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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Kierkegaard e o caso Abraão


Kierkegaard e o caso Abraão
Abraão é a figura bíblica que para Kierkegaard simboliza o que é ser verdadeiramente indivíduo ou autenticamente cristão. Ele é o exemplo paradigmático do homem religioso. O «caso Abraão» permite-nos compreender, segundo Kierkegaard, que a interioridade nem sempre se pode traduzir em termos exteriores, que ela é, em muitos casos, vocação profunda que nos deixa absolutamente sós com nós próprios e com Aquele em que acreditamos. Dado o seu carácter excepcional, Abraão não é o paradigma do homem ético: para ele o Absoluto não é o universal, mas sim o Deus singular e pessoal com o qual dialoga.
Pela sua fé, Abraão sente-se obrigado a obedecer a Deus. Este ordena-lhe que sacrifique o seu filho Isaac. Se colocasse a lei moral acima de Deus, Abraão não acreditaria que tal ordem pudesse emanar de Deus. Contudo, como herói da fé, coloca a obediência a Deus acima de tudo. Ultrapassando o plano da moral pura e simplesmente humana, Abraão encontra-se a sós com a sua consciência, perante Deus. Para a sua decisão não há outra justificação senão a obediência a Deus.
No plano puramente moral, a sua conduta é absolutamente incompreensível e injustificável: aos olhos dos homens, Abraão seria um assassino. Perante Deus, na relação absoluta, puramente individual e interior com o Absoluto, Abraão é um crente. Existe assim uma «suspensão teológica» da ética porque se dá, na fé, uma relação absoluta (não mediada pela lei moral) entre o indivíduo e Deus. Este é a «excepção absoluta» que justifica essa excepção que é a fé, ou seja, o sentir-se acima de tudo um indivíduo obrigado a obedecer a Deus.
Nesta relação pessoal, interior e privada com Deus, o indivíduo, que estava habitualmente submetido ao geral, é-lhe agora superior, reivindica a sua individualidade, deixa de ser um indivíduo entre outros para se tornar único, porque é único para Deus. É pela fé que' o homem se realiza como indivíduo.
 O sacrifício que Deus lhe exige deixa Abraão irremediavelmente só com a sua vontade de crente. Não há lei moral que lhe possa valer, porque aquele que acredita verdadeiramente em Deus sabe que as suas ordens são absolutas e não podem ser medidas pelos padrões da razão humana.
A experiência de Abraão, o Cavaleiro da Fé, é um drama que o indivíduo (Abraão) vive no mais profundo da sua alma, escapando à percepção dos outros. Dá-se, assim, na experiência da fé, na vivência religiosa, a revelação da «interioridade escondida», a revelação da absoluta singularidade do indivíduo. O homem da fé está irremediavelmente só perante Deus e, assim, realiza, crendo até aos limites do absurdo, a sua individualidade e espiritual idade.
A fé comporta um factor de risco que revela a grandeza, a finitude e a dependência daquele que crê. O homem de fé entrega-se nas mãos de Deus, compreende de uma forma aguda que não é o autor de si mesmo. Pela grandeza daquilo em que se crê se mede a grandeza do homem. Aquele que crê em Deus é o maior de todos.
Nota-se aqui uma profunda diferença entre Kant e Kierkegaard. O homem ético, segundo Kant, aproximava-se de Deus na medida em que obedecia à lei moral. Esta era um absoluto. No fundo, não havia outro dever, segundo Kant, a não ser o de obedecer à lei moral. Perante esta autonomia e absolutização da lei moral, Kierkegaard reivindica o dever absoluto de obedecer a Deus. Não quer negar o valor da lei moral, mas simplesmente subordiná-la ao dever absoluto do homem de obedecer a Deus. Perante este dever absoluto para com o Absoluto a lei moral toma-se algo relativo.
«O paradoxo da fé consiste precisamente em que o indivíduo é superior ao geral, de modo que o indivíduo determina a sua relação com o geral pela sua referência ao Absoluto e não a sua referência ao Absoluto pela sua relação com o geral.»
A moral, ao contrário do que sucedia em Kant, subordina-se à religião, à fé não racional. O que Kierkegaard rejeita é uma moral autónoma ou imanente à maneira de Kant. A moral surge da relação essencial do homem com Deus. Não se trata, contrariamente ao que parece, de aboli-la mas de 'suspendê-la' como auto-suficiente e encerrada em si mesma. Ela é abertura a Deus como seu autêntico fundamento. Só Deus é o autêntico absoluto e obedecer-lhe é realizar o autêntico dever moral
Muitos teólogos e moralistas constituíram a figura bíblica de Abraão como modelo de fé, dada a sua fidelidade incondicional a Deus. Contudo, numerosas objecções quanto à moralidade ou exemplaridade do «caso Abraão» fizeram-se ouvir. Uma delas, publicada por Patrice Larroque, um ateu, em 1860, na obra Examen critique des doctrines de la religion chrétienne, dá o tom geral dessas críticas:
«Deus ordena a Abraão que vá imolar o seu jovem filho Isaac numa montanha. Imediatamente, Abraão dirige-se para o local indicado com a vítima. Vai executar a terrível ordem quando um anjo enviado por Deus o faz parar. Então, em vez de Isaac, seu adorado filho, Abraão sacrifica um cordeiro. Abraão é louvado e abençoado por ter obedecido imediata e cegamente. Esta história que nos dizem muito edificante é-o excessivamente pouco. Podemos perguntar o que é mais imoral, se a ordem que Abraão recebe ou a rapidez ou prontidão com que este se dispõe a executá-la. O facto de um pai matar o seu filho, e um filho inocente, seria um crime de primeiro grau. Esse facto não mudaria de natureza quer fosse executado numa montanha ou numa planície, quer fosse ordenado por Deus ou por um homem; com efeito, as acções são boas ou más pela natureza das próprias coisas e não pela vontade divina.
Diz-se que Deus queria somente pôr à prova a obediência de Abraão: Deus tinha a intenção de impedir a consumação do sacrifício que ordenava, como o acontecimento o prova. Tal justificação dá nisto: 'Deus fingia querer o sacrifício que ordenava e que se propunha impedir'. Para além de dissimular e de se divertir a brincar com um homem crente como Abraão, Deus comportar-se-ia como um daqueles tiranos
que exigem dos seus escravos que estejam sempre prontos, ao menor sinal, a fazer tanto o bem como o mal, dando assim prova de uma submissão absoluta e de uma obediência cega.»

A estas objecções a teologia racional procurou de imediato contrapor-se. Ei-las já claramente expostas e antecipadas em 1789 pelo abade Bergier:
«Isaac tinha 25 anos quando Deus, para pôr à prova Abraão, lhe ordenou que imolasse o seu filho. À primeira vista esta ordem parece indigna de Deus, mas o soberano senhor da vida e da morte pode encurtar ou prolongar os nossos dias como bem quiser. Se, por acidente ou por doença, tivesse terminado com os dias de Isaac, Abraão teria tido o direito de murmurar? Na verdade, um sacrifício de sangue humano teria sido um muito mau exemplo. Assim, Deus não permitiu que ele se consumasse.
Contentou-se com o facto de Abraão se ter disposto a obedecer sem reticências e redobrou as benesses com que já cumulara o Patriarca. Dir-se-á (objectar-se-á) que Deus, conhecendo o fundo dos corações e que, dada a sua omnisciência, prevê os nossos sentimentos futuros com tanta certeza como as nossas disposições presentes, não teria necessidade de submeter Abraão a uma tal prova. Isso é verdade; mas Abraão tinha de ser submetido a uma tal prova e o género humano tinha necessidade deste exemplo, para se aperceber de que Deus tem o direito de exigir de nós, quando lhe aprouver, sacrifícios heróicos, porque é suficientemente poderoso para os recompensar.
É, portanto, com razão que as Escrituras Sagradas elogiaram a fé e a coragem de Abraão, propondo-o como modelo; ele acreditou que Deus, que tem o poder de ressuscitar os mortos, faria antes um milagre em vez de faltar às suas promessas.»
[Abbée Bergier, Dictionnaire de théologie.]
Supondo que Kierkegaard conhecia estas objecções e estas defesas do «modelo Abraão», podemos, pelo que já sabemos, imaginar a sua reacção. Quanto ao autor ateu das objecções, Kierkegaard responderia que quem não crê em Deus não existe verdadeiramente e que existir autenticamente é crer apaixonadamente, de forma absoluta ou incondicional.
Aos teólogos racionalistas responderia que não sabem o que é ter fé em Deus. O seu veredicto seria radical: se Abraão tivesse calculado, raciocinado - como eles pensam que raciocinou -, em vez de obedecer absoluta e incondicionalmente, não seria o «Cavaleiro da fé», o símbolo da autêntica vivência religiosa. Abraão é o verdadeiro crente, acredita contra toda e qualquer razão, porque acreditar em Deus é acreditar no Desconhecido, no Incompreensível. Abraão deu prova de uma fé profunda porque não se apoiou em nenhum argumento, em nenhum cálculo.
Duvidou profundamente do sentido dessa ordem mas obedeceu, entregou-se, abandonou-se à incompreensível vontade de Deus porque isso é que define o autêntico crente: o paradoxo de navegar com confiança e ao mesmo tempo cheio de dúvidas no mar infinito da incerteza. o que deve reter o cristão do «Caso Abraão»? Que a fé é a relação com o infinitamente incompreensível e que a própria resolução de Abraão é tão impenetrável e incompreensível como a existência e a vontade de Deus. Crer não tem nada a ver com comentar «profissionalmente» a Bíblia porque, além de fé artificial ou rotineira, isso é fazer da palavra de Deus um negócio.
Para Kierkegaard a fé conduz o homem para lá da razão e de qualquer possibilidade de compreensão. A fé começa precisamente onde a razão acaba. Para crer autenticamente há que ultrapassar o plano da racionalidade e «dar razão» ao absurdo. Neste sentido, Kierkegaard adopta o que Tertuliano afirmara: «Credo quia absurdum», A fé apresenta-se como um paradoxo e um escândalo não assimiláveis pela razão, mas permite ao indivíduo religioso afirmar Deus e afirmar-se apaixonadamente a si mesmo.
A fé, como entrega apaixonada a Deus, ultrapassa os limites da razão. Abraão não raciocina:
«Não faz sentido, é absurdo, que Aquele que disse aos homens 'Não matarás' me mande matar e, escândalo dos escândalos, o meu filho, dádiva desse mesmo Deus.»
Crer em virtude do absurdo é um risco, entregar-se totalmente a Deus é um acto de coragem, já que os desígnios de Deus são insondáveis e o homem depende completamente da graça divina.
Mas acreditar é também ter confiança. Por isso a fé vence o desespero. Contudo, esta fé vitoriosa é simplesmente uma certeza interior ou subjectiva que está perfeitamente aliada à incerteza objectiva: não há garantias objectivas de que a fé nos salve. Simplesmente «tomamos isso por verdadeiro» e vivemos intensamente essa verdade subjectiva e imediata, não racional porque indemonstrável.
Kierkegaard acentua e exalta a grandeza e o risco em que a fé consiste. O 'Cavaleiro da fé' não conhece o repouso, a sua fidelidade é constantemente submetida a provas. O 'Cavaleiro da fé' é o indivíduo e unicamente o indivíduo que, sozinho na imensidade do universo, jamais ouve uma voz humana, caminhando sozinho com a sua enorme responsabilidade. Não tem outro apoio senão ele mesmo, sofre
por não poder fazer-se compreender, mas não sente nenhuma necessidade de chegar aos outros. É uma testemunha e não um mestre. A sua solidão não significa, contudo, que seja um eremita, um ser isolado do mundo. Enquanto crente vive incógnito (a fé é uma vivência interior, incomunicável), mas quanto ao seu aspecto exterior é um homem comum, como muitos outros.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Kierkegaard: A Existência Autêntica é Relação com Deus


Kierkegaard: A Existência Autêntica é Relação com Deus
Kierkegaard nasceu em Copenhaga (Dinamarca), Educado num clima familiar de religiosidade austera e severa, a sua obra é profundamente influenciada pela concepção protestante sobre o pecado e a predestinação. É considerado o precursor daquilo a que se chama "filosofia da existência" na medida em que, valorizando o indivíduo, reage contra qualquer tentativa de encerrar a existência nos estreitos limites de um sistema racional. O essencial da reflexão filosófica é, para ele, a questão da destinação do homem, Procura superar o absurdo da existência humana recorrendo à fé, entendida como aposta pessoal no Sentido (em Deus) e como remédio para o desespero da vida, Salientando que há várias respostas para a questão do sentido da existência (estética, ética e religiosa), a obra de Kierkegaard constitui uma defesa apaixonada da religiosidade autêntica como única forma de dar verdadeiro sentido ao homem e à sua vida. Angustiante e problemática, a relação com Deus ou o Desconhecido (a fé é essa relação) confere o máximo sentido à existência humana, Esta relação com Deus não depende de certezas racionais, É mesmo uma aposta contra a razão confiar no Desconhecido mediante uma decisão pessoal, única e irrepetível.
OBRAS FUNDAMENTAIS: Temor e Tremor, Ou.: Ou, O Desespero Humano, o Banquete, O Conceito de Angústia.

A reflexão de Kierkegaard sobre a existência é marcada por uma queso religiosa fundamental para o filósofo dinamarquês: "Como ser autenticamente cristão?". Indignado com a superficialidade, a falta de seriedade e a tranquilidade rotineira segundo as quais o Cristianismo - a mensagem e o exemplo de Cristo - era vivido no seu tempo" Kierkegaard expõe uma interpretação da existência humana que salienta as seguintes ideias fundamentais:

a)       A existência humana só é verdadeira e autêntica se for relação com Deus. Sem essa relação o homem desperdiça a sua vida e condena-se ao desespero absoluto.

Para Kierkegaard, ser cristão é viver imitando Cristo, seguir o seu exemplo e não simplesmente admirá-lo. Ora, o que nos ensina Cristo? O amor e a submissão absoluta à vontade de Deus. O Cristianismo entendido verdadeiramente é, não uma doutrina, mas uma forma de vida terrivelmente exigente que não admite que as coisas deste mundo tenham precedência sobre Deus.
Tudo o que faz com que Deus passe para segundo plano é traição ao Cristianismo. As igrejas, ao procurarem facilitar a vida dos homens, consolando-os e diminuindo-lhes a angústia, "brincaram ao Cristianismo", falsificaram-no. O Cristianismo não é uma doutrina para resolver os problemas deste mundo mas a impaciência angustiada da vida eterna no outro mundo. As igrejas, e em especial a dinamarquesa, fizeram do Cristianismo um necio, transformaram-se em empresas lucrativas de viagens para a eternidade que só se salvam do descrédito porque não temos notícias dos "passageiros".

b)       Essa relação com Deus (a que Kierkegaard dará o nome de fé) só terá autenticidade se for absoluta, isto é, se Deus estiver sempre em primeiro lugar, tornando-se tudo o resto secundário.

Sendo esta a forma de existência autêntica - a vivência religiosa genuinamente cristã -, Kierkegaard refere-se também às formas de vida estética (centrada no prazer) e ética (centrada no dever), não só para, por contraste, explicitar o que caracteriza e distingue o homem religioso, mas também porque são formas de existência alternativas que o homem pode escolher como finalidades da sua vida.
Às formas de existência estética, ética e religiosa dá Kierkegaard o nome de "estádios no caminho da vida". Estes "estádios" designam determinadas concepções acerca do mundo e da vida, traduzem opções fundamentais quanto ao modo como cada homem decide viver a sua vida.
Vejamos então o que define cada um desses estádios para melhor compreender como, para Kierkegaard, a existência humana não tem verdadeiro sentido se não girar em torno de Deus.
1.O Estádio Estético
o homem estético orienta a sua vida pelo "princípio do prazer", isto é, pela procura do prazer, do que é agradável aos sentidos. O modelo do homem estético é o Sedutor, o Don Juan. Mas, embora o prazer da conquista e do gozo sexual seja o mais intenso e o mais procurado, a vida estética pode também consistir na entrega a fins temporais como o poder e o dinheiro.
O que há de comum entre os diversos indivíduos com preocupações diferentes para que consideremos que adoptam uma forma de vida estética?
Vivem para o momento imediato, para o instante que passa e, identificando a repetição com o aborrecimento, rejeitam voltar a fazer a mesma coisa. O homem estico é dominado pela imaginação e pela fantasia: sonha com estados de alma sempre novos, desejando que cada experiência agradável seja uma absoluta novidade. Para ele, a arte de viver consiste em escapar à monotonia do "já visto". Esta obsessão pela novidade, pela diferença, implica uma mudança constante e a negação de qualquer compromisso ou fidelidade seja a uma mulher, seja a valores morais e religiosos, seja a um ideal social e político. Tudo isto, mais instituições como o casamento, a família e uma ocupação profissional rotineira, são insuportáveis, impõem restrições, reprimindo a procura do prazer (que se pretende indefinida). Este amor à novidade tem o seu reverso: a satisfação do prazer em determinado caso é sempre seguida pela insatisfação. A dinâmica incessante do desejo, o querer que seja sempre mais intenso, transforma cada desejo satisfeito em melancolia e aspiração a nova experiência satisfatória. Múltiplas experiências, dispersão na procura do prazer e permanente insatisfação com o prazer atingido, eis o que caracteriza a figura que melhor representa este estádio: o sedutor D. Juan, que termina no desespero e na perdição. À medida que o homem que assim vive se torna consciente da futilidade e inconsistência da sua vida e deixa de valorizar uma existência determinada pelas inclinações e caprichos sensoriais, o desespero instala-se.
A existência estética é essencialmente divertimento e amor à novidade. A fantasia predomina sobre a razão e a vontade. Guiado pela fantasia, o homem estético abraça as riquezas, as honras e os prazeres, sendo irresistivelmente atraído por prazeres imaginados como sempre mais intensos. Evita pensar sobre si mesmo, não se concentra em si, mas nos seres e nas coisas que o podem satisfazer e que, mais tarde ou mais cedo, o desiludem. A vida do homem estético é uma vida à deriva, cujo centro reside na periferia de si mesmo. O "esteta" não é senhor de si mesmo: a sua existência é governada por contingências externas.
2. O Estádio Ético
o homem ético é orientado pelo princípio do dever. Ao contrário do homem estético, não pretende estar "além do bem e do mal". Não quer ser excepção, deseja sentir-se integrado na sociedade em que vive, respeitar as normas e os padrões comuns: reconhece como sua a moral comum porque o mais importante para ele é sentir-se ligado aos outros homens. O homem ético constrói a sua identidade identificando-se com as normas ou princípios com os quais a maioria dos homens se identifica.
A uma vida caracterizada pela descontinuidade e instabilidade prefere uma vida consistente, marcada pelo compromisso empenhado nas escolhas realizadas. A vida para o homem ético é, não uma sucessão desconexa de instantes, mas algo que a partir do presente se projecta no futuro, sob a forma de conjunto organizado e planificado.
O estádio ético implica a renúncia às atracções passageiras, aos caprichos do impulso sensual, aos interesses egoístas e aos devaneios da fantasia. Viver de forma ética não é fácil e, por vezes, enormes sacrifícios são exigidos, a tal ponto que o homem que age por dever, nessas circunstâncias, é denominado por Kierkegaard "herói trágico". A título de ilustração, Kierkegaard refere-se a um herói mítico: Agamémnon. Comandante da frota grega a caminho do cerco de Tróia, Agamémnon vê-se impossibilitado de navegar por falta de vento. Lançaram – se dados à sorte para determinar (adivinhar...) quem seria responsável pela desgraça e, para desespero de Agamémnon, calhou a sua filha Ifigénia. Era seu dever supremo sacrificá-la para bem do seu país, para os barcos navegarem de novo. Diz Kierkegaard que grande força moral foi necessária a Agamémnon para colocar acima do seu dever como pai o seu dever para com a sua pátria.
Contudo, o protótipo ou o modelo do homem ético é o homem que aceita o compromisso do casamento. Para Kierkegaard, o homem casado é aquele que realiza uma escolha e pretende fazer dessa opção uma escolha definitiva, transformando o amor presente em amor de toda uma vida. Escolheu um caminho - cumprir o dever de respeitar o compromisso assumido com quem casou e satisfazer as expectativas da sociedade e da moral estabelecida no que respeita à criação e educação dos filhos. Para o homem casado é essa a opção fundamental da sua vida, aquilo que lhe dá sentido.

À leviandade, egoísmo e falta de escpulos do homem estético - toda a escolha é relativa, embora momentaneamente vivida como absoluta - sucede a fidelidade que se quer eterna: os esposos seriam os eternos e fiéis enamorados que triunfariam sobre o tempo, vivendo um amor estável como se ele fosse sempre um novo amor. Mas, aos olhos de Kierkegaard, isto o passa de idealização que não resiste à realidade:
"O hábito, o indefectível hábito, a cruel monotonia, a sempiterna uniformidade faz da vida doméstica e conjugal um insuportável marasmo. " (Post-Scriptum)
A análise, pouco lisonjeira, que Kierkegaard faz do casamento permite-nos compreender as limitações e insuficiências que aponta à forma de vida ética em geral.
Ao frenesim da vida estética o homem ético prefere a estabilidade e, em muitos casos, opta pelo casamento como amor livremente escolhido e baseado no dever. Pretende essa escolha como absoluta e definitiva, mas o objecto da sua escolha nada tem de absoluto, é finito. No plano das relações e das coisas humanas tudo tem o seu tempo, tudo é precário e imperfeito.
Para Kierkegaard nada há neste mundo que satisfaça o desejo humano de absoluto ou que possa ser objecto de uma dedicação absoluta (que dê à vida um sentido pleno). A vida estética e a vida ética nada mais são do que falsos substitutos do sentido último da vida humana.
A desenfreada procura do prazer e a dedicação empenhada às normas morais socialmente aceites e transmitidas são, segundo Kierkegaard, máscaras que escondem o homem da verdade sobre si mesmo. Essa verdade resume-a Kierkegaard nas seguintes palavras: sem Deus o homem está condenado ao desespero.
3. O Estádio Religioso
O homem religioso é aquele que coloca Deus acima de tudo, considerando a relação com Deus como a relação fundamental da sua vida. A vivência religiosa, no seu significado genuíno, implica a subordinação de todos os fins temporais e finitos à finalidade suprema: cumprir absolutamente a vontade divina, ser um seguidor de Cristo.
Apesar das diferenças que os separam, os homens estético e ético caracterizam-se pelo facto de encerrarem a sua vida nos estreitos limites do tempo. Não são relação com Deus porque, propriamente falando, a vida temporal, "este mundo", é o horizonte da sua existência.
O homem estético coloca acima de tudo o prazer e o homem ético o dever, entendido como o conjunto de regras socialmente estabelecidas e genericamente reconhecidas.
Para muitos seres humanos o problema fundamental da existência consiste na realização profissional, na luta por um ideal político ou social, na aquisição de poder, dinheiro e honras, na procura e satisfação de prazeres sensoriais mais ou menos sofisticados, no dever moral de criar, educar e preparar o futuro dos filhos, etc.
Para Kierkegaard, o problema fundamental da vida humana é o da salvação eterna – ser redimido como pecador. Compreende-se, nesta perspectiva, que o filósofo dinamarquês afirme que a relação central do homem não possa ser a relação com os seus semelhantes', mas sim com Deus. Deus pode salvar porque só perante ele - contra a sua vontade - o pecado (entenda-se: o pecado original) foi cometido. De onde pode vir a salvação ou a redenção? Da fé. A fé é precisamente a relação - pessoal, privada e solitária - com Deus. Ora, para Kierkegaard, a fé é um paradoxo: traduz uma confiança absoluta num ser que nos é absolutamente Desconhecido. Por isso, nada nos garante que a fé em Deus nos salve. Confiamos em Deus, mas, como não podemos conhecer o destino que nos reserva, a fé é uma aposta angustiada no Desconhecido, a submissão a uma vontade que excede a nossa razão e a nossa compreensão.
Nesta ordem de ideias, ela é uma aventura no mar infinito da incerteza que não sabemos nunca se chegará a bom termo. O drama fundamental da condição humana é, para Kierkegaard, precisamente este: o nosso destino joga-se na confiança que depositamos no Desconhecido. É fácil ver que a fé segundo esta concepção nada tem de tranquilizador ou confortável: o temor e o tremor nunca abandonam o crente. E não há intermediários possíveis: só Deus pode julgar-nos e só a ele prestamos
contas.
A fé é, em grande parte, sofrimento. E não só porque a incerteza reina, mas também porque colocar Deus acima de tudo provoca a incompreensão dos outros e o confronto com muitas das coisas que neste mundo estão instituídas.
Por vezes, a resposta ao "apelo de Deus", a convicção de que o único dever absoluto é para com Deus, cria situações de conflito com a moral convencional ou estabelecida, causando estranheza e reprovação naqueles que a esta se conformam.
Por exemplo, São Francisco de Assis, decidiu colocar a sua vida ao serviço de Deus, repudiou o seu pai perante os que se encontravam à entrada da catedral de Assis. De acordo com a moral instituída tinha o dever de obedecer ao seu pai (que se opunha à sua escolha), mas "rejeitou-o" em favor do que considerou o dever supremo: responder ao "chamamento" de Deus. Se para o autêntico crente a relação com Deus é a relação mais importante, ela exige, algumas vezes, que em nome da vontade divina se ignore o que moralmente é reconhecido e aceite pela sociedade, isto é, o código moral vigente. Nessas situações dramáticas - como a de S.Francisco de Assis- o dever absoluto para com Deus "suspende" a moral estabelecida.
Quem opta por Deus, desvalorizando as coisas deste mundo e colocando em segundo plano, quando necessário, os laços familiares e as relações humanas em geral, é o autêntico crente. Seguindo esse caminho, espera-o uma tarefa árdua, desconfortável e poucos estarão dispostos a não ser como a maioria dos homens.
Nem esmolas, nem peregrinações, nem confissões podem salvar-nos. A fé em Deus consiste simplesmente em cumprir a sua vontade e a(s) Igreja(s) não é necessária para que isso aconteça.
 O que Kierkegaard denomina existência religiosa ou a "religiosidade" do estado religioso nada tem a ver com a religião estabelecida, tranquila, rotineira. Ataca de forma violenta os padres, esses "canibais antropófagos" que se alimentam como abutres dos "mortos magníficos" (Cristo, os apóstolos, os mártires), tal como os praticantes domingueiros, cuja fé é o cumprimento, sem empenhamento interior, de certos rituais. "Toda a (autêntica) religiosidade releva da subjectividade, da interioridade". A religiosidade autêntica é a "religiosidade do paradoxo". Ela consiste, para o crente apaixonado, em fundar sobre um facto histórico uma felicidade eterna, ou seja, em crer - contra toda e qualquer razão - na felicidade eterna anunciada paradoxalmente pela encarnação de Deus ou do Eterno num dado momento da história. O indivíduo que vive verdadeiramente a fé, ou seja, com "temor e tremor", numa
relão pessoal, íntima e extraordinária com Deus, desfruta desta felicidade aqui na Terra, na sua interioridade, quaisquer que sejam as atribulações da sua existência.
Para Kierkegaard, a própria Igreja Cristã tem contribuído para tornar Deus irrelevante e quase inexistente. Com efeito, habituou os crentes a pensar que ser cristão é cumprir certas formalidades (baptismo, comunhão, regular assistência à missa e dar também regularmente dinheiro para manter o pado de vida dos padres) e que isso basta. Pouca diferença faz de ser sócio de um clube. Na perspectiva de Kierkegaard, a Cristandade (a Igreja institucionalizada) esqueceu a mensagem de Cristo, transformou a vida "segundo Cristo" numa série de rituais vazios e domingueiros, quando a fé é interioridade, relação solitária, empenhada e difícil com Deus, o único que nos pode condenar ou redimir.

Mas é isso o que impõe a mensagem de Cristo: ninguém pode estar em relação com Deus e nas boas graças da multidão, da ordem estabelecida.
Em suma, o homem é uma realidade na qual confluem dois vectores: o tempo e a eternidade, o finito e o infinito. Para Kierkegaard, é um ser temporal no qual a eternidade vive porque, tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, tem em si a marca da infinitude: Deus é a raiz do seu ser. Aqueles que não respondem ao apelo do Infinito, que procuram no plano do finito substitutos seguros e confortáveis para a relação com Deus ou o Infinito, desperdiçam a sua existência, fogem à verdade fundamental: a existência humana não tem sentido cabal e pleno neste mundo, não pode reduzir-se à estrita ligação ao finito.