quarta-feira, 22 de abril de 2015

DETERMINISMO E FATALISMO: A TRAGÉDIA DE ÉDIPO


Édipo nasceu em Tebas. Era filho do Rei Laio e Jocasta. Certa ocasião, o oráculo profetizou que Laio seria morto pelo próprio filho. Assim, Édipo foi entregue a um pastor do Monte Citéron, com os tornozelos perfurados para que não pudesse se locomover, ou seja, estava entregue à morte.No entanto, esse pastor ficou comovido e entregou a criança a outro homem, que por sua vez, levou o menino para o Rei de Corinto - Pólibo, que não tinha filhos.Édipo crescia ao mesmo tempo em que aumentavam os comentários de que ele não era filho legítimo de Pólibo, apesar dos desmentidos deste. Para sanar as dúvidas, Édipo vai a Delfos consultar o oráculo.O oráculo não lhe revela os pais verdadeiros, mas revela que o seu destino é este: faça o que fizer Édipo está condenado a matar o pai e a casar com a própria mãe. Horrorizado, Édipo deixa Delfos disposto a nunca mais retornar a Corinto, onde viviam Pólibo e sua esposa, que julga serem os seus pais.Sem o saber, o trágico caminho de Édipo estava traçado. Nas redondezas de Delfos, depara - se com a carruagem do Rei Laio. No caminho de Dáulis, cruzou-se com outro cavaleiro, com o qual, por motivo de precedência, se travou de razões, acabando por derrubá-lo da sela e matá-lo em legítima defesa.
Édipo dirige - se para Tebas, cidade de Laio, a qual vivia aterrorizada pela Esfinge, um monstro metade leão, metade mulher, que inventava enigmas e matava, lançando -as num precipício, os infelizes que não conseguissem solucioná - las.Quando a notícia da morte de Laio chegou a Tebas, o trono e a mão da rainha de Laio foram oferecidos ao homem que pudesse solucionar o enigma e livrar a região da terrível Esfinge. Para Édipo o enigma foi fácil de resolver. Respondeu à pergunta “O que é que anda em quatro pernas, em três pernas e em duas pernas?” com destreza: “O homem, pois quando bebé gatinha de quatro, cresce e anda com duas pernas e com a idade necessita do suporte de uma terceira perna, uma bengala”. Quando a Esfinge escutou a resposta, ficou tão enraivecida e mortificada que se jogou no precipício. Aliviados e reconhecidos os cidadãos de Tebas coroaram - no rei. Casou - se com Jocasta, de quem teve dois filhos, Etéocles e Polínece, e duas filhas, Antígona e Ismênia. Mais tarde, abateu se outra praga sobre a região de Tebas. E é neste ponto que se desencadeia a grande tragédia de “Édipo Rei”.A colheita morria nos campos, os animais não se reproduziam, as crianças estavam doentes e os deuses não respondiam às preces. Creonte, irmão de Jocasta, regressado da consulta ao oráculo de Delfos, ficou a saber que a maldição acabaria quando o assassino de Laio fosse descoberto. Édipo encarrregou -se de encontrá-lo. Consultou o profeta cego Tirésias, que, a princípio, recusou revelar a identidade do assassino, mas acabou por afirmar que era Édipo. Édipo suspeitou que o seu cunhado Creonte e Tirésias estariam a conspirar para lhe retirarem o trono. Ilusão. O desenrolar do episódio culmina com a chegada de um mensageiro vindo de Corinto, que conta que Pólibo havia morrido de morte natural. Édipo sente - se feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da profecia do oráculo: não matara o seu pai. Mais uma ilusão. O mensageiro assegura a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais.Para desvendar o mistério entra em cena o pastor que salvara Édipo, agora um velho, a única testemunha viva da morte do rei. O homem diz que salvou o filho de Laio e com pena o entregou aos cuidados de Pólibo e da esposa em vez de o deixar morrer. Édipo cresceu a julgar que era filho destes e não de Laio e de Jocasta. Édipo acaba por convencer-se de que ele próprio é o autor da morte de Laio, seu verdadeiro pai, e de que Jocasta, a mulher com quem casara, é a sua mãe. Sendo a verdade evidente, Édipo, destroçado e dilacerado pelo desespero, encontra o corpo morto de Jocasta, que acabara de se enforcar no interior do palácio real. Édipo, por sua vez, arranca os olhos, desejando desaparecer e morrer.


1 – A história de Édipo é uma ilustração de uma forma de pensar sobre a vida humana a que se deu o nome de fatalismo. A partir desta história tente caracterizar o fatalismo.
R: O fatalismo é a teoria que defende o seguinte: o nosso futuro está traçado e façamos o que fizermos nada podemos mudar porque as nossa ações fazem precisamente parte do que já está fixado ou traçado. As nossas escolhas e ações não têm qualquer influência sobre o que vai acontecer no futuro. A resignação parece ser consequência lógica do fatalismo.

2 – Qual a relação entre fatalismo e livre – arbítrio? Quem defende o fatalismo admite que temos livre – arbítrio?
R: Para o fatalista, o livre – arbítrio é uma ilusão. Uma vez que o futuro está traçado e fixado – vai ser o que tem de ser – e como as nossas ações fazem parte do que já está fixado então não podemos fazer outras coisas a não ser as que fazemos. A nossa vida já está escrita e cumprimos um roteiro que nos encaminha inevitavelmente para um certo desenlace. É o que acontece com Édipo. Tenta fugir ao que lhe dizem que vai acontecer mas nada mais faz do que percorrer o caminho que o vai conduzir ao encontro do que já estava destinado.

3 – Suponha que vai fazer um exame de Matemática. Adoptando uma posição fatalista, considera que o resultado já está traçado e que tanto faz estudar como não estudar. Suponha agora que um seu colega é determinista radical. Será que terá a mesma opinião que a sua?
R: Não. A única coisa em que estarão de acordo é que a decisão de estudar ou de não estudar não resulta de uma livre escolha. Como fatalista dirá que como todas as nossas ações fazem parte do que já está fixado ou pré – determinado então a decisão de estudar ou não também já está previamente definida não havendo portanto liberdade. O seu amigo como determinista radical dirá que se as mesmas causas produzem os mesmos efeitos então diferentes causas produzem diferentes efeitos. Por isso, estudar terá um efeito e não estudar terá outro. O que o determinista radical defende não é que o que fazemos é indiferente mas sim que se escolho estudar a minha decisão não poderia ser outra porque está determinada por exemplo pela educação que recebi. Não defende que certos acontecimentos futuros se verificarão faça eu o que fizer. Defende que o futuro é determinado pelo presente – pelo que faço agora – embora o que agora faço seja o resultado de acontecimentos anteriores como por exemplo a forma como fui ensinado a encarar o estudo e a sua importância para o sucesso. Um futuro com as nossas ações é diferente de um futuro sem as nossas ações (ou com as nossas omissões). O determinismo não convida à resignação.

4 – O determinismo na sua forma mais radical defende que as nossas escolhas e ações são o resultado inevitável de fatores ambientais – educativos – e hereditários – genéticos. Será que isto significa que o determinismo é uma forma de fatalismo?
R: Não. O fatalismo é a teoria que defende o seguinte: o nosso futuro está traçado e façamos o que fizermos nada podemos mudar porque as nossa ações fazem precisamente parte do que já está fixado ou traçado. As nossas escolhas e ações não têm qualquer influência sobre o que vai acontecer no futuro.
Para o determinista radical as nossas escolhas e ações afectam o futuro, influenciam – no embora sejam determinadas pelo passado. As minhas escolhas e ações já estão determinadas por acontecimentos anteriores e por isso não escolho entre dois futuros possíveis: na verdade há um só futuro possível que já está determinado por eventos ou acontecimentos passados. O fatalista diz: “Tivesses feito A ou B seria irrelevante porque tudo já está traçado ou escrito”: O determinista diz: Se tivesses feito A em vez de B o resultado teria sido diferente: diferentes causas , diferentes efeitos”. Muitos deterministas explicam o comportamento criminoso como o resultado inevitável de condições sociais degradadas pela pobreza e falta de emprego. Mas não olham para este facto inevitável como uma fatalidade. Porquê? Porque tal como acreditam que as escolhas das pessoas são determinadas pelo meio também acreditam que se mudarmos o meio mudaremos as escolhas das pessoas, ou seja, estas escolherão outra coisa em vez de roubar, matar e agredir. É evidente que mudar o meio não tornará as pessoas livres ( o determinista não abdica da tese de que todas as ações derivam de causas que o indivíduo não controla) mas mudará o futuro porque um meio ou uma sociedade mais justa e equilibrada terá como efeito - determinará - que os indivíduos em geral abdiquem de uma vida associada ao crime.
Nota: Para o behaviorismo, o ser humano é o produto do processo de aprendizagem pelo qual passa desde a infância e da influência do tipo de meio em que é educado.

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