quarta-feira, 22 de abril de 2015

O LIBERTISMO RADICAL DE JEAN – PAUL SARTRE


Leia atentamente a exposição seguinte para de seguida poder responder às questões propostas.
TEXTO EXPOSITIVO DA TEORIA
As teorias libertistas em geral defendem que há ações livres. Com isso, querem dizer o seguinte:
1 – Há ações que não são meros momentos ou elos de uma cadeia causal em que o futuro é determinado pelo passado, ou seja, em que acontecimentos anteriores são a causa necessária dos acontecimentos seguintes.
2 – A afirmação da liberdade implica uma quebra ou uma ruptura na sequência causal de acontecimentos do mundo natural reconhecendo – se ao agente a capacidade de iniciar pelas sua escolhas uma nova série de acontecimentos. As nossas escolhas retiram ao passado o seu peso insuportável. Não somos o que o nosso passado faz de nós.
O existencialismo de Jean – Paul Sartre é um dos mais famosos exemplos de defesa radical do libertismo.
Sartre começa por fazer uma distinção muito importante entre seres humanos e objetos físicos. Todos os objetos físicos têm uma essência – um conjuntos de caraterísticas que os definem e determinam o seu comportamento. Assim, um livro é um objeto que tem certas propriedades que determinam que não quebra quando cai – ao contrário de um copo – arde quando atirado ao fogo e não serve para beber água. Os objetos físicos não têm liberdade. A sua essência determina como existem, como se comportam sempre e o que lhes pode acontecer. No caso dos objetos físicos, a essência precede e determina a existência. A natureza dotou – os de certas qualidades que determinam que se comportarão sempre do mesmo modo. São aquilo que receberam.
Se o determinismo fosse verdadeiro seríamos como os objetos físicos. Mas não é esse o caso, segundo Sartre, apesar de fazermos também parte do mundo natural. Cada um de nós é o autor do livro em que a nossa vida consiste e vamos escrevendo a pouco e pouco os seus capítulos. Por que razão somos diferentes dos objetos físicos? Somos diferentes porque nos seres humanos a existência precede a essência. Não temos uma essência que determine como vamos ser – cobardes ou corajosos, conservadores ou revolucionários, altruístas ou egoístas, ateus ou crentes, etc., – nem como vamos agir. Os objetos têm o seu comportamento pré – determinado e fixado pela sua essência – são inquebráveis, inflamáveis ou impermeáveis, resistentes ou frágeis – e por isso comportam – se de acordo com essas caraterísticas atribuídas pela natureza – quebram – se quando caem, ardem quando queimados e rebentam quando submetidos à pressão de certas forças.
Segundo Sartre, não há no ser humano nada de pré – determinado. Não somos o que recebemos quer através da transmissão genética quer através da transmissão cultural. O que quer isto dizer? Somos aquilo que fazemos, somos o resultado das nossas escolhas. Antes de existir nada somos – não temos uma essência. O ser humano nada mais é do que o conjunto das suas ações. Através das nossas escolhas e ações construímos a nossa essência, o nosso modo de ser, a nossa imagem. Mas Sartre tem o cuidado de salientar imediatamente que se nada há de pré – determinado no ser humano também nele nada é fixo ou adquirido de uma vez por todas. Ao construirmos uma certa imagem de nós – uma essência ou maneira de ser – não ficamos prisioneiros do que fizemos. A todo e qualquer momento podemos mudar o que somos. Não somos o que fomos. Somos o que vamos sendo ou fazendo de nós. Só quando morremos e não podemos mais escolher e agir é que temos uma essência e podemos definir um ser humano. Até lá temos de constantemente criar a imagem que de nós vai ficar. Imagine que alguém se comportou de uma forma cobarde. A imagem com que ficamos dessa pessoa através desse ato é a de alguém cobarde. Mas como o que somos depende do que fazemos, nada impede que essa pessoa modifique a sua imagem comportando – se corajosamente. Nenhum ato passado define de uma vez por todas o que somos.
Como não existe uma natureza humana pré-fixada, como em cada ato ou escolha podemos modificar o que somos, não podemos dizer, por exemplo, que o ser humano é naturalmente sociável, ou egoísta, ou bom, ou agressivo. Só somos, por exemplo, sociais se nos envolvermos em atividades sociais, ou bons se praticarmos atos bons. São os nossos atos que definem aquilo que somos. A jovem que recusa ir a um concerto agradável e fica em casa a cuidar do irmão doente age, segundo o determinista radical, determinada pela educação que recebeu. Segundo Sartre, essa educação é uma condicionante da ação mas não a sua causa determinante. Não dirá que a educação fez da jovem o que ela é porque em cada ato ou escolha ela pode romper com o forte sentido do dever que caracteriza a educação recebida ou reafirmar esse compromisso.
O facto de em nós nada estar definido de uma vez por todas, permite-nos formar planos e projectos que não são o simples desfecho causal do passado ou do presente, do que somos ou fomos, do que fizemos ou fazemos. A liberdade é para Sartre o modo de ser da realidade humana que em cada escolha suspende o passado e o presente. Cada escolha que efetuo, cada projeto que me proponho realizar significam que o futuro não é uma ramificação do passado ou do presente, mas sim o resultado de uma livre escolha. Mediante os seus projetos e escolhas o ser humano afirma a sua radical liberdade. O futuro não está pré-fixado. Está, enquanto a vida dura, sempre em aberto.
Embora não haja uma natureza humana universal há uma condição humana comum. Todos nós em ambientes e culturas diferentes enfrentamos os mesmos desafios, as mesmas questões e as mesmas limitações próprias da nossa condição de seres humanos. Chegados a este ponto uma questão surge: Não serão essas limitações obstáculos que podem negar a afirmação tão radical da liberdade por parte de Sartre? Não será um exagero dizer que o homem é o dono e senhor do seu destino?
Sartre pensa que não.
Podemos pensar que há acontecimentos passados e presentes que escapam ao meu controlo. Não escolhi nascer no Brasil, ser educado numa família da classe média, ser do sexo masculino, sofrer de miopia, etc. Estes factos ou acontecimentos são alguns dos dados da minha situação. Contudo, para Sartre, os factos em si mesmos não têm significado ou sentido. Somos nós mediante as nossas escolhas e projectos que lhes atribuímos sentido. Nasci no Brasil. Não posso mudar esse facto. Mas o que significa para mim esse facto? Que sentido tem? É uma fonte de orgulho por ser natural de um país muito rico e industrializado, ou uma fonte de embaraço por esse país ser ainda um pais com muitos problemas por resolver? E se tivesse nascido na América? Estaria inchado de orgulho nacionalista por ser natural de um país que é a grande superpotência atual ou sentir-me-ia incomodado e embaraçado com o comportamento do meu país em relação a outros? Agito a bandeira com fervor nacionalista ou queimo-a por causas dos pecados da grande potência? Tudo isto são escolhas que eu tenho de fazer e não me são ditadas pelos fatos mas sim pela minha posição em relação a eles. O próprio Sartre fala-nos de um padre jesuíta que conheceu quando ambos foram feitos prisioneiros pelos nazis durante a segunda guerra mundial. Esse homem parecia uma vítima das partidas desagradáveis do destino. Tinha ficado órfão bem cedo, o negócio que dirigia falhou deixando-o na pobreza, as suas relações amorosas terminaram todas em rotundo fracasso e falhara no acesso a uma carreira de militar que tanto desejara. Interpretou estes acontecimentos como sinal de que a sua vocação era servir Deus e não envolver-se em assuntos mundanos como ter uma família, um emprego e uma carreira. Sartre afirmou que este foi o sentido que o indivíduo escolheu atribuir aos acontecimentos vividos. Mas também poderia ter escolhido ser um revolucionário. Quer com isto dizer que os acontecimentos passados não determinam causalmente o nosso futuro. Somos nós que decidimos como os factos e os acontecimentos vividos se encaixam no que atualmente somos e nos nossos projetos. Parece que o passado pesa como se me perseguisse e determina o que sou mas esse peso depende dos meus projetos e das minhas ações atuais. Casei. Estou vinculado a um compromisso que aparentemente limita as minhas possibilidades de ação mas isso só acontece porque em cada dia eu reafirmo esse compromisso e me defino como homem comprometido. Poderia muito bem considerar os votos de fidelidade como um estúpido erro, como algo que atualmente é uma fastidiosa monotonia e considerar esse compromisso um simples momento de um passado morto. Em cada momento da nossa existência criamos o nosso modo de ser atual. O futuro está sempre em aberto mediante as nossas escolhas, os nossos planos, sonhos e ambições. Mesmo a continuidade de uma duradoura relação amorosa significa que continuamente reafirmamos as nossas escolhas passadas. O passado depende das nossas opções e não estas daquele.
Podemos resumir a teoria de Sartre nesta frase: O determinismo reina no mundo natural ou físico mas a vontade e as suas escolhas não fazem parte desse encadeamento de causas e efeitos.
A liberdade não é uma propriedade entre outras que tenhamos como a inteligência ou a beleza. A liberdade é o nosso modo de ser porque em cada momento da nossa existência estamos a definir o que somos e só a morte encerra este processo criativo.
Estamos constantemente confrontados com possibilidades e escolhas e mesmo recusar escolher e deixar que as coisas aconteçam é também uma escolha. Dada a nossa radical liberdade somos responsáveis pelo tipo de pessoa que somos. Recusar a liberdade e a responsabilidade é estar de má-fé, é mentir a nós mesmos.
TEXTO DE SARTRE
É estranho que os filósofos tenham argumentado ao longo de milénios sobre o determinismo e o livre-arbítrio, citando exemplos a favor de uma tese ou de outra sem primeiro terem tentado explicitar a própria ideia de ação…Devemos notar em primeiro lugar que uma ação é em princípio intencional…Ora se assim é, devemos dizer que uma ação implica como sua condição necessária o reconhecimento de algo que se deseja, ou seja, o reconhecimento de uma lacuna objetiva ou de uma negatividade, de algo que falta ou que ainda não existe. A intenção do imperador Constantino de construir uma cidade cristã que rivalizasse com Roma ocorreu-lhe ao reconhecer uma lacuna objetiva… faltava uma cidade cristã.
Isto significa que desde o momento da conceção desse ato, a consciência foi capaz de se distanciar do mundo do qual tinha consciência, deixando o plano do ser (do que existe) para se aproximar do plano do não – ser (do que ainda não existe).Nenhum estado de facto seja ele qual for (a estrutura política e económica da sociedade, estados psicológicos, etc.) pode por si mesma determinar e motivar qualquer ato. Um acto é uma projeção do ser humano em direção ao que ainda não é e o que é ou existe não pode de modo nenhum determinar por si o que não é. A realidade humana é livre porque é perpetuamente arrancada a si mesma (ao seu passado e ao que é).Jean-Paul Sartre, L’Être et le Néant.
1.É estranho que os filósofos tenham argumentado ao longo de milénios sobre o determinismo e o livre-arbítrio, citando exemplos a favor de uma tese ou de outra sem primeiro terem tentado explicitar a própria ideia de ação”.
Por que razão a discussão em torno do determinismo e do livre – arbítrio está para Sartre mal colocada?
R: Está mal colocada porque não se entendeu devidamente o conceito de acção. Segundo Sartre, qualquer ação significa que a partir de uma situação presente, de algo que existe, projetamo-nos em direção a um futuro, a algo que ainda não existe. Isto implica que somos capazes de nos distanciar do que existe, do mundo tal como ele é, concebendo e sendo motivados pelo que ainda não é, por um estado de coisas futuro a que desejamos dar realidade. A esta capacidade de conceber e ser motivado pelo que não é dá Sartre o nome de negatividade. O que é (os acontecimentos passados ou presentes) não pode, segundo Sartre, determinar o que não é. O ser não pode determinar o não-ser. A capacidade da nossa consciência de conceber o que ainda não é, permite-nos formar planos e projetos que não são o simples desfecho causal do passado ou do presente, do que somos ou fomos, do que fizemos ou fazemos. A acção humana é indissociável da liberdade da consciência.
2. O que significa dizer que “a realidade humana é livre porque é perpetuamente arrancada a si mesma (ao seu passado e ao que é)”?
R: Significa dizer que a liberdade é para Sartre esse modo de ser da realidade humana que em cada escolha suspende o passado e o presente. Cada escolha que efetuo, cada projeto que me proponho realizar significam que o futuro não é uma ramificação do passado ou do presente, mas sim o resultado de uma livre escolha. Mediante os seus projetos e escolhas o ser humano afirma a sua radical liberdade. O futuro não está pré-fixado. Está, enquanto a vida dura, sempre em aberto. Para Sartre, o futuro, melhor dizendo, as possibilidades, é que determinam o que sou. Aquilo que posso ser - e não o passado - determina o que sou hoje. Esta indeterminação pelo passado- pelo que já não é – e pelo presente – pelo que é - é a raiz da liberdade humana.

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