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quarta-feira, 22 de abril de 2015

DETERMINISMO E FATALISMO: A TRAGÉDIA DE ÉDIPO


Édipo nasceu em Tebas. Era filho do Rei Laio e Jocasta. Certa ocasião, o oráculo profetizou que Laio seria morto pelo próprio filho. Assim, Édipo foi entregue a um pastor do Monte Citéron, com os tornozelos perfurados para que não pudesse se locomover, ou seja, estava entregue à morte.No entanto, esse pastor ficou comovido e entregou a criança a outro homem, que por sua vez, levou o menino para o Rei de Corinto - Pólibo, que não tinha filhos.Édipo crescia ao mesmo tempo em que aumentavam os comentários de que ele não era filho legítimo de Pólibo, apesar dos desmentidos deste. Para sanar as dúvidas, Édipo vai a Delfos consultar o oráculo.O oráculo não lhe revela os pais verdadeiros, mas revela que o seu destino é este: faça o que fizer Édipo está condenado a matar o pai e a casar com a própria mãe. Horrorizado, Édipo deixa Delfos disposto a nunca mais retornar a Corinto, onde viviam Pólibo e sua esposa, que julga serem os seus pais.Sem o saber, o trágico caminho de Édipo estava traçado. Nas redondezas de Delfos, depara - se com a carruagem do Rei Laio. No caminho de Dáulis, cruzou-se com outro cavaleiro, com o qual, por motivo de precedência, se travou de razões, acabando por derrubá-lo da sela e matá-lo em legítima defesa.
Édipo dirige - se para Tebas, cidade de Laio, a qual vivia aterrorizada pela Esfinge, um monstro metade leão, metade mulher, que inventava enigmas e matava, lançando -as num precipício, os infelizes que não conseguissem solucioná - las.Quando a notícia da morte de Laio chegou a Tebas, o trono e a mão da rainha de Laio foram oferecidos ao homem que pudesse solucionar o enigma e livrar a região da terrível Esfinge. Para Édipo o enigma foi fácil de resolver. Respondeu à pergunta “O que é que anda em quatro pernas, em três pernas e em duas pernas?” com destreza: “O homem, pois quando bebé gatinha de quatro, cresce e anda com duas pernas e com a idade necessita do suporte de uma terceira perna, uma bengala”. Quando a Esfinge escutou a resposta, ficou tão enraivecida e mortificada que se jogou no precipício. Aliviados e reconhecidos os cidadãos de Tebas coroaram - no rei. Casou - se com Jocasta, de quem teve dois filhos, Etéocles e Polínece, e duas filhas, Antígona e Ismênia. Mais tarde, abateu se outra praga sobre a região de Tebas. E é neste ponto que se desencadeia a grande tragédia de “Édipo Rei”.A colheita morria nos campos, os animais não se reproduziam, as crianças estavam doentes e os deuses não respondiam às preces. Creonte, irmão de Jocasta, regressado da consulta ao oráculo de Delfos, ficou a saber que a maldição acabaria quando o assassino de Laio fosse descoberto. Édipo encarrregou -se de encontrá-lo. Consultou o profeta cego Tirésias, que, a princípio, recusou revelar a identidade do assassino, mas acabou por afirmar que era Édipo. Édipo suspeitou que o seu cunhado Creonte e Tirésias estariam a conspirar para lhe retirarem o trono. Ilusão. O desenrolar do episódio culmina com a chegada de um mensageiro vindo de Corinto, que conta que Pólibo havia morrido de morte natural. Édipo sente - se feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da profecia do oráculo: não matara o seu pai. Mais uma ilusão. O mensageiro assegura a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais.Para desvendar o mistério entra em cena o pastor que salvara Édipo, agora um velho, a única testemunha viva da morte do rei. O homem diz que salvou o filho de Laio e com pena o entregou aos cuidados de Pólibo e da esposa em vez de o deixar morrer. Édipo cresceu a julgar que era filho destes e não de Laio e de Jocasta. Édipo acaba por convencer-se de que ele próprio é o autor da morte de Laio, seu verdadeiro pai, e de que Jocasta, a mulher com quem casara, é a sua mãe. Sendo a verdade evidente, Édipo, destroçado e dilacerado pelo desespero, encontra o corpo morto de Jocasta, que acabara de se enforcar no interior do palácio real. Édipo, por sua vez, arranca os olhos, desejando desaparecer e morrer.


1 – A história de Édipo é uma ilustração de uma forma de pensar sobre a vida humana a que se deu o nome de fatalismo. A partir desta história tente caracterizar o fatalismo.
R: O fatalismo é a teoria que defende o seguinte: o nosso futuro está traçado e façamos o que fizermos nada podemos mudar porque as nossa ações fazem precisamente parte do que já está fixado ou traçado. As nossas escolhas e ações não têm qualquer influência sobre o que vai acontecer no futuro. A resignação parece ser consequência lógica do fatalismo.

2 – Qual a relação entre fatalismo e livre – arbítrio? Quem defende o fatalismo admite que temos livre – arbítrio?
R: Para o fatalista, o livre – arbítrio é uma ilusão. Uma vez que o futuro está traçado e fixado – vai ser o que tem de ser – e como as nossas ações fazem parte do que já está fixado então não podemos fazer outras coisas a não ser as que fazemos. A nossa vida já está escrita e cumprimos um roteiro que nos encaminha inevitavelmente para um certo desenlace. É o que acontece com Édipo. Tenta fugir ao que lhe dizem que vai acontecer mas nada mais faz do que percorrer o caminho que o vai conduzir ao encontro do que já estava destinado.

3 – Suponha que vai fazer um exame de Matemática. Adoptando uma posição fatalista, considera que o resultado já está traçado e que tanto faz estudar como não estudar. Suponha agora que um seu colega é determinista radical. Será que terá a mesma opinião que a sua?
R: Não. A única coisa em que estarão de acordo é que a decisão de estudar ou de não estudar não resulta de uma livre escolha. Como fatalista dirá que como todas as nossas ações fazem parte do que já está fixado ou pré – determinado então a decisão de estudar ou não também já está previamente definida não havendo portanto liberdade. O seu amigo como determinista radical dirá que se as mesmas causas produzem os mesmos efeitos então diferentes causas produzem diferentes efeitos. Por isso, estudar terá um efeito e não estudar terá outro. O que o determinista radical defende não é que o que fazemos é indiferente mas sim que se escolho estudar a minha decisão não poderia ser outra porque está determinada por exemplo pela educação que recebi. Não defende que certos acontecimentos futuros se verificarão faça eu o que fizer. Defende que o futuro é determinado pelo presente – pelo que faço agora – embora o que agora faço seja o resultado de acontecimentos anteriores como por exemplo a forma como fui ensinado a encarar o estudo e a sua importância para o sucesso. Um futuro com as nossas ações é diferente de um futuro sem as nossas ações (ou com as nossas omissões). O determinismo não convida à resignação.

4 – O determinismo na sua forma mais radical defende que as nossas escolhas e ações são o resultado inevitável de fatores ambientais – educativos – e hereditários – genéticos. Será que isto significa que o determinismo é uma forma de fatalismo?
R: Não. O fatalismo é a teoria que defende o seguinte: o nosso futuro está traçado e façamos o que fizermos nada podemos mudar porque as nossa ações fazem precisamente parte do que já está fixado ou traçado. As nossas escolhas e ações não têm qualquer influência sobre o que vai acontecer no futuro.
Para o determinista radical as nossas escolhas e ações afectam o futuro, influenciam – no embora sejam determinadas pelo passado. As minhas escolhas e ações já estão determinadas por acontecimentos anteriores e por isso não escolho entre dois futuros possíveis: na verdade há um só futuro possível que já está determinado por eventos ou acontecimentos passados. O fatalista diz: “Tivesses feito A ou B seria irrelevante porque tudo já está traçado ou escrito”: O determinista diz: Se tivesses feito A em vez de B o resultado teria sido diferente: diferentes causas , diferentes efeitos”. Muitos deterministas explicam o comportamento criminoso como o resultado inevitável de condições sociais degradadas pela pobreza e falta de emprego. Mas não olham para este facto inevitável como uma fatalidade. Porquê? Porque tal como acreditam que as escolhas das pessoas são determinadas pelo meio também acreditam que se mudarmos o meio mudaremos as escolhas das pessoas, ou seja, estas escolherão outra coisa em vez de roubar, matar e agredir. É evidente que mudar o meio não tornará as pessoas livres ( o determinista não abdica da tese de que todas as ações derivam de causas que o indivíduo não controla) mas mudará o futuro porque um meio ou uma sociedade mais justa e equilibrada terá como efeito - determinará - que os indivíduos em geral abdiquem de uma vida associada ao crime.
Nota: Para o behaviorismo, o ser humano é o produto do processo de aprendizagem pelo qual passa desde a infância e da influência do tipo de meio em que é educado.

O LIBERTISMO RADICAL DE JEAN – PAUL SARTRE


Leia atentamente a exposição seguinte para de seguida poder responder às questões propostas.
TEXTO EXPOSITIVO DA TEORIA
As teorias libertistas em geral defendem que há ações livres. Com isso, querem dizer o seguinte:
1 – Há ações que não são meros momentos ou elos de uma cadeia causal em que o futuro é determinado pelo passado, ou seja, em que acontecimentos anteriores são a causa necessária dos acontecimentos seguintes.
2 – A afirmação da liberdade implica uma quebra ou uma ruptura na sequência causal de acontecimentos do mundo natural reconhecendo – se ao agente a capacidade de iniciar pelas sua escolhas uma nova série de acontecimentos. As nossas escolhas retiram ao passado o seu peso insuportável. Não somos o que o nosso passado faz de nós.
O existencialismo de Jean – Paul Sartre é um dos mais famosos exemplos de defesa radical do libertismo.
Sartre começa por fazer uma distinção muito importante entre seres humanos e objetos físicos. Todos os objetos físicos têm uma essência – um conjuntos de caraterísticas que os definem e determinam o seu comportamento. Assim, um livro é um objeto que tem certas propriedades que determinam que não quebra quando cai – ao contrário de um copo – arde quando atirado ao fogo e não serve para beber água. Os objetos físicos não têm liberdade. A sua essência determina como existem, como se comportam sempre e o que lhes pode acontecer. No caso dos objetos físicos, a essência precede e determina a existência. A natureza dotou – os de certas qualidades que determinam que se comportarão sempre do mesmo modo. São aquilo que receberam.
Se o determinismo fosse verdadeiro seríamos como os objetos físicos. Mas não é esse o caso, segundo Sartre, apesar de fazermos também parte do mundo natural. Cada um de nós é o autor do livro em que a nossa vida consiste e vamos escrevendo a pouco e pouco os seus capítulos. Por que razão somos diferentes dos objetos físicos? Somos diferentes porque nos seres humanos a existência precede a essência. Não temos uma essência que determine como vamos ser – cobardes ou corajosos, conservadores ou revolucionários, altruístas ou egoístas, ateus ou crentes, etc., – nem como vamos agir. Os objetos têm o seu comportamento pré – determinado e fixado pela sua essência – são inquebráveis, inflamáveis ou impermeáveis, resistentes ou frágeis – e por isso comportam – se de acordo com essas caraterísticas atribuídas pela natureza – quebram – se quando caem, ardem quando queimados e rebentam quando submetidos à pressão de certas forças.
Segundo Sartre, não há no ser humano nada de pré – determinado. Não somos o que recebemos quer através da transmissão genética quer através da transmissão cultural. O que quer isto dizer? Somos aquilo que fazemos, somos o resultado das nossas escolhas. Antes de existir nada somos – não temos uma essência. O ser humano nada mais é do que o conjunto das suas ações. Através das nossas escolhas e ações construímos a nossa essência, o nosso modo de ser, a nossa imagem. Mas Sartre tem o cuidado de salientar imediatamente que se nada há de pré – determinado no ser humano também nele nada é fixo ou adquirido de uma vez por todas. Ao construirmos uma certa imagem de nós – uma essência ou maneira de ser – não ficamos prisioneiros do que fizemos. A todo e qualquer momento podemos mudar o que somos. Não somos o que fomos. Somos o que vamos sendo ou fazendo de nós. Só quando morremos e não podemos mais escolher e agir é que temos uma essência e podemos definir um ser humano. Até lá temos de constantemente criar a imagem que de nós vai ficar. Imagine que alguém se comportou de uma forma cobarde. A imagem com que ficamos dessa pessoa através desse ato é a de alguém cobarde. Mas como o que somos depende do que fazemos, nada impede que essa pessoa modifique a sua imagem comportando – se corajosamente. Nenhum ato passado define de uma vez por todas o que somos.
Como não existe uma natureza humana pré-fixada, como em cada ato ou escolha podemos modificar o que somos, não podemos dizer, por exemplo, que o ser humano é naturalmente sociável, ou egoísta, ou bom, ou agressivo. Só somos, por exemplo, sociais se nos envolvermos em atividades sociais, ou bons se praticarmos atos bons. São os nossos atos que definem aquilo que somos. A jovem que recusa ir a um concerto agradável e fica em casa a cuidar do irmão doente age, segundo o determinista radical, determinada pela educação que recebeu. Segundo Sartre, essa educação é uma condicionante da ação mas não a sua causa determinante. Não dirá que a educação fez da jovem o que ela é porque em cada ato ou escolha ela pode romper com o forte sentido do dever que caracteriza a educação recebida ou reafirmar esse compromisso.
O facto de em nós nada estar definido de uma vez por todas, permite-nos formar planos e projectos que não são o simples desfecho causal do passado ou do presente, do que somos ou fomos, do que fizemos ou fazemos. A liberdade é para Sartre o modo de ser da realidade humana que em cada escolha suspende o passado e o presente. Cada escolha que efetuo, cada projeto que me proponho realizar significam que o futuro não é uma ramificação do passado ou do presente, mas sim o resultado de uma livre escolha. Mediante os seus projetos e escolhas o ser humano afirma a sua radical liberdade. O futuro não está pré-fixado. Está, enquanto a vida dura, sempre em aberto.
Embora não haja uma natureza humana universal há uma condição humana comum. Todos nós em ambientes e culturas diferentes enfrentamos os mesmos desafios, as mesmas questões e as mesmas limitações próprias da nossa condição de seres humanos. Chegados a este ponto uma questão surge: Não serão essas limitações obstáculos que podem negar a afirmação tão radical da liberdade por parte de Sartre? Não será um exagero dizer que o homem é o dono e senhor do seu destino?
Sartre pensa que não.
Podemos pensar que há acontecimentos passados e presentes que escapam ao meu controlo. Não escolhi nascer no Brasil, ser educado numa família da classe média, ser do sexo masculino, sofrer de miopia, etc. Estes factos ou acontecimentos são alguns dos dados da minha situação. Contudo, para Sartre, os factos em si mesmos não têm significado ou sentido. Somos nós mediante as nossas escolhas e projectos que lhes atribuímos sentido. Nasci no Brasil. Não posso mudar esse facto. Mas o que significa para mim esse facto? Que sentido tem? É uma fonte de orgulho por ser natural de um país muito rico e industrializado, ou uma fonte de embaraço por esse país ser ainda um pais com muitos problemas por resolver? E se tivesse nascido na América? Estaria inchado de orgulho nacionalista por ser natural de um país que é a grande superpotência atual ou sentir-me-ia incomodado e embaraçado com o comportamento do meu país em relação a outros? Agito a bandeira com fervor nacionalista ou queimo-a por causas dos pecados da grande potência? Tudo isto são escolhas que eu tenho de fazer e não me são ditadas pelos fatos mas sim pela minha posição em relação a eles. O próprio Sartre fala-nos de um padre jesuíta que conheceu quando ambos foram feitos prisioneiros pelos nazis durante a segunda guerra mundial. Esse homem parecia uma vítima das partidas desagradáveis do destino. Tinha ficado órfão bem cedo, o negócio que dirigia falhou deixando-o na pobreza, as suas relações amorosas terminaram todas em rotundo fracasso e falhara no acesso a uma carreira de militar que tanto desejara. Interpretou estes acontecimentos como sinal de que a sua vocação era servir Deus e não envolver-se em assuntos mundanos como ter uma família, um emprego e uma carreira. Sartre afirmou que este foi o sentido que o indivíduo escolheu atribuir aos acontecimentos vividos. Mas também poderia ter escolhido ser um revolucionário. Quer com isto dizer que os acontecimentos passados não determinam causalmente o nosso futuro. Somos nós que decidimos como os factos e os acontecimentos vividos se encaixam no que atualmente somos e nos nossos projetos. Parece que o passado pesa como se me perseguisse e determina o que sou mas esse peso depende dos meus projetos e das minhas ações atuais. Casei. Estou vinculado a um compromisso que aparentemente limita as minhas possibilidades de ação mas isso só acontece porque em cada dia eu reafirmo esse compromisso e me defino como homem comprometido. Poderia muito bem considerar os votos de fidelidade como um estúpido erro, como algo que atualmente é uma fastidiosa monotonia e considerar esse compromisso um simples momento de um passado morto. Em cada momento da nossa existência criamos o nosso modo de ser atual. O futuro está sempre em aberto mediante as nossas escolhas, os nossos planos, sonhos e ambições. Mesmo a continuidade de uma duradoura relação amorosa significa que continuamente reafirmamos as nossas escolhas passadas. O passado depende das nossas opções e não estas daquele.
Podemos resumir a teoria de Sartre nesta frase: O determinismo reina no mundo natural ou físico mas a vontade e as suas escolhas não fazem parte desse encadeamento de causas e efeitos.
A liberdade não é uma propriedade entre outras que tenhamos como a inteligência ou a beleza. A liberdade é o nosso modo de ser porque em cada momento da nossa existência estamos a definir o que somos e só a morte encerra este processo criativo.
Estamos constantemente confrontados com possibilidades e escolhas e mesmo recusar escolher e deixar que as coisas aconteçam é também uma escolha. Dada a nossa radical liberdade somos responsáveis pelo tipo de pessoa que somos. Recusar a liberdade e a responsabilidade é estar de má-fé, é mentir a nós mesmos.
TEXTO DE SARTRE
É estranho que os filósofos tenham argumentado ao longo de milénios sobre o determinismo e o livre-arbítrio, citando exemplos a favor de uma tese ou de outra sem primeiro terem tentado explicitar a própria ideia de ação…Devemos notar em primeiro lugar que uma ação é em princípio intencional…Ora se assim é, devemos dizer que uma ação implica como sua condição necessária o reconhecimento de algo que se deseja, ou seja, o reconhecimento de uma lacuna objetiva ou de uma negatividade, de algo que falta ou que ainda não existe. A intenção do imperador Constantino de construir uma cidade cristã que rivalizasse com Roma ocorreu-lhe ao reconhecer uma lacuna objetiva… faltava uma cidade cristã.
Isto significa que desde o momento da conceção desse ato, a consciência foi capaz de se distanciar do mundo do qual tinha consciência, deixando o plano do ser (do que existe) para se aproximar do plano do não – ser (do que ainda não existe).Nenhum estado de facto seja ele qual for (a estrutura política e económica da sociedade, estados psicológicos, etc.) pode por si mesma determinar e motivar qualquer ato. Um acto é uma projeção do ser humano em direção ao que ainda não é e o que é ou existe não pode de modo nenhum determinar por si o que não é. A realidade humana é livre porque é perpetuamente arrancada a si mesma (ao seu passado e ao que é).Jean-Paul Sartre, L’Être et le Néant.
1.É estranho que os filósofos tenham argumentado ao longo de milénios sobre o determinismo e o livre-arbítrio, citando exemplos a favor de uma tese ou de outra sem primeiro terem tentado explicitar a própria ideia de ação”.
Por que razão a discussão em torno do determinismo e do livre – arbítrio está para Sartre mal colocada?
R: Está mal colocada porque não se entendeu devidamente o conceito de acção. Segundo Sartre, qualquer ação significa que a partir de uma situação presente, de algo que existe, projetamo-nos em direção a um futuro, a algo que ainda não existe. Isto implica que somos capazes de nos distanciar do que existe, do mundo tal como ele é, concebendo e sendo motivados pelo que ainda não é, por um estado de coisas futuro a que desejamos dar realidade. A esta capacidade de conceber e ser motivado pelo que não é dá Sartre o nome de negatividade. O que é (os acontecimentos passados ou presentes) não pode, segundo Sartre, determinar o que não é. O ser não pode determinar o não-ser. A capacidade da nossa consciência de conceber o que ainda não é, permite-nos formar planos e projetos que não são o simples desfecho causal do passado ou do presente, do que somos ou fomos, do que fizemos ou fazemos. A acção humana é indissociável da liberdade da consciência.
2. O que significa dizer que “a realidade humana é livre porque é perpetuamente arrancada a si mesma (ao seu passado e ao que é)”?
R: Significa dizer que a liberdade é para Sartre esse modo de ser da realidade humana que em cada escolha suspende o passado e o presente. Cada escolha que efetuo, cada projeto que me proponho realizar significam que o futuro não é uma ramificação do passado ou do presente, mas sim o resultado de uma livre escolha. Mediante os seus projetos e escolhas o ser humano afirma a sua radical liberdade. O futuro não está pré-fixado. Está, enquanto a vida dura, sempre em aberto. Para Sartre, o futuro, melhor dizendo, as possibilidades, é que determinam o que sou. Aquilo que posso ser - e não o passado - determina o que sou hoje. Esta indeterminação pelo passado- pelo que já não é – e pelo presente – pelo que é - é a raiz da liberdade humana.

sábado, 9 de julho de 2011

As Condicionantes da Liberdade


As Condicionantes da Liberdade
A liberdade humana, na perspectiva de quem acredita que escolhemos realmente o que fazemos, é a capacidade de realizar aquilo que depende da nossa vontade tendo em conta os limites próprios da nossa condão.
Há limites absolutamente óbvios: é-me impossível ir de Lisboa a Washington em cinco minutos; não posso estar na sala de aulas e na praia ao mesmo tempo; a nossa vida começa sem nós, no sentido em que é o resultado de uma decisão e união que nos antecede absolutamente; não posso voltar a viver o que esvivido, não posso deixar de ter feito o que fiz (é o chamado fenómeno da irreversibilidade do tempo); é inevitável o desgaste físico, o declínio da vitalidade e finalmente a morte. A liberdade exerce-se nesse espaço de tempo que decorre entre o nascimento e a morte: não está em nosso poder evitar nascer ou evitar morrer.
Devemos, antes de aprofundar os limites da liberdade, notar que se a nossa liberdade está condicionada isso não significa necessariamente que esteja determinada.
Estar condicionada significa que não sou totalmente livre, mas conservo a liberdade suficiente para saber que, em muitos casos, sou responsável pelos meus actos. Estar determinada implica negar qualquer possibilidade de ser livre.
As Condicionantes Biológicas da Liberdade
Somos, em certa medida, o que trazemos connosco. Por outras palavras, somos portadores de uma herança biológica determinada, de um património genético que, não constituído por nós, nos é dado e condicionará positiva ou negativamente a nossa existência. Essa bagagem biológica que herdámos delimita e circunscreve a amplitude das nossas escolhas e o alcance dos nossos actos: uma frágil constituição física impedir-me-á de ser o basquetebolista ou o atleta cujas proezas admiro, orientando-se as minhas escolhas e projectos noutra direcção.
Mas a hereditariedade não é destino: condiciona o nosso comportamento, mas não nos transforma em autómatos. O texto seguinte ilustra o que acabamos de dizer.
Imaginemos, no que respeita à inteligência, que o getipo de uma criança indica a predisposição para ter uma inteligência média.
Suponhamos alguns cenários possíveis de desenvolvimento da criança. Comecemos por supor que cresce e é educada num meio económica e culturalmente pobre e intelectualmente muito pouco estimulante: os pais ignoram a criança e o meio é muito carenciado quanto a livros e outros instrumentos de aprendizagem. A criança, dadas as limitações do seu meio, provavelmente desenvolverá uma inteligência abaixo da média.
Suponhamos outra situação: a mesma criança, com o mesmo genótipo quanto à inteligência, cresce e é educada num meio que podemos considerar médio ou normal (existem livros, outras fontes de estimulação intelectual e os pais dedicam atenção à criança). É muito provável que a criança desenvolva uma inteligência de tipo médio.
Suponhamos finalmente outro cenário: a mesma criança é educada e criada num meio sob vários aspectos bastante favorecido (os pais são bastante activos na estimulação intelectual da criança, os livros são cuidadosamente escolhidos e para além do curculo normal a criança estuda, por exemplo, uma ngua estrangeira e utilizações informáticas). É muito provável que esta criança desenvolva uma inteligência acima da média, o que não significa que se transformará numa criaa intelectualmente brilhante.
A conclusão a retirar deste exemplo é óbvia: um mesmo genótipo pode conduzir a três possíveis fenótipos distintos - um se realizará - dependendo do nível de estimulação intelectual característico do meio.
Robert V. Kail, Children and their development Prentice-Hall, p. 45

                                    GENÓTIPO
                               FENÓTIPO
Conjunto de predisposições e de tendências para apresentar certas características. É o conjunto de potencialidades que herdamos no momento da concepção e que podem, umas mais do que outras, vir a ser influenciadas por condições ambientais como a educação que recebemos e o meio social e económico em que somos criados.

Conjunto de caractesticas que um indivíduo realmente apresenta e que dependem do seu material hereditário,
das influências ambientais e do modo como o indiduo assimila e interpreta as
experiências que vive.







As Condicionantes Sociais e Educativas
Nascemos num dado meio social, numa dada cultura. Somos socializados, integrados nesse meio sócio-cultural. Pela educação são-nos transmitidos valores, ensinam-nos a respeitar certas normas de comportamento e não outras. Somos então simples produtos do meio? O meio em que nascemos, a educação que recebemos, as crenças que adquirimos não nos determinam. São somente o enquadramento ou o cenário no interior do qual devemos decidir, são as condições que marcam e assinalam as possibilidades e os limites das nossas escolhas. Condicionam-nos, mas não nos determinam. Assim pensa quem defende a existência de livre – arbítrio.
O "Peso do Passado": o Jogo da Liberdade e das Circunstâncias
A liberdade em situação implica, como é óbvio, a "inscrição e circunscrão temporal dos nossos projectos, decisões, escolhas. Sabemos que o tempo para tudo e que não podemos determinar a
duração da nossa vida. Por isso mesmo só podemos realizar um reduzido mero de possibilidades e de projectos.
Muitas pessoas, atingida uma certa idade e analisando o que fizeram da vida que lhes foi dada, afirmam que poderiam ter sido muito diferentes daquilo que foram, mas reconhecem que já passou o momento oportuno para mudanças significativas. Como diz José-Luis Aranguren, "a nossa liberdade actual está condicionada pela história da nossa liberdade", pelas opções que tomámos, pelas possibilidades que escolhemos realizar, pelo que projectámos fundamentalmente fazer da nossa vida. Refazê-la é algo que, a partir de um certo momento, não é viável por causa dos compromissos, deveres ou obrigações que assumimos. A nossa liberdade vai tecendo uma teia que nos vai enredando, reduzindo assinalavelmente a nossa "margem de manobra". A morte fecha a história da liberdade, anula todas as possibilidades, transforma a vida em algo que, completamente feito e terminado, fica à mercê do juízo dos outros e da sua memória.
A limitação temporal da liberdade é também ilustrada pela impossibilidade de prevermos e de controlarmos as consequências e os resultados, a longo e a médio prazos, das nossas opções e decisões. Consideremos a seguinte situação: Gualter decide candidatar-se ao curso de História da Arte numa faculdade da capital. Passados quatro anos, em 1980 conclui a licenciatura e pondera várias opções profissionais a tomar. Decide experimentar a profissão de professor dos Ensinos Básico e Secundário. Gostaria de ser colocado numa escola próxima da zona em que vive, mas sabe que é pouco provável que esse desejo seja satisfeito e então elabora uma lista de escolas em que inclui prioritariamente aquelas próximas do seu domicílio (Alvalade) e, em seguida, outras, dispersas pela zona da Grande Lisboa. É colocado numa delas, mais concretamente na Escola Secundária Gago Coutinho, em Alverca. Após vários anos em que "circula" por diversas escolas, pretende alcançar maior estabilidade profissional e concorre aos lugares onde abriram estágios que lhe permitirão tornar-se professor efectivo. Elabora uma lista de preferências que abrange escolas não só do continente como também da Madeira e dos Açores. Curiosamente é colocado numa escola dos Açores e também na Escola Secundária de Alenquer. Opta por esta última e aí vem a conhecer, depois de um percurso sentimental cujos pormenores não divulgamos (há, apesar do que se nas cadeias televisivas, segredos e "propriedades privadas"), uma colega de Matemática com a qual casará, o casamento de Gualter é fruto de uma decisão voluntária baseada em certos motivos e por isso podemos conside-lo um acto livre. Não é algo que simplesmente lhe acontece, mas um acontecimento que resulta da intervenção da sua vontade. E, contudo, esse acto voluntário foi condicionado por decisões anteriores que não o visavam directamente. A decisão de frequentar o curso de História e, posteriormente, de ser professor, desencadeou uma série de efeitos completamente imprevisíveis. O jogo da liberdade e das circunstâncias conduziu Gualter a escolher casar com uma colega de profissão. Há uma série de acontecimentos intencionais de acções, de opções - que possibilitaram essa decisão voluntária sem a quererem, sem a projectarem no seu horizonte.
Em suma, ao realizar uma acção desencadeio uma série de efeitos e de situações que implicam opções e decisões - que não estavam previstas, As consequências da minha decisão de realizar, por exemplo, um curso de Direito não acabam quando concluo esse curso. A liberdade humana não é absolutamente transparente, não é perfeitamente dona de si.