quarta-feira, 2 de março de 2011

TOLERÂNCIA E FÉ

Tolerância e Fé

Fé e tolerância vão a par? A fé será compatível com a tolerância? O monoteísmo, a exigência de acreditar num só Deus, não será já à partida um convite inconfessado à intolerância? (Faz sentido várias religiões monoteístas?)
Convidamos o aluno a reflectir sobre este assunto lendo o texto seguinte:

«Um crente sincero e consequente não pode admitir que outra verdade que não a sua possa ser verdadeira, que um outro Deus possa coexistir com o seu. Com efeito, a sua verdade é a verdade.
Um crente, por conseguinte, só pode ser intolerante e mesmo ferozmente intolerante, porque o que está em causa são as coisas essenciais, as mais essenciais de todas: a nossa razão de ser aqui em baixo, a finalidade de tudo o que existe, a vida eterna, a danação, a natureza de Deus e a forma precisa segundo a qual Deus quer ser homenageado pelo homem. A sua fé orienta toda a sua vida, cada acto, cada pensamento. Perturba-o a ideia de milhões de humanos perdidos no erro, condenados a suplícios eternos e, sobretudo, privados da iluminação da certeza.
Um crente só pode ser intolerante ou então é incoerente. Quem não é fanático não acredita verdadeiramente, não vai ao fundo das coisas. Um crente tolerante (que se julga sinceramente tolerante) é, no fundo, resignado. Por não ter os meios de impor o seu ponto de vista, ele “tolera” – é o termo! –, com dor ou condescendência, que os “infiéis” vivam no erro, embora não esquecendo que eles estão errados. Não lhes concede, apesar da “tolerância”, a possibilidade de terem razão. Uma verdadeira tolerância seria aquela que, prudente, diria que no fim de contas não temos a certeza sobre nada e que a verdade do outro pode ser a verdadeira verdade. Mas uma tal posição seria, por assim dizer, agnóstica, ou seja, o contrário do espírito religioso! A fé, por definição, exclui a dúvida.
O actual despertar dos fanatismos é muito simplesmente um sobressalto do sentimento religioso.
Manipulado, sem dúvida, pelos políticos, mas o ressurgimento religioso precedeu a manipulação política, que não faz mais do que utilizar o que tem à mão.
O cristianismo dá a si mesmo a glória de ser a primeira religião do mundo a ter dado o mesmo valor a todos os homens, a ter, em suma, proclamado aquilo que hoje chamamos “os direitos do homem”. Há nisso verdade. O Evangelho pretende ser preceito de amor e de fraternidade. Mas, de facto, os seus padres, tanto tempo quanto puderam, professaram uma intolerância absoluta, rejeitando toda e qualquer outra religião e mesmo qualquer pequena variação de um ponto menor do seu dogma. Rejeitavam-na como falsa, ímpia e inspirada pelo Demónio e, portanto, como heresia a combater pelo ferro e pelo fogo. O proselitismo fazia parte dos deveres do cristão.
O “humanismo”, o interesse pelo homem terrestre, que se pode encontrar na letra do Evangelho, teve de ser imposto à Igreja e foi deste espírito de revolta contra a Igreja que surgiu a democracia. Os “integristas” religiosos sabem-no bem: juntam-se sempre aos piores reaccionários políticos. Quantas nostalgias malsãs encobre o venerado termo “Tradição”!
A pulsão imbecil do fanatismo, a sua estreiteza de pensamento, a sua intransigência, não são aspectos desagradáveis e degenerados da religião, mas sim a própria religião “na sua pureza original, na tocante devoção das ideias ingénuas”, como dizem os que assim falam.
Nenhum regime político soube eliminar o espírito religioso. Não é a razão (a inteligência, se preferirem) que conduz os assuntos humanos. Quem o faz são as ancestrais pulsões instintivas, puramente animais, que já faziam agir o homem de Cro-Magnon: medo, avidez, agressividade, cupidez, sexo, necessidade de vencer e de humilhar…
A razão só é admitida a título de fornecedora de argumentos astutos e torpes.»

Artigo de Le Nouvel Observateur, 1300, de 5 de Outubro de 1989.
Actividades

a)         Qual é a tese central do texto?
b)        Que argumentos são apresentados para a justificar?
c)         Será que um crente é necessariamente um fanático ou alguém que pode tornar-se um fanático?
d)        Estás de acordo com o que é dito neste artigo?

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