domingo, 8 de Maio de 2011

A ARTE É EXPRESSÃO DE SENTIMENTOS HUMANOS


A ARTE É EXPRESSÃO DE SENTIMENTOS HUMANOS
Dizer que a arte é expressão de sentimentos humanos é uma fórmula consagrada que na maioria dos estudantes produz um impacto imediato.
Tradicionalmente a teoria da arte como expressão supõe uma teoria referente àquilo que o artista sente e empreende quando cria uma obra de arte. Tolstoi, Benedetto Croce, R. G. Collingwood e outros escritores divulgaram cada qual ao seu modo esta fórmula; e o público em geral ainda reage à fórmula "arte como expressão" mais favoravelmente do que a qualquer outra. Uma exposição típica desta postura pode encontrar-se na obra de Collingwood intitulada "The Principies of Art": aí descreve o artista como estimulado por uma excitação emotiva, cuja natureza e origem ele próprio desconhece, que consegue encontrar alguma forma de a expressar: nesse momento a emoção que estimulou a expressão torna-se presente na consciência do artista. Este processo é acompanhado por sentimentos de libertação e de compreensão interior. Iremos dar a nossa atenção à teoria de Tolstoi sobre a arte.

O que é a arte para Tolstoi? É a comunicação intencional de sentimentos? Na obra de arte o artista cria algo que exprime o sentimento que ele experimentou. Segundo Tolstoi a criação de uma obra de arte é um processo constituído pelos seguintes momentos: primeiro, o artista tem uma experiência ou um sentimento que pode ser o medo ou a alegria, a angústia ou a esperança. Decide então partilhar esse sentimento com os outros, incuti-lo, dar-lhes esse mesmo sentimento de modo a que eles se tornem, por exemplo, alegres e esperançados ou angustiados e receosos. Para comunicar este sentimento aos seus semelhantes cria uma obra de arte - uma história, um romance, uma peça teatral, um poema, um tema musical, um quadro, etc. Se for bem sucedido, cria uma genuína obra de arte, e a sua criação como que lhe dará de novo aquele sentimento original que a motivou. Mas - mais importante - produzirá nos outros homens o mesmo tipo de sentimento. A arte é essencialmente uma forma de comunicação no sentido em que o sentimento que levou o artista a criar a sua obra é também vivido pela sua audiência. O artista não se limita a descrever o seu sentimento de alegria ou de dor; não se limita a revelar ou a mostrar o seu sentimento de raiva ou de medo; o artista partilha os seus sentimentos com os seus semelhantes (os outros homens) criando uma obra de arte que os faz sentir alegres, aterrorizados, etc.
Não é de surpreender que Tolstoi rejeite como pseudo-arte muitas obras que usualmente são aceites como artísticas. A arte deve ter como sua origem uma experiência ou um sentimento do artista. Muita pseudo-arte deve-se à falta de sinceridade do artista ou à tentativa de criar uma obra de arte que não tem a sua origem num sentimento ou numa experiência reais. O aspirante a artista, na ausência de um sentimento próprio que poderia ser expresso numa obra de arte genuína tenta imitar os artistas com reputação. No seu esforço para obter reconhecimento, o artista que nada tem a comunicar tenta dar ao público o que este quer copiando as modas populares ou seguindo fórmulas aprendidas nas escolas de arte. Tolstoi nega que qualquer obra que seja determinada a partir do exterior (e não a resposta a uma necessidade interior) possa ser considerada arte genuína.
Contudo, a sinceridade é condição necessária mas não suficiente. Mesmo que um aspirante a artista seja sincero, pode falhar no seu esforço para produzir uma obra de arte. A tentativa de comunicar o genuíno sentimento pode ser infrutífera. Um artista é julgado pelas suas criações e não pelos seus sentimentos. Boas intenções não bastam. Para além da sinceridade do sentimento a obra de arte requer uma forma adequada. Tolstoi só reconhece um critério para verificarmos se a obra de arte tem ou não uma forma adequada: a capacidade de incutir sentimentos. Uma obra de arte deve, para o ser, "infectar" a audiência, levar a audiência a sentir o que o artista sentiu. A forma adequada exige individualidade em vez de imitação repetitiva; brevidade em vez de redundância, clareza em vez de obscuridade, simplicidade de expressão em vez de complexidade formal.
Uma obra de arte revela-se formalmente adequada quando exerce um apelo universal.
Uma obra de arte genuína não precisa de um intérprete, não se restringe a uma élite, aos happy few, porque directa e imediatamente cria nos outros homens os sentimentos do artista.
Em suma, a arte exige a adequada expressão de um sentimento genuíno. (... ) Tem-se definido a arte como a linguagem das emoções, tem-se dito que a arte exprime ou comunica sentimentos. A característica distintiva da teoria de Tolstoi é a de que o sentimento real do artista é efectivamente comunicado pela obra que ele cria. Segundo Tolstoi, não nos limitamos a reconhecer que um certo poema é uma expressão de dor; não nos limitamos a reconhecer que o autor desse poema foi afectado por um autêntico sentimento de dor. Se o poema for uma genuína obra de arte, nós sofremos. A teoria de Tolstoi estabelece uma íntima conexão entre arte e vida.
Frank N. Magill, Masterpieces of World Philosophy, Harper and Brothers, Nova lorque, 1961, pp. 723-727.

ACTIVIDADES
1 - Comente estas afirmações de Richard Strauss verificando se confirmam o que se diz no texto anterior:
«Eu trabalho friamente, sem agitação, inclusive sem emoção; temos de ser plenamente donos de nós mesmos para organizar esse agitado, movediço tabuleiro de xadrez que é a orquestração.»

2 - É possível que um poema, um quadro, uma sinfonia sejam criados intelectualmente", num estado de espírito do qual está ausente qualquer emoção? Em caso afirmativo será a composição necessariamente uma obra de arte inferior?

3 – Tendo em conta que:
a) Diferentes pessoas respondem diferentemente a uma mesma obra de arte.
b) Há uma disparidade entre a nossa interpretação da obra de arte e a intenção do artista ao produzi-Ia;
c) O que vemos perante nós ou o que ouvimos é a própria obra de arte, o "produto acabado", comente as seguintes afirmações de Collingwood:
«Chamamos a um homem poeta pelo facto de que ele nos torna poetas. Sabemos que está a exprimir as suas emoções porque nos torna capazes de expressar as nossas».

5 - Considera que as emoções que experimentamos perante uma obra de arte correspondem objectivamente às que o artista experimentou ao criá-la? Considera que saber se o artista expressou ou não de certo modo os seus sentimentos ao criar a obra de arte é relevante para saber o que exprime a obra artística? Será idêntico dizer «esta música expressa tristeza» e dizer «o compositor exprimiu os seus próprios sentimentos de tristeza ao escrever esta música»?

6 - Compare a posição da Tolstoi com as ideias expressas no texto seguinte:
Se a arte é de índole essencialmente sensível e afectiva, há que distinguir porém entre
a tensão emotiva do actor criador e as emoções a representar. O artista não põe fatalmente na obra criada as suas emoções, ou pelo menos unicamente as suas emoções. Com o desenvolvimento da actividade artística, o artista passa a dominar cada vez mais por via racional, a frio, a sua matéria, com um «saber de ofício» cujo fim último é todavia fixar, por meio dessa matéria, estados afectivos sentidos ou observados, recriá-los numa construção intelectual. «O que em mim sente está pensando», intuía Fernando Pessoa. E cabe distinguir aqui entre a emoção da criação e as emoções procuradas, «pensadas», as emoções a exprimir, porquanto o artista pode exultar de alegria ao encontrar a expressão justa para a emoção mais pungente. Quando Gromaire pinta os ceifeiros de Orage sur les blés, não estaria por certo a vê- los da sua janela nem a sentir as emoções causadas por esse aspecto da luta do homem com a natureza, mas a evocar o sentimento e a situação para os exprimir emocionalmente em cores lançadas sobre uma superfície. Shakespeare não sentiu realmente o ciúme de Otelo, nem consta que houvesse estrangulado qualquer Desdémona. Não foi um monstro proteiforme, violento como Lear, lascivo como Falstaff, ingénuo como Ofélia, apaixonado como Romeu, perverso como Macbeth, amoroso como Julieta, deprimido como Hamlet, arteiro como lago. Imaginou esses caracteres, pensou, em palavras, as emoções colhidas na vida ou conhecidas na literatura e nos exemplos históricos, com as quais constituiu as «reservas» a que Diderot se refere: os artistas «apoderam-se de tudo o que os impressiona, com o que constituem reservas. É destas reservas formadas neles, mau grado seu, que tantos fenómenos raros passam às suas obras». Poucas vezes estas sucedem imediatamente ao estímulo original ou lhe são sincrónicas; na maior parte dos casos, «não é no furor do primeiro jacto que os traços característicos se apresentam, é nos momentos tranquilos e frios, em momentos de todo inesperados». Sejam quais forem as reacções psíquicas a que o artista obedece, não se limita ele a exteriorizar essas reacções porque o que tem em vista é a criação de objectos novos, significativos, da experiência humana.
João José Cochofel, Iniciação Estética, Europa-América, pp. 68-70

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