, abrindo-se perante nós um mundo diferente. Na experiência estética:

1 – A realidade apresenta-se transfigurada
A experiência estética transforma a nossa visão do mundo.

2 – A vivência do tempo é alterada
O prazer estético faz com que “o tempo passe quase sem o sentir”. Ultrapassamos o carácter fugaz do tempo vulgar e saboreamos a eternidade. A transição passado – presente – futuro dá-se sem solução de continuidade.

3 – Verifica-se um desprendimento do eu
Tanto a experiência de criar algo belo ou esteticamente valioso como a de contemplar objectos belos ou esteticamente valiosos pode conduzir-nos a um certo esquecimento de nós próprios. Embora se trate de um processo gradual, a experiência estética supõe um distanciamento em relação ao nosso eu rotineiro para criar ou para, na contemplação, se deixar fascinar e envolver.

4 – A intensidade da experiência contrasta com a sua brevidade
O prazer estético é precário. A realidade a que se volta depois da contemplação estética parece mais rude, menos encantadora.
Para alguns artistas, a atitude estética consiste na ruptura com o mundo habitual, no início de uma forma de comunicação nova, uma realidade alternativa que a arte, sobretudo, nos oferece mediante a imaginação. Contudo, este novo mundo que se abre não é pura ficção: é o mundo real completado, enriquecido e transfigurado pela imaginação. Este protagonismo da imaginação não se verifica em detrimento da razão humana porque esta é uma razão sensível. A sensibilidade estética tem um carácter próprio: é racional sem ser científica e é sensível sem ser unicamente empírica.

Adela Cortina, Filosofia, Santillana.
Adaptação do texto original.

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Bom texto. Está de acordo com o que estudei até o momento. Grato.

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  3. Isto ajudou-me imenso... Agradeço! Vou fazer um trabalho de filosofia sobre este tema... espero que não se importem de usar algumas ideias... Obrigada mais uma vez... :)

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  4. Cara, você não merece apenas Palmas, mas sim todo Tocantis. Sou estudante de filosofia e estava muito perdido e desapontado em relação a Kant (por eu não conseguir entender sua estética).

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