terça-feira, 1 de março de 2011

TEXTO SOBRE A ORIGEM DOS PROBLEMAS FILOSÓFICOS


Como surgem os problemas filosóficos?



Resposta 1 – Os problemas filosóficos nascem quando nos apercebemos de que os seres humanos têm crenças incompatíveis acerca de certas questões básicas ou fundamentais.
Além de não terem solução científica, os problemas filosóficos estão ligados às nossas crenças mais básicas ou fundamentais. Em que consiste essa ligação? Em transformar essas crenças em problemas. Assim, há quem acredite que Deus existe e quem acredite que Deus não existe. Esta incompatibilidade de crenças transforma – se no problema «Será que Deus existe?». Há quem afirme que o aborto é moralmente correcto e quem acredite que é moralmente incorrecto. Esta incompatibilidade de crenças transforma – se no problema «Será que o aborto é moralmente legítimo?». Há quem acredite que não temos o direito de tratar os animais como, na maioria dos casos, o fazemos – matando – os para os comer, usando – os em experimentações e em espectáculos  que os fazem sofrer – e quem julgue temos o direito de os tratar como bem entendermos em nosso benefício. Estas duas crenças inconsistentes ou incompatíveis uma com a outra dão origem ao problema «Será que os animais têm direitos, temos obrigações morais a seu respeito?». Acreditamos que somos livres – que as nossas acções não escapam ao controlo da nossa vontade – mas também parece haver boas razões para pensar que não somos livres (que as nossas acções não são controladas pela nossa vontade). Assim surge mais um problema filosófico: «Será que somos livres ou as nossas acções são completamente determinadas por factores que não controlamos?».
O QUE SÃO CRENÇAS BÁSICAS OU FUNDAMENTAIS?
O que ]e uma crença? Podemos dizer que é uma opinião ou um conhecimento que consideramos verdadeiro. Não se deve confundir crença com fé, que é apenas uma forma religiosa de crença. O que são crenças básicas ou fundamentais? São crenças cuja verdade ou falsidade determina a verdade ou falsidade de outras crenças que delas dependem. São semelhantes aos alicerces de um edifício. A crença fundamental de várias religiões é a de que Deus existe. Se esta crença for falsa, então outras crenças que dela dependem tornar-se-ão falsas ou pelo menos terão de ser revistas. É o caso da crença de que a moralidade das nossas acções consiste em cumprir a vontade de Deus expressa num dado número de mandamentos. Acreditamos que temos de ser responsabilizados pelas acções que praticamos livremente. Esta crença tem na sua base uma outra. A crença de que somos livres. Se esta crença for falsa então ficamos com um problema: como responsabilizar alguém por algo que não dependeu da sua vontade?

Resposta 2 – Os problemas filosóficos nascem da reflexão sobre certos conceitos gerais ou fundamentais que estão ligados a actividades humanas como as actividades artística, ética, política, religiosa e científica.
Produzimos obras de arte. Criamos normas que definem o que é correcto ou errado, permitido ou proibido. Construímos templos como sinagogas, igrejas e mesquitas onde mediante rituais estabelecidos manifestamos a nossa fé num Ser Supremo. Organizamos a nossa vida em sociedade criando regras para a distribuição da riqueza e dos bens, para o modo como podemos participar nas suas grandes decisões políticas. Procuramos conhecer o universo não só para fazer recuar a fronteira do desconhecido como também para melhorar a nossa vida aqui.
Arte, moral, religião, política e ciência são algumas das mais importantes actividades que ocupam os seres humanos. Em todas essas actividades são usados alguns conceitos muito gerais. Na actividade científica são utilizados conceitos fundamentais como conhecimento, realidade, verdade. O filósofo perguntará em que consiste o conhecimento, como se pode alcançar um conhecimento objectivo e se na verdade estamos a conhecer a realidade. Na actividade artística usamos conceitos como arte, génio, belo, sublime, etc. O filósofo perguntará o que faz de uma coisa uma obra de arte, o que torna uma coisa bela e o que é o génio artístico. Na actividade política usamos conceitos como estado, justiça e igualdade. O filósofo perguntará o que é o estado, se é necessária a sua existência, até que ponto é legítimo que intervenha na nossa vida, se podemos e quando podemos desobedecer às suas leis, se justiça é sermos todos iguais, etc. Na vida moral usamos conceitos como bem e mal, intenção e consequências. O filósofo perguntará o que é o bem, o que é o mal, o que distingue uma acção boa de uma acção má, que ligação há entre a intenção, as consequências e o valor moral de uma acção.
Resposta 3 – Os problemas filosóficos nascem da curiosidade humana.
Num belo dia de Verão estava eu tranquilamente deitado à sombra de uma árvore gigantesca junto a um rio de águas tranquilas. Os pássaros voavam e pousavam nos ramos da árvore chilreando frequentemente. A minha afilhada de oito anos decidiu interromper o meu descanso e perguntou – me «Luís, quem fez estes passarinhos?». Dei uma resposta honesta: «Foram outros passarinhos». A resposta deu lugar a outra pergunta: « E esses outros passarinhos quem os fez?». Pouco alertado na altura para o filosofar espontâneo das crianças, fiquei um pouco embaraçado e respondi: «Olha, foram outros passarinhos». E assim continuámos feitos dois teimosos até que … «Olha, se eu tivesse feito essa pergunta à minha mãe ela teria dito que foi Deus». Retorqui: «Então porque me perguntaste a mim?». Resposta tremenda: «Porque como andas a estudar filosofia pensei que soubesses mais do que ela». Esqueçamos esta dolorosa perda de prestígio do padrinho Luís e vamos ao essencial do episódio.
O comportamento da minha afilhada é revelador de uma característica que os antigos gregos associavam às perguntas filosóficas: o espanto (a admiração, a perplexidade) perante os enigmas do universo e a vontade de saber a razão de ser das coisas procurando uma explicação completa e global. A questão da minha afilhada era uma questão particular – dizia respeito a certos seres vivos barulhentos – mas  pode ser o embrião de uma questão muito mais geral que as crianças como ela colocam com muita frequência e espontaneidade. Qual? A questão da razão de ser de tudo. O problema da origem do universo ou do mundo – de tudo – é um problema clássico.« Por que razão existe isto tudo?» é provavelmente o problema que mais curiosidade tem despertado nos seres humanos. Tal como as crianças queremos uma explicação. Esta curiosidade radical  - sobre as «raízes» de tudo – é acompanhada por uma atitude interrogativa radical que se baseia na suposição de que tudo tem uma razão de ser.  É também devido a essa curiosidade que muitas respostas se transformam em perguntas.
 Exemplificando: Suponhamos que o mundo tem uma razão de ser. Esta razão de ser não pode fazer parte do mundo porque então em vez de ser a explicação para o problema «Porque existe o mundo em vez de nada?» seria parte do problema.  A essa razão de ser transcendente muitas pessoas dão o nome de Deus. Mas qual a razão de ser de Deus? Quem ou o que criou Deus? Ou será que em vez de um Deus há uma hierarquia de deuses sendo um superior a todos os outros?
O episódio referido revela algo ainda mais profundo do que a curiosidade natural do ser humano. O quê? A necessidade de compreender, de dar sentido. Não temos somente necessidades fisiológicas – comida, bebida, sexo, abrigo  - e emocionais – amor, amizade, prestígio. 
A curiosidade natural  e a necessidade de compreender estão na origem dos grandes problemas filosóficos como « Será que o mundo natural é tudo o que existe? E se é a que deve a sua existência?» mas também de problemas científicos como «A que se deve o aquecimento global?  Porque é que o leite escorre para fora da cafeteira quando ferve? Porque é que muitas pessoas da mesma família são tão parecidas?»

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