quarta-feira, 30 de março de 2011

A ARTE E A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL E TECNOLÓGICA


A Arte e a Transformação Social e Tecnológica


Fala-se de “crise da arte” para designar a situação das artes na sociedade contemporânea. O estatuto da arte foi no século XX e é actualmente muito diferente do de séculos anteriores. A crise contemporânea das artes – que vai a par de um fortíssimo dinamismo – significa, para muitos, que os valores e os critérios de avaliação artísticos se tornaram voláteis, indefinidos e inseguros: produz-se muito, mas é cada vez mais difícil distinguir o artístico do não-artístico. Dois factores decisivos contribuíram para o surgimento deste sentimento de crise: 1 – Os movimentos vanguardistas no campo da arte; 2 – A influência na produção artística das inovações tecnológicas dos dois últimos séculos.


Os Movimentos Vanguardistas no campo da Arte


Surgindo no início do século XX, os movimentos de vanguarda (de que são exemplo o dadaísmo e o surrealismo) caracterizam-se pela radical rejeição dos valores estéticos vigentes e manifestam uma acentuada predilecção pelo puro experimentalismo. Esta última tendência transforma-se no único valor reconhecido pelos vanguardistas que assim pensam impedir a constituição e consolidação de um novo sistema de valores, destruído que foi o sistema vigente.


A Influência das Inovações Tecnológicas na Produção Artística


Os avanços tecnológicos e científicos dos finais do século XIX e dos princípios do século XX, tornaram possível um fenómeno a que os teóricos da arte deram o nome de “reprodução mecânica da obra de arte”. As obras de arte, a partir de então, podiam ser reproduzidas ou copiadas em grandes quantidades. O gramofone e o giradiscos a seguir permitiram a muitas pessoas experimentar tantas vezes quantas as desejadas o prazer de escutar uma peça musical (de Bach, de Mozart, etc.) sem necessidade de ir a uma sala de concertos. Grandes obras da pintura podiam graças à fotografia ser apreciadas sem que fosse necessário ir a museus. Novos espaços começaram a competir com os lugares tradicionais da experiência artística: a arte saía dos museus e das salas de concertos para entrar nos bares, nas casas e em outros novos lugares. Assiste-se ao fenómeno da “massificação” da arte, à influência poderosa da cultura de massas sobre a arte.

Um dos primeiros pensadores a reflectir sobre esta mudança e a propor uma interpretação global para esta nova era na história da arte foi o filósofo alemão Walter Benjamin. Num célebre ensaio, A obra de arte na época da sua reproductibilidade técnica, Benjamin reflecte sobre o significado e implicações das novas mudanças tecnológicas quanto ao estatuto da obra de arte. Segundo este autor, as obras de arte tradicionais e o modo tradicional de as contemplar e experimentar viram alterado o seu estatuto e condições. As obras de arte anteriores à época da “massificação” tinham aquilo que Benjamin denomina “aura”, isto é, uma espécie de presença espiritual decorrente do seu carácter único e irrepetível. A obra de arte aparecia ao espectador como um objecto único, irrepetível, dela emanando algo especial a que Benjamin deu o nome de “aura”. Quando alguém contemplava, por exemplo, um quadro de um pintor famoso tinha consciência de estar a viver uma experiência estética que só aquele quadro lhe podia oferecer e mais nenhum outro porque realmente só havia esse quadro.

A reprodução técnica em série da obra de arte provoca inevitavelmente a perda desta “aura”. Dá-se uma espécie de dessacralização da obra artística.

Outro filósofo alemão, Theodor Adorno, exprime na sua análise da intervenção técnica na produção artística um desencanto ainda maior do que Benjamin. Para Adorno vivemos na época da “indústria da cultura” que ameaça reduzir a obra de arte a simples mercadoria, a objecto de consumo sujeito à lei da oferta e da procura. A consequência da industrialização da arte é, para Adorno, muito negativa: impõe-se uma “cultura artística” de massas que só valoriza a obra que vende e é consumida pelo maior número possível de pessoas. As obras de arte deixam de ser fontes de conhecimento, e de transfiguração, transformando-se em simples objectos de entretenimento e de evasão. Desvalorizada, a arte torna-se espectáculo (as indústrias cinematográfica e televisiva são, para Adorno, as formas mais flagrantes de redução da arte a espectáculo).

A industrialização da arte implica a existência de um mercado de consumidores dos produtos artísticos. Exige-se da arte que seja popular, que agrade ao maior número. Apesar de fortes resistências, o “grande-público” parece ter a última palavra nas questões artísticas. Por outro lado, a linguagem artística penetra em cada vez mais sectores da actividade humana (por exemplo, na moda, na
publicidade) procurando novos espaços de expressão. Daí decorre que se a definição de arte sempre foi difícil agora mais complicada se torna porque não se consegue delimitar o âmbito da actividade artística. O estilo e o ritmo de vida actuais parecem incompatíveis com o esforço e o tempo necessários a uma atitude contemplativa: o público pede experiências novas e diferentes que o emocionem ou até o provoquem, desde que a mensagem artística chegue depressa.

A grande questão actual segundo alguns teóricos é esta: deve a arte optar entre uma cultura de massas que a reduz à função de dar espectáculo e uma cultura elitista própria de uma minoria que se considera esteticamente instruída? Esta minoria recusa-se a aceitar a redução da arte a entretenimento superficial e faz a apologia do artista que trabalha tendo em conta um restrito círculo de especialistas que o consagram. “Arte dirigida às massas” (que acaba com a velha fronteira entre artes úteis e belas artes) ou “arte para as elites”, eis a questão.


PARA PENSAR
1 – Pode afirmar-se sem problemas que a função exclusiva das obras de arte é serem objecto de contemplação estética?
2 – A arquitectura é uma das “belas artes”. Mas será que só satisfaz finalidades estéticas? Porque não considerar artistas os oleiros, os ourives e os carpinteiros?
3 – A distinção entre arte e artesanato é legítima? Os artesãos não são também produtores de beleza?
4 – O século XX foi considerado o século da “democratização da arte”. Procura esclarecer esta expressão e quais os efeitos do referido facto.



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