terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

FILMES SOBRE O PROBLEMA DO MAL 2 - O ADVOGADO DO DIABO


FILME 2
O ADVOGADO DO DIABO



Título Original: The Devil’s Advocate (USA, 1997)
Realização: Taylor Hackford
Roteiro: Jonatham Lemkin baseado no Romance “The Devil´s Advocate” de Andrew Neiderman.
Elenco: Al Pacino (John Milton) Keanu Reeves (Kevin Lomax), Charlize Theron (Mary Ann Lomax).

SINOPSE
Kevin Lomax (Keanu Reeves) e a sua esposa Mary Ann (Charlize Theron) possuem uma firma de advocacia numa pequena cidade do interior da Florida. A firma vive um momento de grande sucesso e notoriedade devido à fama de Lomax, advogado criminal que nunca perdeu uma disputa em tribunal e que sabe manipular com mestria os jurados. Depois de mais uma vitória – a absolvição de um professor do ensino secundário de facto culpado de assediar uma aluna depois das aulas - Lomax é procurado por uma famosa firma de advogados de Nova Iorque encabeçada por John Milton (Al Pacino).

O casal não hesita em aproveitar a oportunidade. Mas, surpreendentemente, a sua nova firma de advogados não tem uma divisão criminal: trata apenas de assuntos que envolvem muito dinheiro. Grandes empresários, políticos, multinacionais são os seus clientes principais, incluindo a representação dos interesses económicos de vários países. Por que razão contratar um advogado criminalista do interior, sem experiência neste tipo de actividade? Entre champanhe de milhares de dólares, um apartamento triplex, fatos italianos caros, a vida do casal transforma-se a pouco e pouco no que eles sempre desejaram: o estilo de vida americano, onde a vida pessoal é completamente absorvida pela profissional e pelo ânsia de poder e luxo. Mas tudo tem um preço.


DESCRIÇÃO E COMENTÁRIO
Sob que máscaras espreita o mal? A grande ameaça à harmonia e ao equilíbrio da vida, aquilo que as grandes religiões se habituaram a baptizar de Demónio ou Satanás pode estar bem mais perto do que, à primeira vista, podemos supor. Em O Advogado do Diabo essa entidade chama-se John Milton, advogado de extraordinário sucesso. Depois de vencer todos os casos que foi chamado a defender na sua pequena cidade natal, o jovem advogado Kevin Lomax (Keanu Reeves) é convidado para trabalhar em Nova York em troca de um salário milionário apenas para escolher um júri para um único julgamento. Bem sucedido na escolha (apesar de todas as evidências contra o réu, o júri escolhido por Kevin delibera em favor do acusado em apenas 38 minutos!), o protagonista é contratado pela firma John Milton e Associados por um salário ainda maior do que o inicialmente combinado. Além disso, receberá uma série de regalias para si e para a sua esposa, destacando-se um apartamento de luxo em frente ao Central Park. Para surpresa de Lomax, o seu primeiro caso como advogado de defesa em Nova Iorque parece um caso menor ligado a questões referentes à saúde pública. Desconfiado pela discrepância entre o seu vultuoso salário e a aparente insignificância do caso, Kevin questiona a sua assistente, antiga funcionária da empresa: “Isso é um teste, não é?” Ao que ela imediatamente responde: “Não é assim com tudo?” Esta parece ser uma das questões chaves do filme: os grandes testes que a vida nos apresenta e a forma como reagimos a eles, que decisões tomamos e, principalmente, quais são as reais motivações para essas decisões. Para onde nos levam?
Kevin teve a intuição de que alguma coisa parecia estar errada. O trabalho proposto parecia fácil demais para um ganho tão fenomenal em tão pouco tempo. Mas para quê ouvir a própria intuição se a tentação do consumismo e do ganho fácil soa tão forte e eloquente? Para quê pensar em ética e moral se os fins parecem sempre justificar os meios? É assim que, caso a caso, o personagem interpretado por Keanu Reeves, se concentra no seu ganho e na avidez de subir na vida a qualquer custo permanecendo cego e surdo a tudo que está à sua volta, inclusive a decadência emocional e psicológica da sua própria esposa que, totalmente abandonada, comenta com uma das suas fúteis novas amigas nova-iorquinas: “Temos todo esse dinheiro e não é nada. Parece um teste!”
À deriva numa vida de consumismo recheado de futilidades e banalidades, Marie Ann, mulher de Kevin, enlouquece e o seu marido só se reaproxima dela quando as suas escolhas já provocaram danos irreparáveis e a esposa se encontra à beira do suicídio. O todo-poderoso John Milton, o dono da empresa e responsável directo pela contratação de Kevin, num dos seus vários discursos, explicita com clareza a situação que vivemos na era tecnológica e bélica pós-yuppie: “Aguça - se o apetite humano ao ponto de ele partir átomos com o seu desejo. Constrói egos do tamanho de catedrais e liga o mundo com fibras ópticas a cada impulso do ego. Atiça os sonhos mais tolos com fantasias chamadas dólar e ouro até que cada ser humano aspire a ser  imperador e se torne o seu próprio deus. E o que vem depois disso?” Mais adiante, o próprio John Milton dá a resposta: “Quem está de olho no planeta? O ar adensa-se, a água apodrece. Até o mel das abelhas tem um gosto metálico a radioactividade! E continua cada vez mais rápido. Compra-se o futuro, vende-se o futuro, mas não há futuro!”
Após inúmeras vitórias em tribunais com o recurso a júris forjados e o suicídio de sua esposa internada num hospital para doentes mentais é que Kevin resolve confrontar o seu mentor, o que se irá transformar num encontro consigo próprio e com o seu orgulho por nunca ter perdido uma causa.
Esse confronto é, na verdade, uma grande metáfora do papel que a figura mitológica do diabo representa nas nossas vidas: o contacto directo com o nosso lado sombrio, a inflação do nosso ego e as tentações a que se deixa prender. O demónio John Milton incita-nos a entrarmos em contacto com o nosso lado sombrio e apresenta a segunda questão levantada pelo filme: o livre-arbítrio. Perante a insistência de Kevin, Milton responde à sua curiosidade: “Tem razão, Kevin, eu estava a observar. Mas não sou um títere. Não faço com que as coisas aconteçam. Não é assim que isto funciona. É como as asas da borboleta, se lhes toca, não saem do chão. Só preparo o palco, você manipula as cordas.”
Em resposta, Kevin tenta matar Milton, inquieto com o que ele teria feito à sua mulher. Porém, Milton não dá tréguas e confronta Kevin com a verdade: “Culpa-me pela morte de Marie Ann? Espero que esteja a brincar. Você podia tê-la salvo. Ela só precisava de amor e você não tinha tempo. Quis trocá-la por uma coisa melhor desde que chegou aqui. Não é que não gostasse de sua esposa, simplesmente estava muito envolvido com outra pessoa: você mesmo.”
Mais adiante, perante um estupefacto Kevin cheio de culpa e revolta, Milton continua: “E no metro, o que lhe disse? Talvez seja a sua vez de perder! Ao que Kevin responde: “Perder? Eu nunca perco! Eu ganho! Sou um advogado!” A Milton resta apenas concluir: “Caso encerrado!” E, ainda mais sarcástico, acrescenta uma das mais célebres frases do filme: “A vaidade é o meu pecado favorito!”  
Milton consola-o: “Não seja tão duro consigo mesmo. A culpa é um  saco cheio de tijolos. Tudo o que tem a fazer é largá-lo.” Nesse instante fica claro o que o confronto directo com o nosso lado sombrio pode causar: passamos da total ausência de senso crítico acerca de nós mesmos a uma sensação exagerada de culpa para, a seguir, nos desculparmos sem cerimónia.
Milton continua: “Para quem está a carregar esses tijolos? Deus? Deixe-me dar-lhe algumas informações sobre Deus. Deus gosta de olhar, é um voyeur. Pense: ele deu instintos ao homem. Deu-nos esse dom extraordinário, e o que faz? Juro que foi para a sua própria diversão, para a sua comédia cósmica particular, que criou regras que se opõem a isso. É a maior piada de todas: olhe, mas não toque; toque, mas não prove. Prove, mas não engula. Enquanto você salta de um pé para o outro, o que é que ele faz? Mija-se de tanto rir! Ele é um sacana, um sádico! É um patrão ausente. Adorar isso? Nunca!”. É importante ressaltar que o discurso de Milton refere-se à figura do Deus Bíblico, principalmente aquele Deus retratado no chamado “Antigo Testamento” e que tem sua imagem vingativa e repressora reforçada por todas as grandes religiões. Cabe lembrar também que na obra literária do escritor John Milton “O Paraíso Perdido”, o diabo é o anjo caído que traz luz às trevas e questiona os poderes desse Deus exclusivista e punitivo.
Daí a intrigante resposta que Milton dá a Kevin quando este pergunta “É melhor reinar no inferno do que servir no céu, não é?”: “Por que não? Estou aqui com o meu nariz no chão desde que tudo começou! Alimentei cada sensação que o homem foi inspirado a ter. Preocupei-me com os seus desejos e nunca o julguei. Por que nunca o rejeitei, apesar das suas imperfeições. Eu sou um fã do homem. Sou um humanista, talvez o último. Quem poderia negar que o século 20 foi todo meu?” Guardadas as limitações comerciais do cinema americano e as licenças poéticas da obra ficcional, temos aqui a imagem do Diabo como Prometeu ou ainda o “anjo caído”, aquele que abandonado por Deus, opta por ficar com os homens e quer partilhar a luz divina com a humanidade.
Mas, apesar da vitória de Kevin no confronto com a sua dimensão sombria, o que mais se evidencia é a inexorabilidade do mal. A seguir, Kevin regressa ao último julgamento na sua cidade natal, Gainsville. Aliviado por perceber que tudo o que lhe acontecera em Nova Iorque teria sido apenas uma monstruosa premonição, num acesso de consciência ética, abandona a meio o julgamento correndo o risco de ter o seu registo de advogado manchado e ser expulso da Ordem dos Advogados da sua região. Nesse momento, que parece o grande “final feliz” do filme, o mal reaparece na figura de um jornalista ganancioso que acompanhou o início da carreira de Kevin e lhe propõe reabilitá-lo em troca da exclusividade dos direitos da sua história. Kevin hesita, mas acaba novamente por cair na tentação da glorificação do seu próprio ego. O diabo regozija-se, esfregando as mãos. Não é por acaso que a vaidade é o seu pecado favorito.
ACTIVIDADES SOBRE O FILME
1. De que tipo de mal trata o filme?
R: O filme trata apenas do problema do mal moral, deixando de lado o sofrimento causado por causas naturais.
2.O que se entende no filme por mal moral?
R: Por mal moral entende-se todo o sofrimento gratuito provocado pela acção dos seres humanos noutros seres humanos (ou seres sencientes em geral). As acções que praticamos podiam ter sido evitadas uma vez que somos livres e, portanto, dado que temos controlo sobre elas. Dispomos do poder de as praticar ou de não as praticar. A rejeição de valores éticos como a integridade, a honestidade e o amor da verdade, em nome da satisfação de interesses imediatos como a riqueza, a fama e o sucesso não é algo que sejamos levados a fazer inevitavelmente, isto é, em resultado de forças que agem sobre nós e que não temos capacidade para evitar ou controlar. Na verdade, fazê-lo ou não é uma escolha pessoal. O mal daí decorrente é moral e não natural.
3. Segundo o filme de que forma podemos tornar-nos instrumentos do diabo, ou seja, do mal?
R: Tornamo-nos instrumentos do diabo quando sucumbimos à tentação de julgar que os fins justificam sempre os meios. O advogado retratado no filme sabe que a sua reputação, o seu estatuto social, a sua riqueza e o seu poder dependem das suas vitórias em tribunal. A sua vaidade e a sua vontade de vencer transformam-se em fins absolutos. Em nome desse objectivo, tudo se torna secundário mesmo a pessoa que ama e o ama. Vende a alma ao diabo – abdica da ligação a princípios éticos - e o preço a pagar será doloroso.
4.Qual é a característica humana que o diabo explora? Com que fraqueza humana faz o seu jogo?
R: A característica humana que o diabo instrumentaliza é a vaidade, neste caso, a vontade de sucesso e a vaidade que resulta de triunfos constantes e do renome social (mesmo que, no caso do filme, os triunfos sejam fáceis).
5. O mal moral é o sofrimento e a dor que os seres humanos infligem uns aos outros (guerras, assassínios, violência gratuita, discriminação, traição, abandono etc.). Visto existir tanto mal, como pode alguém acreditar seriamente na existência de um Deus sumamente bom? Um Deus omnisciente saberia que o mal existe; um Deus todo-poderoso poderia evitar que o mal ocorresse, e um Deus sumamente bom não quereria que o mal existisse. O recurso à figura do diabo é uma forma de ilibar Deus de qualquer responsabilidade pelo mal que existe no mundo e que resulta das acções dos humanos?

R: Não. Interpretando o diabo como uma força real existente fora de nós, podemos resumir o filme em algumas questões básicas: por que razão Deus, que é omnipotente, permite que o diabo aja, desvie os seres humanos do recto caminho, provocando assim sofrimento e dor? Por que razão permite Deus que o diabo tenha tanta força? Por que razão não oferece aos seres que fez à sua imagem maior protecção contra forças malignas?

6. De acordo com o filme podemos dizer que a existência do diabo iliba os seres humanos da responsabilidade pelo mal que fazem?

R: Não. O discurso de John Milton é elucidativo: “Você tem razão, Kevin, eu estava a observar. Mas não sou um títere. Não faço as coisas acontecer. Não é assim que isto funciona. É como as asas da borboleta, se as toca, não saem do chão. Só preparo o palco, você manipula as cordas.” O diabo é o tentador mas o ser humano é o actor. O que o diabo parece querer dizer é que mesmo que ele fosse Deus, mesmo que Deus fosse um génio maligno, o mal permaneceria um problema que diz respeito ao ser humano. Como diria Sartre, estamos sós e sem desculpas.

7. Admitamos que nem Deus nem o Diabo causam o mal, mas que este se deve a um mau uso que os seres humanos fazem da liberdade da vontade. Será que o assunto fica encerrado?

R: Não. Assumindo que a origem do mal moral é o mau uso da liberdade, fica por explicar a existência do mal natural, do sofrimento e dor de que somos vítimas e não propriamente agentes.

8. Será que, apesar de representado pela figura de Milton, o diabo é uma entidade realmente existente?
R: Apesar de o diabo ser representado pela figura de John Milton, a verdade é que ele corresponde ao conjunto de forças sombrias que, no interior do ser humano, o inclinam para o mal, para a imoralidade. O diabo não é uma entidade que exista fora de nós e nos manipule. «Diabólico» é o termo que condensa todas as inclinações que nos tornam escravos dos nossos desejos e ambições, que nos transformam em pessoas sem princípios ou que facilmente negam princípios morais básicos segundo os quais devíamos viver. O diabo é aquilo a que podemos chamar as nossas «forças diabólicas».

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