sexta-feira, 10 de abril de 2015

DOSSIÊ SOBRE A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE THOMAS KUHN

DOSSIÊ SOBRE
A FILOSOFIA DA CIÊNCIA DE THOMAS KUHN

I
SÍNTESE DAS IDEIAS DE KUHN SOBRE A CIÊNCIA E A SUA EVOLUÇÃO




 TESES CENTRAIS


1. Não há atividade científica fora de uma comunidade de praticantes (comunidade científica).
2. Não há comunidade científica sem a adoção consensual de um paradigma pelos seus membros.
3. A atividade a que ao longo da história da ciência os cientistas mais frequentemente se dedicam tem o nome de ciência normal.
4. A longos períodos de ciência normal sucedem de vez em quando episódios revolucionários a que se dá o nome de revoluções científicas, ou seja, mudanças de paradigma.
5. Uma revolução científica traduz-se numa forma de ver o mundo inteiramente nova e incompatível com a forma de ver o mundo associada e determinada pelo paradigma anterior.



6. Sendo a expressão de formas incompatíveis de ver o mundo, os paradigmas são incomensuráveis.
7. Sendo incomensuráveis, não há acima ou fora de cada paradigma um critério ou medida comum que permita considerar que um é mais verdadeiro do que outro ou que é um espelho mais fiel da realidade.
8. Assim sendo, não se pode falar de progresso científico se por este entendermos um progresso contínuo e cumulativo em direção à verdade. Se pudermos falar de progresso, este é descontínuo, feito de algumas ruturas ou descontinuidades, de mudanças de paradigmas e não de transformação de um paradigma noutro.
9. A substituição de um paradigma por outro não obedece a critérios estritamente objetivos e racionais.

A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA













ESQUEMA DA EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA
Pré-ciência --------- Ciência normal ----------Ciência extraordinária ------------ Revolução científica --------- Novo período de ciência normal …………….
1. Pré-ciência. Período marcado pela ausência de consenso, dado não haver um paradigma partilhado.
2. Ciência normal. Período longo em que um paradigma – o contexto intelectual e tecnológico da prática científica – dá unidade à atividade dos praticantes de ciência. Os cientistas aplicam o paradigma para determinar que problemas resolver e como os resolver e também procuram ampliar o seu poder explicativo. Este período assume por isso um caráter cumulativo resultante da invenção de instrumentos mais potentes e eficazes, que possibilitam medições mais exatas e precisas, não procurando o cientista a novidade nem pôr em causa o paradigma.
3. Ciência extraordinária. Período de crise do paradigma vigente, dado que as anomalias a princípio detetadas e relativamente desvalorizadas persistem e que a sua gravidade ameaçam as bases do paradigma. Não basta a existência de anomalias – o próprio termo é significativo ‒ para que o paradigma vigente entre em crise. É necessário que as anomalias abalem a confiança no paradigma e suscitem a constituição de paradigmas alternativos. Da união em torno de um paradigma passamos à divisão. A crise pode ser resolvida de duas maneiras: 1. Ou se reformula e reajusta o paradigma continuando a trabalhar com ele; 2. Ou se abandona o paradigma substituindo-o por um novo.



4. Revolução científica. Período em que se dá a mudança de paradigma e a constituição de uma nova forma de ver o mundo incompatível ou incomensurável com a anterior. A transição de um paradigma para outro não é pois um processo cumulativo, mas uma rutura e uma aposta nas potencialidades do novo paradigma. Se não conseguir explicar melhor os fenómenos que derrotavam o poder explicativo do anterior paradigma, o novo não triunfará.




5. Novo período de ciência normal. Estabelecida uma nova forma de fazer ciência e dotados de um novo «mapa» para explorar e investigar a natureza, os cientistas regressam a uma atividade relativamente rotineira marcada pela preocupação em consolidar o novo paradigma e em ampliar a sua aplicação.
A INCOMENSURABILIDADE DOS PARADIGMAS



Não há um critério absoluto que permita medir ou aferir os méritos relativos de cada paradigma e decidir da sua maior ou menor verdade.
Enquanto nova forma de ver o mundo – nova mundivisão –, o paradigma triunfante estabelece uma nova forma de fazer ciência, definindo um novo conjunto de normas e de procedimentos, que questões são legítimas, como é apropriado resolvê-las e mesmo um entendimento diferente de conceitos anteriores. Mas o novo não triunfa sobre o velho porque é objetivamente melhor. Na verdade, os paradigmas são incomensuráveis: diferentes maneiras de ver o mesmo mundo instalam os cientistas em mundos diferentes. Assim, não pode haver uma forma objetiva, um critério neutro, exterior a cada paradigma, para dizer que, na passagem de um a outro, houve um avanço em direção à verdade. A verdade é sempre relativa a um paradigma, pelo que é impossível, dada a incomensurabilidade dos paradigmas, determinar se um é mais verdadeiro ou melhor do que outro.

A ESCOLHA ENTRE PARADIGMAS
Não há nenhum argumento a priori – nenhum critério objetivamente estabelecido ‒ que em certa medida obrigue um cientista a adotar um paradigma e não outro.
Apesar de Kuhn apresentar alguns critérios objetivos que podem tornar um paradigma preferível a outro – simplicidade, fecundidade, alcance e precisão explicativa –, a escolha entre paradigmas envolve vários fatores (psicológicos e sociais). Assim, mesmo os critérios   objetivos são objeto de apreciação e de interpretação condicionadas por gostos, convicções religiosas, etc. No caso do triunfo do paradigma de Copérnico, por exemplo, houve cientistas que foram atraídos pela sua simplicidade, outros que valorizaram a sua capacidade explicativa e outros ainda que o rejeitaram por motivos religiosos. Vários fatores – científicos e extracientíficos (gostos, preferências religiosas, poder político e mesmo preconceitos)  influenciam a escolha do novo paradigma.
Assim, a mudança de paradigma não obedece a critérios estritamente racionais e objetivos.


Não há aproximação à verdade na evolução da ciência porque não podemos determinar se um paradigma é superior a outro.
A ciência evolui, mas é muito discutível dizer que essa evolução se faz de forma estritamente racional e objetiva.

II
TEXTOS SOBRE KUHN

1
O que são os paradigmas
«essência de um paradigmconsiste eescapar a uma definição precisaNão obstante, é possível descrever alguncomponentes típicoquconstituem um paradigmaEntre eles encontram-se as leis explicitamente estabelecidas e os supostotécnicosAssimpor exemploaleido movimento de Newton formam partdparadigmnewtoniano e as equaçõedMaxwell formam parte do paradigmque constitui a teoria eletromagnética clássica. Oparadigmatambém incluirão amaneiranormaide aplicaas leifundamentaiaos diversotipode situaçãoPoexemplo, o paradigmnewtoniano incluirá os métodos paraplicar aleide Newton ao movimentplanetário, aopêndulos, aos choquedas boladbilhar, etcTambém se incluirão no paradigma os instrumentos e as técnicas instrumentainecessáriapara fazecom que as leidparadigma se refiram ao mundo realAssim, a aplicação em astronomia do paradigma newtonianexigia o uso de diversos tipoadequados dtelescópios, técnicapara a sua utilizaçãpara correção dodados obtidopor seu intermédio. Outro componente doparadigmas são algunprinpios metasicomuito gerais, que orientam o trabalhdos cientistas. Duranttodo o século XIXo paradigmnewtonianfoi regidpor um suposto fundamentacomeste: "Todo o mundfísico deverá seexplicado como usistemmecânico quatua soefeito ddiversas forças as quaiestão de acordo coque estipulaas leidmovimentde Newton"
Alan F. Chalmers, Ques esa cosa llamada ciênciaSiglo VeintiunEditores, pp129-139.
2
Exemplos de paradigmas
«A Física de Aristóteles, Almagest de Ptolomeu, Principia Opticks de Newton, Electricity de FranklinChemistry de Lavoisier e Geology de Lyellestas e muitas outras obras serviram, durante algum tempo, para implicitamente definir os problemas e métodos aceites como legítimos num campo de pesquisa para sucessivas gerações de praticantes. Fizeram-no porque partilhavam duas caraterísticas essenciais. As suas realizações eram suficientemente inauditas para atrair um grupo de partidários sólido das práticas de atividade científica rivais. Simultaneamente, permaneciam suficientemente em aberto para deixar toda a espécie de problemas para que os novos núcleos de praticantes opudessem resolver.
Às realizações que partilhavam estas duas caraterísticas chamareide ora em diante, "paradigmas", um termo que se relaciona intimamente com "ciência normal". Ao escolhê-lopretendo sugerir que alguns exemplos aceites de prática científica concreta ‒ exemplos que incluem conjuntamente lei, teoria, aplicação e instrumentação ‒ fornecem modelos de onde emanam tradições coerentes particulares de pesquisa científica.»

T. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutionsin Michael Ruse, O Mistério de Todos os Mistérios, Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2002, p. 35.

3
A importância dos paradigmas
«Uma disciplina, para ingressar no caminho da ciência, precisa de superar – no entender de Kuhn ‒ a guerra em que diferentes escolas se digladiam no seu interior, com o objetivo de se tornarem a única via (reconhecida) para o genuíno conhecimento. Vencida a fase da “guerra de todos contra todos”, típica da pré-ciência, nasce a ciência propriamente dita, cuja evolução tenderá a obedecer ao seguinte esquema: 
Ciência normal => Crise => Pesquisa extraordinária => Revolução => Nova ciência normal => Nova crise... 
Durante o período pré-paradigmático, é comum brotarem tantas teorias quantos os pesquisadores que trabalham na área, porque prevalece um total desacordo. Cada teórico vê-se como que obrigado a partir do zero, a começar tudo de novo, de modo a poder justificar o tipo de abordagem que adota. Há, nesse caso, uma manifesta dispersão dos esforços interpretativos a impedir que a pesquisa exiba avanços cumulativos. 
A transição da pré-ciência para a chamada ciência (normal) consuma-se quando a atividade de pesquisa desorganizada e dispersa que antecede a formação de um campo unitário de investigação passa a ser desenvolvida sob a égide de um paradigma aceite por toda a comunidade científica. A cientificidade pode, então, ser vista como um tipo de atividade explicativa que desenvolve pesquisas submetidas a princípios e pressupostos baseados num paradigma. 
Mas como se deve entender a noção de paradigma, vital à caraterização da cientificidade? Em The Structure of Scientific Revolutions, Kuhn não se empenha em veicular uma definição unívoca. Foi desorientadoramente prolífico. Uma das definições mais elucidativas é a que sustenta que: 
Os paradigmas são realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes. Física de Aristóteles, o Almagesto de Ptolomeu, Os Princípios e a Ótica de Newton, a Eletricidade de Franklin, a Química de Lavoisier e a Geologia de Lyell ‒ esses e muitos outros trabalhos serviram por algum tempo para definir implicitamente os problemas e métodos legítimos de um campo de pesquisa para as gerações posteriores de praticantes da ciência. 
A partir do momento em que uma forma de investigação tem força suficiente para definir que problemas são legítimos e que soluções são adequadas, cria um território para além de cujas fronteiras não se vai, como se nada além dele existisse. Ao pôr termo à contínua e improdutiva competição entre diversas conceções sobre um "objeto" ‒ por exemplo, sobre a luz, a eletricidade etc. , o paradigma dá início à fase da pesquisa convergente e unificada, cuja eficácia residirá em seu poder de enfrentar as seguintes questões: 
1. Quais as entidades fundamentais de que se compõe o universo? Qual a natureza da realidade? 
“Quem que se dedica a uma especialidade científica madura adere profundamente a uma maneira de considerar e investigar a natureza, que se baseia num paradigma. O paradigma diz que tipo de entidades constituem o universo e o modo como se comportam.” 
2. Que perguntas e que hipóteses explicativas podem ser legitimamente formuladas a respeito de tais entidades? 
3. Que técnicas podem ser utilizadas na procura de soluções para o tipo de problema definido como legítimo? A resposta especificará o método adequado para lidar com o que surge como merecedor de explicação. 
Com isso, fica claro que o método existe em função dos problemas escolhidos por cada ciência, que não há um método universal ‒ como o de conjeturas e refutações proposto por Popper ‒ a ser usado na escolha e abordagem dos problemas. Não é o método, pela força de seus procedimentos de avaliação, que cria o paradigma; o paradigma é que especifica as técnicas de investigação a serem utilizadas: 
“Homens cuja pesquisa se baseia em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas regras e modelos de prática científica.” 
Como não é o método que diz ao paradigma que problemas escolher, e sim o contrário, os problemas considerados relevantes pelos paradigmas são os únicos suscetíveis de serem considerados legítimos e dignos de atenção. 
“Outros problemas, inclusive muitos dos que eram antes vistos como importantes, são rejeitados como metafísicos, como de interesse de outra disciplina ou como demasiado problemáticos para merecerem dispêndio de tempo.” 
Se cabe ao paradigma definir, no âmbito de determinada disciplina, o que deve ser considerado autêntico problema, então não há um critério de cientificidade a regê-lo. O paradigma é a própria cientificidade: inaugura uma tradição consensualmente aceite, determina que problemas se devem considerar legítimos, que factos devem tornar-se objeto de investigação, etc. A atitude científica é inculcada ao longo do processo de aprendizagem do próprio paradigma; não é a vontade obsessiva de verificar ou falsificar teorias que vai tornar paradigmática uma investigação. Trabalhar sob um paradigma é submeter-se ao que ele determina que deve ser a prática científica, que problemas deve investigar e como o deve fazer. O pesquisador não cataloga os problemas em legítimos e irrelevantes em função de poder ter para uns soluções teóricas verificáveis (à moda empirismo lógico) ou falsificáveis (à maneira de Popper) e para outros só poder oferecer especulação metafísica.»
Alberto OlivaKuhn: o normal e o revolucionário na reprodução da racionalidade científica

4
A incomensurabilidade dos paradigmas
«Duas coisas são incomensuráveis se não puderem ser avaliadas por uma medida comum. De forma geral, em filosofia da ciência podemos afirmar que as teorias são incomensuráveis se as afirmações de uma não puderem ser avaliadas na linguagem da outra. Assim, não há um ponto de vista neutro a partir do qual se consiga uma avaliação dos méritos de uma teoria em comparação com os da outra. 
Um exemplo apropriado da incomensurabilidade entre termos é o do termo massa, que aparece tanto na mecânica clássica quanto na mecânica relativista e não tem o mesmo significado nas duas: na primeira denota uma propriedade intrínseca das partículas, e na segunda uma propriedade dessas em relação a sistemas de referência. Por mais que a velha teoria pareça reduzir-se formalmente à segunda, nela não está incluída porque o termo massa não designa nelas o mesmo conceito. Assim, ao não denotar a mesma propriedade, as duas teorias não compartilham o mesmo vocabulário observacional, de tal forma que fica impossível decidir entre elas mediante dados empíricos. A experiência não pode favorecer uma delas, e, se elegemos a mecânica relativista não o foi porque ela tenha sido confirmada pela experiência. 
Durante o período de transição, o antigo paradigma e o novo competem pela preferência dos membros da comunidade científica, e os paradigmas rivais apresentam diferentes conceções de mundo. Se novas teorias são chamadas para resolver as anomalias presentes na relação entre uma teoria existente e a natureza, então a nova teoria bem-sucedida deve permitir predições diferentes daquelas produzidas pela sua predecessora. Essa diferença não poderia ocorrer se as duas teorias fossem logicamente compatíveis. É nesse sentido que Kuhn emprega a expressão incomensurabilidade de paradigmas, cujo aspeto fundamental é que os proponentes dos paradigmas competidores exercem o seu ofício em mundos diferentes. Para sustentar a tese de que as diferenças entre paradigmas sucessivos são ao mesmo tempo necessárias e irreconciliáveis, Kuhn dá como exemplo a revolução científica que substitui o paradigma newtoniano pelo relativístico. Esta transição ilustra, segundo ele, com particular clareza a revolução científica como sendo uma transformação radical da forma como os cientistas veem o mundo. Para o autor, devemos superar a conceção de que a dinâmica newtoniana pode ser derivada (como um caso particular) da dinâmica relativista (comummente esta é a abordagem dos livros e das aulas nos cursos universitários de Física). Kuhn argumenta, entre outras coisas, que os referentes físicos dos conceitos einsteinianos não são de modo algum idênticos àqueles conceitos newtonianos que têm o mesmo nome: a massa newtoniana é conservada; a einsteiniana é convertível em energia. Por se tratar de uma transição entre incomensuráveis, a transição entre paradigmas em competição não pode ser feita passo a passo, por imposição da lógica e de experiências neutras. Por ter esse caráter, ela não é e não pode ser determinada simplesmente pelos procedimentos de avaliação caraterísticos da ciência normal, pois esses dependem parcialmente de um paradigma determinado e esse paradigma, por sua vez, está em questão. Quando os cientistas participam no debate sobre a escolha de um paradigma, cada grupo utiliza o seu próprio paradigma para argumentar a favor desse mesmo paradigma. Se houvesse apenas um conjunto de problemas científicos e um único conjunto de padrões científicos para a sua solução, a competição entre paradigmas poderia ser resolvida de forma rotineira, por exemplo, contando-se o número de problemas resolvidos por cada um deles. Mas, na realidade, tais condições nunca são satisfeitas completamente. Aqueles que propõem os paradigmas em competição estão sempre em conflito, mesmo que em pequena escala. Como, então, são os cientistas levados a realizar a revolução?
Embora, algumas vezes, seja necessário uma geração para que a revolução se realize, as comunidades científicas acabam por se converter a novos paradigmas. Alguns cientistas, especialmente os mais velhos e mais experientes, resistem tenazmente, mas a maioria deles pode ser convertida. Até que, morrendo os últimos opositores, todos os membros da profissão passarão a orientar-se por um único mas, agora, diferente paradigma.
Assim, para Kuhn, a natureza do argumento científico envolve a persuasão e não a prova. Os cientistas abraçam um paradigma por diversas razões que, em geral, se encontram inteiramente fora da esfera da ciência.
Kuhn acredita que o cientista que adota um novo paradigma precisa de ter fé na capacidade de este permitir resolver os grandes problemas com que se defronta. A crise instaurada pelo antigo paradigma é condição necessária mas não suficiente para que ocorra a conversão. É igualmente necessária a existência de fé no candidato a paradigma escolhido, embora não precise de ser, nem racional, nem correta. Em alguns casos, somente considerações estéticas pessoais e inarticuladas fazem com que alguns cientistas se convertam ao novo paradigma.»
Fernanda OstermannInstituto de Física, UFRGS Porto Alegre Rs

5
O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA
Paradigma e ciência normal
«Khun explica qua função do paradigma é hoje cumprida pelos manuais científicos, por meio dos quais o joveestudante é iniciadna comunidade científica. Antigamente cumpriram-na os clássicos da ciênciacomo a Física de Aristóteles, o Almagesto de Ptolomeu... Por essa razão, a astronomia ptolemaica (depois a coperniciana), a dinâmica aristotélic(depois a newtoniana) são todas paradigmáticas, a exempldo fixismo de Lineuda teoria da evolução de Darwiou dteoria de relatividade dEinstein.
Assim comuma comunidade religiosa podser reconhecida pelos dogmas específicos em quacredita ocomum partido político agrega os seumembros em torno dvalores e finalidades específicos, da mesma forma é uma teoria paradigmáticquinstitui uma comunidade científica que ninterior dos temas paradigmáticosrealiza o que Khun chama ciência normal. A ciência normaé a "tentativa esforçada e devotada de forçar a natureza dentro dos quadros conceptuais fornecidos pela educação profissional". Significa "a pesquisa estavelmente baseada em resultados alcançados pela ciêncinpassado, aos quais uma comunidade científica particular, por certo peoddtempo, reconhece a capacidade de constituir fundamentduma práticcientífica posterior".
E essa prática ulterior ‒ a ciência normal ‒ consiste etentar realizar as promessas do paradigmadeterminando os factos relevantes (para o paradigma), confrontando (por exemplo mediante medidas sempre mais exatas) os factos com a teoria, articulando os conceitos da própria teoria, ampliando os campos de aplicação dteoria. Fazeciência normal, portanto, significa resolver puzzles, isto é, problemas definidos pelo paradigma, que emergem dparadigmou que se inserem nparadigmarazão pela qual o insucesso da soluçãdum quebra-cabanão é visto cominsucesso dparadigmamamuito mais como o insucesso do pesquisador, que não soubresolver umquestão para a quao paradigma di(e promete) que existe soluçãoEssa solução é análoga à do jogador de xadrez quequando não soube resolver um problema e perde, pensa que isso aconteceu porque ele não é capaz e não porque as regras do xadrez não funcionam.
A ciência normalportanto, é cumulativa (constróos instrumentos mais potentes, efectuam- se medidas mais exatas, precisam-se os conceitos da teoria, amplia-steoria a outros campos, etc.o “cientista normal” não procura a novidade. Eno entanto, a novidade deve aparecer necessariamente pela razão dque a articulação teórica empírica dparadigma aumenta o conteúdinformativo dteorie, portanto, a exarisco do desmentido (com efeito, quanto mais se diz, mais se arrisca a errar; quenãdiz nadnunca erra; se dipouco, arrisca-se apenas a cometer poucos erros).»

G. Reale, D. Antisieri, História da Filosofia, EP (traduzido e adaptado). 

6
O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA
As revoluções científicas têm um fundo não racional
«Quando abraça um novo paradigma, a comunidade científica manipula o mesmo número de dados do que antes, mas inserindo-os em relações diferentes. Além disso, a passagem de um paradigma a outro, para Kuhn, é o que constitui uma revolução científica. Mas – é esse um dos problemas mais candentes suscitados por Kuhn – como ocorre a passagem de um paradigma para outro? Essa passagem realiza-se por motivos racionais ou não?
Pois bem, diz Kuhn "que paradigmas sucessivos nos dizem coisas diferentes sobre os objetos que povoam o universo e sobre o comportamento de tais objetos" e, "precisamente por se tratar de passagem entre o incomensurável, a passagem de um paradigma para outro oposto não se pode realizar com um passo de cada vez nem é imposto pela lógica ou por experiência neutra. Ela deve dar-se toda de uma vez (ainda que não num só instante". Assim, talvez Max Planck tenha razão quando, na sua autobiografia, fez questão de observar com tristeza que "uma nova verdade científica não triunfa convencendo os seus opositores e fazendo-lhes ver a luz, e sim, muito mais, porque os seus opositores acabam por morrer e cresce uma nova geração a ela habituada".
Na realidade, Kuhn afirma que "a transferência da confiança de um paradigma para outro é experiência de conversão que não pode ser imposta pela força". Mas então porque e em que bases se verifica essa experiência de conversão? "Os cientistas, em particular; abraçam o novo paradigma por todo o tipo de razões e, habitualmente, por várias razões ao mesmo tempo. Algumas dessas razões – como, por exemplo, o culto do Sol, que contribuiu para converter Keppler ao copernicanismo – encontram-se totalmente fora da esfera da ciência. Outras razões podem depender de particularidades autobiográficas e pessoais. Até a nacio­nalidade ou a reputação anterior do inovador e dos seus mestres pode, por vezes, desempenhar um papel importante […]. Talvez a pretensão mais importante posta pelos defensores de um novo paradigma seja aquela de estar em condições de resolver os problemas que levaram o velho paradigma à crise. Quando pode ser posta legitimamente, essa pretensão constitui, com frequência, a argumentação mais eficaz a favor".
É preciso decidir entre formas alternativas de desenvolver a atividade científica e, dadas as circunstâncias, essa decisão deve basear-se mais nas promessas futuras do que nas conquistas passadas. Quem abraça um novo paradigma desde o início amiúde o faz a despeito das provas fornecidas pela solução dos problemas. Ou seja, ele deve ter confiança de que o novo paradigma, no futuro conseguirá resolver muitos dos vastos problemas que tem à sua frente, sabendo somente que o velho paradigma não conseguiu resolver alguns. Uma decisão desse tipo pode ser tomada com base na fé.
Assim, para que um paradigma possa triunfar deve primeiro conquistar (às vezes, com base em considerações pessoais ou em considerações estéticas inarticuladas), "alguns defensores que o desenvolverão até ao ponto em que muitas argumentações sólidas podem ser produzidas e multiplicadas.
Mas, quando existem, essas argumentações também não são individualmente decisivas. Visto que os cientistas são homens racionais, uma ou outra argumentação acabará por persuadir muitos deles. Não existe, porém, nenhuma argumentação em particular que possa ou deva persuadir todos. O que se verifica não é tanto uma única conversão de grupo e sim um progressivo deslocamento da distribuição de confiança pelos especialistas".
Há progresso científico?
Pergunta-se, porém: a passagem de um paradigma a outro implica um progresso? O problema é complexo. Entretanto, "somente durante os períodos de ciência normal é que o progresso parece evidente e seguro", ao passo que "durante os períodos de revolução, quando as doutrinas fundamentais de um campo estão mais uma vez em discussão, surgem repetidamente dúvidas sobre a possibilidade da continuação do progresso, se for adotado este ou aquele dos paradigmas que se defrontam".
Naturalmente, quando um paradigma se afirma, os seus defensores encaram-no como um progresso. Mas Kuhn pergunta: progresso em que direção? Em direção à verdade?
Kuhn pergunta: "Seria necessário existir tal objetivo? Adiantará verdadeiramente alguma coisa imaginar que existe uma explicação completa da natureza, objetiva e verdadeira, e que a medida apropriada da conquista científica consiste na aproximação a esse objetivo final? Se aprendemos a substituir a evolução na direção daquilo que queremos conhecer pela evolução a partir daquilo que conhecemos, um grande número de inquietantes problemas pode dissolver-se no curso desse processo”. Assim como na evolução biológica, também na evolução da ciência nos encontramos diante de processos que se desenvolvem constantemente a partir de estádios primitivos, mas não tendem a nenhuma meta.»
G. Reale, D. Antisieri, História da Filosofia, EP (traduzido e adaptado).
7
Segundo Kuhn, os cientistas não se comportam como Popper pensa.
«A ideia de Popper de que o desenvolvimento da ciência não se dá por acumulação de resultados, mas sim pelo permanente empenho revolucionário de derrubar uma teoria aceite para a substituir por outra melhor) só seria, no entender de Kuhn, aplicável aos raros momentos em que a pesquisa normal é abandonada para dar lugar à emergência da crise do paradigma seguida pela fase da ciência extraordinária, que habitualmente conduz a uma revolução. Mas como, para Kuhn, o que distingue ciência de não ciência é a pesquisa normal, segue-se que o critério de demarcação popperiano deixaria de fora justamente o traço distintivo da cientificidade: o "conservadorismo" da acumulação de resultados que confirmam e dão razão a determinada tradição de pesquisa historicamente ensinada como um paradigma: 
“É a ciência normal, onde não existe o tipo de testes defendido por Popper, e não a ciência extraordinária, que quase sempre distingue ciência de outros empreendimentos. A existir um critério de demarcação [...] só pode encontrar-se justamente na fase da ciência – a ciência normal ‒ que Popper ignora e despreza.” 
Opondo-se ao ponto de vista de que testes decisivos e implacáveis podem a todo instante ser realizados, Kuhn salienta que episódios revolucionários são muito raros no desenvolvimento de uma ciência. Popper teria, na visão de Kuhn, caraterizado toda a atividade científica como se ela fosse sempre animada por um espírito crítico e revolucionário. Ora, os episódios e períodos revolucionários são esporádicos na história da ciência. O que Kuhn denomina ciência extraordinária é o que mais se aproximaria da proposta popperiana que defende a realização de constantes e implacáveis tentativas de refutação da teoria aceite para que seja substituída por outra mais verosímil. 
“Somente quando precisam de escolher entre teorias rivais é que os cientistas se comportam como filósofos (manifestam espírito crítico). A meu ver, esse é o motivo pelo qual a brilhante descrição popperiana das razões para a escolha entre sistemas metafísicos se parece tanto com minha descrição das razões que determinam a escolha entre teorias científicas. Em nenhuma das escolhas [...] os testes críticos desempenham um papel decisivo.” 
Alberto Oliva
Kuhn: o normal e o revolucionário na reprodução da racionalidade científica

8
As anomalias e a crise do paradigma
«A mera existência de puzzles não solucionados no interior de um paradigma não é suficiente para desencadear uma crise de confiança no paradigma. Mesmo porque todo e qualquer sistema explicativo já nasce com maiores ou menores conflitos efetivos com a experiência. Para Kuhn, aderir ao postulado popperiano ‒ segundo o qual devemos abrir mão de teorias que se deparam com observações que as negam ‒ seria inviabilizar a atividade científica, uma vez que equivaleria a nunca podermos trabalhar com uma teoria pela simples razão de que nunca teríamos nenhuma. 
Só em determinadas situações as anomalias podem assumir uma importância capaz de abalar a confiança depositada num paradigma. Só quando atinge a estrutura básica do paradigma e resiste às mais engenhosas tentativas de removê-las ‒ feitas pelos mais insignes membros da comunidade científica ‒ é que sua existência passa a ameaçar a tradição da ciência normal (o modo como se entendia e fazia ciência até então).
Uma nova teoria não surge porque a que existia entrou em conflito com a experiência, e, sim, porque fracassou a forma habitual de resolver problemas definida pelo paradigma vigente (Não se trata de um fracasso individual deste ou daquele cientista). Só a constatação do fracasso da forma de enfrentar e de resolver problemas típica do paradigma até então seguido desencadeia a busca de novos caminhos para a ciência. 
Como a crise paradigmática representa o relaxamento da rígida forma de fazer ciência determinada pelo paradigma vigente sucede um período similar à fase pré-paradigmática, com a diferença de que, nas crises, o campo de divergência é menor e menos claramente definido. Segundo Kuhn, há três desfechos possíveis para a crise: 1. A forma normal de fazer ciência acaba por ser capaz de lidar com o problema que gerou a crise; 2. O problema resiste até mesmo a novas abordagens. Tal constatação pode levar a duas conclusões: os cientistas supõem que nenhuma solução será́ encontrada no estado atual da área de estudo; os cientistas propõem que seja colocado de lado e legado a gerações futuras que talvez venham a contar com instrumentos mais adequados; 3. Fim da crise com o advento de um novo candidato a paradigma e subsequente batalha pela sua aceitação. 
Só quando o paradigma está enfraquecido a ponto de os seus velhos defensores perderem a confiança irrestrita que antes depositavam nele é que amadurecem as condições para a revolução (científica). Durante o período em que se dá a transição de um paradigma em crise para um novo, a partir do qual pode emergir uma nova tradição de ciência normal, cessa o modo cumulativo de produção de conhecimento.» 
Alberto Oliva
Kuhn: o normal e o revolucionário na reprodução da racionalidade científica
9
Popper critica o conceito de ciência normal em Kuhn
«No texto A Ciência Normal e os seus Perigos (1979), num simpósio acerca da obra de Kuhn, e organizado por Popper, este chama a atenção para os perigos que a noção de ciência normal contém. 
Popper assume que a ciência normal existe como Kuhn afirma, e que tal período é próprio de cientistas dogmáticos, como podemos ler na seguinte passagem:
“A ciência ‘normal’, no sentido de Kuhn, existe. É a atividade do profissional não revolucionário, ou melhor, não crítico: do estudioso da ciência que aceita o dogma dominante do dia; que não deseja contestá-lo; e que só aceita uma nova teoria revolucionária quando quase toda a gente está pronta para aceitá-la – quando ela passa a estar na moda, como uma candidatura antecipadamente vitoriosa a que todos, ou quase todos, aderem. Resistir a uma nova moda exige talvez tanta coragem quando criar uma.” 
Não obstante, Popper discorda que os períodos de ciência normal sejam a forma de demarcar a atividade científica da atividade não científica. Para Popper, o cientista normal é uma pessoa da qual devemos ter pena, uma vez que tal cientista foi mal ensinado.
“A meu ver, o cientista ‘normal’, tal como Kuhn o descreve, é uma pessoa da qual devemos ter pena. (consoante as opiniões de Kuhn acerca da história da ciência, muitos grandes cientistas devem ter sido ‘normais’; contudo, como não tenho pena deles, não creio que as opiniões de Kuhn estejam muito certas.) O cientista ‘normal’, a meu ver, foi mal ensinado. Acredito, e muita gente acredita como eu, que todo o ensino de nível universitário (e se possível, de nível inferior) devia consistir em educar e estimular o aluno a utilizar o pensamento crítico. O cientista ‘normal’, descrito por Kuhn, foi mal ensinado. Foi ensinado com espírito dogmático: é uma vítima da doutrinação. Aprendeu uma técnica que se pode aplicar sem que seja preciso perguntar a razão pela qual pode ser aplicada (sobretudo na mecânica quântica). Em consequência disso, tornou-se o que se pode chamar cientista aplicado, em contraposição ao que eu chamaria cientista puro. Para usarmos a expressão de Kuhn, ele contenta-se em resolver ‘enigmas’. A escolha desse termo parece indicar que Kuhn deseja destacar é que não é um problema realmente fundamental o que o cientista ‘normal’ está preparado para enfrentar: é, antes, um problema de rotina, um problema de aplicação do que se aprendeu; Kuhn descreve-o como um problema em que se aplica a teoria dominante (a que dá o nome de ‘paradigma’). O êxito do cientista ‘normal’ consiste tão só em mostrar que a teoria dominante pode ser apropriada e satisfatoriamente aplicada na obtenção de uma solução para o enigma em questão.”
As críticas de Popper incidem fortemente na ideia que Kuhn tem de atitude científica.
“Kuhn sugere que a racionalidade da ciência pressupõe a aceitação de um referencial comum. Sugere que a racionalidade depende de algo como uma linguagem comum e um conjunto comum de suposições. Sugere que a discussão racional e a crítica racional só serão possíveis se estivermos de acordo sobre questões fundamentais.” 
Para finalizar, Popper também critica a ideia de recorrer à sociologia e à psicologia para se informar a respeito das metas da ciência e do seu progresso possível uma vez que, para Popper, tais ciências são cheias de modas e dogmas não controlados.
De facto, comparadas com a física, a sociologia e a psicologia estão cheias de modas e dogmas não controlados. A sugestão de que poderemos encontrar aqui algo parecido com uma ‘descrição pura, objetiva’ está claramente equivocada. Além disso, como pode o recurso a tais ciências, a miúdo espúrias, ajudar-nos a resolver essa dificuldade? Não será sociológica (nem psicológica ou histórica) a ciência a que vocês desejam recorrer a fim de decidir quanto importa a pergunta ‘O que é ciência?’ ou ‘O que é, de facto, normal em ciência?’. E, caso desejassem, quem desejam consultar: o sociólogo (ou psicólogo, ou historiador) ‘normal’ ou o ‘extraordinário’?»
Thiago Alves de Souza, A conceção de ciência em Thomas Kuhn

10
Uma perspetiva sobre como entender a ideia de progresso científico em Kuhn
«Da posição de Kuhn não decorre a negação do progresso da ciência, mas sim a negação da ideia de um progresso contínuo e cumulativo de saber orientado por um ideal de verdade que constituiria a meta final da evolução da ciência.
O progresso existe, mas é descontínuo, feito de ruturas, de substituições de paradigmas (e não por transformação lenta de uns paradigmas noutros). Por outro lado, esses paradigmas não podem ser considerados desligados do contexto cultural, ideológico e histórico em que surgem e aos quais dão resposta. Quando dois paradigmas se confrontam para além deles e por detrás deles, são duas visões globais do mundo que se confrontam, cada qual com a sua estrutura própria e a sua coerência peculiar, a sua respetiva linguagem.
Os paradigmas respondem a esses mundos diferentes e no fundo satisfazem respetivamente as exigências que cada um desses mundos faz.
Disso decorre uma séria consequência: em última instância, não dispomos de um critério absoluto que possa medir a pertinência dos paradigmas e decidir da sua maior ou menor verdade.
Os paradigmas são entre si incomensuráveis. Só o contexto e a fecundidade que revelarem para solucionar os problemas do respetivo contexto é que, em última instância, os validam e justificam. Todos estes aspetos podem conduzir a uma visão relativista da ciência, uma vez que a verdade deixa de ser a medida, o projeto e o objetivo dos paradigmas científicos.
Como Kuhn salienta, os debates entre paradigmas não dizetanto respeito à efetiva resoluçãde problemas como à possibilidadde o virem fazer: trata-se de convencer a comunidade das suas potencialidades, pois nesse caso «o número e o valor dos argumentos em seu favor aumentarão; os seus adeptos tornar-se-ão mais numerosos e o estudo do novo paradigma desenvolver-se-á. Gradualmente, o número de experiências, de instrumentos, de artigos e de livros baseados neste paradigma multiplicar-se-áa revolução científica consolida-se dandorigem a um novperíodo da ciência normal, de cujpráticse excluem então ‒ excluindo-se simultaneamente da ciência ‒ os que, sejpor que razões fornão transitarade paradigma.
Assim entendida, a revolução científica permitumabordageparticulada noção dprogresse de verdade. A ciência, diferentemente de outros saberes ‒ como a arte ou a filosofia ‒, progrideMaisa ciência e progresso são duas noções estritamente entrosadas numa intimidade que torna difícil determinar se “uma especialidade progride porque é uma ciência ou é uma ciência porque faz progressos”. O que se revela aqui não é que só a ciência progridemas que ela reúne caraterísticas específicas de progresso que são, sem dúvidamais nítidas do que as quse manifestam noutras áreas ou disciplinasUm aspeto decisivo é o dena ciência, no seu regime normalnão haver (ao contrário do que acontece em filosofia ou na arte) conflitos sobre os seus fundamentos osobre os seus objetivos, sobre os seuproblemas osobros seutipos de soluções, o que torna possível o desenvolvimento de um tipo de eficácia praticamente sem rival.
Mas o progresso não carateriza apenas a ciência normal; pelo contrárioele é o resultado mais
manifesto dcncia extraordináriaQuando um grupo abandona um paradigma para adotar um outro, ele renuncisimultaneamente, diz Kuhn, à maioria dos livroe dos artigos baseadonesse paradigma e que deixade ser para os especialistas referências válidas. Não há nada na formação científica que seja o equivalente do museartístico ou dbiblioteca dos clássico[...]Mais do quos especialistas dos outros domínios da criação, eles chegam a acreditar que o passado desembocem linha reta no estado atual e mais avançado da sua disciplinaEm suma, que este é uprogresso»São pois os traços mais específicoda atividade científicaquer no seu regime normal quer no extraordinário, que melhor caraterizae definem a noção de progressoO que Kuhn defende é que isto não implica a conceção corrente de que o progresso tem um fime quesse fié o de uma cada vez maior proximidadda verdade: pretende-se assim separar a noção de progresso da persistente teleologia que a acompanha desde a sua emergênciaO que afinal é fácise se adotar umposição epistemológica evolucionista, que substitua, no estudo dconhecimento, consideração dos seufins (e das suas origens) peldseu desenvolvimentoInspirando-se em textoantecipadores de Darwin, Kuhn encontra uma forte analogia entre a evolução doorganismos e a das ideias científicas: o claro resultado de uma sucessão destas seleções revolucionárias, separadas poperíodo de pesquisa normal, é o conjunto de instrumentos notavelmente adaptados que designamos por conhecimento científico. Os sucessivos estados deste processo de desenvolvimento são marcadopor um aumento da precisão e da especializaçãotodo o processo se desenroloucomo supomos que acontece na evolução biológicasem orientação para um fim preciso, para uma verdade científica fixada e permanentede que cada estádio do conhecimento científico seria um melhor exemplar”.»

M. M. CARRILHO. «Kuhn e as revoluções científicas»Colóquio/Ciências, n.º 2 (junho de 1981, pp46-48).
11
Kuhn contra a ideia de ciência de Popper
«ThomaKuhn (nascido em 1922) não acreditno esquempopperiano segundo o quaciênciprocede poconjeturas e refutações. Segundeleeste esquemnão corresponde à hisridas ciênciasThomas Kuhn não pretenddescrever a ciêncital comdeveria serElpretendmostrá-ltacomo é. Quandumteoria é refutadpelofactosocientistas não a abandonam dimediatoComdisse udia Einsteinqueperguntaraquteripensado sas mediçõetivessem refutado a teoria da relatividade: "Bemeu terilamentado o bom Deus. A teoria está correta"Cada cientista vê na suteorium núcleo irrefutável ‒ que ThomaKuhn dá nome de paradigma.
Ocientistas acreditam nas suateoriaacima de tudo porque eleacreditam num paradigmaDseguidaeles procuram interpretar ofactono contexto desse paradigmaPor exemploanomalido periélio de Mercúrino contextda física newtoniannão foi considerada como umrefutão destteoria. Supôs-seque existia entrMercúrio e o Sol um planeta quperturbaria a sua órbita. Foi mesmcalculada a órbita deste supostplanetamas ele não compareceao encontro.
Acivilizõepré-colombianas e chinesa observaram a supernova ddjulho d1054 nnebulosa de Caranguejosobre quaa Europnão deixou nenhum testemunho. paradigmaristotélico estabeleciqunenhummudançpoditelugar no mundsupralunaconsideradcomo imóvelAlgumas alteraçõescomo estsupemova d1054não foramao quparececonsideradasuficientementimportanteparserem notadasAmudançanos céucomeçaraa ser registadas e discutidas peloastrónomos ocidentaidepoidpublicação dteoride CopérnicoO paradigma no qual se trabalhinfluenciperceção dnatureza.
Kuhn parte duma constataçãhisrica. Semprquum paradigmé dominante, como o foipoexemploo paradigmnewtoniandurantdois séculos ndomínio dmecânicanão é refutávelOs factos que contradizem paradigmnão são consideradocomrefutaçõemacomo anomaliasA ideia de refutabilidaddKarl Popper não faz parte dhistóridas ciências.
Todperceção está ligada a umintençãoDmesma formatodmedição, todfactoestá ligado a um paradigmaIstoparThomaKuhnmostrque a maior partdodefensores do antigparadigmnão mudam dposiçãosejaquaiforeas "provas" experimentais. Estresistêncià evolução não resultde umrecusa senil ereconheceaprovasSimplesmenteas provanão têforçdprova se não foreassociados ao novparadigmaNo âmbito dantigo paradigma elas não compreendidas. É por istqua ciência não avança apenas dforma progressiva, mas tambépor ruturas. A ciência avança também porque os velhocientistaqudefendeas antigas ideiamorreantedojovencientistaqudefendeanovaideias.»

BrunJarrosson, «Lquatuor des épismologues», in Scienceet Avenir, n.º 549, pp. 78-81.

12
A teoria de Kuhn é criticada por conduzir ao relativismo
«É difícil argumentar que Kuhn não é um relativista. Não se pode encontrar uma posição ou um ponto de vista fora do que cada paradigma faculta para avaliar um paradigma. Todos os juízos sobre o valor deste ou daquele paradigma são sempre feito a partir de um dos paradigmas em causa. A verdade é sempre relativa a cada paradigma e nenhuma avaliação dos méritos de paradigmas eventualmente em confronto pode ser objetiva no sentido estrito da palavra. Assim sendo, não há, em ciência, verdades objetivas. A verdade de um enunciado científico, dada a incomensurabilidade dos paradigmas, é sempre relativa. O que é verdadeiro no contexto de um dado paradigma pode ser falso se o ponto de vista adotado for outro paradigma. Deste modo, não temos em que nos basear para dizer que um paradigma é mais verdadeiro do que outro ou que espelha de modo mais fiel o que acontece na natureza. Podemos invocar critérios para avaliar paradigmas e eventualmente os comparar tais como ser o mais simples possível, referir – se a mais factos do mundo – ter mais conteúdo informativo – e corresponder o mais possível às observações dos factos. Mas isto não é suficiente porque pode haver discórdia entre os cientistas acerca do que se deve entender por simplicidade e por generalidade em determinada área da ciência. Podemos também deparar com o conflito entre o desejo de simplicidade e o de generalidade. Embora seja uma ideia atraente, não há nenhuma razão lógica que nos persuada de que o paradigma de que o paradigma mais simples é o que possui mais generalidade (que se aplica ao maior número de factos possível). No plano cultural diferentes indivíduos e grupos veem o mundo de diferentes modos sem que, na perspetiva relativista, se possa ajuizar qual das visões do mundo é a correta e qual a errada. No campo da ciência também parece não haver uma forma de estabelecer objetivamente a superioridade de um paradigma em relação a outro. Não temos um critério absoluto que possa medir os paradigmas e decidir da sua maior ou menor verdade. Os paradigmas são entre si incomensuráveis. A sua justificação depende da capacidade para solucionarem os problemas do respetivo ambiente intelectual e tecnológico. Só o contexto e a fecundidade que revelarem para solucionar os problemas do respetivo contexto é que, em última instância, os validam e justificam. Todos estes aspetos podem conduzir a uma visão relativista da ciência, uma vez que a verdade deixa de ser a medida, o projeto e o objetivo dos paradigmas científicos.»

Roy Jackson, Mel Thomson e outros, Understanding Philosophy for A2 Level, Cheltenham, Nelson Thornes, p. 171.

13
A acusação de irracionalismo
«Em filosofia, o irracionalismo está associado à ideia de que certos tipos de conhecimento não podem ser alcançados por meios racionais mas sim através da fé e da intuição. Dada esta definição, parece injusto acusar Kuhn de irracionalismo. É verdade que, segundo Kuhn, os diferentes paradigmas são "incomensuráveis" e que, correspondendo a um modo de ver o mundo radicalmente diferente de qualquer outro, um paradigma não pode ser entendido a partir de outro. Daí que, não haja uma transição gradual governada pela razão de um paradigma para outro. A mudança deve ocorrer de uma vez só, como se fosse uma "conversão" religiosa. Não há argumentos estritamente racionais suficientes para justificar a opção por um paradigma em detrimento de outro, ou seja, para persuadir que um paradigma é mais “válido” do que outro. Se a mudança não é obra da razão, ela não é racional. 
Contudo, Kuhn não advoga o irracionalismo. Os cientistas que trabalham com diferentes paradigmas nos períodos de crise dialogam uns com os outros e uns tentam encontrar argumentos racionais que persuadam os outros de que o seu paradigma é o correto. Os cientistas que trabalham com um paradigma nos períodos de ciência normal usam a razão e condenariam completamente qualquer pretensão ao conhecimento baseada na fé ou na intuição. Na verdade, são as falhas nas previsões racionalmente elaboradas que podem convencê-los de que o paradigma que orienta o seu trabalho já não é adequado. Contudo, devemos reconhecer que se, na perspetiva de Kuhn, na mudança de paradigma a última palavra pertence à comunidade científica, então o critério da mudança é sociológico e não estritamente racional. Talvez a acusação de irracionalismo – sem dúvida exagerada – tenha a ver com a surpresa que em muitos cientistas causou a importância que Kuhn atribuiu a fatores subjetivos (psicológicos) e extra – científicos (políticos, económicos, sociais) quando explicou as revoluções científicas. Não é contudo, absolutamente claro que estes últimos fatores sejam os critérios decisivos dado que Kuhn argumenta que os motivos da mudança de paradigma assentam quer em fatores objetivos – racionais – quer em fatores subjetivos e extra – científicos.»

Roy Jackson, Mel Thomson e outros, Understanding Philosophy for A2 Level, Cheltenham, Nelson Thornes, p. 171.



III
TEXTOS DE KUHN
1
Da ciência normal à revolução científica
«Alguns daqueles qunão são verdadeiramente especialistas de uma ciência adulta realizam muito pouco do trabalhde clarificação que fica pofazer depois do estabelecimento dum paradigma, ou desconhecem como este trabalho se pode revelaapaixonante ao longo da sua execução. Há necessidade de compreender bem este facto. É estas operões de clarificação
que se consagram a maioparte dos cientistas durante toda a sua carreiraSão aquilo a que chamciência normal, quequando examinaddpertoora historicamenteora no quadro do laboratório contemporâneoparece ser uma tentativa para forçar a natureza a escoar-se na caixa pré-formada e inflexívequfornece o paradigmaciência normal nunca tem como fim revelar fenómenos dum género novoOs qunão se coadunam com esta caixa passam mesmo muitas vezes despercebidosOs cientistanão têm por fim, normalmenteinventar novateorias emuitas vezessão intolerantes em relação às teorias que inventaram ooutrosAo contrárioinvestigação da ciêncinormal dirige-se para um conhecimento maiprofundo dos fenómenos e teoriaque o paradigmjá enquadrou. Aqui estão talvez os defeitos da ciêncinormal. Odomínios explorados pela ciêncinormasão evidentementminúsculos; restringem terrivelmente o campo visualTodavia, estas restrições nascidas da confiança num paradigma revelam-se essenciais do ponto de vista do desenvolvimentda ciênciaAo incidir a atenção num setor limitado de problemas, de certa maneira esotéricoso paradigma força os cientistaa estudar certos domínios da natureza com maiprecisão e couma profundidade que anteriormente não seriam imagináveis.
A ciêncinormal, a atividade em queinevitavelmente, a maioria dos cientistaconsome quase todo seu tempo, constitui-se na suposição de que a comunidade científicsabe como é o mundoGrande parte do êxito da pesquisa deve-se ao facto de a comunidade se encontrar disposta a defender essa suposiçãomesmo se for necessário pagar um preço elevado. A ciência normalpoexemplosuprime frequentemente inovações fundamentais, devido a parecerem demasiadamente subversivas relativamente aos seus compromissos básicos.
Quando comunidadde cientistas não podjá passar por alto as anomalias qusubvertem a tradição existente das práticacientíficasiniciam-se ainvestigações extraordinárias que levampor fimà adoção de um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência.
Os epidios extraordinários em que têm lugar essamudanças de compromissos profissionais sãdenominados neste ensaio revoluções científicas. São omomentos qurompem cotradição que está ligada a atividade da ciência normal. Os exemplos mais evidentes de revoluções científicas são episódiofamoso[...] pontode viragem do desenvolvimento científico, associadoaos nomede Copérnico, Newton, Lavoisier e Einstein.»

TKuhnLStructure des Revolutions ScientifiquesParis, Flammarionpp115-117.


2
Kuhn e a escolha entre paradigmas
«No penúltimo capítulo de um livro controverso [...] fiz considerações sobre as maneiras como os cientistas são levados a abandonar uma teoria ou paradigma outrora aceites em favor de outros. Esses problemas de decisão, escrevi, “não podem resolver-se por provas”. Discutir o seu mecanismo é, por conseguinte, falar “de técnicas de persuasão, ou de argumentos e contra-argumentos numa situação em que não pode haver qualquer prova” [...]
Começarei por perguntar: quais são as caraterísticas de uma boa teoria científica? [...]
Em primeiro lugar, uma teoria deve ser exata: quer dizer, no seu domínio, as consequências deduzíveis de uma teoria devem estar em concordância demonstrada com os resultados das experimentações e observações existentes.
Em segundo lugar, uma teoria deve ser consistente, não só internamente ou com ela própria, mas também com outras teorias correntemente aceites e aplicáveis a aspetos relacionados da natureza.
Terceiro, deve ter um longo alcance: em particular, as consequências de uma teoria devem estender-se muito para além das observações, leis ou subteorias particulares, para as quais ela estava projetada em princípio.
Quarto [...] deve ser simples, ordenando fenómenos que, sem ela, seriam individualmente isolados e, em conjunto, seriam confusos.
Quinto (..), uma teoria deve ser fecunda quanto a novas descobertas de investigação: deve desvendar novos fenómenos ou relações anteriormente não verificadas entre fenómenos já conhecidos
Estas cinco caraterísticas ‒ exatidão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade ‒ são todas elas critérios padronizados para a avaliação da adequação de uma teoria.
Quando os cientistas têm de escolher entre teorias rivais, dois homens comprometidos completamente com a mesma lista de critérios para escolha podem, contudo, chegar a conclusões diferentes. Talvez interpretem a simplicidade de maneira diferente ou tenham convicções diferentes sobre o âmbito de campos em que o critério de consistência se deva aplicar. Ou talvez concordem sobre estas matérias, mas difiram quanto aos pesos relativos a ser acordados a estes ou a outros critérios, quando vários deles se desenvolvem em conjunto.
O meu ponto é, portanto, que toda a escolha individual entre teorias rivais depende de uma mistura de fatores objetivos e subjetivos, ou de critérios partilhados e individuais.
As escolhas que os cientistas fazem entre teorias rivais dependem não só dos critérios partilhados ‒ os que os meus críticos chamam objetivos , mas também dos fatores idiossincráticos, dependentes da biografia e da personalidade individuais. Estes últimos são, de acordo com o vocabulário dos meus críticos, subjetivos.»
Kuhn, Thomas (1977), A Tensão Essencial, Lisboa, Edições 70, 1989, Capítulo 13. 
3
Kuhn: Não sou um relativista.
«Imagine-se uma árvore que represente o desenvolvimento das especialidades científicas modernas desde as suas origens comuns, ou seja, da filosofia natural primitiva e dos ofícios. Uma linha subindo por essa árvore acima, nunca se voltando para trás, do tronco para a ponta de um dos ramos, representaria uma sucessão de teorias de ascendência comum. Considerando-se qualquer destas teorias, tiradas de um ponto da árvore não demasiado próximo da sua origem, deveria ser fácil constituir uma lista de critérios que permitiriam a um observador imparcial distinguir, fosse em que momento fosse, as teorias mais antigas das mais recentes. Entre os mais úteis estariam os seguintes: rigor nas predições, em especial das predições quantitativas; o equilíbrio entre assuntos esotéricos e do dia a dia; e o número de diferentes problemas resolvidos. Menos úteis a este propósito, embora elementos também determinantes na vida científica, serão os valores como a simplicidade, o alcance das teorias e a compatibilidade com diferentes especialidades. Estas listas estão longe de ser as que precisamos, mas não duvido de que podem vir a ser completadas. Se assim for, o desenvolvimento científico é, como o desenvolvimento biológico, um processo unidirecional e irreversível. Teorias científicas posteriores são melhores que as anteriores na resolução de enigmas dentro do contexto normalmente bastante diferente em que se aplicam. Esta não é uma posição relativista e torna evidente em que sentido eu sou um crente convicto no progresso científico.


Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, trad. Carlos Marques, Guerra e Paz Editores, p. 274.

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