sábado, 31 de agosto de 2013

O QUE É A FILOSOFIA: OS PROBLEMAS E O MÉTODO.



O QUE É A FILOSOFIA: OS PROBLEMAS E O MÉTODO.
A filosofia era, para os antigos gregos, o amor pelo saber. Philos significava amor e sophia, saber. Este amor pelo saber, a valorização do saber, é algo que caracteriza em geral os filósofos. Estar informado, a par da evolução do conhecimento científico, das mudanças no modo de pensar e de agir dos seres humanos, é importante para o exercício da atividade filosófica. Os filósofos não se interessam exclusivamente pelo que os outros filósofos pensam. A sua curiosidade e vontade de saber vai para além da história da filosofia. Assim, o amor pelo saber é, a bem dizer, uma característica permanente dos filósofos. Contudo, há uma diferença em relação ao que acontecia há alguns séculos atrás. Imagine que estudava ou na Academia de Platão ou no Liceu de outro grande filósofo grego chamado Aristóteles. Aí estudaria matemática, física, química, biologia, psicologia, geografia, direito, política, etc. Poderá pensar que agora também se estudam essas disciplinas, por exemplo, nas diversas faculdades da universidades portuguesas. Há, apesar de tudo, uma diferença significativa. Na Antiguidade, a filosofia, o referido amor pelo saber, abrangia praticamente todas as áreas do saber. A filosofia era o estudo de tudo o que a humanidade pretendia conhecer.

Todas essas disciplinas pertenciam ao campo da filosofia pelo que quem se interessava pelo estudo do mundo natural, pela matemática ou por questões psicológicas tinha o nome de filósofo. Aristóteles dividia a filosofia em filosofia primeira e filosofias segundas. A filosofia primeira era a metafísica entendida como estudo do que está para lá do mundo natural. As filosofias segundas eram aquilo a que agora chamaríamos física, astronomia, biologia, psicologia, ciência política, etc. Há quem ilustre esta situação dizendo que a filosofia era a «mãe de todas as ciências» e que os primeiros filósofos, apesar de não disporem dos meios tecnológicos que atualmente permitem investigar o mundo natural, foram os primeiros cientistas.
A pouco e pouco, as «filhas» foram abandonando o lar materno, adquirindo autonomia. Tem sido um longo processo. A física emancipou – se no século XVII, a química no século XVIII e a psicologia no final do século XIX, só para dar alguns exemplos. Como aconteceu isso? Estas diferentes formas de saber desenvolveram métodos próprios, diferentes técnicas de investigação constituindo assim uma forma própria – não filosófica – de responder aos problemas que lhes interessava resolver. Assim, questões como «O que é a luz?», « A inteligência é inata ou adquirida?», «Qual a origem das espécies?» que anteriormente eram consideradas filosóficas deixaram de o ser tornando – se respectivamente questões da física, da psicologia e da biologia.
A separação não foi sinónimo de ruptura. A filosofia sempre acompanhou de perto o desenvolvimento das ciências. Não adoptou a sua forma enfrentar problemas e de os resolver – mas manteve – se atenta à sua atividade, colocando problemas como, por exemplo, »O que é o método científico?», «Será que as ciências nos dão o conhecimento da realidade?», « Como progride o conhecimento científico, de forma contínua ou através de rupturas?».
Além de a filosofia não se ter desinteressado das formas de saber que outrora viveram na sua casa, aconteceu – lhe algo muito semelhante ao que aconteceu às ciências: a especialização. Pense numa área do saber como a biologia. Há diversas subdivisões desta ciência: a  biologia molecular, a genética, a bioquímica, a biologia marinha, a biofísica, a biologia do desenvolvimento, etc. Um biólogo não pode saber tudo sobre biologia, tal como  um físico e um matemático não dominam na totalidade as questões da física e da matemática. O campo de investigação é tão vasto e complexo nestas áreas que ser especialista é quase uma tarefa de Hércules.
A um filósofo acontece o mesmo. A filosofia especializou – se. Dividiu – se em várias disciplinas. Quem quiser ser especialista em lógica, em filosofia moral ou em filosofia da religião – algumas das disciplinas filosóficas – tem uma vida de trabalho que dificilmente deixa espaço e tempo para o domínio aprofundado de outra área da filosofia. Assim, podemos olhar para o campo de investigação da filosofia e encontrar diversas regiões conforme os problemas filosóficos tratados.
Nas próximas páginas aprenderá essencialmente o seguinte:
 a) Que tipo de problemas são estudados pelos filósofos e
b) O que caracteriza a forma de estudar esses problemas.
Seja bem – vindo ao mundo da filosofia. Aqui será livre de defender as suas ideias. Mas com uma condição: deve fazê – lo com bons argumentos e aceitar que os outros avaliem os seus argumentos, concordando com eles ou discordando.


O NOSSO PERCURSO
  1.Apresentação de problemas filosóficos e identificação das disciplinas filosóficas que os estudam.
2.Esclarecimento de por que razão estes problemas são filosóficos, ou seja, o que distingue os problemas filosóficos de outro tipo de problemas.
3.O método da filosofia.
   4.Caracterização da atitude filosófica.

 

1. Alguns problemas filosóficos e as disciplinas que os estudam.
1.1. Será que somos livres? Escolhemos realmente o que fazemos?
Suponha que é um brilhante informático que realizou um feito extraordinário. Criou um andróide que parece a encarnação das fantasias das obras e filmes de ficção científica, algo muito semelhante ao andróide Commander Data da série Star Trek. Contudo, algo de terrível acontece.
A sua extraordinária criação mata um ser humano. Não conseguindo capturar o andróide, a polícia prendê – o a si. É imediatamente acusado de assassínio. O Ministério Público considera-o responsável pelo assassínio porque programou o andróide. Responde que o programou para fazer escolhas decorrentes do seu livre-arbítrio. O acusador declara que o andróide não podia eventualmente fazer livres escolhas porque as suas decisões são o resultado directo 1) do modo como foi programado e 2) das subsequentes modificações provocadas pelo ambiente.
Defende-se dizendo que se o andróide não tem livre-arbítrio por causa da sua constituição de base e das influências do meio, então os seres humanos também não têm livre-arbítrio. Os seres humanos, tal como o andróide, são o resultado da influência de factores genéticos (biológicos) e ambientais (sociais e culturais).
Tal como o andróide foi programado por si, assim os seres humanos foram programados pelos seus genes e pelo meio em que cresceram e foram educados. Está a defender que, se os seres humanos têm livre- arbítrio, então o andróide também tem. Mas será esta afirmação correcta? Pode o andróide ser ao mesmo tempo programado e livre para fazer as suas próprias escolhas? «Programado e com livre-arbítrio» não é uma contradição nos termos? E nós, seres humanos, não estamos no mesmo barco do andróide? Acreditamos que somos profundamente influenciados pelos nossos genes e pelo meio. Mas também acreditamos que pelo menos algumas das nossas escolhas e acções são livres. Podem estas duas crenças ser verdadeiras? Não é uma a negação da outra?

Este é um dos grandes problemas da filosofia: o problema do livre – arbítrio. Escolhemos realmente o que fazemos, somos os autores das nossas decisões e acções ou isso não passa de ilusão? Não são as nossas acções “programadas” pela herança genética que recebemos e pela educação que nos deram? Não seremos o que os outros fizeram de nós?
A disciplina filosófica que debate estes e outros problemas tem o nome de Metafísica.

1.2. O que é agir moralmente bem? Em que nos baseamos para distinguir o certo do errado?
Alberto sabe que Vicente é infiel à mulher. Mulherengo aparentemente incorrigível, Vicente gaba-se junto dos amigos das suas várias incursões extramatrimoniais. Esta ausência de escrúpulos morais é para Alberto extremamente indecente. A mulher de Vicente é uma amiga de longa data que Alberto julga estar a ser humilhada sem disso se aperceber. Debate-se então com um problema: se conta a verdade à amiga, poderá causar-lhe um enorme desgosto; se decide não intervir, torna-se conivente com as mentiras de Vicente. Alberto acaba por revelar a verdade. Julga ser esse o seu dever, considerando que dizer a verdade é mais importante do que causar um desgosto.
Será que Alberto agiu bem? Suponha que está de acordo com a decisão de Alberto. Em que se baseia para aprovar essa decisão? Nas consequências da acção? No dever de dizer a verdade?
O que é agir moralmente bem? Como distinguir o certo do errado? Esta é uma das questões fundamentais de uma disciplina filosófica chamada Ética.

1.3. Por que razão devo pagar impostos? É justo que o Estado me force a contribuir dessa maneira para a redução das desigualdades e o bem – estar comum?
Todos pagamos impostos direta ou indiretamente. Quando nascemos é – nos atribuído um número de contribuinte. Mais tarde perceberemos porquê mas poderemos não aceitar a justificação que eventualmente nos é dada. Repare que a questão é esta: “Devo pagar impostos para reduzir o fosso entre ricos e pobres, para que os que tem pouco possam viver melhor do que vivem?”. Em geral, não se põe em causa que se paguem impostos para assegurar o ordenado dos funcionários do Estado – administração pública, polícia, exército, etc.
Uma das primeiras coisas de que nos apercebemos na vida é da desigualdade económica. Uns são ricos, outros são pobres. Uns são muito ricos, outros são muito pobres. Uns deitam fora comida, têm belas casas e carros, outros morrem de fome. Há quem considere injusta esta situação e defenda que as pessoas que mais ganham e as que ganham o suficiente devem contribuir, mediante os impostos, para ajudar os pobres ou os menos favorecidos em talento, capacidade e oportunidades. Há estudantes talentosos mas que devido a dificuldades económicas não tem meios para prosseguir os estudos. Não será justo ajudá – los? Há pessoas que afetadas por doenças não têm meios para pagar tratamentos e remédios. Não será justo forçar os que podem contribuir, nas devidas proporções, a ajudar quem precisa?
Isto parece óbvio mas há quem veja com desagrado a obrigação de contribuir nestes casos. Forçar os que estão em condições de o fazer, a pagar impostos para assegurar serviços como a segurança social, cuidados médicos e apoio aos estudos de estudantes carenciados, parece – lhes uma violação do direito de cada um ao que é seu e adquiriu por meios legítimos e com mérito. Para estas pessoas, o que está em causa é a liberdade individual. Deve ser cada indivíduo a sensibilizar – se com a pobreza, o sofrimento e as carências dos outros e a contribuir por sua iniciativa. Cada qual tem o direito de fazer o que quiser com o que é seu. A solidariedade não deve ser ordenada, imposta, forçada.
Este desacordo sobre a obrigatoriedade dos impostos tem a ver com um importante problema filosófico: “Quais devem ser as funções do Estado? Intervir o máximo possível na vida dos cidadãos regulando – a em muitos aspectos ou limitar – se a fiscalizar o cumprimento de contratos, a proteger as pessoas da violência e do roubo, por exemplo?”. Mas há um problema ainda mais profundo e relevante que está ligado a esta questão. Qual? O problema da relação entre o Estado – o governo sobretudo – e a liberdade individual. Ser forçado a pagar impostos para assegurar a distribuição da riqueza não é uma violação ilegítima da liberdade individual?
Este problema é debatido pelos filósofos que se dedicam à Filosofia Política.
Outras questões tais como:Devo obedecer sempre ao que o Estado ordena?”, “Deve o Estado transformar em lei as convicções morais da maioria?”, “Deve o Estado impedir que uma pessoa faça mal a si própria?”, “ O que deve o Estado defender mais? A liberdade individual ou a segurança coletiva?” são também muito importantes em Filosofia Política.

1.4. O que faz de uma coisa uma obra de arte?

                                                          “Guernica”de Picasso.

NOTA  No You Tube há um excelente documentário em inglês sobre o famoso quadro Guernica. Não tem legendas. O link é: http://www.youtube.com/watch?v=vCONk349Yo0&feature=related

Ao olhar para este quadro muitas pessoas não verão aquilo que é costume associar a uma obra de arte: a beleza. Tudo parece disforme, confuso, desagradável. Mas será que uma obra de arte tem de ser bela para ter valor artístico? O feio, o desagradável não têm direito a um lugar no mundo da arte? E o que é a beleza? Quando consideramos artística uma determinada obra, o que queremos dizer com isso? De que depende esse valor artístico que não reconhecemos a outras obras?
A célebre obra acima exposta – uma das mais famosas de sempre -  é uma manifestação de revolta contra a crueldade e visava defender a causa republicana contra os franquistas. Será que é a esse facto que deve a sua importância na história da arte? Uma obra tem de desempenhar um papel social, político ou moral para, juntamente com as suas qualidades próprias ou internas, ser qualificada como obra de arte? Picasso afirmava que um pintor não era um idiota que pintava para decorar as paredes das casas de quem compra obras de arte. Pensava que uma obra de arte devia ter uma função social e política. Mas será que tem razão? O valor artístico de uma obra depende de ser um meio para um certo fim? Se, por exemplo, uma obra desagradar à moral estabelecida é correcto dizer que perde por isso mesmo o seu valor artístico ou que ele diminui perante outras obras?
Estas e outras questões são debatidas numa disciplina filosófica intitulada Filosofia da arte.

1.5. A existência de Deus é compatível com o mundo cheio de desgraças e crimes que ele supostamente criou?
Num universo presumivelmente governado por um Deus benevolente e todo-poderoso, como foi possível um acontecimento tão medonho como o extermínio de aproximadamente seis milhões de judeus – entre outros milhões – levado a cabo pelos nazis?
Num filme documental da BBC esta é a pergunta angustiada e revoltada feita por vários prisioneiros judeus cujo destino será muito brevemente a morte nas câmaras de gás. Um Deus que permite tal coisa não é incrível? Pode – se acreditar na sua existência quando o drama terrível vivido pelos condenados à morte em Auschwitz aponta para a sua ausência e, bem pior, caso exista, para a sua cruel indiferença?
O cenário é dramático e as perguntas pesadas e graves: Se Deus permitiu o Holocausto fez de Hitler – a encarnação do mal – o seu instrumento? Por que razão quebrou Deus a Aliança com o seu povo (os judeus consideram – se o povo escolhido)? Será que este extermínio é um sacrifício querido por Deus para purificar o seu povo? Ou será, como o sugeriu Primo Lévi – um sobrevivente de Auschwitz - , a prova de que Deus tal como o entendem os teístas, não existe?  Sentindo que o seu extermínio é uma questão de horas ou de dias, alguns prisioneiros decidem colocar Deus no banco dos réus.

NOTA NA MARGEM – No You Tube encontra – se legendado o filme God on Trial – o Julgamento de Deus. O Link é: http://www.youtube.com/watch?v=tFGVoNxIx1g


A existência do mal torna problemática e, para muitas pessoas, inadmissível a existência de um Criador omnipotente, omnisciente e bondoso.

Vários filósofos têm desenvolvido argumentos a favor e contra a conclusão do «argumento do mal».
Este é um dos mais importantes problemas de uma disciplina filosófica intitulada Filosofia da Religião.

No quadro seguinte encontra outros problemas filosóficos e outras disciplinas filosóficas que deles tratam. Tivemos o cuidado de apresentar anteriormente aquelas disciplinas cujos problemas fundamentais irão ocupar – nos no 10º ano.

ALGUMAS DISCIPLINAS FILOSÓFICAS
ÉTICA OU FILOSOFIA MORAL
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
FILOSOFIA POLÍTICA
Disciplina que procura responder ao problema de saber como devemos viver. Esta questão é habitualmente dividida em duas questões menos gerais:
1) Como distinguir uma acção moralmente correcta de uma incorrecta?
2) O que devemos fazer da nossa vida para a tornar boa ou valiosa?
 A estas questões responde uma área da ética chamada «ética normativa».
Outra área da filosofia moral é a metaética. Propriamente falando, não coloca questões éticas, mas sobre a ética. Alguns problemas desta área são os seguintes:
 1 – Qual a natureza dos nossos juízos morais? São objectivos ou subjectivos? Podemos dizer que são verdadeiros ou falsos? Há juízos morais em si mesmos verdadeiros ou será que a sua avaliação varia conforme as crenças estabelecidas em cada sociedade? 2 - Será que a moralidade depende de Deus?
3 - Por que razão devemos agir moralmente?
Finalmente, os problemas morais concretos pertencem a uma área da filosofia moral chamada «ética aplicada». Eis alguns desses problemas:
1 - O que é uma guerra justa? Haverá guerras justas?
2 - Ajudar as pessoas pobres é nossa obrigação moral?
3 -  A pena de morte é moralmente justificável?

DIFERENÇA EM RELAÇÃO ÀS CIÊNCIAS
O antropólogo, por exemplo, estuda e compara as diversas crenças morais de diferentes sociedades, enquanto o filósofo coloca questões mais gerais e fundamentais, a saber: «Como decidir o que é correcto e errado? Haverá verdades morais objectivas? A ética é relativa ou haverá verdades morais independentes das preferências individuais e das várias culturas?
Disciplina que analisa os conceitos fundamentais e as crenças religiosas básicas interrogando-se sobre a sua verdade e justificação. Eis alguns problemas típicos:
1 - Deus existe?
2 - O mal que há no mundo é compatível com a existência de Deus?
3 - São os milagres provas credíveis da existência de Deus?
4 - Até que ponto a fé religiosa deve estar ao abrigo de discussão?

DIFERENÇA EM RELAÇÃO ÀS CIÊNCIAS
 A sociologia da religião, por exemplo  estuda as crenças religiosas das diversas populações do mundo. Mas uma coisa é estudar tais crenças e outra é perguntar se elas têm justificação.
Disciplina filosófica que, em estreita ligação com a ética, reflecte sobre a natureza, funções e legitimidade da autoridade do Estado na sua relação com os cidadãos. Esta reflexão gera questões mais específicas como as seguintes:
1 - O Estado é um bem? É um mal menor? É necessário ou poderíamos dispensá-lo?
2 -  Até que ponto é legítima a intervenção do Estado e da sociedade na vida dos indivíduos?
3 - Qual é o valor político fundamental? A liberdade, a igualdade, a justiça ou a
segurança e coesão sociais? Se é a liberdade, até que ponto devemos obedecer às leis do Estado? Se é a igualdade, como deve o Estado promovê-la?
4 - O que é uma sociedade justa?
DIFERENÇA EM RELAÇÃO ÀS CIÊNCIAS

Repare que enquanto o cientista político analisa, por exemplo, as diversas formas de governo, o filósofo pergunta «O que torna um governo legítimo e justo? Quais são os limites da sua autoridade? Temos o dever de lhe obedecer sempre?»

FILOSOFIA DO CONHECIMENTO
LÓGICA
METAFÍSICA
Disciplina que se interroga sobre a natureza, origem, limites e justificação das nossas crenças. Eis algumas das suas questões:
 1 - O que é o conhecimento?
2 -  Será apenas uma crença verdadeira devidamente justificada?
3 - Como sabemos o que é a verdade? Com que critério podemos distinguir a verdade da falsidade?
4 -  Será que o conhecimento depende fundamentalmente da experiência ou da razão?

DIFERENÇA EM RELAÇÃO ÀS CIÊNCIAS

Enquanto os cientistas das mais diversas áreas procuram aumentar o nosso conhecimento dos factos históricos e naturais, o filósofo interroga-se sobre o que é o conhecimento, como o adquirimos, qual a sua extensão, se há verdades objectivas ou se tudo é relativo, o que distingue o conhecimento científico de outros tipos de conhecimentos, etc.






É a disciplina que estuda em que condições os nossos argumentos são válidos.
Eis várias questões típicas:
1 – O  que é um argumento?
2 – Que tipos de argumentos existem?
3 – Em que consiste a validade de um argumento? Apesar de válido não ser sinónimo de verdadeiro será que um argumento válido nada tem a ver com a verdade?
4 – O que distingue a validade dedutiva da validade indutiva? A verdade das premissas garante sempre a verdade da conclusão?
5- Para que um argumento seja bom, persuasivo e convincente é suficiente que seja válido?

DIFERENÇA EM RELAÇÃO ÀS CIÊNCIAS
A psicologia estuda o pensamento como processo mental procurando determinar que regiões cerebrais estão mais envolvidas nessa atividade.




Disciplina que estuda os aspectos mais gerais da realidade. Eis algumas questões metafísicas:
1-  Será que a vida faz sentido?
2 -Temos livre-arbítrio?
3 -  O que é a realidade? Uma pedra, o valor de uma mercadoria e um sonho são igualmente reais? Há critérios seguros para distinguirmos as aparências da realidade?

DIFERENÇA EM RELAÇÃO ÀS CIÊNCIAS

É tarefa do físico estudar os constituintes últimos da realidade física tais como os átomos, os quarks e os neutrinos. Mas não se ocupa com uma questão como «É a realidade física tudo o que existe?». Essa questão é própria do filósofo. Se a neurobiologia estuda a atividade do cérebro e a sua influência sobre o comportamento e os processos mentais, o filósofo interroga-se sobre a relação entre o físico e o mental perguntando se os estados mentais nada mais são do que fenómenos do cérebro.






2.Que tipo de problemas estudam os filósofos? O que são problemas filosóficos?
Demos exemplos de problemas filosóficos. Trata – se agora de mostrar por que razão os referidos problemas são filosóficos. Alguns dos exemplos dados servirão para o nosso propósito.


2.1. Os problemas filosóficos não são problemas empíricos e não têm solução científica.

Consideremos o seguinte problema: «Será que Deus existe?». Procuremos uma resposta junto das ciências da natureza – a física, a química e a biologia - e das ciências sociais e humanas – a psicologia, a história, a sociologia, etc. Não a encontraremos. Alguns cientistas da natureza podem mesmo acreditar que Deus existe mas reconhecem que a observação e a experimentação não são meios adequados para tratar o problema. Não podem provar nem que Deus existe nem que Deus não existe. O mesmo acontece com as ciências sociais e humanas. Quando muito podem tentar esclarecer a história da ideia de Deus, a importância psicológica da crença num ser omnipotente, o modo como é adorado nas diversas sociedades e qual o papel das religiões na vida das sociedades mas a questão «Será verdade que Deus existe?» não obtém resposta. Porquê? Porque não se trata de um problema empírico, ou seja, de um problema que poderíamos tentar resolver recorrendo a métodos que envolvem a observação, a experimentação e a análise de documentos.
Poderemos responder ao problema mediante fórmulas e equações matemáticas? Também não. A existência de Deus não é um problema matemático. Não o encontramos nem mesmo formulado em nenhum manual desta disciplina.
Pense em outras questões como estas:
1.«O universo físico é tudo o que existe?»
2.«Uma ação é boa por causa das consequências ou devido à intenção que está na sua origem? Como distinguir uma ação boa de uma acção incorreta?».
3.«Há normas morais objetivas e universais ou é tudo relativo? ».
4.«Somos livres ou as nossas ações estão determinadas pela educação que recebemos e pelo património genético que herdámos?».
5.«É correto dizer que os animais têm direitos?».
Se a questão «Será que Deus existe?» não pode ser resolvida através da observação, da experimentação ou do raciocínio matemático, o mesmo acontece com os problemas acima apresentados. Não são problemas empíricos como os das ciências da natureza e os das ciências sociais e humanas.


SÍNTESE
1 – Os problemas filosóficos não são empíricos.
Nenhum instrumento científico, nenhuma experimentação permitem resolver um problema filosófico.
2 - Os problemas filosóficos não são problemas matemáticos.
Os problemas filosóficos são problemas cuja resposta é dada fundamentalmente pelo pensamento. Mas a matemática resolve também os seus problemas recorrendo exclusivamente ao pensamento e ao raciocínio. Será que os filósofos não resolvem os seus problemas recorrendo à matemática?».Não. A filosofia não recorre como a matemática a métodos formais de demonstração nem a cálculos para resolver os seus problemas. É uma afirmação bastante óbvia. Basta pensar que problemas como o da existência de Deus ou o da moralidade do aborto não são de modo algum problemas matemáticos. Em filosofia não se usam equações e cálculos para responder a problemas.

3 – Os problemas filosóficos são problemas que não têm solução científica.
Se nem as ciências empíricas – naturais e sociais e humanas – nem a matemática  podem dar resposta aos problemas filosóficos, devemos concluir que a filosofia não é uma ciência e que as suas questões não podem ter uma resposta científica.



A filosofia tem por objectivo o exame crítico dos conceitos e ideias que, como vai ver, usamos na ciência, na arte, na religião, na moral, na política e no nosso quotidiano. Não  produz um alargamento do nosso conhecimento de factos. Como não contribui com mais conhecimentos para o conjunto de conhecimentos que se formam nas outras atividades humanas, a filosofia parece não ter importância para a nossa ação no mundo. Daí a pensar – se que despreza os factos vai um pequeno passo. Nada mais falso. Para o provar considere o seguinte argumento:
1-Se Deus é perfeito, então tudo o que ele criou é perfeito.
2-Ora o mundo é imperfeito dado que há muito sofrimento, muita fome e cada vez menos recursos naturais.
3-Logo, Deus não é perfeito.
Neste argumento – cuja validade não interessa agora discutir -  a premissa 2 é constituída por informação empírica relevante para a argumentação. Como pode Deus ser perfeito se vemos que o mundo por ele criado é imperfeito?
Embora a informação empírica não nos dê uma resposta conclusiva a um problema filosófico, ela desempenha um papel importante. Na verdade, não é possível argumentar de forma racionalmente persuasiva acerca da moralidade do aborto, da eutanásia, da clonagem sem informação empírica. Não é possível defender que devemos ser vegetarianos se não tivermos dados empíricos credíveis que mostrem que o consumo de carne é dispensável.

Até agora mostrámos que os problemas filosóficos são problemas não – empíricos para os quais não há resposta ou solução científica. Dissemos que não são problemas científicos nem empíricos. Mas em vez de nos limitarmos a dizer o que a filosofia não é tentaremos dizer o que é.

Atividade 1
I
Ao longo da sua história, o ser humano colocou um vasto número de questões acerca de si mesmo e do universo. Eis uma lista de algumas dessas questões. Tente identificar as perguntas que, em certa medida, já estão resolvidas e aquelas que não obtiveram resposta nem por parte das ciências naturais nem no campo das ciências sociais e humanas. Das questões que não obtiveram resposta assinale as que lhe parece não poderem ter resposta científica. Essas são os problemas filosóficos. Recorra, escusado será dizer, ao auxílio e às sugestões da sua professora ou do seu professor. Note que não precisa de responder às questões.
1.Qual é a idade da Terra?
2. Como circula o sangue pelo corpo humano?
3. A morte é o fim de tudo?
4.O que é a justiça?
5. Fui criado por Deus?
6.É correcto matar animais para os comermos?
7. O que devo fazer para não contrair SIDA?
8. As lesões cerebrais provocam alterações de personalidade?
9. Será que graves deficiências de nutrição na infância impedem um desenvolvimento adequado da inteligência?
10. Somos livres ou a liberdade é uma ilusão? Será que podemos ser responsabilizados pelas nossas acções se não formos livres?
11. Se há Deus, então por que existem doenças, guerras, fome e miséria?

12. Os seres humanos são tão antigos como o planeta em que vivem?
13. Há vida extraterrestre?
14. A pena de morte é moralmente correcta?
15. O que faz da Monalisa de Leonardo da Vinci uma obra de arte?
16.Será que a vida tem sentido ou a morte torna absurdo tudo o que fazemos e projetamos?
17. Será que algum ser humano vai conseguir viver até aos 250 anos?
18. Temos direito à vida antes de nascer?

As questões 3,4,5,6,10,11,14, 15,16 e 18 são problemas filosóficos.


II
Indique as disciplinas filosóficas que tratam dos seguintes problemas.
1.Será que é justo o Estado cobrar impostos tirando aos mais ricos para socorrer os mais pobres?
2.Como compatibilizar a crença num Deus bom e omnipotente com a existência de mal e sofrimento no mundo?
3. Os problemas morais são uma questão de opinião pessoal?
4. Que características deve um conhecimento possuir para ser considerado científico?
5. As acções são boas em si mesmas (independentemente das consequências) ou o seu valor depende dos resultados?
6. Temos uma alma que sobreviverá à morte do corpo ou que deixará de existir assim que o corpo morrer?

7. Temos o dever de ajudar os outros ou a nossa única obrigação moral é não os prejudicar?
8. Temos o direito de antecipar a nossa morte ou de morrer por nossa vontade?

1. R: Ética e Filosofia Política;2. R: Filosofia da Religião ;3. R: Ética.4. R: Filosofia da ciência;5. R: Ética;6. R: Metafísica e Filosofia da Religião  ;7. R: Ética ;8. R: Ética.


2.2. Os problemas filosóficos nascem da reflexão sobre certos conceitos gerais ou fundamentais que estão ligados a atividades como a arte, a moral, a política, a religião e a ciência.
Produzimos obras de arte. Criamos normas que definem o que é correcto ou errado, permitido ou proibido. Construímos templos como sinagogas, igrejas e mesquitas onde mediante rituais estabelecidos manifestamos a nossa fé num Ser Supremo. Organizamos a nossa vida em sociedade criando regras para a distribuição da riqueza e dos bens, para o modo como podemos participar nas suas grandes decisões políticas. Procuramos conhecer o universo não só para fazer recuar a fronteira do desconhecido como também para melhorar a nossa vida aqui.
Arte, moral, religião, política e ciência são algumas das mais importantes atividades que ocupam os seres humanos. Em todas essas atividades são usados alguns conceitos muito gerais. Na atividade científica são utilizados conceitos fundamentais como conhecimento, realidade, verdade. O filósofo perguntará em que consiste o conhecimento, como se pode alcançar um conhecimento objectivo e se na verdade estamos a conhecer a realidade. Na atividade artística usamos conceitos como arte, génio, belo, sublime, etc. O filósofo perguntará o que faz de uma coisa uma obra de arte, o que torna uma coisa bela e o que é o génio artístico. Na atividade política usamos conceitos como estado, justiça e igualdade. O filósofo perguntará o que é o estado, se é necessária a sua existência, até que ponto é legítimo que intervenha na nossa vida, se podemos e quando podemos desobedecer às suas leis, se justiça é sermos todos iguais, etc. Na vida moral usamos conceitos como bem e mal, intenção e consequências. O filósofo perguntará o que é o bem, o que é o mal, o que distingue uma acção boa de uma acção má, que ligação há entre a intenção, as consequências e o valor moral de uma acção.

2.3.  Os problemas filosóficos nascem quando transformamos em interrogações certas crenças básicas ou fundamentais.
Além de não terem solução científica, os problemas filosóficos estão ligados às nossas crenças mais básicas ou fundamentais. Em que consiste essa ligação? Em transformar essas crenças em problemas. Assim, há quem acredite que Deus existe e quem acredite que Deus não existe. Esta incompatibilidade de crenças transforma – se no problema «Será que Deus existe?».


O QUE SÃO CRENÇAS BÁSICAS OU FUNDAMENTAIS?
O que é uma crença? Podemos dizer que é uma opinião ou um conhecimento que consideramos verdadeiro. Não se deve confundir crença com fé, que é apenas uma forma religiosa de crença. O que são crenças básicas ou fundamentais? São crenças cuja verdade ou falsidade determina a verdade ou falsidade de outras crenças que delas dependem. São semelhantes aos alicerces de um edifício. A crença fundamental de várias religiões é a de que Deus existe. Se esta crença for falsa, então outras crenças que dela dependem tornar-se-ão falsas ou pelo menos terão de ser revistas. É o caso da crença de que a moralidade das nossas acções consiste em cumprir a vontade de Deus expressa num dado número de mandamentos. Acreditamos que temos de ser responsabilizados pelas acções que praticamos livremente. Esta crença tem na sua base uma outra. A crença de que somos livres. Se esta crença for falsa então ficamos com um problema: como responsabilizar alguém por algo que não dependeu da sua vontade?




Há quem afirme que o aborto é moralmente correcto e quem acredite que é moralmente incorreto. Esta incompatibilidade de crenças transforma – se no problema «Será que o aborto é moralmente legítimo?».
Há quem acredite que não temos o direito de tratar os animais como, na maioria dos casos, o fazemos – matando – os para os comer, usando – os em experimentações e em espetáculos  que os fazem sofrer – e quem julgue temos o direito de os tratar como bem entendermos em nosso benefício. Estas duas crenças inconsistentes ou incompatíveis uma com a outra dão origem ao problema «Será que os animais têm direitos, temos obrigações morais a seu respeito?». Acreditamos que somos livres – que as nossas acções não escapam ao controlo da nossa vontade – mas também parece haver boas razões para pensar que não somos livres (que as nossas acções não são controladas pela nossa vontade). Assim surge mais um problema filosófico: «Será que somos livres ou as nossas acções são completamente determinadas por fatores que não controlamos?».





SÍNTESE
OS PROBLEMAS FILOSÓFICOS E A SUA NATUREZA: O QUE SÃO?

1



SÃO PROBLEMAS NÃO - EMPÍRICOS
As respostas aos problemas filosóficos não podem ser obtidas através do uso instrumentos científicos sofisticados, como telescópios, sondas espaciais, tubos de ensaio, submarinos, instrumentos variados de registo, etc. A experiência e a experimentação não podem ajudar – nos a resolver os problemas da filosofia.

2



SÃO PROBLEMAS SEM SOLUÇÃO CIENTÍFICA DISPONÍVEL OU QUE NUNCA TERÃO RESPOSTA CIENTÍFICA.
Questões como: «Será que Deus existe?»;«Podemos responsabilizá – lo pelo mal que existe no mundo?»;«Pode a nossa vida ter sentido mesmo que a morte seja inevitável e definitiva?»; «O que devemos procurar ser nesta vida? Haverá algum valor superior a todos os outros?» são problemas que não podem ser resolvidos mediante os métodos de investigação e de demonstração das ciências.

3
SÃO PROBLEMAS MUITO GERAIS
O que caracteriza a as questões filosóficas é a sua grande generalidade – embora haja umas mais gerais do que outras. Uma questão como «O que é o conhecimento e como é ele possível?» é muito mais geral e radical do que problemas próprios das ciências biológica e psicológica, nomeadamente « Qual a influência da nossa constituição genética no nosso desempenho intelectual?» ou «Será que poderemos algum dia determinar seguramente qual o papel da hereditariedade no nosso comportamento?».


4
SÃO PROBLEMAS ABERTOS
Uma questão fechada é uma questão cuja resposta obtém o acordo e o consenso racional da maioria das pessoas ( «Quantos satélites tem a terra?» é um exemplo). Todos os problemas filosóficos são questões abertas. As respostas a tais questões não satisfazem todos os entendidos. Pessoas razoáveis discordam quanto ao que será a resposta verdadeira ou mais razoável.

5
















SÃO PROBLEMAS QUE RESULTAM DA REFLEXÃO SOBRE OS CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM QUE SE BASEIAM VÁRIAS ACTIVIDADES HUMANAS.

Atividades
A arte, a moral, a política, a religião, etc.


Conceitos básicos ou muito gerais que estão ligados a essas atividades Arte, beleza, bem, mal, justiça, igualdade, etc.


Questões filosóficas:
- O que faz com que os quadros de Picasso sejam obras de arte? Uma obra tem de ser bela para ser artística? O que é a beleza? A arte deve cumprir uma função educativa no plano moral e social para ter valor?
- De que depende a correção moral de uma acção? Dos resultados ou da intenção? É correcto sacrificar uma pessoa para salvar outras? O que conta mais, os nossos direitos ou os interesses da sociedade? Há direitos que todas as pessoas devem ter sejam o que forem e vivam onde viverem? Devemos dizer sempre a verdade?
-O que é o Estado? É um bem ou um mal necessário? O que deve ter mais importância, a segurança ou a liberdade? A liberdade de expressão deve ter limites? Quais? Porquê? Devo obedecer sempre às leis do Estado? Em que situações não devo obedecer? Até que ponto deve o Estado governar a minha vida e intervir nela? Como distribuir a riqueza que uma sociedade produz para que haja justiça social? De forma igualitária ou respeitando as desigualdades entre os indivíduos? Neste último caso, que grau de desigualdade é admissível e correcto?



6







SÃO PROBLEMAS QUE SURGEM DE CRENÇAS INCOMPATÍVEIS ACERCA DE CERTAS QUESTÕES BÁSICAS OU FUNDAMENTAIS.
«Deus existe».


«Deus não existe»

«Temos livre – arbítrio»

«Não temos livre – arbítrio»
«É justo pagar impostos»


« Os impostos são um roubo»

«As boas intenções fazem boas as acções»

« A árvore conhece – se pelos frutos»

Problema  filosófico
Problema
filosófico
Problema
filosófico:
Problema filosófico
«Será que Deus existe?»

« Será que temos livre – arbítrio?».
« O que é a justiça? É justo pagar impostos?».

«De que
depende a correcção moral de uma acção? O que a torna boa?».



ATIVIDADE 2
TEXTO 1
A filosofia é o pensamento crítico acerca de crenças básicas ou fundamentais.
Há mais do que uma ideia acerca da natureza da filosofia mas para simplificar apresentaremos a seguinte definição operacional de filosofia: a filosofia é o pensamento crítico acerca de crenças básicas ou fundamentais. O objeto de estudo da filosofia são essas crenças. Uma crença é uma ideia ou pensamento que pode ser expresso através de uma proposição. “A terra é plana” é uma crença, embora falsa. “ A coisa correta a fazer é defendermos sempre os nossos interesses” é uma crença moral. Temos crenças de senso comum, científicas, religiosas e outras.
A filosofia não tem como objeto de estudo todas as crenças mas unicamente aquelas que são básicas. Uma crença é básica se a sua verdade ou falsidade determina a verdade ou falsidade de outras crenças. Tal como um fraco alicerce põe em risco todo o edifício, também uma crença fundamental que seja falsa põe em causa todo o conjunto de crenças que dela dependem. Por exemplo, e falando em geral, a crença fundamental da religião é a crença de que Deus existe. Sobre esta crença assentam outras tais como a ideia de que Deus é quem distingue o Bem do mal – a moral dependeria da religião – ou a crença de que Deus tem um propósito para a nossa vida e que só o cumpriremos obedecendo aos seus mandamentos. Se a crença na existência de Deus for falsa, então as outras deixam de ter suporte e apoio. A estas crenças fundamentais dá – se por vezes o nome de “grandes questões” ou “problemas fundamentais”.
Algumas destas crenças básicas estão implícitas no modo como todos os dias pensamos e agimos. Estas crenças são formas de orientar a nossa relação com o mundo e são necessárias para que a nossa vida funcione. Contudo, raramente são explicitadas e clarificadas e, muito menos, examinadas criticamente. Consegue imaginar como seria a sua vida se, num dado momento, deixasse de acreditar que Deus existe? Mudaria a sua relação com outras pessoas e com instituições religiosas. Poderia, por exemplo, pensar que a vida deixava de ter sentido por não haver a esperança de um outro mundo e de uma outra vida depois desta. Fosse qual fosse a sua reação, a verdade é que teria de reformular a sua posição perante algumas questões fundamentais da existência.
Toda e qualquer atividade humana se baseia em certas crenças fundamentais. Toda a ciência tem crenças básicas sobre as quais constroem as suas teorias. O mesmo acontece com a arte e a política.
As crenças que vamos estudar neste primeiro ano de introdução ao pensamento filosófico relacionam – se mais com a nossa vida quotidiana do que com a ciência.  O nosso objeto de estudo serão as crenças que desempenham um papel importante na vida quotidiana dos seres humanos e que são como que “acordadas” quando algumas circunstâncias as colocam em questão e exigem que sejam examinadas. Assim, quando alguém morre e nos sentimos afectados, podemos de forma intensa interrogar – nos se tudo acaba ali ou se haverá uma continuidade da vida que neste mundo terminou. De modo semelhante, podemos questionar se pessoas que cometeram crimes horríveis agiram livremente ou foram vítimas das circunstâncias  e de profundas perturbações emocionais.
A discussão e exame destas ideias têm um objetivo claro: desenvolver a sua capacidade de problematização e de argumentação filosófica.
Thomas F. Wall, Thinking Critically about Philosophical Problems, Wadsworth, p.3.


1
Segundo o texto, o que é a filosofia?
R: Segundo o texto a filosofia é o pensamento crítico acerca de crenças básicas ou fundamentais.

2
A filosofia é o estudo de todo o tipo de problemas. Esta afirmação, de acordo com o texto lido, é verdadeira? Justifique.
R: Não. A filosofia não tem como objeto de estudo todas as crenças mas unicamente aquelas que são básicas ou fundamentais. Crenças como a de que Deus existe, que escolhemos realmente o que fazemos – que somos realmente livres - , que há valores morais absolutos, que a arte é expressão de emoções, que a justiça é incompatível com a desigualdade, que só os seres humanos têm direitos, etc.


3
O que são crenças básicas ou fundamentais?
R: São crenças em que outras se apoiam e de cuja verdade dependem. Considere – se a crença de que somos livres, ou seja, de que agindo de uma certa forma poderíamos ter agido de outra. Da verdade desta crença depende a ideia de responsabilidade moral e a ideia de dever. Não sou genuinamente responsável por uma ação que não pude evitar. Não faz sentido falar de dever a quem não pode agir de outra maneira tal como a árvore arrancada pelo vento que desaba em cima de uma casa. Que deva ser honesto implica a possibilidade de ser desonesto. Só há deveres para quem pode não os cumprir.
4
A filosofia é o estudo das nossas crenças (ideias, convicções)) mais básicas e fundamentais e por isso mesmo limita-se a estudar problemas de tipo religioso. O texto que leu permite uma tal afirmação? Justifique.
R: Não. O texto diz que temos crenças de senso comum, científicas, religiosas e outras. Se as únicas crenças estudadas fossem as religiosas então a filosofia seria unicamente filosofia da religião e sabemos que há mais problemas que interessam aos filósofos.



Temos de filosofar para aprender filosofia
A filosofia é diferente de muitas outras disciplinas porque para estudar filosofia temos de filosofar. Para ser um historiador da arte não precisa de saber pintar; para estudar poesia não é necessário ser poeta; Pode estudar música mesmo que não saiba tocar qualquer instrumento. Contudo, para estudar filosofia tem de praticar a argumentação filosófica ( saber justificar como chegou a certas conclusões). É evidente que não se pede que filosofe ao nível dos grandes filósofos: mas ao estudar filosofia, estará a fazer o mesmo que eles. Pode jogar futebol sem atingir o nível de um Messi ou de um Cristiano Ronaldo e pode filosofar sem atingir o grau de brilhantismo e de criatividade de um Platão, de um Kant ou de David Hume. Em ambos os casos, apesar das diferenças de grau, está a desenvolver e a aperfeiçoar algumas das aptidões e formas de pensar dos grandes filósofos.
A palavra “filosofia” deriva da palavra grega que significa “amor da sabedoria”. Mas esta origem etimológica não é particularmente esclarecedor sobre o que é a filosofia. A filosofia é uma disciplina que se ocupa de questões abstractas tais como “ Será que Deus existe?”, “Como devemos viver?”, “O que é  a arte?”, “ Temos genuina liberdade de escolha?”, “Será o mundo material tudo o que existe?”, etc.
Estas questões podem ser despoletadas pela nossa experiência quotidiana. Algumas pessoas mal informadas ou de má – fé caricaturam a filosofia como algo que não desempenha qualquer papel relevante nas nossa vidas, como se fosse um passatempo intelectual ou académico. Mas esta é uma visão muito deturpada da disciplina. Por exemplo, em certos países discute – se acesamente se o boxe deve ser banido. Este problema só será devidamente abordado se colocarmos algumas questões filosóficas, mais fundamentais: “Quais são os limites da liberdade individual num país civilizado?”; “Como justificar que se forcem as pessoas, para o seu suposto próprio bem, a agirem de uma certa maneira?”. Vê – se que um problema que parece nada ter a ver com a filosofia, acaba por trazer para primeiro plano crenças e interrogações filosóficas.





3. O método da filosofia.
          O que caracteriza a filosofia é a discussão e análise de ideias, de crenças ou convicções que todos temos mas que muitas vezes não submetemos a exame crítico. As nossas ideias e crenças são para os filósofos problemas e não verdades indiscutíveis.
O que fazem os filósofos? Primeiro identificam e esclarecem que problemas são filosóficos. Feito isso, tentam responder a esses problemas. Que instrumentos usam para tentar alcançar as respostas? Os argumentos e as teorias.
Na maior parte das ciências, e mesmo na maior parte das atividades humanas, é possível testar empiricamente as teorias que construímos. Se, por exemplo, o nosso carro se recusar a pegar, podemos construir a teoria simples de que a razão disso está na falta de bateria. Para testar esta teoria basta substituir a bateria por uma em condições ou recorrer a uma oficina onde, com os instrumentos apropriados, seja possível verificar se a nossa teoria é ou não correcta. O processo, na sua essência, não é muito diferente, mesmo em ciências como a paleontologia, que procura a partir do estudo de fósseis de organismos que viveram há muitos milhões de anos, compreender como eram esses organismos e o nosso planeta. Por exemplo, se alguns paleontólogos formulam, como na realidade formularam, a teoria segundo a qual a extinção dos dinossauros se deve à conjugação há 65 milhões de anos atrás de um período de intensa atividade vulcânica com a queda de um meteorito de grandes dimensões na Terra, o que levou a uma alteração radical das condições ambientais em todo o planeta e à extinção de muitos organismos que não estavam preparados para viver nas novas condições, é possível — pelo menos, é teoricamente possível — pela recolha e estudo diligente de indícios, mais tarde ou mais cedo saber se a teoria é ou não correcta. Mas com os problemas filosóficos as coisas não são assim. Como certamente já sabe, a filosofia trata de problemas que pela sua própria natureza não podem ser resolvidos com o recurso a estratégias e instrumentos empíricos. Assim, na discussão dos problemas e das teorias filosóficas, a argumentação tem um papel de grande relevo.

A filosofia tenta encontrar uma resposta baseada num método que é o pensamento crítico. Em filosofia não há métodos empíricos nem métodos formais para resolver problemas. O método da filosofia é a discussão racional de argumentos, pensar o mais correctamente possível para tentar encontrar respostas adequadas. O que fazem os filósofos? Defrontam – se com certo tipo de problemas, procuram responder – lhes e elaboram argumentos para apoiar ou justificar as respostas dadas. Formular problemas, tentar responder – lhes com teorias ou teses – as respostas aos problemas - e recorrer a argumentos para defender aquelas, eis o que basicamente constitui a atividade filosófica.

NOTA NA MARGEM -  Elementos centrais da filosofia - Uma teoria filosófica é uma tentativa de resposta a um problema filosófico. O argumento filosófico procura justificar a teoria.
Problema filosófico: Será que Deus existe? Teoria ou tese filosófica: Deus não existe. Argumento filosófico: Se Deus existe, a vida tem sentido. A vida não tem sentido. Logo, Deus não existe.



O MÉTODO DA FILOSOFIA
                            










4. A atitude filosófica

O que dissemos sobre o método da filosofia torna fácil perceber o que se entende por atitude filosófica. A bem dizer, o método filosófico é uma atitude a que podemos dar o nome de pensamento crítico.
Todos temos crenças ou ideias acerca do que é real, do que é valioso, do que é moralmente correcto ou incorreto, etc. A filosofia examina criticamente estas crenças fundamentais, ou seja, a aceitação ou recusa das nossas crenças básicas não se faz sem antes as submeter a um exame racional. Isto quer dizer que a filosofia transforma essas crenças em problemas. Por exemplo, por mais pessoas que acreditem que Deus existe ou que o aborto é moralmente aceitável, um filósofo tem de perguntar duas coisas: 1 – Será que isto é verdade? 2 – Há boas razões para pensar que estas crenças são verdadeiras? Por isso se diz que a filosofia é uma atitude crítica, problematizante, que exige que justifiquemos bem as nossas ideias ou crenças.
NOTA Para aprofundar o que é atitude filosófica será proveitoso realizar os exercícios propostos na página ... do Caderno de Atividades. Os exercícios são sobre a Alegoria da Caverna que consideramos uma boa ilustração da atitude filosófica.
NOTA -  No You Tube pode ver – se o documentário A Vida Examinada – Sócrates. Eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=KcujZd3JDtg. Pode sugerir – se aos alunos que vejam o filme de Rossellini intitulado Sócrates, uma cinebiografia do filósofo. O link é: http://www.youtube.com/watch?v=SlJSF-V6yBA. Sobre a origem da filosofia e a diferença entre filosofia e mitologia, recomende – se aos alunos um episódio de TeleCurso 2000 - Filosofia - Aula 1  - É o espanto! Despretensioso, pode ser útil para perceber a passagem da forma mitológica de explicar a realidade à filosófica. Tem duas partes. O link é: http://www.youtube.com/watch?v=9h1A3iMYm0Q



O problema que os filósofos enfrentam com muitas pessoas é que pensar criticamente pode desorientar – nos, podemos sentir que estamos a ficar sem os pés no chão porque as crenças em que a nossa cultura e a nossa sociedade se baseia são questionadas. Não gostamos de ter dúvidas. Outro problema é que normalmente os filósofos chegam a respostas diferentes para o mesmo problema: uns dizem que somos livres, outros que não; uns dizem que o direito de governar se deve basear na vontade da maioria e outros no mérito; uns dizem que as intenções é que contam, outros que as boas acções dependem das consequências; uns que Deus existe e outros que Deus não existe. E muitas vezes, os argumentos parecem convincentes de um lado e do outro. Assim, muitas pessoas pensam que a filosofia nada nos diz e nos deixa confusos. Contudo, haver problemas que devido à sua generalidade e radicalidade não têm solução científica, não quer dizer que não devamos responder – lhes. Na verdade, respostas sempre houve. A filosofia dá – nos o método – a discussão crítica de ideias – para lidar com as respostas que encontramos, sejam dos filósofos ou não. Esse método consiste em avaliar a qualidade dos argumentos em que se apoiam as crenças ou teorias que respondem aos problemas da filosofia. Devemos pensar por nós e pensar bem. E isso é importante para a nossa formação como seres humanos.

CARACTERÍSTICAS DA ATITUDE FILOSÓFICA
USO CRÍTICO E CONSTRUTIVO DA RAZÃO
PROBLEMATIZAÇÃO RADICAL
AUTONOMIA
Para a filosofia as nossas crenças e opiniões não podem ser aceites sem justificação. Temos de as defender com argumentos.
Argumentos com os quais, em princípio, não estejamos de acordo devem ser examinados e testados mediante contra – argumentos.
Ao interrogar as nossas crenças mais fundamentais, a filosofia pretende que pensemos se não estamos errados, não para nos desiludir mas para que procuremos ter uma compreensão mais alargada do mundo e de nós.

A filosofia transforma as nossas crenças em problemas, ou seja, coloca a questão «Será isso verdade?» «Há boas razões para acreditar que isso seja verdade?». O que parece evidente e bem estabelecido é para ser discutido.

Como dizia Kant, filosofar é ousar pensar por si. A atitude filosófica é incompatível com a dependência em relação a gurus ou orientadores espirituais e ao que a maioria julga ser a verdade.




ATIVIDADE 3
Leia atentamente o texto seguinte e responda às questões. Justifique as suas respostas.
1
Filosofar é frequentar o laboratório da mente
A filosofia, disse Platão, começa com o espanto, espanto com o universo, com o que ele contém e com o nosso lugar nele. O que é o universo? É somente composto por matéria ou também contem coisas imateriais como espíritos? Como o podemos saber? A experiência é a única fonte de conhecimentos ou há outras formas de conhecer? Porque estamos aqui? Fomos criados por Deus como parte de um plano divino ou o nosso surgimento deve-se a processos simplesmente naturais? Somos livres ou todas as nossas acções são determinadas por forças que escapam ao nosso controlo? Que obrigações temos para com os outros? Temos o dever de os ajudar ou a nossa única obrigação é não os prejudicar? Estas questões são ao mesmo tempo familiares e estranhas. Familiares porque já nos confrontámos com elas em algum momento das nossas vidas e estranhas porque não é claro como havemos de lhes responder. Ao contrário de muitas questões, não podem ser resolvidas mediante investigação científica.
Quer disso te apercebas ou não, assumes ou supões que certas respostas àquelas questões são verdadeiras. Estas crenças constituem a tua filosofia. A disciplina de filosofia examina criticamente tais crenças para determinar se são verdadeiras ou não. A palavra filosofia significa «amor da sabedoria». Deriva do grego philo que significa amor e sophia que significa sabedoria. O desejo de conhecer a verdade, o amor pelo saber é , contudo, somente um dos motivos que nos conduzem a filosofar. O desejo de viver uma vida boa e valiosa é outra das motivações para fazer filosofia. As acções baseiam-se em crenças e acções baseadas em crenças verdadeiras tem mais hipóteses de serem bem sucedidas do que as apoiadas em crenças falsas.
O pensamento filosófico não tem nenhum valor se não for lógico. Para distinguires entre crenças filosóficas plausíveis e as que não o são, importa saberes a diferença entre argumentos corretos e incorretos. Terás de aprender que tipos de argumentos os filósofos usam para tentar justificar as suas crenças ou teses e avaliar se os defendem bem. Chama-se a isso frequentar o laboratório da mente. Os problemas filosóficos não são problemas empíricos e a este tipo de problemas tenta-se responder no laboratório da mente, ou seja, mediante o pensamento crítico. Como se vêem os filósofos a si mesmos? Como indivíduos que debatem ideias, que se preocupam com questões conceptuais e não com questões empíricas, que procuram compreender e interpretar factos e não com descobri-los. Os filósofos não realizam experimentações, nem sondagens ou observações. Pensam.
O objecto do pensamento dos filósofos são as nossas crenças mais básicas, isto é, crenças cuja verdade ou falsidade determina a verdade ou falsidade de muitas outras crenças, menos básicas ou fundamentais. O modo como os filósofos pensam tem o nome de pensamento  crítico, que é o método da filosofia.
Schick, Jr, Theodore e Vaughn, Lewis, Doing Philosophy, an introduction through thought experiments, McGraw- Hill, Nova Iorque, 2002 pp. 22-23.

1.O que é, de acordo com o texto, frequentar o laboratório da mente?
R: Frequentar o laboratório da mente é tentar responder aos problemas filosóficos mediante o pensamento lógico e critico distinguindo bons de maus argumentos e testando assim as teorias que os filósofos apresentam.
2. Qual é o método adotado no laboratório da mente?
R: O método aí adotado é a discussão critica de ideias. Pensar criticamente é examinar as nossas crenças e ideias, analisando as razões ou argumentos que temos para as defender ou abandonar.

3.Nesse laboratório pensa – se à margem do mundo real, sem qualquer contato com ele?
R: Não. Apesar de não haver solução empírica para os problemas da filosofia, o filósofo não vive fechado no mundo das ideias. Ele recorre à informação que a experiência nos fornece. Muitos problemas filosóficos – por exemplo, a legitimidade do aborto, se matar animais para os comer é errado, se a eutanásia é ou não imoral – são pensados a partir da experiência e de situações do nosso dia -a – dia. Todos os filósofos dignos desse nome procuram informar – se sobre o que se passa no mundo, seja o mundo da política, da arte, da religião ou da ciência.

4. O que são problemas filosóficos segundo o texto?
R: São problemas a que nenhuma experiência ou observação por mais rigorosa que seja pode dar resposta. Só lhes podemos responder pensando, argumentando para formar teorias ou para as analisar e testar.

5. Quem frequenta esse laboratório está só? Não estabelece relação com ninguém?
R: Não. Nesse laboratório ficamos a saber que muitos dos problemas que debatemos e que nos interessam, já foram debatidos por outros pensadores alguns dos quais têm lugar de destaque na história do pensamento filosófico. Por outro lado, a discussão critica de ideias e a análise da validade dos argumentos em que as teorias filosóficas se apoiam consiste frequentemente num diálogo ou num debate em que vários pensadores participam. Sem o conhecimento dos argumentos e erros dos filósofos anteriores, não poderia haver avanço e progresso na Filosofia.

6. Há alguma vantagem em frequentar o laboratório da mente?
R: Além de exercitar o pensamento crítico – uma boa “ginástica mental” – podemos evitar aquilo a que Kant chamava o “sono dogmático “ da razão. Se tivermos consciência de que as nossas crenças ou ideias enfrentam dificuldades ou lhes falta solidez podemos tentar modificá – las. Caso isso não seja possível podemos abandoná – las e encontrar ideias mais plausíveis. A incapacidade tipicamente fanática de examinar as nossas crenças não é tolerada no laboratório da mente. Em filosofia não há donos da verdade, não há o direito de tentar eliminar e silenciar as ideias dos outros. Pensar por si é sinónimo de pensamento livre.


ATIVIDADE 4
Trata – se de uma atividade de recapitulação das aprendizagens deste capítulo. Apresentamos em alternativa dois textos: um de Warburton e outro de Elliot Sober. Nada impede, contudo, que sejam estudados os dois.
1
O que é a filosofia? Porquê estudar filosofia?

          Uma razão importante para estudar filosofia é o fato de a filosofia lidar com questões fundamentais acerca do sentido da nossa existência. A maior parte das pessoas, num ou noutro momento da sua vida, já se interrogou a respeito de questões filosóficas. Por que razão estamos aqui? Há alguma demonstração da existência de Deus? As nossas vidas têm algum propósito? O que faz com que certas acções sejam moralmente boas ou más? Poderá haver justificação para violar uma lei? A nossa vida podia ser um sonho? Será a mente diferente do corpo ou somos apenas seres físicos? Como avança a ciência? O que é a arte? E por aí adiante.
          A maior parte das pessoas que estuda filosofia acha importante que cada um de nós examine estas questões. Algumas até defendem que não vale a pena viver a vida sem a examinar. Persistir numa existência rotineira sem jamais examinar os princípios na qual a vida se baseia pode ser como conduzir um automóvel que nunca foi à revisão. Podemos justificadamente confiar nos travões, na direção e no motor, uma vez que sempre funcionaram suficientemente bem até agora; mas esta confiança pode ser totalmente injustificada: os travões podem ter uma deficiência e falharem quando mais precisamos deles. Analogamente, os princípios nos quais a nossa vida se baseia podem ser bastante sólidos; mas, até os termos examinado, não podemos estar certos disso.
          Contudo, mesmo que não duvidemos seriamente da solidez dos princípios ou crenças fundamentais em que baseamos a nossa vida, podemos empobrecê-la ao recusarmo-nos a usar a nossa capacidade de pensar. Muitas pessoas acham que dá demasiado trabalho colocar este tipo de questões fundamentais: podem sentir-se satisfeitas e confortáveis com os seus preconceitos. Mas existem outras pessoas que sentem um forte desejo de encontrar respostas. Para elas, as questões filosóficas representam um desafio.         
          Outra razão para estudar filosofia é o fato de nos proporcionar uma boa forma de aprender a pensar mais claramente sobre um vasto leque de assuntos. Os métodos do pensamento filosófico podem ser úteis em variadíssimas situações, dado que, ao analisar os argumentos a favor e contra qualquer posição, adquirimos aptidões que podem ser utilizadas noutras áreas da vida. Muitas pessoas que estudam filosofia aplicam depois as suas aptidões em profissões tão diferentes como o direito, a informática, a consultoria de gestão, o funcionalismo público e o jornalismo – áreas onde a clareza de pensamento é um grande trunfo. Os filósofos usam a perspicácia que adquirem sobre a natureza da existência humana quando se voltam para as artes: alguns foram romancistas, críticos, poetas, realizadores de cinema e dramaturgos de sucesso.
Elementos Básicos de Filosofia Nigel Warburton

1. Nigel Warburton assinala três razões que mostram que o estudo da filosofia pode ser importante. Indique cada uma delas e explique em que consistem.
R: Uma das razões para estudar filosofia, segundo Warburton, é que ela debate questões muito importantes. Essas questões dizem respeito ao sentido da nossa existência. Por que razão hei – de fazer o bem em vez de fazer o mal? O que é ser feliz? Estamos neste mundo para ajudar os outros ou somente para tratar dos nossos interesses? Qual é o sentido da vida? Há uma vida para além desta? Como será? Deus existe? É importante acreditar que Deus existe? Somos livres ou somos aquilo que os outros fizeram de nós? Estas são algumas da questões que a filosofia discute.
Outra das razões para estudar filosofia é que ela nos ensina a examinar as crenças ou ideias em que baseamos as nossas acções e a nossa relação com os outros e o mundo. A atitude filosófica exige que pensemos critica e rigorosamente acerca de crenças fundamentais que nos foram transmitidas e que aceitámos de forma acrítica. Com efeito, em muitos casos adquirimos ideias como quem contrai gripe, por contágio. À semelhança do vírus da gripe, as crenças estabelecidas parecem fazer parte do nosso ambiente e respiramo-las quase sem dar por isso. Assim, as crenças que eram da nossa cultura tornam-se as nossas crenças. Até podem ser verdadeiras e excelentes, mas como havemos de o saber se as interiorizámos de forma acrítica, sem pensar? Ao examinarmos as ideias básicas, nossas e dos outros, que se transformaram em hábitos mentais, devemos como filósofos perguntar: O que justifica essas crenças? Que razões temos para supor que são verdadeiras?
A terceira razão para estudar filosofia é esta: a filosofia ajuda-nos a pensar melhor, não só sobre as questões filosóficas mas também sobre os problemas de outras áreas do saber desde que nestas áreas tenhamos uma boa informação e formação. Neste sentido, quem for capaz de discutir e argumentar de forma rigorosa as ideias filosóficas, saberá discutir muitas outras ideias ou assuntos.


2. Concorda com Nigel Warburton sobre o valor da filosofia. Porquê?




2
Três teses sobre o que é a filosofia.

          Muitos problemas da filosofia envolvem questões fundamentais de justificação. Há muitas coisas em que acreditamos sem hesitação ou reflexão. Estas crenças, que constituem uma segunda natureza, são por vezes chamadas de senso comum. O senso comum afirma que os nossos sentidos (visão, audição, tacto, paladar e olfato) fornecem a cada um de nós conhecimento acerca do mundo em que habitamos. O senso comum diz ainda que as pessoas agem frequentemente com base no seu livre arbítrio. O senso comum sustenta que algumas acções são correctas e outras erradas. A filosofia examina os nossos pressupostos fundamentais acerca de nós próprios e do mundo em que vivemos e tenta determinar em que medida esses pressupostos são racionalmente justificáveis. 
          Outra característica de muitas das questões filosóficas é serem bastante gerais; com frequência, são mais gerais do que os problemas investigados pelas diferentes ciências. Os biólogos interessaram-se por saber se os genes existem. Os físicos investigaram a existência dos electrões. E os geólogos tentaram descobrir se os continentes assentam em placas móveis. No entanto, nenhuma destas ciências se preocupou com a questão de saber por que haveríamos de pensar que há objectos físicos. As várias ciências limitam-se a pressupor que existem coisas fora da mente; depois, concentram-se em questões mais específicas sobre como essas coisas são. Em contraste, uma questão tipicamente filosófica é saber por que havemos de acreditar que existe algo fora da mente. Esta é uma questão bastante mais geral do que a questão de sabermos se existem electrões, genes ou placas continentais.
          Uma terceira perspectiva sobre o que é a filosofia afirma que a filosofia é a atividade de clarificar conceitos. Repare em algumas das questões tipicamente filosóficas: o que é o conhecimento?; o que é a liberdade?; o que é a justiça?; etc. Cada um destes conceitos aplica-se a certas coisas e não a outras. O que terão em comum as coisas que recaem sob o conceito e o que as distingue daquelas a que o conceito não se aplica?
          Cada uma destas três formas de compreender a filosofia deve ser entendida com um grão de sal (ou dois). É possível defender cada uma delas, embora se tratem de simplificações que envolvem alguma distorção.
Elliott Sober, Questões Nucleares de Filosofia (adaptado)


1. Elliott Sober identifica três características típicas da filosofia e dos seus problemas. Indique cada uma delas e explique por palavras suas em que consistem.

R: Muitos problemas da filosofia envolvem questões fundamentais de justificação. Muitas pessoas acreditam que Deus existe e outras que Deus não existe. Em ambos os casos têm de apresentar razões ou justificações para essas crenças. Não é suficiente dar opiniões: é preciso justificá – las argumentando bem. Dispormo-nos a examinar as nossas crenças mais básicas não é tarefa fácil porque pode fazer-nos chegar a conclusões que a maioria dos membros da sociedade desaprovam e porque exige uma atitude crítica que lança a dúvida sobre o que nos habituámos a considerar verdadeiro. Por exemplo, a filosofia examina as crenças básicas nas quais se apoia a religião quando pergunta Será que Deus existe? Que razões temos para acreditar nisso? Há uma vida para além da morte? Estas questões podem ser consideradas como desafios às ideias estabelecidas e falta de respeito pelo que a tradição definiu.

Outra característica de muitas das questões filosóficas é serem bastante gerais. Muitas pessoas acreditam que não mentir ou não roubar são acções moralmente corretas. O filósofo não pergunta se roubar a pensão que uma pessoa idosa acabou de receber no banco é uma ação errada. O que ele pergunta é o seguinte: ”O que é uma acção moralmente correcta?”. Ao responder a esta questão geral estará em condições de avaliar aquele acto particular. Saber o que é uma ação moralmente correcta, ou seja, de que depende a correção moral de uma acção é uma das grandes questões da ética. Há filósofos que defendem que a bondade de uma acção depende da intenção, outros defendem que depende das consequências ou resultados e outros do caráter do agente. Estabelecidos estes princípios gerais podem avaliar acções particulares.
Uma obra original de Picasso não tem para um bom critico de arte o mesmo valor que uma imitação por mais bem feita que seja. O filósofo perguntará em que se baseia o crítico de arte para o afirmar. Por outras palavras, colocará uma questão ou pergunta mais geral: ”O que é a arte? O que faz de uma coisa uma obra de arte?”. Nenhuma experiência, nenhuma observação, nenhuma experimentação por mais rigorosa que seja nos pode dar uma resposta a estas questões. Estas perguntas são “problemas não - empíricos”. Podemos e devemos utilizar informação empírica – como falar de arte sem nada saber de arte, como falar de conceitos usados nas ciências sem nada saber de ciência?  - mas a filosofia não produz informação empírica nem encontra nesta a solução dos seus problemas. “Como está distribuída a riqueza em Portugal?” é uma questão empírica e os economistas e sociólogos dão a resposta. Perguntar se essa distribuição é justa já é uma questão filosófica, geral e fundamental.

Uma terceira perspectiva, intimamente ligada à anterior sobre o que é a filosofia afirma que a filosofia é a atividade de clarificar conceitos. Clarificar um conceito é dizer o que significa o termo que usamos para o exprimir. Vejamos o conceito de justiça. O que é uma distribuição justa da riqueza? Dar a todos – médicos, engenheiros, professores, policias, etc – o mesmo rendimento? Mas e se uns trabalharem mais do que outros? Atribuir igual ordenado a quem faz o mesmo trabalho? Mas e se uns forem mais competentes? É justo pagar impostos? Em caso afirmativo, quem deve pagar mais? Será justo que alguém pague mais ou deve haver um só escalão?
Como se vê é uma tarefa difícil clarificar conceitos. Ao clarificarem os conceitos que usam, os filósofos tornam também claras as teorias que defendem.

2. Em que sentido se justifica dizer que a filosofia pode pôr em causa o senso comum?

Os filósofos “examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo.” Muitas pessoas vivem sem pensar por um pouco que seja se o que lhes ensinaram é o mais correcto. Não querem o trabalho de pensarem por si. Não questionar as suas ideias e preconceitos reflecte-se negativamente na sociedade, concretamente, em más decisões, em más leis, em más instituições e em maus hábitos sociais e costumes; aceitar as críticas e repensar as suas ideias é estar a contribuir para a construção de um mundo melhor, mais civilizado.


O QUE APRENDEU NESTE CAPÍTULO
1. .Ao contrário de ciências como a física, a química e a biologia, a filosofia não estuda problemas empíricos.

2. A filosofia é mais parecida com a matemática, que também não é uma disciplina que estude problemas empíricos. Mas a semelhança não significa que os problemas filosóficos sejam problemas matemáticos. Porquê? Porque não se pode saber através de teoremas, equações e demonstrações formais se a eutanásia é ou não correcta ou, por exemplo, se Deus existe.

3. Os problemas filosóficos são problemas não – empíricos para os quais não há resposta ou solução científica.

4. Os problemas filosóficos não são resolvidos nem pelas ciências, nem pelas artes, nem pelas religiões porque  dizem respeito a crenças ou convicções que essas atividades não questionam e que contudo são o seu  suporte ou o alicerce . A essas crenças ou convicções dá – se o nome de crenças básicas ou fundamentais. Por exemplo, sem a crença na possibilidade do conhecimento a atividade científica não teria fundamento. As ciências não põem em causa que é possível conhecer a realidade natural. Cabe à filosofia fazer uma pergunta radical: “Será que é possível o conhecimento?”, “Será que o mundo físico é real ou vivemos iludidos num grande sonho’”. As religiões monoteístas acreditam que Deus existe e que sem Deus não há regras morais absolutas. Os filósofos investigam estas crenças fundamentais perguntando entre outras coisas “Será que Deus existe?”, “Será que é Possível provar a sua existência?”, “Precisamos de Deus para distinguir o bem do mal de forma absoluta e objectiva?”.

5. Os filósofos estão interessados em analisar e discutir as ideias básicas em que assentam muitas das nossas práticas, ou comportamentos, em domínios tão diferentes e significativos como a religião, a política, a moral e a arte. As crenças ou ideias básicas em que as diversas atividades humanas se baseiam são crenças de cuja verdade depende a verdade de outras crenças menos fundamentais. Assim, se, argumentando, puser em causa a existência de Deus não é só  sobre a existência de Deus que eu lanço dúvidas. Ponho também em causa a possibilidade de as regras morais terem origem divina, e de a moral depender da religião. Se negar uma crença básica como “Somos livres” parece impossível afirmar uma outra crença que daquela depende: a ideia de que podemos ser responsabilizados pelas nossas acções e consequentemente que podemos ser elogiados ou censurados, louvados ou punidos pelo que fazemos.

6.Os filósofos discutem ideias. Os cientistas procuram explicar factos.

7.O objeto de estudo da filosofia é o conjunto de problemas associados a certos conceitos básicos que usamos nas ciências, nas artes, na religião, na moral e na vida quotidiana. O método da filosofia é a discussão critica desses problemas apresentando e confrontando teorias e argumentos. Discutir criticamente problemas filosóficos é apresentar razões que possam ser publicamente avaliadas. Não é uma luta verbal em que cada uma das partes em confronto tenta ganhar a todo o custo.

8.As principais características da atitude filosófica são a curiosidade, o desejo e a necessidade de conhecer, a capacidade de transformar em problema o que parece evidente e indiscutível e a recusa de aceitar como verdadeiras ideias feitas  ou teorias (que se tornaram hábitos) sem antes examinar os argumentos em que se apoiam. A isto chama – se uso critico da razão.

9.Para os problemas próprios da filosofia os filósofos formulam respostas, a que se dá o nome de teorias ou doutrinas filosóficas, que tentam depois justificar (e criticar) por meio de argumentos. A importância dos argumentos para a filosofia deriva sobretudo do facto de, devido à própria natureza dos problemas investigados, ser impossível recorrer, como nas ciências, à experiência para testar a verdade das teorias ou doutrinas filosóficas. As teorias filosóficas são as respostas aos problemas filosóficos. As teorias filosóficas não resultam da utilização dos métodos das ciências. Aos problemas da filosofia respondemos ou tentamos responder usando o pensamento. Os problemas filosóficos são problemas cuja resposta é dada fundamentalmente pelo pensamento.

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