quarta-feira, 13 de abril de 2011

O RACIONALISMO DE DESCARTES - A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA DO SÉC. XVII


O RACIONALISMO DE DESCARTES
«Não é suficiente ter o espírito bom, mas o principal é aplicá-lo bem».
«Toda a filosofia é como uma árvore, cujas raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos que saem do tronco são todas as outras ciências, que se reduzem a três principais, a saber, a medicina, a mecânica e a moral».
«Não devemos pensar que as verdades eternas dependem do entendimento humano (...) mas apenas da vontade de Deus que, como soberano legislador, as ordenou e estabeleceu para toda a eternidade».

A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA DO SÉC. XVII
A partir de fins do século XIV o coeso mundo medieval começou a desintegrar- -se; um processo que durou até fins do século XVII. Não só as instituições básicas medievais, como o feudalismo, enfraqueceram, como também a visão medieval do universo se transformou na compreensão moderna e científica da natureza. Três movimentos históricos em princípios da idade moderna tornaram possível essa transformação intelectual, conhecida como a Revolução Científica. O Renascimento italiano criou novos estilos literários e artísticos que buscaram retratar as pessoas e a natureza tal como são, e essa curiosidade estimulou a investigação dos fenómenos físicos. Em seguida, a Reforma fragmentou a unidade da cristandade, e passou a existir uma pessoa religiosa diferente, empenhada em encontrar a salvação pessoal sem a assistência de padres ou de sacramentos. As cidades e os países protestantes viram-se, inevitavelmente, em oposição à igreja romana e seus ensinamentos; aos poucos, os partidários da nova ciência encontraram uma atmosfera de trabalho melhor nesses centros protestantes. Tanto o Renascimento como a Reforma estimularam um sentimento de confiança na capacidade humana de chegar a verdades novas sobre o ambiente físico. Por fim, o feudalismo e o senhorialismo foram substituídos pelo Estado-nação e pelo capitalismo comercial. E em fins do século XVII, os líderes desses Estados estimulavam activamente o conhecimento científico como a chave para aumentar o controlo humano do meio ambiente. Compreenderam que com isso, particularmente com as experiências agrícolas, poderia vir uma prosperidade maior.
Antes que os governos e as academias científicas por eles estimuladas pudessem sonhar com possíveis benefícios da investigação científica, um novo entendimento do universo físico tinha de ser adoptado. Por outras palavras, os ocidentais tinham de acreditar na possibilidade de controlar a natureza. A contribuição singular da Revolução Científica para a criação do mundo moderno está na sua concepção mecânica da natureza, que permitiu aos homens do Ocidente descobrir e explorar matematicamente as leis da natureza. Passaram a ver a natureza como composta exclusivamente de matéria cujo movimento, ocorrendo no espaço e sendo mensurável pelo tempo. era governado pelas leis da força. Essa construção filosoficamente elegante torna o mundo físico conhecível e até mesmo, possivelmente, controlável.
A Revolução Científica compreendeu também a descoberta de uma metodologia nova, científica. Devido às experiências bem-sucedidas dos cientistas e filósofos naturais como Galileu Galilei (1564-1642). William Harvey (1578-1657), Robert Boyle (1627-1691) e Isaac Newton (1642-1727). a ciência ocidental adquiriu a metodologia, que ainda lhe é característica, de observação e experimentação. Em fins do século XVII, ninguém poderia ter interesse sério em qualquer aspecto da ordem física sem realizar experimentos ou sem observar, de maneira rigorosa e sistemática, o comportamento dos fenómenos físicos. O conceito mecânico da natureza, juntamente com uma metodologia rigorosa, deu aos cientistas modernos os meios de desvendar e explicar os segredos da natureza. A matemática tornou-se, cada vez mais, a linguagem da nova ciência. Durante séculos os europeus haviam usado a álgebra e a geometria para explicar certos fenómenos físicos. Com a Revolução Científica, surgiu uma nova matemática, o cálculo; e o que foi ainda mais importante, os filósofos convenceram-se de que toda a natureza - tanto objectos físicos como forças invisíveis - era passível de expressão matemática. Em fins do século XVII, até mesmo a geometria se havia tornado tão complexa que um filósofo de talento como John Locke (1632-1704), amigo e contemporâneo de Isaac Newton, não conseguia compreender a requintada matemática utilizada por Newton nos Principia. Uma nova cultura científica havia nascido e alcançará durante o lIuminismo do século XVIII, grande importância como modelo para o progresso, tanto na ciência natural como na humana.
1.1
A COSMOLOGIA MEDIEVAL
Para compreender o carácter excepcional da perspectiva científica moderna, devemos contrastá-la com o que havia antes dela, com a visão medieval do mundo natural e das suas propriedades físicas. Esse entendimento baseava-se numa combinação do pensamento cristão com teorias deduzidas de autores gregos antigos como Aristóteles e Ptolomeu. As explicações de Aristóteles (384-322 a.C.) para o movimento dos corpos celestes influenciavam a literatura científica medieval. Ao tentar compreender o movimento, Aristóteles tinha argumentado, simplesmente, que era da natureza das coisas moverem-se de determinadas maneiras. Uma pedra cai porque é absolutamente pesada; o fogo sobe porque é absolutamente leve. O peso é uma propriedade absoluta de uma coisa física; portanto, o movimento resulta das propriedades dos corpos, e não de forças ou leis de movimento em operação na natureza. Segue-se (lógica, mas incorrectamente) que se o meio através do qual um corpo cai é considerado como constante, então a velocidade da sua queda pode ser duplicada se o seu peso for duplicado. Só experiências rigorosas poderiam refutar esse conceito erróneo de movimento; muitos séculos se passariam até que tais experiências fossem realizadas.
A física de Aristóteles combinava perfeitamente com a sua cosmologia, ou visão do mundo. A  Terra, sendo o objecto mais pesado, estava estacionada e suspensa no centro do universo. O Sol, os planetas e a Lua giravam em círculos, ou em combinações de círculos, em torno da Terra. Aristóteles presumia que como os planetas eram redondos, estavam sempre em movimento e aparentemente nunca se modificavam. O movimento mais adequado ou «natural» para eles deveria ser o circular. A física e a cosmologia de Aristóteles estavam unificadas. Ele podia considerar a Terra como estacionária no centro do universo porque presumia para ela um peso absoluto; todos os outros corpos celestes por ele observados caíam na direcção dela. Aristóteles achava que os planetas eram feitos de uma espécie de éter luminoso e eram sustentados em órbitas circulares por esferas luminosas, ou «trilhas». Elas tinham uma certa realidade, embora invisível aos olhos humanos, e por isso foram chamadas esferas cristalinas.
Aristóteles acreditava que tudo o que estava em movimento era movimentado por outro objecto que também se movia. Por dedução, essa crença leva de volta a algum objecto ou ser que deu início ao movimento. Os filósofos cristãos da Idade Média argumentaram que o motor imóvel de Aristóteles devia ser o Deus do cristianismo, mas para ele, filósofo pagão, essa identificação não teria sentido. Ele supôs um universo eterno, cheio de uma cadeia continuada de movimentadores e movimentados. Para Aristóteles, a natureza estava totalmente tomada por alguma forma de matéria e era avessa ao vazio.
Embora a cosmologia de Aristóteles não tivesse chegado nunca a constituir uma ortodoxia entre gregos antigos, no século li da era cristã, em Alexandria, a astronomia grega codificou-se e tornou-se rígida. Ptolomeu de Alexandria produziu o Almagesto (150 A. D.) um manual de astronomia grega baseado nas teorias de Aristóteles.
De importância central para esse trabalho era a suposição de que a Terra estava no centro do universo (embora alguns gregos antigos tivessem questionado essa ideia) e que os planetas giravam em torno dela numa série de órbitas circulares não interrompidas por epiciclos. Na Baixa Idade Média, o livro de Ptolomeu, devido ao apoio que dava à cosmologia aristotélica, parecia condensar toda a sabedoria astronómica oficial. Ainda na segunda metade do século XVII, mais de 100 anos depois de o astrónomo polaco Nicolau Copérnico ter provado matematicamente que o Sol era o centro do Universo, europeus cultos na maioria das universidades ainda acreditavam que a Terra ocupava essa posição central. No século XIII, em grande parte graças aos esforços filosóficos de Tomás de Aquino (1225-1274), o pensamento de Aristóteles foi adaptado, muitas vezes de maneiras tortuosas, às crenças cristãs. Aquino realçou que a ordem existia em toda a natureza, que todo o efeito físico tinha uma causa física, mas negou que essas causas pudessem remontar à eternidade ou ao infinito. Em lugar disso, insistiu em que a natureza prova a existência de Deus, que no final Deus é a Primeira Causa de todos os fenómenos físicos. A tendência, no pensamento de Aquino e de seus seguidores, os escolásticos, era buscar essas causas - perguntar novamente por que, e não como, as coisas se moviam. Apesar das adaptações escolásticas de Aristóteles, a igreja ainda via o aristotelismo cristão como alguma desconfiança, e em 1277, muitas das teorias do filósofo grego foram condenadas. Essa condenação serviu, indirectamente, para impedir que a ciência medieval caísse totalmente sob a influência dos ensinamentos escolásticos.
Os pensadores medievais integraram a cosmologia de Aristóteles e Ptolomeu numa moldura cristã que estabelecia uma distinção nítida entre o mundo além da Lua e um mundo terreno. Os corpos celestes eram compostos de éter divino, uma substância demasiado pura, demasiado espiritual para ser encontrada na Terra; os corpos celestes, ao contrário dos existentes na Terra, estavam imunes a toda mudança e obedeciam a leis de movimento diferentes dos corpos terrestres. O universo não era homogéneo, mas sim dividido em mundo superior dos céus e mundo inferior da Terra. Esta não podia comparar-se com os céus em dignidade espiritual; não obstante, Deus tinha-a situado no centro do universo. A Terra merecia essa posição de importância, pois só aqui se desenrolara o drama da salvação. Essa visão do universo seria destruída pela Revolução Científica.

[Marvin Perry "Civilização Ocidental" Martins Fontes]
1.2
AS CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DA REVOLUÇÃO CIENTÍFICA DO SÉC. XVII
O período de tempo que vai mais ou menos da data de publicação do De revolutionibus de Nicolau Copérnico, isto é, de 1543, à obra de Isaac Newton, Philosophiae natura/is principia mathematica que foi publicada pela primeira vez em 1687, é hoje comummente apontado como o período da «revolução científica». Trata-se de um poderoso movimento de ideias que adquire no século XVII as suas características determinantes na obra de Galileu, que encontra os seus filósofos - em aspectos diferentes - nas ideias de Bacon e Descartes e que depois iria encontrar a sua expressão agora clássica na imagem newtoniana do universo concebido como uma máquina, ou seja, como um relógio. O elemento detonador desse processo de ideias foi certamente a «revolução astronómica», que teve os seus representantes mais prestigiosos em Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e Galileu e que iria confluir para a «física clássica», de Newton. Nesse período, portanto, muda a imagem do mundo. Peça por peça, trabalhosa, mas progressivamente, caem por terra os pilares da cosmologia aristotélico-ptolemaica: assim, por exemplo, Copérnico coloca o Sol no centro do mundo, ao invés da Terra; Tycho Brahe, mesmo sendo anticopernicano, elimina as esferas materiais que, na velha cosmologia, arrastavam os planetas com o seu movimento e substitui a idéia de orbe (ou esfera) material pela moderna ideia de órbita; Kepler apresenta uma sistematização matemática do sistema copernicano e realiza a revolucionária passagem do movimento circular (((natural)) e «perfeito», na velha cosmologia) para o movimento elíptico dos planetas; Galileu mostra a falsidade da distinção entre física terrestre e física celeste, fazendo ver que a Lua é da mesma natureza da Terra e, entre outras coisas, cria novos fundamentos com a formulação do princípio da inércia; Newton, com a sua teoria gravitacional. unificaria a física de Galileu com a de Kepler; com efeito, do ponto de vista da mecânica de Newton, pode-se dizer que as teorias de Galileu e de Kepler constituem boas aproximações a certos resultados particulares obtidos por Newton. Entretanto, durante os cento e cinquenta anos que decorrem entre Copérnico e Newton, não é apenas a imagem do mundo que se transforma. Vinculada a essa transformação, dá-se também a mudança - que também foi lenta e tortuosa, mas decisiva - das ideias sobre o homem, sobre a ciência, sobre o homem de ciência, sobre o trabalho científico e as instituições científicas, sobre as relações entre ciência e sociedade, entre ciência e filosofia e entre saber científico e fé religiosa.
A
Copérnico tira a Terra do centro do universo e, com ela, o homem. A Terra não é mais o centro do universo, mas um corpo celeste como os outros: ela, precisamente, não é mais aquele centro do universo criado por Deus em função de um homem concebido como o ponto mais alto da criação, em função do qual estaria todo o universo. E, como a Terra não é mais o lugar privilegiado da criação e se ela não é diferente dos outros corpos celestes, então não poderia haver outros homens também em outros planetas? E, ocorrendo isso, como poderia resistir a verdade da narração bíblica sobre a descendência de todos os homens de Adão e Eva? E como é que Deus, que desceu nesta Terra para redimir os homens, poderia ter redimido outros eventuais homens? Essas interrogações já se tinham proposto com a descoberta dos «selvagens» da América, descoberta que, além de levar a mudanças políticas e económicas, também proporia inevitáveis questões religiosas e antropológicas à cultura ocidental, colocando-a diante da «experiência da diversidade». E quando Bruno rompe os limites do mundo, fazendo o universo infinito, o pensamento ocidental encontrou-se na premência de buscar uma nova morada para Deus.
B
Mudando a imagem do mundo, muda a imagem do homem. Mas também, progressivamente, muda a imagem da ciência. A revolução científica não consiste somente em adquirir teorias novas e diferentes das anteriores sobre o universo astronómico, sobre a dinâmica, sobre o corpo humano ou, talvez, sobre composição da Terra. Ao mesmo tempo, a revolução científica é uma revolução na ideia de saber e de ciência. A ciência - e esse é o resultado da revolução científica, resultado que Galileu iria explicar com clareza absoluta - não é mais a intuição privilegiada do mago ou astrólogo iluminado, individualmente, nem o comentário a um filósofo (Aristóteles) que disse «a» verdade e toda a verdade, isto é, não é mais um discurso sobre «o mundo de papel», mas sim investigação e discurso sobre o mundo da natureza. Essa imagem da ciência não surge toda pronta, de uma vez, mas emerge progressivamente de um tumultuado cadinho de concepções e ideias, em que se entrelaçam e entrecruzam misticismo, hermetismo, astrologia, magia e, sobretudo, temáticas da filosofia neoplatónica. Trata-se de um processo verdadeiramente complexo, que, como dizíamos, encontra o seu resultado mais claro na fundamentação galileana do método científico e, portanto, na autonomia da ciência em relação às proposições de fé e às concepções filosóficas. O discurso qualifica-se enquanto tal porque - como disse Galileu - procede com base nas «experiências sensatas» e nas «demonstrações necessárias». Ea «experiência» de Galileu é o «experimento».
A ciência é ciência experimental. É através do experimento que os cientistas tendem a obter proposições verdadeiras sobre o mundo. E essa nova imagem da ciência - feita de teorias sistematicamente controladas através dos experimentos - «era o registo de nascimento de um tipo de saber entendido como uma construção perfectível, que nasce da colaboração dos génios, que necessita de uma linguagem específica e rigorosa e que, para sobreviver e crescer sobre si mesma, necessita de instituições específicas próprias (...). Um tipo de saber (...) que crê na capacidade de crescimento do conhecimento, que não se baseia na pura e simples rejeição das teorias anteriores, mas sim na sua substituição por teorias mais «amplas», que sejam logicamente mais 'fortes' e tenham maior conteúdo de controlabilidade» (Paulo Rossi).
Com a revolução científica, «abriu-se caminho para as categorias, os métodos, as instituições, os modos de pensar e os valores relacionados com aquele fenómeno que, depois da revolução científica, costumamos chamar ciência moderna» (Paulo Rossi). E o traço mais característico desse fenómeno que é a ciência moderna resume-se precisamente no método, que, por um lado, exige imaginação e criatividade de hipóteses e, por outro lado, o controle público dessas hipóteses. Na sua essência, a ciência é pública - e é-o por questões de método. É a ideia de ciência metodologicamente regulada e publicamente controlável que exige as novas instituições científicas, como as academias, os laboratórios, os contactos internacionais (basta pensar em todos os epistolários importantes). E é com base no método experimental que se funda a autonomia da ciência, que encontra as suas verdades independentemente da filosofia e da fé. Mas tal independência não tarda a transformar-se em confronto, que no «caso Galileu», se torna tragédia.
c
Quando Copérnico tornou público o seu De revolutionibus, o teólogo luterano André Osiander apressou-se em escrever um Prefácio sustentando que a teoria copernicana - contrária à cosmologia contida na Bíblia - não deve ser considerada como uma descrição verdadeira do mundo, mas muito mais como um instrumento para fazer previsões. E essa seria também a ideia sustentada pelo cardeal Bellarmino em relação à defesa do copernicanismo realizada por Galileu. Lutero, Melanchton e Calvino iriam opor-se duramente à concepção copernicana. E a Igreja católica processou por duas vezes Galileu, que seria condenado e forçado à abjuração. Entre outras coisas, estamos diante de um confronto entre dois mundos, entre dois modos de ver a realidade, entre duas maneiras de conceber a ciência e a verdade.
Para Copérnico, Kepler e Galileu, a nova teoria astronómica não é mera suposição matemática nem um simples instrumento de cálculo, embora útil, para melhorar a feitura do calendário, mas sim uma descrição verdadeira da realidade, obtida através de um método que não esmola garantias fora de si mesmo. O saber de Aristóteles é «pseudofilosofia» e a Escritura não tem a função de nos informar sobre o mundo, mas é palavra de salvação que apresentam um sentido para a vida dos homens.
D
Juntamente com a cosmologia aristotélica, a revolução científica leva à rejeição das categorias, dos princípios e das pretensões essencialistas da filosofia aristotélica. O antigo saber pretendia ser saber de essências, ciência feita de teorias e conceitos definitivos. Mas o processo da revolução científica conflui para a idéia de Galileu, que escreve: «Considero o tentar conhecer a essência como uma empresa não menos impossível e, pelo esforço, não menos vã, nas substâncias elementares próximas do que nas remotíssimas e celestes: parece-me ser igualmente ignaro sobre a substância da Terra quanto a da Lua, das nuvens elementares quanto das manchas do Sol (...). (Mas.) embora inutilmente, se se tentasse a investigação da substância das manchas solares, só nos restariam algumas das suas impressões, como o lugar, o movimento, a figura, a grandeza, a opacidade, a mutabilidade, a produção e a dissolução que poderiam ser captadas por nós.» Ou seja: a ciência como ela se configura ao fim do longo processo da revolução científica, não está mais voltada para a essência ou substância das coisas e dos fenómenos, mas sim para a qualidade das coisas e dos acontecimentos de modo objectivo e, portanto, sendo comprováveis e quantificáveis publicamente. Não é mais o que, mas o como; não é mais a substância, mas sim a função, que a ciência galileana e pós-galileana passariam a indagar.
E
Se o processo da revolução científica é também um processo de rejeição da filosofia aristotélica, não devemos em absoluto pensar que ele careça de pressupostos filosóficos. Os artífices da revolução científica de vários modos também estiveram ligados ao passado, referindo-se, por exemplo, a Arquimedes e Galeno. A mística do Sol, tanto hermética como neoplatónica, por exemplo, domina a obra de Copérnico e a de Kepler, podendo ser encontrada na de Harvey. E o grande tema neoplatónico do Deus que geometriza e que, criando o mundo, cria-o imprimindo nele uma ordem matemática e geométrica que o pesquisador deve procurar, é um tema que atravessa grande parte da revolução científica, como a pesquisa de Copérnico, de Kepler ou de Galileu.
O resultado do processo cultural que passou a ser denominado «revolução cienfica » foi uma nova imagem do mundo que, entre outras coisas, propõe problemas religiosos e antropológicos não indiferentes. Ao mesmo tempo, representou a proposta de uma nova imagem da ciência: autónoma, pública, controlável e progressiva. Mas a revolução científica foi, precisamente, um processo: um processo que, para ser compreendido, deve ser dissecado em todos os seus componentes, inclusive a tradição hermética, a alquimia, a astrologia ou a magia, posteriormente abandonadas pela ciência moderna, mas que, bem ou mal, influíram sobre a sua génese ou, pelo menos, sobre o seu desenvolvimento inicial.
Mas é preciso ir mais além, já que uma outra característica fundamental da revolução científica é a formação de um saber - a ciência, precisamente – que, ao contrário do saber anterior, o medieval -  reúne teoria e prática, ciência e técnica, dando assim origem a um novo tipo de «douto», bem diferente do filósofo medieval, do humanista. do mago, do astrólogo, ou também do artesão ou artista do Renascimento. Esse novo tipo de douto gerado pela revolução científica. Precisamente, não é mais o mago ou o astrólogo possuidor de um saber privado ou de iniciados, nem o professor universitário comentador e intérprete dos textos do passado, mas sim o cientista autor de um saber público, controlável e progressivo, isto é, de uma forma de saber que, para ser validado, necessita do contínuo controlo da praxis, da experiência. A revolução científica cria o cientista experimental moderno, cuja experiência é o experimento. tornado sempre mais rigoroso por novos instrumentos de medida, cada vez mais precisos. E o novo douto frequentemente opera fora (se não até mesmo contra) das velhas instituições do saber como as universidades. Com efeito, «nos séculos XVI e XVII, as universidades não eram mais, como havia acontecido na Idade Média, as únicas sedes nas quais se elaborava e produzia cultura: o engenheiro ou o artista--engenheiro, que projectava canais, diques e fortificações, vinha assumindo uma posição de prestígio igualou superior à do médico, do astrónomo da corte ou do professor universitário. Durante esses séculos, as condições de existência e o papel social dos artistas, artesãos e «cientistas» de vários tipos sofrem uma série de profundas modificações» (Paulo Rossi). Antes do período de que estamos a tratar, as artes liberais (o trabalho intelectual) eram distintas das artes mecânicas. Estas eram «baixas» e «vis», implicando o trabalho manual e o contacto com a matéria e sendo identificadas com o trabalho servil, feito de operações manuais. As artes mecânicas eram consideradas indignas de um homem livre. Mas, no processo da revolução científica, essa separação foi superada: a experiência do novo cientista é o experimento - e o experimento exige uma série de operações e medidas. Assim, fundem-se numa só coisa o novo saber e a união entre teoria e prática, que frequentemente resulta na cooperação entre cientistas, por um lado, e técnicos e artesãos superiores (engenheiros, artistas, hidráulicos, arquitectos etc.), por outro. Foi a própria ideia do saber experimental, publicamente controlável, que mudou o status das artes mecânicas.
[Giovanni Reale e Dario Antiseri "História da Filosofia Vol II")

1 comentário:

  1. ótimo trabalho quando vc ler e como você entra no passado e trazer o passado para o nosso dia a dia...parabéns...

    ResponderEliminar