sexta-feira, 8 de Julho de 2011

O Trabalho Filosófico - Análise de argumentos


O Trabalho Filosófico
1.Técnica de Análise de um Argumento

A reconstrução de argumentos simples é uma boa preparação para o trabalho filosófico. Vamos apresentar uma análise minuciosa de um argumento para darmos uma imagem mais completa desse trabalho.
Argumento
Como as decisões humanas nunca estão livres de erro e os tribunais são obra humana, segue-se que, sejam quais forem os cuidados num julgamento, o veredicto pode falhar. Os tribunais são falíveis.
Os tribunais devem existir e, por isso, devemos aceitar uma margem de erro. Mas devemos evitar erros irreparáveis. Portanto, não devemos aceitar a pena de morte porque condenar e executar um inocente é um erro irreparável.
1.1. Detectar os Problemas, Detectar a Conclusão.
Este texto, como acontece muitas vezes, não enuncia explicitamente o problema tratado. Nesses casos encontrar a tese ou conclusão principal é também, em regra, isolar o problema principal.
Não podemos assinalar as premissas e a conclusão mecanicamente. Não basta o indicador para estarmos certos de que identificámos uma premissa ou uma conclusão. Veja-se a passagem: sejam quais forem os cuidados num julgamento, o veredicto pode falhar. Os tribunais são falíveis. A frase Os tribunais são falíveis não tem indicador, mas é uma forma de repetir e destacar a conclusão que tinha acabado de ser enunciada.
Encontramos três identificadores de conclusão e, de facto, são três as conclusões:
a) Os tribunais são falíveis.
b) Devemos aceitar uma margem de erro dos tribunais.
c) Não devemos aceitar a pena de morte.
Qual é a conclusão principal?
Temos de decidir qual é a principal - se não existir, os argumentos são independentes e só por acaso se encontrariam no mesmo texto. Decidimo-lo tendo em conta o conjunto do argumento e fazendo a pergunta: é mais natural evocar a) e b) na justificação de c) ou há alternativa preferível?
Por vezes a resposta é imediata; outras vezes temos de discutir um pouco mais os argumentos para a determinarmos. Neste argumento ainda temos uma dúvida sobre o papel da segunda conclusão, mas a conclusão principal parece ser c). De facto, nada no argumento sugere, por exemplo, que b) e c) são usadas para justificar a).
1. 2. Qual é o Argumento Principal?
Estabelecida a conclusão principal, talvez seja preciso reler o argumento tentando fazer um primeiro agrupamento das premissas para cada conclusão.
Depois devemos proceder à clarificação do argumento. Começamos por apresentar o argumento principal que, claro, deve justificar a conclusão principal. Eis uma das possíveis maneiras de o fazer.
Se há pena de morte, então é sempre possível executar um inocente.
Executar um inocente é um erro irreparável.
Devemos evitar erros irreparáveis.
Logo, devemos rejeitar a pena de morte.
1. 3. As Premissas são Verdadeiras?
o argumento parece estar bem construído. Parece que, se aceitarmos as premissas, devemos aceitar a conclusão. Mas as premissas são verdadeiras? Devemos perguntar acerca de cada uma das premissas se é verdadeira. Afinal queremos saber se este argumento contra a pena de morte é ou não conclusivo. Por isso, não queremos que as nossas conclusões assentem em falsidades.
Vejamos a primeira premissa. O argumentador forneceu um sub - argumento para a sua justificação:
As decisões humanas nunca estão livres de erro.
Os tribunais são obra humana.
Logo, os tribunais podem sempre errar.
Logo, se há pena de morte, então podemos sempre condenar e executar um inocente. (subconclusão omitida)
Agora, se quisermos atacar a primeira premissa do argumento principal temos de provar que a primeira deste sub - argumento, As decisões humanas nunca estão livres de erro, é falsa. Passemos à segunda premissa, Executar um inocente é um erro irreparável. Não é apresentado qualquer sub - argumento para a defender. Pode haver algum problema com ela? Talvez. Mas como parece ser uma afirmação consensual só voltaremos a ela mais tarde, se isso for necessário.
Vejamos a terceira premissa, Devemos evitar erros irreparáveis. Será verdadeira? Parece ser um conselho sensato e irrecusável. Quando se invocam os erros judiciais para justificar a rejeição da pena de morte, é habitual a seguinte réplica: Uma vez que o erro é possível na aplicação de qualquer lei, porque devemos evitar apenas a pena de morte? Não deveríamos evitar todas as leis? Isso não é absurdo?
O argumentador previne-se contra esta crítica em dois momentos. Primeiro, concede que como os tribunais são insubstituíveis, temos de tolerar uma margem de erro:
O erro do tribunal é sempre possível.
Os tribunais têm de existir.
Logo, devemos aceitar uma margem de erro nos tribunais.
Agora, tem de impedir que este argumento se vire contra ele. Se temos de tolerar erros, porque não tolerar o erro na aplicação da pena de morte? Esta objecção é bloqueada pela seguinte distião: há erros repaveis e há erros irreparáveis - erros reparáveis são aceitáveis; erros irreparáveis não.
Agora o ctico terá de mostrar que há alternativa para os tribunais (sepossível?) ou refutar a distinção entre erros reparáveis e irreparáveis.
Mas no caso desta premissa, Devemos evitar erros irreparáveis, ainda temos mais dúvidas. Há duas maneiras de evitar erros: aperfeiçoando os métodos de decio ou evitando decidir. O argumentador quer evitar erros irreparáveis eliminando a pena de morte. Logo, quer eliminar decisões erradas e irreparáveis eliminando as situações em que elas possam surgir. O significado da premissa parece ser este: devemos eliminar as leis que possam gerar erros irreparáveis.
Esta regra é boa? Um general poderia opor-se a ela com base no seguinte argumento:
Imagina que fomos atacados, sem razões, por um inimigo impiedoso e que contra ele travamos uma guerra justa. Sabemos que o bombardeamento, em vários pontos do inimigo, o derrotará. Mas sabemos que um desses bombardeamentos pode ser um erro irreparável, como dizes, porque traz a morte escusada de inocentes. É certo que devemos lutar contra o erro. Mas para o evitarmos vamos proibir a decisão de bombardear? As consequências seriam muito piores: significaria a derrota numa guerra justa, a morte e o sofrimento de um número maior de inocentes.
O mesmo acontece com o teu desejo de proibir a pena de morte: em vez de propores o aperfeiçoamento dos métodos para diminuir a margem de erro, queres acabar com a própria possibilidade de erro não vendo que as consequências são muito piores.
Se pensares nas discussões sobre a pena de morte verificas que muitas pessoas pensam na pena de morte por analogia com a guerra: "Sem a pena de morte a batalha contra o crime está perdida", "A pena de morte é a arma mais eficaz contra o crime", "A guerra ao crime exige a pena de morte" ... Essas pessoas estão dispostas a permitir a ocorrência de um erro irreparável - a condenação de um inocente - para, dizem, evitar males maiores.


2. Os Planos para o Trabalho filosófico.
A alise minuciosa a que procedemos permitirá compreender o seguinte esquema de orientação geral do trabalho filosófico. Veremos depois como tal esquema se pode adaptar a diferentes tipos de tarefa.
2.1. Qual é o Problema Filosófico tratado?
O texto corresponde a um ou mais problemas? Se responde a vários: são independentes ou desdobramentos do primeiro? Quando o problema não é enunciado, como no caso que tratámos, a sua identificação coincide, normalmente, com a identificação da conclusão principal.
Por vezes temos de esclarecer o problema: por ter sido enunciado de uma maneira muito própria pelo autor ou por pensarmos que há formulações alternativas preferíveis.
2.2. Qual é a Conclusão Principal? Qual é a Tese Principal?
Nos nossos textos devemos explicitar claramente que queremos defender a tese tal ou tal - já há demasiados textos que deixam para o leitor a tarefa de adivinhar essa tese.
2.3. Que Argumentos são Apresentados? As Objecções Foram Consideradas?
• Que argumentos são apresentados para defender a tese principal?
O texto que analisámos só apresentou um argumento para defender a tese Devemos rejeitar a pena de morte. Outros textos apresentam mais. Devem ser distinguidos sobretudo por esta razão: o facto de termos êxito na crítica a um dos argumentos não significa que a tese esteja refutada.
• Que sub - argumentos são apresentados para defender as premissas? As premissas são verdadeiras? As duas perguntas estão juntas porque perguntar por sub - argumentos é perguntar pelas razões avaadas para tomar as premissas como verdadeiras. Os sub - argumentos são muitas vezes referidos com breves alusões - como se verificou, por exemplo, em relação à nossa terceira premissa.
2.4. Crítica e Posição Pessoal

A crítica não é um momento isolado. O momento da crítica o é o momento em que se diz mal. A clarificação de um argumento é já um exame ctico. Desde o início somos conduzidos pela pergunta: é isso verdade? Estamos já a analisar as razões apresentadas, a concordar, a discordar e a pensar em alternativas possíveis para a tese principal, premissas e argumentos.
Mas na exposição do nosso trabalho devemos separar a exposão do argumento e a respectiva crítica.
Em todo caso, há momentos, ao longo do trabalho, onde a actividade crítica é mais forte. Ao perguntarmos "Esta tese (conclusão ou premissa) é verdadeira?" devemos também perguntar se não há alternativas mais plausíveis e se não somos capazes de criar uma ou de aperfeoar a tese já existente.
Este é apenas um esquema geral do trabalho filosófico. Mas se temos de o concretizar num trabalho escrito o resultado final não tem de exprimir todos esses pontos. O que deve constar ou não do trabalho depende da tarefa que se tem em mãos.
Exemplo 1
Os textos não são sagrados. Se não estamos certos sobre o problema de que um texto trata, podemos admitir que se trata de incompreensão nossa; mas a nossa dúvida pode derivar da pouca clareza do texto. A solução é: explicamos por que motivo o texto sugere tanto o problema A como o problema B e tratamos ambos em separado ou, em alternativa, explicamos por que motivo apenas tratamos um. O texto seguinte servirá de exemplo.
"És mau!", "Isso não se faz!" Eis cantilenas que há séculos as crianças ouvem todos os dias. É verdade que esses anjinhos têm necessidade de barreiras, de limites, no interior das quais possam dar vazão às suas ideias devastadoras. Mas atenção! Essas fórmulas inofensivas às vezes causam danos. É que as crianças são candidatos privilegiados à culpa-veneno, aquela que se cola no coração e na mente para toda a vida. Não pense, porém, que é preciso abster-se de dizer não ao seu filho, por temer feri-lo profundamente para o resto da vida. "
L. D’Anglade, En finir avec la culpabilité, in Psychologies, 91.
Tarefa: Analisar o texto de acordo com os seguintes tópicos:
- Que problema é abordado no texto?
- Qual é a tese defendida pelo autor?
- Que razões ou argumentos são apresentados?
- Avalie a abordagem do autor.
O problema não é explicitado no texto. Por um lado, parece ser este: que consequências pode ter o uso da culpa na educação? Nesse caso trata-se de um problema sobre factos e diz respeito à psicologia. Por outro lado, parece querer responder à seguinte pergunta: deve-se usar o sentimento de culpa na educação? Neste caso o problema já não será apenas de psicologia porque se trata de justificar uma norma para a educação. Se a discussão atingir ideias fundamentais sobre a natureza humana e o tipo de pessoas que a educação deve formar, torna-se uma questão filosófica.
Admitamos que se trata de saber se a culpa deve ser usada como instrumento educativo ou não. A conclusão também não foi claramente enunciada.
Mas o texto sugere a seguinte tese ou conclusão: o uso da culpa na educação é inevitável, mas deve ser moderado.
O argumento pode ser este:
As crianças precisam de exprimir os seus impulsos mais enérgicos e agressivos. Mas essa expressão deve ter limites. Como nem sempre a persuasão é eficaz, os limites têm de ser impostos pelo "Não!" e a violação do limite pela atribuição de culpas: "Fizeste mal!". Mas o excesso de proibições e o excesso na atribuição de culpas favorece um sentimento de culpa que perturba o desenvolvimento da personalidade e essa possibilidade, por sua vez, favorece um sentimento de culpa nos educadores. Claro que os sentimentos de culpa na criança e nos educadores devem ser atenuados tanto quanto possível.
Podemos concluir que, se queremos que a criança manifeste os seus impulsos mas se desenvolva de uma forma equilibrada, devemos moderar as proibições e a atribuição de culpas.
O texto não esclarece noções importantes para o completo exame desta tese, como as noções referentes aos impulsos mais negativos das crianças ("ideias devastadoras") e à culpa- -veneno. Também partiu da seguinte premissa que não desafiou: é impossível educar sem atribuição de culpa. Sem exame aprofundado desta premissa não podemos saber se a conclusão exposta é apenas um conselho prático destinado a minorar erros educativos ou se não há alternativa.

Exemplo 2
O texto seguinte foi extraído do "Filebo", lima obra de Platão. É um diálogo filosófico em que Sócrates (mestre e amigo de Platão) usa uma "experiência imaginária", método muito importante em Filosofia, para construir um contra-exemplo e refutar uma tese de Filebo.
Sócrates: - Filebo defende que o bem, para todos os seres vivos, consiste na alegria, no prazer e em todas as coisas desse tipo. Eu sustento que a sabedoria, o pensamento e o que lhe é aparentado, como a recta opinião e os raciocínios verdadeiros, são melhores e mais preciosos para todos os que deles são capazes e que essa participação é a coisa mais vantajosa para todos os seres presentes e a vir. Cada um de nós tentará mostrar qual destes é o estado ou tendência da alma que é capaz de oferecer ao homem uma vida feliz. Não é isso que temos de fazer?
Protarco: - Sim.
- Examinemos agora e julguemos a vida o prazer e a vida sábia, tomando cada uma à parte.
- Como?
- Não deixemos entrar nenhuma sabedoria na vida do prazer, nem nenhum prazer na vida sábia; porque se alguma das duas é o bem, necessariamente não precisa de mais nada, e se uma ou outra precisar de mais alguma coisa, não podemos olhá-Ia como nosso verdadeiro bem.
- Consentirias tu, Protarco, em passar toda a tua vida na fruição dos maiores prazeres?
- Porque não?
- Terias ainda a necessidade de alguma coisa, se tivesses o prazer completo?
- De modo nenhum.
- Examina bem se não terias a necessidade de pensar, de calcular as tuas necessidades, e de toda as faculdades desse género?
- Em quê me fariam falta? Teria tudo, penso eu, se tivesse o prazer.
- Então, vivendo assim, tu fruirias os maiores prazeres durante toda a vida?
- Sem dúvida.
- Mas não possuindo nem inteligência, nem memória, nem opinião verdadeira, seria forçoso que tu ignorasses se tinhas prazer ou não ...
- É forçoso.
- Da mesma maneira, se não tinhas memória, nem poderias lembrar-te que tinhas tido, alguma vez, o prazer, nem guardar a menor lembrança do prazer que te acontece no presente. Mais ainda, sem opinião verdadeira, tu não poderias pensar que tens prazer no momento em que o tens e, se tu estás privado de raciocínio, não serias mesmo capaz de calcular que terias prazer no futuro. A tua vida não seria a de um homem, mas de uma esponja marinha ou de esses animais do mar que vivem nas conchas. É verdade ou poderemos ter outra ideia?
- Como a poderíamos ter?
- Ora bem - semelhante vida é desejável?
- A tua argumentação Sócrates, reduziu-me, de momento, ao silêncio.
Tarefa:
- Que problema é abordado no texto?
- Qual é a tese defendida?
- Que argumentos são apresentados?
- Avalia a abordagem presente no texto.
O problema mais geral que é abordado é o saber que é o Bem. É formulado pondo em alternativa as soluções de Filebo e de Sócrates: o bem consiste na vida dedicada ao prazer ou o bem consiste na vida sábia?
O argumento apresentado visa refutar a tese de Filebo - o bem consiste na vida dedicada ao prazer. Sócrates propõe que se imagine uma vida absolutamente dominada pelo prazer, que se extraiam consequências dessa imagem e que se pergunte se tal vida é de facto desejável.
O argumento pode ser apresentado assim:
Se o nosso objectivo é o puro prazer, então, estando este garantido, o precisamos de mais nada e podemos abdicar da sabedoria.
Mas se abdicarmos de tudo o que é saber nem sabemos quem somos e o que somos e já não somos propriamente humanos!
Não queremos abdicar da nossa humanidade. Logo, o nosso objectivo não é o puro prazer.
O argumento é conclusivo: uma vida de puro prazer, sem qualquer espécie de sabedoria não pode ser desejada por um ser humano, pelo menos se tiver alternativa. Penso que o argumento apresentado é um obstáculo a qualquer teoria que afirme que o pensamento é apenas um meio para alcançarmos o prazer satisfazendo as nossas necessidades.

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