sábado, 9 de julho de 2011

As Condicionantes da Liberdade


As Condicionantes da Liberdade
A liberdade humana, na perspectiva de quem acredita que escolhemos realmente o que fazemos, é a capacidade de realizar aquilo que depende da nossa vontade tendo em conta os limites próprios da nossa condão.
Há limites absolutamente óbvios: é-me impossível ir de Lisboa a Washington em cinco minutos; não posso estar na sala de aulas e na praia ao mesmo tempo; a nossa vida começa sem nós, no sentido em que é o resultado de uma decisão e união que nos antecede absolutamente; não posso voltar a viver o que esvivido, não posso deixar de ter feito o que fiz (é o chamado fenómeno da irreversibilidade do tempo); é inevitável o desgaste físico, o declínio da vitalidade e finalmente a morte. A liberdade exerce-se nesse espaço de tempo que decorre entre o nascimento e a morte: não está em nosso poder evitar nascer ou evitar morrer.
Devemos, antes de aprofundar os limites da liberdade, notar que se a nossa liberdade está condicionada isso não significa necessariamente que esteja determinada.
Estar condicionada significa que não sou totalmente livre, mas conservo a liberdade suficiente para saber que, em muitos casos, sou responsável pelos meus actos. Estar determinada implica negar qualquer possibilidade de ser livre.
As Condicionantes Biológicas da Liberdade
Somos, em certa medida, o que trazemos connosco. Por outras palavras, somos portadores de uma herança biológica determinada, de um património genético que, não constituído por nós, nos é dado e condicionará positiva ou negativamente a nossa existência. Essa bagagem biológica que herdámos delimita e circunscreve a amplitude das nossas escolhas e o alcance dos nossos actos: uma frágil constituição física impedir-me-á de ser o basquetebolista ou o atleta cujas proezas admiro, orientando-se as minhas escolhas e projectos noutra direcção.
Mas a hereditariedade não é destino: condiciona o nosso comportamento, mas não nos transforma em autómatos. O texto seguinte ilustra o que acabamos de dizer.
Imaginemos, no que respeita à inteligência, que o getipo de uma criança indica a predisposição para ter uma inteligência média.
Suponhamos alguns cenários possíveis de desenvolvimento da criança. Comecemos por supor que cresce e é educada num meio económica e culturalmente pobre e intelectualmente muito pouco estimulante: os pais ignoram a criança e o meio é muito carenciado quanto a livros e outros instrumentos de aprendizagem. A criança, dadas as limitações do seu meio, provavelmente desenvolverá uma inteligência abaixo da média.
Suponhamos outra situação: a mesma criança, com o mesmo genótipo quanto à inteligência, cresce e é educada num meio que podemos considerar médio ou normal (existem livros, outras fontes de estimulação intelectual e os pais dedicam atenção à criança). É muito provável que a criança desenvolva uma inteligência de tipo médio.
Suponhamos finalmente outro cenário: a mesma criança é educada e criada num meio sob vários aspectos bastante favorecido (os pais são bastante activos na estimulação intelectual da criança, os livros são cuidadosamente escolhidos e para além do curculo normal a criança estuda, por exemplo, uma ngua estrangeira e utilizações informáticas). É muito provável que esta criança desenvolva uma inteligência acima da média, o que não significa que se transformará numa criaa intelectualmente brilhante.
A conclusão a retirar deste exemplo é óbvia: um mesmo genótipo pode conduzir a três possíveis fenótipos distintos - um se realizará - dependendo do nível de estimulação intelectual característico do meio.
Robert V. Kail, Children and their development Prentice-Hall, p. 45

                                    GENÓTIPO
                               FENÓTIPO
Conjunto de predisposições e de tendências para apresentar certas características. É o conjunto de potencialidades que herdamos no momento da concepção e que podem, umas mais do que outras, vir a ser influenciadas por condições ambientais como a educação que recebemos e o meio social e económico em que somos criados.

Conjunto de caractesticas que um indivíduo realmente apresenta e que dependem do seu material hereditário,
das influências ambientais e do modo como o indiduo assimila e interpreta as
experiências que vive.







As Condicionantes Sociais e Educativas
Nascemos num dado meio social, numa dada cultura. Somos socializados, integrados nesse meio sócio-cultural. Pela educação são-nos transmitidos valores, ensinam-nos a respeitar certas normas de comportamento e não outras. Somos então simples produtos do meio? O meio em que nascemos, a educação que recebemos, as crenças que adquirimos não nos determinam. São somente o enquadramento ou o cenário no interior do qual devemos decidir, são as condições que marcam e assinalam as possibilidades e os limites das nossas escolhas. Condicionam-nos, mas não nos determinam. Assim pensa quem defende a existência de livre – arbítrio.
O "Peso do Passado": o Jogo da Liberdade e das Circunstâncias
A liberdade em situação implica, como é óbvio, a "inscrição e circunscrão temporal dos nossos projectos, decisões, escolhas. Sabemos que o tempo para tudo e que não podemos determinar a
duração da nossa vida. Por isso mesmo só podemos realizar um reduzido mero de possibilidades e de projectos.
Muitas pessoas, atingida uma certa idade e analisando o que fizeram da vida que lhes foi dada, afirmam que poderiam ter sido muito diferentes daquilo que foram, mas reconhecem que já passou o momento oportuno para mudanças significativas. Como diz José-Luis Aranguren, "a nossa liberdade actual está condicionada pela história da nossa liberdade", pelas opções que tomámos, pelas possibilidades que escolhemos realizar, pelo que projectámos fundamentalmente fazer da nossa vida. Refazê-la é algo que, a partir de um certo momento, não é viável por causa dos compromissos, deveres ou obrigações que assumimos. A nossa liberdade vai tecendo uma teia que nos vai enredando, reduzindo assinalavelmente a nossa "margem de manobra". A morte fecha a história da liberdade, anula todas as possibilidades, transforma a vida em algo que, completamente feito e terminado, fica à mercê do juízo dos outros e da sua memória.
A limitação temporal da liberdade é também ilustrada pela impossibilidade de prevermos e de controlarmos as consequências e os resultados, a longo e a médio prazos, das nossas opções e decisões. Consideremos a seguinte situação: Gualter decide candidatar-se ao curso de História da Arte numa faculdade da capital. Passados quatro anos, em 1980 conclui a licenciatura e pondera várias opções profissionais a tomar. Decide experimentar a profissão de professor dos Ensinos Básico e Secundário. Gostaria de ser colocado numa escola próxima da zona em que vive, mas sabe que é pouco provável que esse desejo seja satisfeito e então elabora uma lista de escolas em que inclui prioritariamente aquelas próximas do seu domicílio (Alvalade) e, em seguida, outras, dispersas pela zona da Grande Lisboa. É colocado numa delas, mais concretamente na Escola Secundária Gago Coutinho, em Alverca. Após vários anos em que "circula" por diversas escolas, pretende alcançar maior estabilidade profissional e concorre aos lugares onde abriram estágios que lhe permitirão tornar-se professor efectivo. Elabora uma lista de preferências que abrange escolas não só do continente como também da Madeira e dos Açores. Curiosamente é colocado numa escola dos Açores e também na Escola Secundária de Alenquer. Opta por esta última e aí vem a conhecer, depois de um percurso sentimental cujos pormenores não divulgamos (há, apesar do que se nas cadeias televisivas, segredos e "propriedades privadas"), uma colega de Matemática com a qual casará, o casamento de Gualter é fruto de uma decisão voluntária baseada em certos motivos e por isso podemos conside-lo um acto livre. Não é algo que simplesmente lhe acontece, mas um acontecimento que resulta da intervenção da sua vontade. E, contudo, esse acto voluntário foi condicionado por decisões anteriores que não o visavam directamente. A decisão de frequentar o curso de História e, posteriormente, de ser professor, desencadeou uma série de efeitos completamente imprevisíveis. O jogo da liberdade e das circunstâncias conduziu Gualter a escolher casar com uma colega de profissão. Há uma série de acontecimentos intencionais de acções, de opções - que possibilitaram essa decisão voluntária sem a quererem, sem a projectarem no seu horizonte.
Em suma, ao realizar uma acção desencadeio uma série de efeitos e de situações que implicam opções e decisões - que não estavam previstas, As consequências da minha decisão de realizar, por exemplo, um curso de Direito não acabam quando concluo esse curso. A liberdade humana não é absolutamente transparente, não é perfeitamente dona de si.

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