terça-feira, 15 de março de 2011

DIÁLOGOS SOBRE O RELATIVISMO MORAL


DIÁLOGOS SOBRE O RELATIVISMO MORAL

Aula sobre o relativismo moral

Sumário
O que é moralmente correcto? O que eu penso ser correcto ou o que a sociedade pensa ser correcto? Pode uma cultura dar lições de moral a outra?
Professor – Vamos hoje falar de um problema importante da ética.Vou começar com casos concretos.

Segundo a antropóloga Ruth Benedict, sempre que morria um membro da tribo Kwakiutl, do noroeste americano, os familiares enlutados saíam em busca de membros de outras tribos para os matar. Para eles a morte era uma afronta que devia ser vingada pela morte de outra pessoa. Assim, quando a irmã do chefe da tribo morreu, este matou sete homens e duas crianças de outra tribo que nada tinham a ver com o acontecimento.
Se eu ou tu tivéssemos feito tais coisas seríamos considerados assassinos. Matar pessoas inocentes como o fez o chefe dos Kwakiutl é contrário às nossas leis e ao nosso código moral. Contudo, a sua acção não foi contrária às leis ou ao código moral da sua cultura. Segundo os padrões morais da sua sociedade, o que fez é aceitável, porventura obrigatório.Que código moral é correcto? O da cultura a que tu e eu pertencemos ou o código moral da referida tribo? O chefe da tribo Kwakiutl agiu erradamente ao assassinar nove pessoas inocentes por a sua irmã ter morrido?
Os antigos egípcios, gregos e romanos praticavam a escravatura.O mesmo acontecia com os israelitas do Antigo Testamento. Até uma data tão recente como 1860, muitos brancos no sul dos Estados Unidos tinham escravos negros. No passado muitas culturas acreditavam que a escravatura era uma prática moralmente aceitável. Hoje quase ninguém aceita tal ideia. Estavam os nossos antepassados errados quando acreditavam na moralidade da escravatura?
Quando os britânicos começaram a ocupar e colonizar a Índia, descobriram horrorizados que os hindus praticavam a queima das viúvas. Quando o marido morria a mulher (ou as mulheres) era pressionada para que aceitasse ser cremada junto com o corpo do marido na pira funerária. Os britânicos acreditavam que essa prática era moralmente inaceitável, desumana. Muitos hindus discordavam completamente.
Os esquimós permitem que as pessoas idosas e incapacitadas morram de fome, ao passo que nós acreditamos que isso é errado.Os antigos habitantes de Esparta acreditavam e os Dobu da Nova Guiné acreditam que roubar é moralmente correcto enquanto nós acreditamos que é moralmente errado na maioria dos casos. Muitas culturas praticaram e ainda praticam o infanticídio, algo que nos repugna. Uma tribo da África oriental costumava atirar os recém-nascidos com deficiências graves aos hipopótamos. As práticas sexuais variam com o tempo e o lugar. Algumas culturas permitem actos homossexuais enquanto outras os condenam. Algumas culturas permitem a poligamia, caso de alguns países islâmicos, ao passo que as culturas de raiz cristâ a consideram imoral. Uma tribo da Melanésia entende que a cooperação e a gentileza são vícios. Outra tribo no Uganda desvaloriza os laços familiares não tendo os pais qualquer dever de cuidar dos filhos ou dos parentes próximos. Há sociedades nas quais é dever dos filhos matarem os pais estrangulando-os quando estes já não conseguem ter uma vida digna por causa do envelhecimento e das doenças.
DaviNinguém se entende sobre o bem e o mal.
Professor – Não sei se é mesmo assim.O que os exemplos dados nos mostram é que diferentes culturas têm diferentes crenças morais.O que é errado para umas é certo para outras.Isto é um facto. As pessoas discordam acerca do que é moralmente certo ou errado.
Mariana – E ninguém está errado? E ninguém está certo?
Professor – Há quem pense que ninguém está errado.
Fernando – Gosto dessa ideia.Ninguém dá lições de moral a ninguém.Assunto encerrado.
Guido – Se ninguém dá lições de moral a ninguém gostava de saber como aprendeste a distinguir o bem do mal.
Fernando – Para mim o certo e o errado são uma questão de opinião individual e se acreditas estar certo ninguém tem o direito de te dizer que estás errado.
Guido – Não estou de acordo.É o meio em que crescemos e somos educados que nos transmite ideias sobre o que é moralmente errado ou correcto.
Professor – As intervenções do Fernando e do Guido foram importantes.Não esqueçam também o que a Mariana disse.Para orientar a discussão vou explicitar e corrigir um pouco as teses que ambos apresentaram.
As duas formas básicas de relativismo moral
Há duas formas básicas de relativismo moral: o relativismo moral subjectivo ou subjectivismo moral e o relativismo moral cultural. Estas duas formas de relativismo definem-se do seguinte modo:
Relativismo moral subjectivo – é a perspectiva segundo a qual:
a)      Não há verdades morais absolutas e universais; e
b)      A verdade dos juízos morais é relativa às opiniões, sentimentos e preferências de cada indivíduo.
Relativismo ético convencional ou cultural – é a perspectiva segundo a qual:
a)      Não há verdades morais absolutas e universais; e
b)      A verdade dos juízos morais é relativa às crenças que os membros de uma cultura têm.
Ambas as perspectivas negam que haja verdades morais absolutas e objectivas. A única diferença entre estas perspectivas relativistas é a de discordarem quanto ao de que depende a verdade dos juízos e princípios morais.
Segundo o relativismo moral subjectivo ou individual (a partir de agora chamar-lhe-emos subjectivismo ético) é realmente correcto aquilo que acreditas ser moralmente correcto.
Segundo o relativismo moral cultural o que é moralmente correcto depende do que a sociedade ou cultura a que pertences acredita ser correcto. As crenças culturais estabelecidas no interior de uma sociedade constituem a autoridade suprema e definem em que devem acreditar os indivíduos que nela vivem e segundo elas são educados. Deste ponto de vista, as crenças e opiniões dos indivíduos devem subordinar-se ao que a maioria considera ser moralmente certo.


André – Resumindo: Para o relativismo moral cultural moralmente correcto é igual a socialmente aprovado.Para o subjectivismo moral é moralmente correcto o que cada indivíduo acredita ser correcto pense a sociedade o que pensar.
Rosa – Esperem um pouco! Eu preciso de saber o que são juízos morais!
Professor – Em termos simples, um juízo moral avalia um acto ou uma pessoa.Quando dizes «Gabriel é uma pessoa honesta» estás avaliar o carácter do Gabriel.Quando dizes «Gabriel agiu mal ao trair a namorada» estás a avaliar um acto do Gabriel dizendo que esse acto foi errado.Um juízo moral é um juízo de valor. Nos juízos morais que efectuamos dizemos que há acções que devem ser feitas (são obrigatórias e não as fazer é moralmente errado), que não devem ser realizadas (são impermissíveis e fazê-las é moralmente incorrecto) e que são permissíveis (podemos ou não realizá-las sem que isso seja moralmente errado). Voltando ao nosso problema eis a questão que temos de discutir: O que é moralmente correcto? O que cada um pensa e sente ser moralmente certo ou o que a sociedade considera ser moralmente certo?
André – O Fernando parece – me defender que o bem, o moralmente correcto é o que cada indivíduo aprova.O Guido parece – me defender que o bem é igual a aprovado pela sociedade.
Guido – É isso mesmo.
Fernando – Eu não estou de acordo com o Guido.
Mariana – Cada um que se defenda.
Davi – E que se desentenda…ah civilizadamente, com argumentos como diz o stôr.
Professor – Professor, professor...Começa Fernando.Tenta encontrar argumentos a favor da posição que acreditas ser boa.Já agora digo que o Fernando parece adepto do subjectivismo moral. O subjectivismo moral é uma forma de relativismo segundo a qual cada indivíduo responde às questões morais baseado no seu código moral pessoal e não pode estar errado se os seus juízos corresponderem aos seus sentimentos. Os nossos juízos morais baseiam-se nos nossos sentimentos e como os sentimentos são subjectivos nenhum juízo moral é objectivamente certo ou errado. É também denominado relativismo individual. O Guido parece adepto do relativismo moral cultural.

O subjectivismo moral
 O subjectivismo moral ou relativismo individual afirma que há juízos morais verdadeiros mas nega que essa verdade seja objectiva. A cada um a sua verdade. Os juízos morais traduzem sentimentos de aprovação e de reprovação. Se genuinamente uma pessoa sente que uma determinada acção é correcta, se ela está de acordo com o que sente ser correcto então o juízo moral que sobre ela faz é verdadeiro. Moralmente verdadeiro é o que depende dos meus sentimentos. Cada indivíduo tem um código moral próprio que lhe permite distinguir por si o certo do errado sem precisar de consultar os outros ou submeter-se ao que a maioria das pessoas pensa sobre o assunto.


Fernando – Eu penso que as questões morais são questões de consciência.Ninguém pode e deve dar lições de moral a ninguém. A cada qual a sua verdade e assim deve ser. Há desacordo entre os seres humanos acerca de questões morais.Ninguém tem o direito de julgar no lugar dos outros o que é certo e errado. Cada um de nós, baseado nos seus sentimentos e gostos é capaz de distinguir o certo do errado. Ninguém é melhor do que os outros em assuntos morais. Porque hei – de deixar que os outros me digame queiram impor a sua perspectiva. Não devemos julgar os outros.Por que razão tenho de seguir o que os outros dizem se eles não se entendem?
Guido – Isso não é verdade!
Fernando – Muita calma.Ainda não acabei.Cada um deve ter a liberdade e a autonomia para decidir o que é moralmente correcto ou incorrecto. Cada um de nós decide por si o seu estilo de vida e os valores que estão correctos. Quem desafia os valores estabelecidos está a agir correctamente desde que esteja a ser fiel aos seus sentimentos.
Guido – E se esses sentimentos estiverem errados?
Fernando – Já vais ter tempo de antena, Guido.Podes desabafar a seguir.Estou a acabar.Volto a dizer: Ninguém pode dar lições de moral a ninguém. A cada qual a sua verdade e assim deve ser.
Críticas ao subjectivismo moral
Mariana – Hum, isso vai dar problema. Todas as opiniões acerca de assuntos morais e estilos de vida devem ser consideradas igualmente boas?
Fernando – Não se diz que a tolerância é um valor importante? Eu acho que se devem respeitar convicções morais diferentes.O que eu considero correcto – abolir a pena de morte – pode ser errado para outra pessoa com sentimentos e opiniões difrentes acerca da pena de morte.Temos de respeitar essas diferenças de opinião.
Professor – Antes de prosseguir vamos resumir a teoria do Fernando.O Fernando defende o subjectivismo moral pelas seguintes razões:
1 - O subjectivismo ético parece respeitar a liberdade e a autonomia das pessoas.
Agimos livremente quando agimos de acordo com os nossos sentimentos morais.Se forem os outros a dizer – me o que é certo e errado estou a deixar que me imponham a sua vontade.O Fernando julga que o certo e o errado dependem dos sentimentos de cada pessoa.Se penso e sinto que é errado condenar uma pessoa à pena de morte então como os sentimentos de uma pessoa não são melhores do que os de outra, eu estou certo.
Davi – É tudo uma questão de ponto de vista.
Fernando – E de ser conformista ou não, de ir na onda dos outros ou não.
Professor – Continuando o resumo:
2 - O subjectivismo moral parece promover a tolerância, respeitando convicções morais diferentes.
Aos que defendem a tolerância e o diálogo entre culturas os subjectivistas morais defendem que também os indivíduos devem ser tratados com tolerância. O subjectivismo ético, a que podemos chamar relativismo individual, afirma que todas as opiniões acerca de assuntos morais e estilos de vida devem ser consideradas igualmente boas. A tolerância parece ser um elemento central do subjectivismo moral. Ninguém pode dar lições de moral a ninguém. A cada qual a sua verdade e assim deve ser.
Fernando – Agora ataquem!
Críticas ao subjectivismo moral
Mariana - Imaginemos que José defende que o aborto é errado e que Miguel defende que o aborto é moralmente aceitável. Segundo o subjectivista, eles não estão realmente em desacordo sobre se o aborto é ou não moralmente legítimo. Estão simplesmente a exprimir os seus sentimentos sobre a moralidade do aborto. Será perda de tempo que um tente convencer outro de que está enganado. Se José sente verdadeiramente que o aborto é errado, ou seja, se desaprova fortemente essa prática, então esse juízo é verdadeiro. Se o seu ponto de vista corresponde ao que sente então é subjectivamente certo. O mesmo se passa com Miguel. Não faz sentido debater ou discutir porque será conversa de surdos. Cada qual exprime gostos diferentes e julga que gostos não se discutem. Em si mesmo nada é verdadeiro ou falso.O que é verdade para ti é verdadeiro e o que é verdade para mim é verdadeiro e ponto final.
Professor – O que a Mariana quer dizer é que o subjectivismo ético admite que qualquer juízo moral é verdadeiro.
André – Então toda a gente tem razão e não vale a pena discutir nada.
ProfessorCrítica número 1 - O subjectivismo moral torna impossível a discussão de questões morais.
Fernando – Mas por que razão a opinião dos outros há – de ser melhor do que a minha?
Mariana – E por que não há – de ser? Nunca te enganaste? Ès infalível? Agir de acordo com os nossos sentimentos nem sempre dá bons resultados.
ProfessorCrítica número 2 O subjectivismo implica que cada um de nós é infalível em questões morais.Ora isso é falso.Todos nos enganamos e erramos.
Guido – Há outra coisa que me faz confusão.O subjectivismo parece apoiar – se na existência de desacordo moral para defender que não há verdades objectivas, que nada é certo ou errado em si mesmo. Mas depois não parece conseguir jusificar a existência de desacordo moral.Vejamos: Um acto é correcto ou errado se um determinado indivíduo o considerar correcto ou errado. Assim, suponhamos que o João diz que é correcto matar animais para comermos a sua carne e o Miguel diz que esse acto é moralmente reprovável além de desnecessário. Se adoptarmos o subjectivismo ético, como avaliaremos estas duas teses? Segundo o subjectivismo ambos os juízos morais são verdadeiros porque cada um está em conformidade com os princípios em que cada um dos indivíduos acredita. Uma vez que João aceita o princípio de que matar animais para os comer não é incorrecto, o seu juízo é verdadeiro para ele. Como Miguel tem como princípio moral pessoal que é errado matar animais para esse fim, o seu juízo também é verdadeiro. Para o subjectivismo moral não tem sentido perguntar quem está errado acerca da correcção ou incorrecção moral de matar animais para os comer. A cada qual a sua opinião de acordo com aquilo em que acredita e em nenhum caso o juízo moral de uma pessoa é mais correcto ou razoável do que o de outra.
Professor - Crítica número 3 – O subjectivismo ético é incapaz de justificar racionalmente a existência de desacordo acerca de questões morais.
Não parece possível dizer nem que as nossas nem que as opiniões dos outros estão erradas. A ética não parece ser para o subjectivista uma questão de argumentação racional. Qualquer posição ética é tão plausível como qualquer outra.
Mariana – Quanto a isso da tolerância tenho muitas dúvidas.O subjectivismo parece mais uma teoria em que vale tudo desde que sigamos os nossos sentimentos. É a teoria do deixa andar e cada qual com a sua verdade.Crítica número?
Professor – Quatro.
MarianaCrítica número quatro – O subjectivismo moral apresenta um conceito muito insatisfatório de tolerância.
A tolerância não implica que ninguém esteja errado.Há opiniões melhores e piores tal como acções melhores e piores.Em nome da tolerância transformam –se as noções de bem e de mal, de correcto e incorrecto em simples criações baseadas nos gostos e sentimentos de cada indivíduo.Assim como convencer um nazi de que está errado?Do seu ponto de vista ele tem sempre razão segundo o subjectivismo.Argumentar contra ele é perda de tempo.
Fernando – Ah, gostei.O subjectivismo é uma doutrina contra a qual não se pode argumentar racionalmente.
Guido – Pode, pode.É o que temos feito.Aqui vai outra crítica.Crítica número 5 - O subjectivismo ético acredita que não há verdades morais objectivas porque os assuntos morais são objecto de discórdia generalizada mas isso não prova que não haja uma resposta correcta ou verdades objectivas.
Será que o facto de as pessoas discordarem acerca da existência de Deus prova que não há uma resposta à questão Será que Deus existe? Durante muito tempo as pessoas pensaram que as doenças eram causadas por demónios. Sabemos hoje em dia que na maioria dos casos são causadas por microorganismos tais como bactérias e virus.

Guido – E já pensaram noutra coisa?
Rui – Quê? Ainda há mais?
Guido – Vejam o que descobri! O subjectivismo moral afirma que nenhuma perspectiva moral é mais verdadeira ou melhor do que outra. Mas como o subjectivismo é também uma perspectiva moral então não é melhor do que qualquer outra. Contudo, os subjectivistas defendem que o absolutismo moral e a crença na existência de verdades objectivas em ética são perspectivas erradas. É contraditório.
Rui – Está bem, eu faço de secretário apesar de não perceber este entusiasmo todo.Crítica número 6 – O subjectivismo moral é contraditório.E acabou –se!
Guido – O subjectivismo moral é a teoria para a qual tudo é relativo excepto...o próprio subjectivismo moral.
Rui – E assim acabamos em beleza!
Professor – Pára com isso Rui.
Fernando – É tudo a arrasar. Admito que esta teoria tem muitos defeitos mas gostava que me apresentassem uma mais satisfatória.Vou estar atento.Avança Guido. Parece –me que tens estado à espera da tua oportunidade.

O relativismo moral cultural
Guido – Eu acredito que o certo e o errado são aquilo que a sociedade aprova e reprova.Certo é o que é socialmente aprovado e errado é o que é socialmente reprovado.
Professor – Para todos se situarem farei uma breve apresentação da teoria que o Guido parece defender.Chama – se relativismo moral cultural. A partir de agora podemos designá – la pela sigla RMC.

O relativismo moral cultural
Tal como o subjectivismo moral, o relativismo moral cultural (RMC) baseia-se no facto de não haver acordo sobre as questões morais para concluir que não há verdades morais objectivas, aceites por todas as sociedades e culturas. Tal como o subjectivismo, o relativismo moral cultural defende que os juízos morais têm valor de verdade, isto é, podem ser verdadeiros ou falsos. Se no primeiro caso, a verdade ou a falsidade era relativa aos sentimentos e gostos de cada indivíduo, no segundo caso ela é relativa ao que cada sociedade aprova. Moralmente verdadeiro é o que cada sociedade- ou a maioria dos seus membros- acredita ser verdadeiro. Se em determinado lugar do planeta se acredita que roubar não é incorrecto então o juízo moral «Roubar é moralmente correcto» é, para os membros dessa cultura, verdadeiro.
Moralmente verdadeiro é igual a socialmente aprovado e as convicções da maioria dos membros de uma sociedade são a autoridade suprema em questões morais. Contrariamente ao relativismo individual, o relativismo cultural acerca de assuntos morais afirma que o código moral de cada indivíduo se deve subordinar ao código moral da sociedade em que vive e foi educado. Os juízos morais de cada indivíduo são verdadeiros se estiverem em conformidade com o que a sociedade a que pertence considera verdadeiro.
Em termos simples o argumento central do RMC é este:
Premissa – Diversas sociedades e culturas dão diferentes respostas às mesmas questões morais (Em diferentes sociedades e culturas as pessoas têm crenças e práticas morais diferentes).
Conclusão – Logo, não há nenhuma resposta objectivamente verdadeira a essas questões (não há verdades morais universais)


Será que do facto de não haver acordo se segue que não existe nenhuma verdade objectiva? Esta é a questão que deixo para debaterem.
André – As pessoas discordam, logo não verdades morais objectivas.Parece óbvio.Onde encontrá – las?
Rui – O que são verdades objectivas?
Professor – Essa pergunta é importante.Verdades objectivas são verdades que valem independentemente do que tu e eu possamos pensar. São independentes das crenças e dos hábitos culturais. Adversários do RMC afirmam por exemplo que um juízo moral como este A discriminação racial é errada é objectivamente verdadeiro, ou seja, vale independentemente do que as pessoas pensam sobre a discriminação racial.
Fernando – Vejo que estão com problemas...
Professor – Não estou a querer contrariar o Fernando mas lembrem – se de algo que aprenderam nas aulas de iniciação à actividade filosófica. O tema era como criticar argumentos. Tentem construir um argumento com a mesma forma deste com premissa verdadeira e conclusão falsa.Como sabem de premissa verdadeira não pode logicamente derivar conclusão falsa.
Rui – Um argumento assim não presta.
Professor – Não é aceitável.
Guido – Aqui vai:
Premissa – Diversas culturas discordaram quanto à forma da Terra (umas pensaram que era esférica, outras plana, outras esférica mas um pouco achatada)
Conclusão – Não há nenhuma verdade objectiva acerca da forma da terra.
Professor - A premissa é verdadeira mas a conclusão é falsa (sabemos que a Terra é redonda). Logo, o argumento não é bom. A premissa não apoia logicamente a conclusão.
Guido – Mas uma coisa é dizer que o argumento é mau.Outra é dizer que ao refutá – lo se provou que há verdades morais objectivas.
Críticas ao relativismo moral cultural
Professor – Tens razão. Contudo, mostrámos que o argumento central do RMC não é persuasivo. A conclusão Não há nenhuma resposta objectivamente verdadeira a questão moral (não há verdades morais universais, aceites por todos os povos e culturas) é mal justificada.Pensem nisto: Se duas sociedades têm diferentes crenças acerca de uma questão moral, o relativista conclui que então ambas as crenças são verdadeiras. Os adversários do RMC objectam que a conclusão não deriva necessariamente da premissa porque essa discórdia pode ser sinal de que uma sociedade está certa e a outra está errada.Crítica número um – O argumento central do RMC é inválido.
Guido – Gostaria de um exemplo.
Professor - Nas nossas sociedades os adolescentes aprendem Química na escola. Noutras culturas não tecnológicas são educados para serem bons caçadores. Devemos concluir deste facto que os princípios da química não têm «validade» independentemente da nossa cultura? Sabemos que existem 100 elementos químicos mas na Grécia antiga só se reconheciam 4:terra,água,ar e fogo. Devemos concluir que depende de cada cultura quantos elementos existem? Em termos análogos, a abolição da escravatura foi o resultado de um longo processo de reflexão sobre os ideais democráticos e as raízes bíblicas da cultura ocidental. Devemos por isso concluir que a escravatura só é errada para os membros da cultura a que pertencemos?
Mariana – Num livro de filosofia encontrei o seguinte caso:
No Japão medieval sempre que um samurai (guerreiro ao serviço do imperador) recebia uma nova espada era obrigado a testá-la para verificar se funcionava adequadamente. O teste consistia em desferir um violento golpe numa pessoa que a atravessasse desde o ombro até ao flanco oposto cortando-a em duas partes na diagonal. Qualquer pessoa, exceptuando o imperador ou outro samurai e familiares de ambas as partes podia ser cobaia desta experimentação. Assim, qualquer pessoa exceptuando as referidas, podia ser subitamente trespassada pela espada do samurai. Caso o golpe da espada não trespassasse a desafortunada vítima, o samurai podia cair em desgraça desonrando os seus antepassados e desagradando ao imperador.
Rui – Não se podia passear sossegado.
Fernando - O RMC afirma que aquilo que uma sociedade pensa ser moralmente correcto é moralmente correcto para ela. Se moralmente correcto é igual a cultural e socialmente aprovado, então o comportamento do samurai, esse costume, é moralmente correcto.E pensar que me arrasaram quando defendi o subjectivismo moral...Não vejo grandes virtudes nesta teoria.
André – Estou de acordo com o Fernando mas que esta teoria não pareça boa não significa que o subjectivismo seja bom. Segundo o RMC é moralmente correcto o que uma sociedade acredita ser moralmente correcto.Não me parece verdade. Se uma sociedade rejeita o direito das mulheres ao voto e a igualdade de oportunidades no acesso a empregos diremos que isso é moralmente correcto só porque é socialmente aprovado. As sociedades são moralmente infalíveis? Então porque mudaram ao longo da história várias das suas convicções?Crítica número dois - Há uma diferença significativa entre o que uma sociedade acredita ser moralmente correcto e algo ser moralmente correcto.
Mariana – Há uma coisa que me está a deixar confusa.Quando se fala de sociedade está a falar – se de quê?
Professor – Vou tentar perceber essa dúvida. Quase nenhuma sociedade é culturalmente homogénea. Actualmente, a maioria das sociedades são multiculturais. Além disso, no interior de uma mesma cultura existem subculturas, isto é, grupos relativamente numerosos que não partilham as convicções morais da maioria. Qual é a posição da nossa sociedade sobre o aborto? È difícil dizer porque nem todos estamos de acordo. O mesmo se diga acerca do suicídio, da eutanásia, dos direitos dos animais e dos próprios direitos humanos.
Assim sendo, temos de concluir que quando falamos do código moral ou das crenças morais de uma sociedade, estamos a falar das crenças da maioria dos seus membros. Logo, se de acordo com o RMC é moralmente correcto o que é aprovado pela sociedade então é moralmente correcto o que a maioria considera moralmente correcto.
FernandoCrítica número dois - O RMC reduz a verdade ao que a maioria julga ser verdadeiro.Desde quando o que maioria pensa é verdadeiro e moralmente aceitável?Os nazis acreditavam e fizeram com que a maioria dos alemães acreditassem que os judeus eram sub-humanos e que exterminá – los era um favor que faziam à humanidade.Isso é claramente falso.
Professor – Dou razão ao Fernando. Vários exemplos históricos como o nazismo e o apartheid provam que muitas vezes as crenças da maioria são moralmente erradas e perniciosas. Por outro lado, muitas vezes uma sociedade está quase dividida ao meio no que respeita a questões morais (caso do aborto). Como decidir quem tem razão?
Fernando - O stôr...professor disse que segundo o RMC os juízos morais de cada indivíduo são verdadeiros se estiverem em conformidade com o que a sociedade a que pertence considera verdadeiro. E isso leva – me a outra crítica ao RMC.Crítica número três - O RMC parece convidar-nos ao conformismo moral, a seguir, em nome da coesão social, as crenças dominantes.Disso não podem acusar o subjectivismo moral.
Guido – Não me digas que ainda és subjectivista...depois da tareia que levaste.
Professor – Calma. O Fernando soube enfrentar as objecções ao subjectivismo. Na discussão de assuntos filosóficos exige –se essa capacidade.Discutir ideias sem que ao vermos as nossas ideias contestadas nos sintamos ofendidos.Assim é que da discussão pode nascer alguma luz mesmo que não seja muita.Podemos não ficar a ver bem mas pelo menos evitamos ficar a ver mal.Não pensem que a atitude do Fernando, apesar de algumas intervenções irónicas não lhe vai valer pontos na avaliação final.
Mariana – Certo. Voltando ao assunto. Se para o RMC o conformismo é uma virtude – e algum conformismo é preciso para viver em sociedade – essa virtude pode transformar – se em obediência cega e em passividade. E há muita coisa injusta nas diversas sociedades.Mas não estão a conseguir chegar aonde quero.Vou tentar. Algumas pessoas ao longo da história quiseram e conseguiram mudar a nossa maneira de pensar Acerca de certos assuntos morais.Estou a lembrar – me de quem combateu a escravatura em nome dos ensinamentos de Cristo – embora os defensores da escravatura dissessem que a Biblia justificava o que faziam – de que lutou contra o apartheid na África do Sul ( Nelson Mandela) e contra a segregação racial nos EUA ( Martin Luther King).Essas pessoas fizeram bem à humanidade, combateram injustiças e devemos – lhes grande progresso moral.Ora , crítica número quatro  - O RMC parece implicar que a acção dos reformadores morais é sempre incorrecta.Fico por aqui.Acho que me fiz entender.
Professor – Excelente. A Mariana quis dizer isto: O que é um reformador moral? Uma pessoa que tenta alterar significativamente o modo de pensar, de agir e de sentir de uma dada sociedade porque o considera moralmente errado nalguns aspectos importantes. Martin Luther King tentou por via pacífica chamar a atenção para as deficiências morais de um código moral e jurídico que no sul dos EUA considerava moralmente aceitável que os negros fossem tratados como cidadãos de segunda classe. O mesmo fez Nelson Mandela na África do Sul. Como, segundo o relativismo, as crenças da maioria dos membros de uma sociedade são a verdade em matéria moral, como aquilo que é socialmente aprovado (significa aprovado pela generalidade dos membros de uma sociedade) é verdadeiro e deve ser seguido, então King  e Mandela comportaram-se de forma moralmente errada.Esta ideia é para nós inaceitável.
Fernando – De acordo.  O relativismo moral torna incompreensível o progresso moral.É verdade ou pelo menos parece que não há acordo entre os seres humanos sobre muitas questões morais. Mas também é verdade que a humanidade tem realizado progressos no plano moral. A abolição da escravatura, o reconhecimento dos direitos das mulheres, a condenação e a luta contra a discriminação racial são exemplos. Falar de progresso moral parece implicar que haja um padrão objectivo com o qual confrontamos as nossas acções. Se esse padrão objectivo não existir não temos fundamento para dizer que em termos morais estamos melhor agora do que antes. No passado, muitas sociedades praticaram a escravatura mas actualmente quase nenhuma a considera moralmente admissível. Muitos de nós e com razão consideramos esta mudança de comportamento e de atitude um sinal de progresso moral. Mas se para o RMC nenhuma sociedade esteve ou está errada nas suas crenças e práticas morais torna-se difícil compreender a ideia de progresso moral. Tudo o que podemos dizer é que houve tempos em que a escravatura era moralmente aceitável e que agora ela é já não é aceite.
Professor – Guido então...
Precisamos de ser relativistas para ser tolerantes? Só baseados no relativismo moral cultural é que podemos dialogar com pessoas de culturas diferentes?
Guido – Não há outra teoria para eu sair desta...Estou a brincar. Apesar de tudo o que foi dito, creio que o RMC tem uma virtude importante: promove a tolerância e o respeito pela diversidade cultural. Quem é quem para julgar o que é correcto e errado? O que nos dá o direito de dizer que as crenças e práticas de outras culturas são erradas simplesmente porque diferem das nossas? Não é presunção e arrogância pensar assim? Por que razão não adoptar o princípio Viver e deixar viver deixando cada cultura estabelecer o que considera moralmente correcto e adequado? Não mostrou a história da humanidade que quando uma dada cultura quis ser autoridade moral para outras daí resultaram abusos, guerras, extermínios, exploração e perseguições? O relativismo moral ao defender que o moralmente correcto é aquilo que cada sociedade define e aprova como moralmente correcto parece ser a teoria que mais adequadamente defende a virtude da tolerância e o diálogo entre culturas.
Professor - Segundo o RMC, cada cultura vê a realidade com óculos de diferentes cores e nenhuma tem o direito de dizer que a sua visão é a única apropriada. Quando se trata das crenças e práticas morais de outras sociedades devemos tentar usar os óculos que os membros dessas culturas usam. Dizer que algumas práticas morais de certas culturas são intrinsecamente erradas – erradas em si mesmas – é sinal de preconceito cultural: julgamos que algumas culturas (normalmente a nossa) são, moralmente falando, melhores e mais evoluídas do que outras. Os relativistas argumentam que tal atitude é etnocêntrica. O etnocentrismo é a atitude que consiste em julgar os padrões culturais de outras sociedades tendo como termo de comparação os nossos. Frequentemente esta atitude conduziu a concluir que a nossa cultura é superior às outras e a forçar os que eram considerados moralmente inferiores a mudarem as suas crenças e práticas.
André – Depois de tantos defeitos que vimos nesta teoria do RMC o Guido parece querer estar a salvar um náufrago dizendo – lhe: «Nada! Nada!».
Guido – Creio que só ganhamos em por de lado a ideia de que « nós estamos certos e eles estão errados».Convivência pacífica, respeito pela diversidade, estão a ver?
Mariana – Temos de ser relativistas para sermos tolerantes?
Professor – Essa é a questão.
André – Agora já sabemos que o professor vai iluminar – nos.
Professor – Pois, pois.
A tese relativista sobre a tolerância
A tese da tolerância que o relativismo diz promover é geralmente assim defendida:
Premissa – As diversas culturas têm concepções diferentes sobre o que é moralmente bom ou mau
Premissa – Se diferentes sociedades têm crenças morais diversas, não há verdades morais objectivas e universais.
Conclusão – Logo, devemos adoptar uma atitude de tolerância face às crenças morais de outras culturas. (Devemos aceitar o que é aceite em outras sociedades).
Para o RMC cada cultura tem a sua própria perspectiva sobre o que é moralmente certo ou errado. Nenhuma cultura é autoridade incontestável em assuntos morais. Uma vez que não temos um critério objectivo para provar que algumas perspectivas são melhores do que outras, devemos tratá-las como sendo igualmente correctas. A tolerância significa, para o relativista, que temos de aceitar o que os membros de outras culturas pensam e fazem sem tentar corrigi-los.


Guido – Parece haver uma ligação lógica entre relativismo moral e tolerância intercultural.
Professor – Será que existe mesmo essa ligação? Da proposição «Não há verdades morais objectivas e universais» segue - se que não haja práticas e crenças morais erradas? Para poderem pronunciar – se pensem no seguinte caso:
Por cada ano que passa, dois milhões de jovens mulheres, entre os 15 e os 25 anos, sofrem a mutilação de uma parte dos seus órgãos genitais. Esta prática tem igualmente o nome de excisão. Em que consiste? Na esmagadora maioria dos casos sem cuidados higiénicos especiais nem anestesia, uma excisora — é quase sempre uma mulher — utiliza uma lâmina de barbear ou uma faca e na presença de pais e amigos corta o clítoris e os pequenos lábios da jovem. É frequente que também os grandes lábios sejam retirados. É a “excisão total” ou infibulação.
Nas últimas décadas, a excisão acontece cada vez mais cedo. Actualmente a maior parte das vítimas tem menos de um ano. A prática da mutilação genital feminina é uma tradição de vários países africanos (é também praticada na Índia, na Indonésia e no Paquistão), embora não da maioria. Pratica-se sobretudo em países que a declararam ilegal: Nigéria, Sudão, Egipto, Somália e Quénia. Noutros países, Mali e Guiné-Bissau, por exemplo, não há qualquer interdição legal.
Por que razão várias etnias e populações inteiras continuam a realizar a mutilação genital feminina? A resposta imediatamente dada é esta: “É o costume. Entre nós todas as mulheres são excisadas”.
Mas as “razões” variam conforme as etnias (grupos de pessoas que partilham uma mesma língua, hábitos, costumes e valores). Para certos grupos, retirar o clítoris é necessário para que esse pequeno órgão não envenene o bebé no momento do nascimento, não prenda o órgão sexual masculino ou não impeça e relação sexual. Para além destas superstições, há outras justificações a que poderemos chamar simbólicas. Certas etnias do Mali, do Senegal e da Mauritânia consideram que a excisão é um acto purificador que dá à jovem o “direito à oração”. Outras afirmam que a excisão é o ritual que assinala a última etapa da vida de uma rapariga antes do casamento. A mutilação genital significa a ruptura dolorosa com a família e com a infância. Através dela a rapariga passa a ser tratada como mulher. Sem a excisão, não alcança esse estatuto nem pode casar-se.
As organizações não governamentais (ONG) e as mulheres africanas que combatem esta prática denunciam-na como estratégia de domínio sexual masculino (e como responsável por atrozes sofrimentos e por acentuada mortalidade em bebés e crianças do sexo feminino). A ablação do clítoris retira grande parte da sensibilidade aos órgãos genitais (a mulher perde em prazer o que ganha em fidelidade?). Mas não é fácil lutar contra costumes enraizados há milénios.
Davi – Essa prática é uma coisa tremenda.
Mariana – Por que razão não protestamos contra essas práticas? Ninguém faz nada?
Professor – Ouçam o que James Rachels diz. Na obra Problemas de Filosofia Moral,Rachels enumera três razões para uma certa inibição:
Primeiro, há um nervosismo compreensível quanto a «interferir nos hábitos culturais das outras pessoas». Os europeus e os seus descendentes culturais da América têm uma história pouco honrosa de destruição de culturas na­tivas em nome do cristianismo e do iluminismo. Horrori­zadas com estes factos, algumas pessoas recusam fazer quaisquer juízos negativos sobre outras culturas, especial­mente culturas semelhantes àquelas que foram prejudica­ das no passado. Devemos notar, no entanto, que há uma diferença entre a) considerar uma prática cultural deficiente; e b) pensar que deveríamos anunciar o facto, dirigir uma campanha, aplicar pressão diplomática ou enviar o exército. No primeiro caso, tentamos apenas ver o mundo com cla­reza, do ponto de vista moral. O segundo caso é completa­mente diferente. Por vezes poderá ser correcto «fazer qual­quer coisa», mas outras não.
As pessoas sentem também, de forma bastante correcta, que devem ser tolerantes face a outras culturas. A tolerân­cia é, sem dúvida, uma virtude - uma pessoa tolerante está disposta a viver em cooperação pacífica com quem encara as coisas de forma diferente. Mas nada na natureza da tolerância exige que consideremos todas as crenças, todas as religiões e todas as práticas sociais igualmente admirá­veis. Pelo contrário, se não considerássemos algumas me­lhores do que outras, não haveria nada para tolerar.
Por último, as pessoas podem sentir-se relutantes em ajuizar por que não querem mostrar desprezo pela socie­dade criticada.»

Contudo, conclui:
«Mas, uma vez mais, trata-se de um erro: condenar uma prática em particular não é dizer que uma cultura é no seu todo desprezível ou inferior a qualquer outra cultura, incluindo a nossa. Pode mesmo ter aspectos admiráveis. Na verdade, podemos considerar que isto é verdade no que respeita à maioria das sociedades huma­nas - são misturas de boas e más práticas. Acontece ape­nas que a excisão é uma das más».

Guido – O professor quer dizer que não se vê como da proposição «Não há verdades morais objectivas» se chega á conclusão de que devemos aceitar qualquer prática aprovada em sociedades diferentes da nossa.
Professor - E porquê?
Fernando - Porque isso era reconhecer que qualquer sociedade e cultura é moralmente infalível. Ora a história mostra que muitas em vários momentos aprovaram quase todo o tipo de práticas imorais. Não há qualquer ligação lógica entre «Não há verdades universais» ou «Nenhuma cultura é proprietária exclusiva da verdade» e «Nenhuma cultura está errada».
Davi – Como diz Rachels cada sociedade tem práticas boas e más. O relativismo moral é prejudicial porque nos inibe de censurar as que são más. Crítica número cinco: O RMC convida – nos à passividade moral. Parece convidar - nos a uma aceitação passiva do que cada sociedade considera ser moralmente bom.
Mariana - Temos de tolerar tudo o que é aceite pelos outros?
André - O tal diálogo dá para fazer juízos de valor positivos e negativos. As tais coisas boas e más.
Guido – Reconheço que certas sociedades têm práticas culturais moralmente indesejáveis e inaceitáveis. Mas deve haver versões mais moderadas do relativismo.
Professor – Só daremos a versão comum do RMC. Há versões mais moderadas.Podes consultar a Internet.Tenho a dizer o seguinte: Na perspectiva relativista basta uma sociedade instituir como “normal” um certo conjunto de práticas para que tenhamos de as respeitar porque é intolerante e ilegítimo julgar tradições e normas de comportamento que nos são culturalmente estranhas. Se cada colectividade ou, melhor dizendo, se cada comunidade se define pelos valores e normas que a identificam (que lhe são próprios) e não existem valores e normas valiosos para toda a humanidade, como condenar certos actos que de um ponto de vista humano são indesejáveis e inaceitáveis? Como defender os indivíduos de sociedades diferentes da nossa da prepotência dos seus governos, da tortura? Se condeno a excisão, praticada em vários países africanos e na Europa, aceitarei que me digam que a minha indignação é sinal de intolerância e de incompreensão dos valores de cada cultura?

Fernando – Há mais uma coisa. E se uma cultura ou sociedade considerar seu dever «civilizar» outros povos porque considera os seus costumes morais intoleráveis. Se moralmente correcto é igual a cultural e socialmente aprovado, então essa atitude intolerante é moralmente correcta. Assim, apesar de pretender promover o diálogo entre culturas o RMC pode promover o conflito e a agressão.Assim, crítica número seis - O relativismo moral pode promover a intolerância.
Rui – Agora é que é. Acabou – se.

Não há valores e princípios morais que sejam universalmente seguidos?
Mariana – Só mais uma coisa.Não há mesmo regras morais que todas as sociedades aceitam?
Professor – Parece que sim. E se for verdade, o argumento da diversidade cultural no qual o relativista se baseia perde o pé.
Apesar da diversidade cultural, vários filósofos contemporâneos defendem que a) há valores e princípios universais e b) essa universalidade é necessária.
O filósofo anteriormente citado, James Rachels, afirma que há pelo menos três princípios morais que são universais: Um princípio moral universal aplica-se a todos os indivíduos mas admite excepções conforme os casos. Um princípio moral absoluto aplica-se a todos os indivíduos seja qual for o caso, ou seja, não admite excepções. Todos os princípios ditos absolutos são universais mas nem todos os princípios ditos universais ou objectivos são absolutos.
1- Devemos proteger as crianças.
2- Mentir é errado e
3- O assassínio é errado.
Guido – Acho que 1 e 2 são o mínimo que se pode exigir.
André – Mas por que razão são devem ser universais?
Mariana – Se não respeitarmos essas regras a vida seria bem difícil.Que stress!
Professor - O cumprimento destas normas é, segundo Rachels, essencial para assegurar a sobrevivência de uma sociedade ou a saúde do corpo social e só em circunstâncias extraordinárias é admissível violá-las.
Quanto ao primeiro princípio uma objecção surge imediatamente: os esquimós da tribo Inuit praticam o infanticídio. Temos de distinguir duas coisas para compreender o que Rachels defende: uma coisa é dizer que os princípios morais dependem do contexto cultural variando com ele e outra coisa é dizer que é a aplicação dos princípios (e não os próprios princípios) que varia conforme o enquadramento cultural e os problemas que cada sociedade em dado momento tem de resolver.
Voltemos ao caso do infanticídio entre os Inuit. Esta tribo de esquimós vive num meio escasso em recursos naturais. São os homens que caçam e procuram alimento. A dieta alimentar é exclusivamente constituída por carne e, apesar de as mulheres não serem improdutivas, são os homens que fornecem a alimentação. A taxa de mortalidade é muito mais elevada entre os homens do que entre as mulheres. O infanticídio atinge exclusivamente os bébés do sexo feminino porque um excesso de membros do sexo feminino seria prejudicial sendo os homens os únicos fornecedores de comida. Contudo, os bebés só são mortos em tempos de grande escassez e só se não puderem ser encontrados pais adoptivos. Em épocas muito difíceis, em que escasseiam os alimentos e em que manter vivos os bebés seria por em sério risco a sobrevivência dos filhos mais velhos, os mais desprotegidos e incapazes são mortos. Por outras palavras, os Inuit matam alguns recém - nascidos para proteger outras crianças, as crianças que já têm. No entender de Rachels, esta sociedade esquimó preza os mesmos valores que nós: cuidar das crianças para assegurar a sobrevivência do grupo.
Rui – Que estranha maneira de proteger as crianças!
Professor - Em muitas culturas tribais é costume matar os próprios pais quando estes já não conseguem assegurar a sua própria subsistência e se encontram em estado de grande debilidade. Esta prática não só é radicalmente diferente da nossa como podemos julgá-la moralmente repugnante. Mas será que estas tribos diferem assim tanto de nós no plano moral? Surpreendentemente a resposta é não porque a diferença está não nos princípios morais mas sim nas crenças factuais. Estes povos matam os seus pais idosos porque acreditam que a condição física do corpo no momento da morte será a condição da pessoa numa vida depois da morte. Dada esta crença é importante apressar a morte a partir do momento em que o corpo começa a mostrar evidentes sinais de decadência de modo a que a vida depois da morte não seja degradante e dolorosa. Se os filhos não fazem isso aos pais não estão a comportar-se como é devido, estão a ser gravemente negligentes. Em outras culturas como as dos esquimós Inuit a dura luta pela sobrevivência num ambiente muito hostil determina prioridades que em abstracto julgaríamos moralmente repugnantes: cuidar e proteger as crianças mais velhas em detrimento dos recém-nascidos. A moral da história é que estas culturas tem basicamente os mesmos princípios morais que nós: 1) honra os teus pais, b) protege as crianças e c) promove o bem-estar global da sociedade. Contudo, a aplicação destes princípios é diferente da nossa porque têm diferentes crenças factuais acerca da morte e porque o ambiente físico em que vivem é radicalmente diferente.
Fernando – E mentir! É tão habitual mentir.E que mal há nisso?
André – Olha que a regra não diz que mentir é sempre errado. Só diz que mentir é errado.
Rui – Todas as sociedades têm uma regra contra a mentira. Por alguma razão deve ser.
Professor - Por que razão todas as culturas têm segundo Rachels uma norma contra a mentira? Porque se houver a expectativa de que na maioria dos casos os outros vão mentir então a comunicação e a interacção social atingirão o ponto de ruptura e chegarão a um grave impasse.
A terceira norma diz-nos que nenhuma cultura aprova que se mate arbitrariamente alguém. Por que razão é isto necessário? Se vivermos na expectativa permanente de que os outros nos podem matar, se esta expectativa for a regra e não a excepção não arriscaríamos dar um passo para fora de casa e a desconfiança generalizada conduziria ao colapso da vida social.

Fernando – É assim. Nos materiais que nos deu para prepararmos esta aula sobre o relativismo encontrei uma informação que me parece negar o que Rachels afirma.
Rui – e eu a pensar que íamos resolver este problema...
Fernando - Em 1964, o antropólogo Collin Turnbull descobriu uma tribo que vivia isolada no norte do Uganda em condições ambientais extremamente duras. A fome era uma ameaça frequente. Turnbull verificou que nesses momentos em que a comida escasseava, os pais guardavam a comida para si e escondiam-nas dos filhos. Verificou também que nessa tribo(Ik) as crianças tinham de desembaraçar-se sozinhas a partir dos 3 anos para obterem alimento. Aprendiam então a roubar comida muitas vezes extraindo-a da boca dos mais idosos e fracos. A honestidade era desprezada como tolice e a mentira inteligente e eficaz era louvada. Segundo Turnbull, a sociedade dos Ik parecia num estado de permanente colapso cultural em virtudes destes princípios morais.

Guido – Mas isso é a excepção que confirma a regra.
Mariana – Se é excepção não confirma nada.Nega é o que é.
Rui – Voltamos à estaca zero.
Professor – Não estou de acordo.Vimos pelo menos que o relativismo moral é uma teoria pouco satisfatória e que devemos procurar teorias alternativas.Outra coisa importante: Os problemas filosóficos são problemas cuja resposta é dada fundamentalmente pelo pensamento.Mas, isso não significa que esta unicamente relacione conceitos e ideias indiferente ao mundo e aos factos. Não é possível argumentar de forma racionalmente persuasiva acerca da moralidade do aborto, da eutanásia, da clonagem sem informação empírica. Não é possível defender que devemos ser vegetarianos se não tivermos dados empíricos credíveis que mostrem que o consumo de carne é dispensável. Quem combate e quem defende o relativismo não argumenta no ar.Recorre também a informação empírica.Saber discutir problemas filosóficos exige que se saiba argumentar e que se tenha muitos conhecimentos factuais. A filosofia discute problemas que não estão afastados da realidade que os seres humanos vivem.
Rui - E porque os discutimos? Dá – me a impressão de que ficamos quase sempre perto de uma resposta mas...só isso.
Professor – Do que aprenderem nestas aulas farão o que quiserem.Mas devo dizer isto: Pensem nas seguintes questões: O que é a realidade? Deus existe? E se existe qual é a sua relação com o mundo e os seres humanos? Como distinguir o bem do mal, o justo do injusto? É nosso dever ajudar os outros?O que é o Estado e porque devemos submeter-nos às suas leis? Estas questões, apesar da sua formulação abstracta, são muito concretas porque o modo como lhes respondemos afecta as nossas acções quotidianas.Que eu seja optimista ou pessimista está ligado não só ao meu carácter como também à concepção que tenho da realidade.Das minhas crenças morais depende também que seja solidário ou egoísta na relação com os outros.Ser politicamente de esquerda ou de direita tem muito a ver com o modo como entendo o Estado e a sua função.A concepção que tenho do conhecimento científico influencia a minha escolha de acreditar ou não na astrologia, de ir ao médico em vez de ir a um curandeiro.Das minhas convicções religiosas depende em parte que vá ou não à missa.E assim por diante.Para responder às perguntas da filosofia analisam-se conceitos básicos e muito gerais, elaboram-se teorias abstractas. Estas são estudadas pelos filósofos não só por si mesmas, pelo seu valor intrínseco, mas também como instrumentos que nos guiam na vida concreta, para sabermos melhor onde por os pés. Quanto a não encontrarmos respostas do género 2+2= 4 admitam que a discussão de problemas e de argumentos nos permite ver que teorias serão melhores do que outras e alargar a compreensão dos problemas que queiramos ou não interessam a todos.
A filosofia ajuda-nos a pensar melhor, quer em relação às questões filosóficas, quer em relação aos problemas das outras áreas.Transmite-nos a capacidade para argumentar e debater problemas filosóficos e não filosóficos. Torna possível a competência argumentativa generalizada.Quem for capaz de discutir e argumentar de forma rigorosa as ideias filosóficas, terá mais facilidade em discutir qualquer outra ideia ou assunto.Esta capacidade é importante por duas razões: 1- Pode fazer de nós cidadãos mais informados e participativos na vida pública ao ajudar-nos a pensar melhor acerca dos problemas do nosso quotidiano. Confere uma maior capacidade crítica ao indivíduo, (ajuda-o a pensar por si mesmo) uma maior liberdade para defender as suas ideias, podendo contribuir para uma melhoria da sociedade e do mundo; 2 – Quem souber argumentar bem, tem maiores probabilidades de tomar melhores decisões, as quais podem afectar decisivamente a nossa vida.
A Filosofia estimula o pensar crítico, fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade e uma cultura mais livre e civilizada.
Esta creio ser a melhor razão para vos fazer perceber porque se ensina filosofia há mais de 25 séculos.Sem pensamento crítico somos criados de servir das ideias dos outros ou gente amorfa.Quando vos quiserem levar por certos caminhos (e há muitos fazedores de opiniões), vejam bem onde põem os pés.



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