quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

O PROBLEMA DA MORALIDADE DA CLONAGEM HUMANA

A clonagem humana é eticamente legítima?

«Não é permitida qualquer prática contrária à dignidade humana, como a clonagem reprodutiva de seres humanos.» Artigo 11 - Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos

Como Eva, no Velho Testamento, feita com uma das costelas de Adão, Dolly veio ao mundo como um pedaço de outro ser adulto. Dolly, a ovelha escocesa de cuja concepção extraordinária o mundo tomou conhecimento em 1993, não tem pai nem mãe. Tem apenas origem, uma origem que não é divina. É humana. Dolly é o cordeiro dos homens. Mais exactamente, é o cordeiro de Ian Wilmut, 52 anos, embriologista do Instituto Roslin, instituição de pesquisa agro-pecuária nos arredores de Edimburgo, capital da Escócia, que até então vivia num tranquilo anonimato. Dolly é aquilo a que a ciência chama clone. Clone é a cópia idêntica de outro ser vivo produzida artificial e assexuadamente. Como teve origem numa célula da mama da mãe, tem a compleição simpática da sua raça, a finn-dorset: focinho rosado, dócil e encantadoramente desajeitada. Por trás dessa aparente normalidade, esconde-se uma perturbadora revolução científica.
A ovelha, símbolo religioso da redenção dos homens, inaugurou abruptamente o século XXI, dando origem à era dos clones, período no qual os cientistas vão começar a colher os frutos das suas ousadias. O artigo de Wilmut explicando como Dolly foi feita foi publicado na revista Nature, a prestigiada publicação científica inglesa. A receita para construir um mamífero é assustadoramente simples. Os cientistas escoceses fundiram um óvulo não fecundado, de onde haviam retirado o miolo genético, com uma célula doada pela ovelha que queriam copiar. Depois implantaram o resultado da fusão no útero de uma terceira ovelha, onde Dolly foi gerada. Depois dos clones de ovelhas, virão os de outros animais tão ou mais úteis à humanidade, como as vacas e galinhas. Em seguida, serão copiados bichos ameaçados de extinção. Até ao dia em que a inocência perdida com o anúncio da existência de Dolly desagúe no indizível, no impensável, na suprema arrogância dos mortais: a cópia de um ser humano em laboratório. "Não duvido que a clonagem de um ser humano não esteja a ser tentada num canto escuro de alguma universidade desconhecida", diz o americano Bruce Hilton, pesquisador do Centro Nacional de Bioética.
Ian Wilmut, barbudo, meio careca, com jeito de cientista de filme de Hollywood, quebrou uma barreira ética. "Pela primeira vez a humanidade está a ser colocada na posição de gerente principal da evolução animal e humana: podemos dizer, sem exagero, que seremos em breve senhores únicos do nosso destino biológico", diz Ronald Munson, médico especialista em ética da Universidade do Missouri. Estamos preparados para tanta responsabilidade? Numa gloriosa viagem evolutiva de 8 milhões de anos, o mamífero de cérebro avantajado e mãos hábeis domou o planeta. Agora, Dolly coloca a espécie humana num novo patamar dessa formidável jornada natural: ela pode, teórica e praticamente, recriar-se e aparentemente não existe força, terrestre ou divina, capaz de abrandar os cientistas e de evitar a repetição da experiência de Dolly com um ser humano.
Dolly morreu em 2003, dez anos depois de ter sido produzida. Sucumbiu a uma doença pulmonar degenerativa provavelmente herdada da mãe. Dolly nasceu com anomalias cromossómicas e, em Janeiro passado, foi-lhe diagnosticada uma artrite muito prematura para sua idade. Foi sacrificada por apresentar doenças características da velhice.
Adaptado da revista Veja, 30 de Março de 1993
Veja.abril.uol.com.br/30anos/p_089.html



1. O que é a clonagem?

A clonagem é a reprodução não sexual de indivíduos que serão geneticamente idênticos a um indivíduo original (o que é clonado e ao qual se chama matriz). Clonar significa fabricar uma cópia geneticamente idêntica de um indivíduo, isto é, trata-se duplicar o património genético de qualquer ser vivo, seja ele vegetal ou animal. (Nota Clonar não é fabricar cópias idênticas de um mesmo indivíduo mas unicamente produzir um indivíduo cujo património genético, cujo ADN, é idêntico ao do indivíduo que foi clonado.)
Podem clonar-se ou reproduzir-se em laboratório genes, células, tecidos, órgãos e organismos inteiros (animais e plantas, por exemplo).
A clonagem de plantas já é muito antiga. A clonagem de animais não humanos conhece actualmente — desde o caso da ovelha Dolly — um grande incremento.
Todo e qualquer ser vivo pode ser clonado, seja vegetal, animal ou humano. No centro da polémica está a possibilidade de clonagem de seres humanos, isto é, de fabricar um ser humano geneticamente idêntico a outro. O que acontece naturalmente — o nascimento de gémeos monozigóticos, idênticos, com o mesmo património genético — é agora possível artificialmente.
(Nota  - A identidade genética não significa identidade na aparência física ou psicológica, porque todo o ser vivo é o resultado da interacção da sua constituição genética com o meio. É isso que explica o facto de os gémeos monozigóticos terem aparência física semelhante, mas não serem fisicamente idênticos e apresentarem individualidade psicológica.)
Há quem pense que a clonagem de seres humanos está mais próxima do que se julga.


2.  A clonagem reprodutiva.

O que acontece no caso da clonagem artificial ou clonagem propriamente dita? Referir-nos-emos ao método utilizado para a clonagem da ovelha Dolly.
Foram necessárias três ovelhas adultas.
A uma, a que ia ser clonada, foi retirada uma célula de uma glândula mamária (no núcleo dessa célula está contido todo o património genético da futura ovelha).
A outra ovelha foi retirado um óvulo, do qual se extraiu o núcleo, isto é, o material genético. Mediante uma descarga eléctrica, deu-se a fusão do ADN da célula da glândula mamária com o óvulo sem núcleo («vazio»), formando-se um embrião.
Uma terceira ovelha foi utilizada para a gestação do embrião, ou seja, este foi-lhe implantado no útero.
O resultado foi o nascimento de uma cria, de um organismo inteiro. A célula mamária inicial não deu origem simplesmente a novas células mamárias. Foi fabricado um novo organismo completo, uma nova ovelha, geneticamente idêntica à ovelha que forneceu a glândula mamária.

Produzir ou fabricar uma cópia geneticamente quase idêntica de um ser humano é também possível. Contudo, a maioria dos cientistas não está, pelo menos por enquanto, interessada em fabricar seres humanos. Muito mais do que a clonagem reprodutiva segundo o método que deu origem à ovelha Dolly, importa desenvolver a técnica da clonagem terapêutica.


3. A clonagem terapêutica

O método utilizado na clonagem terapêutica (clonar para tratar doenças) é inicialmente semelhante ao da clonagem reprodutiva.
Vejamos os seus vários momentos:

1 – Retiram-se do corpo de um paciente (por exemplo, um doente cardíaco) células somáticas extraindo o material genético.

2 – Transfere-se esse conteúdo genético para o óvulo de uma doadora. Esse óvulo foi previamente “esvaziado” do seu núcleo, isto é, do seu material genético.

3 – Mediante processos electroquímicos, fabrica-se um embrião (resultado da união do núcleo da célula somática com o óvulo a que se extraiu o núcleo) que será geneticamente idêntico ao paciente, ou seja, que terá o mesmo código genético.

4 – Deste embrião, numa determinada fase do seu desenvolvimento, obtêm-se células-mãe pluripotentes, isto é, com a possibilidade de se transformar em qualquer tecido corporal, órgão ou célula especializada (célula de fígado, rim e de coração, por exemplo). Assim, no caso do paciente que sofria do coração, podemos transplantar-lhe células cardíacas “sãs”, regenerando o músculo cardíaco. Como as células implantadas provêm do seu próprio corpo, não há o risco de rejeição do transplante.

Até ao ponto 3, inclusive, o processo é semelhante ao da clonagem reprodutiva. A diferença está em que o embrião não é implantado em qualquer útero para fabricar um organismo completo, um bebé-clone. Retiram-se dele unicamente as células de que o paciente necessita. Podem desenvolver-se, a partir desse embrião, tecidos e órgãos.



Actividade 1

1 – O que significa clonar? O que é um clone?
R: Clonar significa produzir uma cópia geneticamente idêntica de um indivíduo (um organismo ou parte de um organismo), isto é, trata-se duplicar o património genético de qualquer ser vivo, seja ele vegetal ou animal. Um clone é a cópia genética de algo que esteve na sua origem.
2 – O que é a clonagem humana reprodutiva?
R: A clonagem é o procedimento científico que consiste em fazer por transferência nuclear a cópia genética de um indivíduo humano, a partir de outro que constitui a sua matriz ou origem. O organismo resultante é um clone. O clone e a sua matriz, o ser que é clonado, têm exactamente o mesmo património genético. Essa identidade genética, entretanto, não significa identidade na aparência física ou psicológica, porque todo o ser vivo é o resultado da interacção da sua constituição genética com o ambiente e é por isso que os gémeos monozigóticos têm aparência física semelhante, mas não são fisicamente idênticos, além de apresentarem diferenças psicológicas. Através da clonagem, não há uma união de óvulos com espermatozóides. Trata-se de um processo assexuado. A clonagem é um mecanismo comum de propagação da espécie em plantas ou bactérias. Em humanos, os clones naturais são os gémeos idênticos que se originam da divisão de um óvulo fertilizado. A grande novidade da Dolly, que abriu caminho para a possibilidade de clonagem humana, foi a demonstração, pela primeira vez, de que era possível clonar um mamífero, isto é, produzir uma cópia geneticamente idêntica, a partir de uma célula somática diferenciada. O objectivo da clonagem humana reprodutiva é fabricar novos seres humanos.

3 – Em que consiste, nas suas linhas gerais, a clonagem reprodutiva?
R: A clonagem reprodutiva baseia-se na técnica da transferência nuclear. Retiram-se duas células de um organismo ou duas células de dois organismos diferentes. A cada uma das células somáticas retiramos o seu núcleo. Uma das células é um óvulo que fica sem núcleo, esvaziado de informação genética. À outra retiramos o núcleo para o transferir para a célula que ficou esvaziada, «desnucleada». Da junção destas duas células resulta um embrião (blastócito), que vai ser implantado no útero de uma mulher. Após o período de gestação, surge um indivíduo com património genético idêntico ao do doador da célula somática.
Imagine que João quer ter um filho, mas é estéril. Decide fazer um clone de si mesmo. Para isso, retiramos do organismo do João uma célula somática da qual conservaremos o núcleo com o seu ADN ou património genético. A outra célula a participar na fabricação de um novo indivíduo é um óvulo, que, suponhamos, foi dado pela sua namorada. A esse óvulo retiramos toda a informação genética removendo-lhe o núcleo. Forma-se um embrião após cinco dias de fecundação. O resultado da união destas duas células é implantado no útero da namorada do João ou de outra mulher disposta a dar à luz. Surge um indivíduo humano que, no melhor dos cenários, terá um ADN idêntico ao do indivíduo original (João).
3 - O que se entende por clonagem terapêutica humana?
R: Até um certo ponto, este processo é idêntico à clonagem reprodutiva. Após a junção das duas células, o embrião resultante é extraído e, não sendo implantado num útero, irá transformar-se em tecido orgânico ou órgão humano completo, para transplante. O resultado da clonagem terapêutica não é um ser humano. Será um órgão, um pedaço de tecido nervoso ou uma determinada quantidade de pele.

4. O debate em torno da clonagem humana
“A Declaração Universal dos Direitos do Homem, as leis sobre os direitos dos cidadãos de todos os países, os textos doutrinários de todas as religiões, estão cheios de afirmações sobre o carácter único e irrepetível do ser humano, sobre a liberdade do seu destino, sobre a originalidade intrínseca e o direito à individualidade de cada um de nós.
A consagração do direito à diferença é algo que consideramos uma das principais vitórias das sociedades democráticas e a ciência veio mesmo provar que a diferença no interior de uma espécie é a melhor táctica para sobreviver. Se fôssemos todos iguais – por muito saudáveis que fôssemos – poderíamos sucumbir a uma mesma infecção. Sendo diferentes, alguém poderá sempre salvar-se. A diferença, para mais, baseia-se num dos truques mais astutos da natureza – o sexo. Uma maneira de criar um novo ser, completamente diferente, a partir de dois outros seres cujos patrimónios genéticos são baralhados ao acaso. O processo aumenta a biodiversidade dentro da espécie… é tão agradável que há quem diga que condiciona totalmente a estratégia da nossa vida.
Foi contra este corpo de ideias, de convicções e de paixões que veio chocar a possibilidade de se vir um dia a clonar seres humanos. Não é surpreendente que ela tenha ferido de tal forma a nossa sensibilidade. Uma cópia é algo que tem, em princípio, menos valor do que o original e a clonagem parecia vir abrir essa possibilidade, pela primeira vez, em relação aos seres humanos. A de criar seres humanos de segunda classe.
Depois, o facto de se saber à partida o que vai sair de uma clonagem priva os seres daí resultantes de algo a que pensamos que todos os humanos têm direito: a lotaria da natureza. Não terão os futuros seres direito à sua lotaria? A predestinação física a que os forçamos — por muito boa que seja — não os estará a privar de uma taluda genética? Não será tudo brincar a Deus? E não sabemos bem demais os riscos desse orgulho?
O choque causado pela possível clonagem de seres humanos foi de tal forma violento que muitas pessoas preferiram enterrar a cabeça na areia e suspirar pelo tempo em que o acaso dominava o mundo e em que não era preciso fazer escolhas conscientes. O progresso, porém, não é mais que um combate contra o acaso e não existe outro remédio, uma vez aberta a caixa de Pandora, do que olhar para o que de lá saiu.
Ninguém sabe se alguma vez se fez uma clonagem de um embrião humano, tornando a implantar as duas metades no útero de uma mulher e dando origem, artificialmente, a dois gémeos. O processo é fácil e talvez tenha sido feito mas não se sabe.
Quanto à clonagem de seres humanos adultos, que se saiba, nunca foi feita. Mas, depois da clonagem de uma ovelha adulta, a proeza parece possível. Será eticamente admissível? Nos últimos dias, a reacção à possível clonagem de seres humanos traduziu-se num gigantesco uníssono horrorizado.»

José Vítor Malheiros, jornal Público, 12 -03-1993
Desde o caso Dolly que muito se discute a legitimidade e a possibilidade de clonar os seres humanos para fins reprodutivos ou terapêuticos. Várias objecções têm sido apresentadas. Vamos apresentar as mais frequentes. O nosso objectivo é o de que, baseando-se na aprendizagem básica efectuada, possa avaliar os argumentos em que essas objecções se baseiam. (Nota  – Biotecnologia - A palavra biotecnologia é formada por três termos de origem grega: bio, que quer dizer vida; logos, conhecimento; e tecnos, que designa a utilização prática da ciência. Com o conhecimento da estrutura do material genético – a molécula do ADN (ácido desoxirribonucleico) – e o correspondente código genético, teve início, a partir dos anos 70 do século XX, a biotecnologia dita moderna, através de uma das suas vertentes, a engenharia genética, ou seja, a técnica de empregar genes em processos produtivos, com a finalidade de se obterem produtos úteis ao homem e ao meio ambiente. A biotecnologia é tecnologia baseada na biologia, especialmente quando usada na agricultura, ciência dos alimentos, e na medicina. A Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU possui uma das muitas definições de biotecnologia:
"Biotecnologia significa qualquer aplicação tecnológica que use sistemas biológicos, organismos vivos ou derivados destes, para fazer ou modificar produtos ou processos para usos específicos."   


Objecção 1 – A clonagem põe em causa a dignidade humana porque retira aos indivíduos a sua identidade pessoal própria.
Esta objecção parte do princípio de que o óvulo que recebeu o núcleo da célula somática se vai desenvolver dando origem a um ser com as mesmas características físicas e psicológicas do adulto ou criança de quem foi retirada a célula somática. Como a existência de personalidades distintas, a autonomia e independência dos indivíduos – o não ser cópia de ninguém – é a condição da dignidade de cada indivíduo. Cada indivíduo só tem personalidade e dignidade se for único e irrepetível. Logo, a existência de clones é moralmente reprovável.
Este argumento é bom? É persuasivo?
R: Trata-se de um mau argumento. Em primeiro lugar, a individualidade biológica não é sinónimo de individualidade pessoal. Somos a nossa constituiçãso biológica, mas não somos só isso. A individualidade pessoal não se perde por se perder a individualidade genética. Caso contrário, os gémeos idênticos também seriam uma realidade moralmente reprovável. Como falar de um «direito» à unicidade genética para censurar a clonagem humana artificial se a própria natureza, no caso dos gémeos monozigóticos, se encarrega de o violar?
Por outro lado, um clone não surge de um momento para o outro. O período de gestação é de nove meses e durante esse tempo ele estará sujeito a influências ambientais certamente diferentes do ser a partir do qual foi clonado. Imaginemos uma criança que é filha de pais altos. Tem uma predisposição genética para ser alta. Contudo, se não se alimentar correctamente em certa fase da sua vida, não actualizará as suas potencialidades genéticas. Do mesmo modo, não há garantia de que o clone de José Saramago se torne um escritor de renome. Pode tornar-se antes um surfista de classe se for criado numa região em que esse desporto seja muito popular.
Somos mais do que o nosso «bilhete de identidade genético». O meio em que somos criados, a educação que recebemos, as decisões que tomamos e que a vida exige que tomemos são factores que contribuem muito para o tipo de pessoa que somos. Os gémeos idênticos, apesar da sua identidade genética, podem ser semelhantes em muitos aspectos, mas também muito diferentes noutros.

Objecção 2 – A clonagem humana é um grande risco que pode ter graves custos humanos.
Foram necessárias quase 300 tentativas para a duplicação da ovelha Dolly. Recentemente, um animal doméstico – uma gata – foi clonado, após 87 tentativas, o que, sendo um progresso relativo, representa contudo, uma média de sucesso muito baixa. Menos do que no caso de Dolly, mas ainda assim, correspondeu a uma média baixa de sucesso. Ian Wilmut, considerado o criador da ovelha Dolly, opôs-se frontalmente aos projectos de clonagem humana, embora recentemente defendesse a clonagem terapêutica para tratar a doença de Parkinson e lesões graves da medula espinal. Mas no estado actual desta técnica, quase 98% das tentativas fracassam.




O que são células-tronco ou estaminais?
As células-tronco são células indiferenciadas, que podem multiplicar-se e regenerar tecidos lesionados. Isto deve-se ao facto de terem a capacidade de se transformar em células idênticas às dos tecidos onde foram implantadas. Por exemplo: se uma pessoa com enfarte do miocárdio tem uma parte do coração afectada e as células dessa região morrem, as células-tronco podem transformar-se em células cardíacas e substituir as células mortas, regenerando o tecido lesionado. Outra hipótese, no caso da diabetes, é a de que as células-tronco, se inseridas no pâncreas, poderiam diferenciar-se e começar a produzir insulina, o que traria a cura para pessoas portadoras dessa doença. Além da diabetes e das doenças cardíacas, há a esperança de a investigação com células estaminais tratarem doenças como Parkinson, Alzheimer, fibrose cística, esclerose múltipla, acidentes neurovasculares, alguns tipos de cancro, leucemia ou artrite reumática.
As células-tronco embrionárias têm a capacidade de se transformar em qualquer célula do corpo humano.
Como obtemos células-tronco?
As células-tronco podem ser obtidas de três formas: na medula óssea de pessoas adultas, no cordão-umbilical e em embriões. As retiradas da medula e do cordão-umbilical possuem algumas limitações, pois não se podem diferenciar em qualquer célula. Já as de embriões são conhecidas como multipotentes e podem transformar-se em qualquer tipo de célula.
Ora, isso significa que muitos embriões serão destruídos, que muitos recém-nascidos apresentarão deficiências físicas e mentais graves. O que sabemos de momento é que os poucos clones não humanos que sobrevivem ao processo não têm vida longa ou saudável. São muito frequentes problemas muito graves com órgãos como o coração e o sistema imunológico. A grande maioria falece pouco depois de nascer. É previsível que aconteça o mesmo aos primeiros clones humanos. Será moralmente correcto aceitarmos este sacrifício dos primeiros clones humanos enquanto aguardamos pelo aperfeiçoamento da técnica da clonagem?
Este argumento é bom? É persuasivo?
R: Trata-se de uma forte objecção à clonagem humana no actual estado da investigação. Estamos a instrumentalizar embriões e fetos humanos em nome de promessas que nada garante se cumprirão. As clonagens de mamíferos resultaram até hoje em muitos seres defeituosos, com baixa imunidade e pouco tempo de vida. Estaremos dispostos a correr o risco de que embriões e fetos humanos passem por situação semelhante? A vida dos embriões e dos fetos clonados não tem valor? Parece que sim, mas as respostas variam consoante o momento em que se entende que começa a vida. Há cientistas que defendem que a vida começa no momento da concepção: a vida humana tem início quando o espermatozóide fecunda o óvulo. O problema aqui é que no caso da clonagem não há espermatozóide algum a fecundar seja o que for. Há cientistas que defendem que a vida começa quando se inicia a formação do sistema nervoso. Se a morte é declarada quando o cérebro pára de funcionar, então a vida começa quando o cérebro começa a funcionar. Mas mesmo os que defendem esta ideia consideram que pode não ser a resposta definitiva. Quando daqui a algumas dezenas de anos for possível, por exemplo, determinar quando o feto começa a ter consciência, tudo pode mudar.
Objecção 3 – A clonagem irá perturbar de modo significativo as relações familiares.
Imaginemos que um casal, João e Isabel, decide ter um bebé através do processo da clonagem. João dá a célula somática da qual se retira o núcleo com o respectivo ADN. Isabel dá o óvulo cujo núcleo é esvaziado do seu ADN. Esse óvulo desnucleado recebe o núcleo retirado da célula somática de João. Forma-se um embrião que vai ser implantado no útero de Isabel.
Correndo tudo bem, ao fim de nove meses de gestação nasce uma criança, a que dão o nome de Miguel.
Quem é a mãe? Diremos que é a Isabel? Quem é o pai? É correcto dizer que é o João?
Não podemos dizer que a Isabel é a mãe biológica do Miguel porque este recebeu 46 cromossomas unicamente do João. Para Isabel ser a mãe biológica do Miguel teria de lhe dar os 23 cromossomas que todo e qualquer bebé normalmente recebe da mãe. Isabel deu à luz um clone do João, mas não é a sua mãe.
E o João será realmente o pai do Miguel? O Miguel recebeu de João 46 cromossomas. Estes constituem a herança genética que João recebeu dos seus pais biológicos, Alberto e Daniela. Como o ADN, o material genético do clone Miguel, resultou da união de um espermatozóide de Alberto e de um óvulo de  Daniela, então parece correcto concluir que os pais de João são os pais do clone Miguel. Uma vez que um clone é geneticamente idêntico a quem forneceu o material genético, os seus pais genéticos são os pais do João. Mas, assim sendo, João e Miguel são irmãos, irmãos geneticamente idênticos. Sem se aperceber disso e sem os seus progenitores o quererem também, João deu um filho aos seus pais.
Se Isabel não pode ser a mãe de Miguel porque não lhe deu os 23 cromossomas que toda a mãe biológica dá a um filho, também devemos concluir que João não é pai de Miguel porque lhe deu mais do que os 23 cromossomas que um pai naturalmente dá a um filho. Parece que Miguel só pode ter um pai se também tiver uma mãe. Uma família da qual faz parte um clone é um cenário muito estranho. Podemos perguntar como vai ser recebida a criança que, no sentido tradicional da palavra, não tem pai nem mãe. E será de todo impossível que, por volta dos vinte anos, o clone de João não desperte em Isabel sentimentos e desejos que ela experimentou por João?

Este argumento é bom? É persuasivo?
R: É evidente que a clonagem tornará mais difícil a gestão das relações familiares. Muitas pessoas consideram a ideia de pais biológicos importante para que faça sentido falar de família. Mas isso é restringir a ideia de família a um modelo tradicional que não é o único. Diz-se de quem se divorcia ou enviuva e volta a casar que construiu uma nova família, mas na verdade houve um alargamento de laços familiares. Por que razão não considerar como semelhante a situação do clone com a dos filhos do primeiro casamento da pessoa com quem contraímos segundas núpcias? Se as sociedades se adaptaram à transformação do modelo familiar tradicional, por que razão não poderão adaptar-se a este novo desafio? Não se defende que, mais importantes do que os laços biológicos, são os laços afectivos que se vão desenvolvendo no seio das famílias?
 Considera –se que a clonagem é uma forma de reprodução antinatural. Mas o mesmo se pode dizer de uma prática que já não gera grande polémica: a fertilização in vitro. (NOTA -  «A fertilização in vitro (FIV) é uma técnica de reprodução medicamente assistida que consiste na colocação, em ambiente laboratorial (in vitro), de um número significativo de espermatozóides à volta de cada ovócito, procurando obter embriões de qualidade a transferir posteriormente para um útero.» Wikipédia) Por outro lado, o que se entende por natural? O que surge espontaneamente, mesmo que seja defeituoso, como é o caso dos siameses? Mas não tentamos corrigir essa anomalia da natureza? Então por que não corrigir a infertilidade de alguns casais recorrendo à clonagem? Não pode essa infertilidade ser considerada um erro, uma falha da natureza?
A valorização moral da natureza defende que as acções humanas que seguem ou imitam a natureza são moralmente aceitáveis ou então simplesmente isentas de apreciação ética. A natureza seria a norma da acção humana. O ser humano seria moralmente inimputável sempre que a sua acção imitasse a natureza. Parece um fraco critério para avaliar acções.



Objecção 4 – A clonagem faz ressurgir a polémica da eugenia.
O termo eugenia (Nota Tentativa de melhorar física e mentalmente indivíduos humanos eliminando características indesejáveis – eugenia negativa – e aprimorando características desejáveis – eugenia positiva.) deriva do grego eugenés (composto por eu, "bem", e génos, "raça, espécie, linhagem"), que nas principais línguas ocidentais tem os significados de "bem-nascido"; "de boa linhagem, espécie ou família"; "bem concebido ou engendrado", em suma, algo que, em termos biológicos, tem uma boa origem e um futuro promissor.
A eugenia é uma técnica que visa a melhoria das características físicas e mentais de indivíduos humanos mediante a selecção de características consideradas mais favoráveis e a eliminação de características consideradas indesejáveis. A eugenia apresenta duas facetas conforme os seus objectivos: se o objectivo é eliminar traços biológicos e psicológicos considerados indesejáveis, fala-se de eugenia negativa; se o objectivo é promover e aperfeiçoar características desejáveis, estamos perante a eugenia positiva.
Repare que actualmente se pratica eugenia negativa quando se recorre ao diagnóstico pré-natal para evitar o nascimento de crianças com anomalias muito graves como o mongolismo. A eliminação de embriões e fetos a quem foram diagnosticadas doenças hereditárias, muitas vezes letais, ou que implicarão uma vida de qualidade paupérrima (caso da anencefalia – ausência de cérebro – e da fibrose cística) é um exemplo de eugenia negativa. Nega-se o que não é bom para o indivíduo ou para a família.
(Nota Fibrose cística – Doença genética que afecta os aparelhos digestivo e respiratório e as glândulas sudoríperas. O teste do pezinho, feito rotineiramente nas maternidades para três doenças congénitas, inclui a triagem da fibrose cística. É uma situação  grave, que afecta principalmente os pulmões e o aparelho digestivo, podendo afectar também outras glândulas secretoras do corpo, o que causa danos a órgãos como o pâncreas e o fígado. Nos pulmões, essas secreções obstruem a passagem do ar e retêm bactérias, facilitando as infecções respiratórias. No tracto gastrointestinal, a falta de secreções adequadas compromete o processo digestivo. Apesar de continuar a ser uma doença genética grave, os avanços na terapêutica clínica, os novos antibióticos e os transplantes de pulmão e fígado estão a diminuir a sua mortalidade e a aumentar a vida dos pacientes, já chegando esta em média aos 40 anos de idade.)

A eugenia positiva consiste em seleccionar características desejáveis. É provável que um dia os pais tenham a possibilidade de escolher a cor dos olhos, do cabelo e até o sexo dos bebés. Nesse caso, estaremos a praticar eugenia positiva.
A eugenia tem uma má reputação. E essa má fama é merecida. Desenvolvida principalmente a partir do século XIX, visava no início evitar doenças, mas logo os seus critérios de selecção de características passaram a estar ao serviço de interesses racistas e de projectos de discriminação das pessoas. Começou por defender a eliminação de características indesejáveis – físicas e mentais – dos indivíduos para acabar por defender a eliminação dos indivíduos portadores dessas deficiências. O termo eugenia traz imediatamente à memória o projecto nazi e a ideia de uma raça pura em nome da qual certos indivíduos e grupos humanos foram exterminados e escravizados. O genocídio nazi de deficientes mentais e físicos, de judeus, ciganos, homossexuais, etc., é a forma extrema de eugenia, ao impedir, através do extermínio, que certas pessoas consideradas indesejáveis se reproduzissem e manchassem a pureza do «sangue ariano». O que impede que isso volte a acontecer?

Este argumento é bom? É persuasivo?
R: Quando entramos num território novo, a curiosidade anda de par com o medo do desconhecido e com a recordação de tragédias passadas. O medo da manipulação genética no ser humano tem muito a ver com imagens de exércitos de clones submetidos a uma só vontade e programados para cumprir ordens. A verdade é que não foi necessária a clonagem para que milhões de seres humanos tenham sido eliminados, discriminados e escravizados. A eugenia e as suas perversões não se deveram à clonagem e não há por isso uma ligação necessária entre clonagem de seres humanos e exércitos de escravos ou produção em massa de ditadores e assassinos.
Actividade 2
1.Leia atentamente o seguinte texto e responda às questões:
CLONAR OU NÃO CLONAR? EIS A QUESTÃO.
       «No início do ano de 1993, fomos confrontados com a grande revolução Dolly tornámo-nos capazes de copiar, clonar, indivíduos adultos, no caso, uma ovelha! Imediatamente começámos a discutir esta tecnologia aplicada à clonagem de seres humanos, gerando tanta euforia quanto pânico. Acto contínuo, o presidente dos EUA proíbe a clonagem humana. Logo de seguida, um físico também americano declara que realizará estas experiências à revelia da lei do seu país. Entre a proibição reminiscente dos tempos de Galileu Galilei e a atitude leviana criadora de Frankensteins, agora o tempo é para reflectir: clonar ou não clonar, eis a questão. Clonar o quê, como, quando, para quê?
Se a sociedade quer, e deve, participar no debate sobre a clonagem humana, tem de estar a par de alguns factos científicos.
        Para começar, o processo de clonagem ainda é extremamente ineficaz. Devemos lembrar que, dos 276 embriões manipulados, somente 29 sobreviveram para serem implantados em ovelhas, e destes somente UM vingou, dando origem à Dolly. E os subprodutos que não vingaram? Estamos preparados para lidar com os subprodutos da clonagem em humanos?
        Além disto, ainda é cedo para dizermos que a clonagem da Dolly resultou – o que é "resultar"? Tem uma duração de vida normal? Apresenta alguma predisposição para cancro? Reproduz-se normalmente? Os seus filhos são normais? E os filhos dos seus filhos? Quantas gerações de descendentes seus teremos de observar até estarmos convencidos de que a experiência "resultou"?
        O argumento para mim definitivo contra a clonagem é o da preservação da integridade do genoma humano. Vamos a um pouco de ciência: as células do nosso organismo podem ser divididas em dois tipos: as células germinativas, os óvulos e os espermatozóides, células designadas para a reprodução e transmissão dos nossos genes à próxima geração; e as células somáticas, todas as outras células do nosso corpo, células que servem para as mais diversas funções, menos a de reprodução. Como passarão a receita de como fazer um ser humano para a próxima geração, as células germinativas têm de manter a integridade desta receita, dos seus genes, com o maior cuidado. Já as células somáticas, como não transmitirão os seus genes para a próxima geração, não têm um controlo tão rígido desta integridade, e de facto, sofrem ao longo do tempo uma série de agressões ao seu material genético, de alguma forma danificando-o.
        Assim, clonar, como está a ser proposto, gerar um indivíduo a partir de uma célula somática, é uma temeridade, pois não podemos garantir a integridade dos genes desta célula e, assim, dos genes do clone. E a partir daí poderemos gerar "monstros" ou, pior, clones aparentemente normais, porém carregando nos seus genes alterações que só se manifestarão a mais longo prazo – uma espécie de "bomba relógio". Ao procriarem com outros indivíduos da população, os clones estarão a disseminar alterações genéticas pela população humana que podem vir a manifestar-se somente depois de várias gerações, quando já estiverem presentes num número significativo de pessoas. E então será tarde demais e o património genético humano já terá sido alterado de forma irreversível. Este é um preço altíssimo a pagar – e, principalmente, não justificado por qualquer benefício imediato que a clonagem possa gerar.
        E, então, devemos parar com toda e qualquer experiência de clonagem? Não! Temos de separar o trigo do joio: há uma distinção importante entre a "clonagem reprodutiva", em que um indivíduo inteiro é produzido a partir de uma célula por reprodução assexuada, e a "clonagem terapêutica", ou seja, as aplicações científicas e terapêuticas desta mesma tecnologia.
        Vamos a um pouco mais de ciência. Por que é que não só os donos de clínicas de fertilidade ficaram animadíssimos com a Dolly, mas toda a comunidade científica? A experiência Dolly ultrapassou uma barreira de décadas na ciência: a formação de um animal inteiro a partir de uma célula diferenciada. O que é isto? Todos nós começamos a partir de uma única célula, formada pela união de um óvulo com um espermatozóide. Então, esta célula inicial divide-se em duas, quatro, oito, e assim por diante. Através de milhões de divisões sucessivas, esta única célula dá origem a um ser adulto, extremamente complexo. A cada divisão desta, a célula copia todo o seu material genético para as células filhas, ou seja, cada uma das nossas numerosas células contém a receita completa para fazer uma pessoa. Porém, durante o nosso desenvolvimento embrionário, chega um momento em que estas células, inicialmente idênticas (ou indiferenciadas), começam a assumir características diferentes umas das outras, começam a diferenciar-se. Algumas ligam só os genes de célula muscular, outras só os de células de sangue, outras ainda só os genes de células de pele, e assim por diante. E uma vez tomada esta decisão de identidade celular, as células perdem o acesso a todo o resto de informação genética contido em seu núcleo – ou seja, a receita inteira está lá, mas só se consegue realizar a sub-receita específica do seu tipo celular. Isto até ao ano passado, quando Wilmut conseguiu que uma célula diferenciada, já destinada a ser célula de glândula mamária de uma ovelha, revertesse este processo de diferenciação, sendo assim capaz de ter acesso a toda a informação contida nos seus genes, dando origem a outra ovelha completa!
        Isto é fantástico! Pensem no quanto podemos aprender com esta experiência! Se pudermos entender e controlar este mecanismo, poderemos um dia regenerar órgãos e tecidos danificados. Afinal de contas, as células de um rim danificado ainda têm a receita de fazer outro rim – porque não a utilizar, como a lagartixa que regenera a ponta do seu rabo cortado? O inverso também pode ser estudado: por que é que algumas células de repente passam a não obedecer à programação original e começam a proliferar de forma desorganizada, dando origem a cancros? Ou ainda, por que é que gradualmente as nossas células deixam de se renovar e funcionar e envelhecemos? O conhecimento da energia nuclear permitiu tanto a construção da bomba atómica como o desenvolvimento da tomografia computorizada, da ressonância magnética, enfim, de uma série de tecnologias benéficas à humanidade. De forma semelhante, os mesmos conhecimentos que nos permitirão clonar um ser humano podem ser aplicados em estudos que trarão reais benefícios à humanidade. Continuemos, sim, as pesquisas em clonagem, porém, em modelos animais e voltadas para aplicações científicas e terapêuticas!
        Cientificamente, está claro que a clonagem humana reprodutiva é perigosa para a nossa espécie. No entanto, ainda corremos o risco de ela ser feita mesmo assim. Infelizmente, a vaidade do ser humano é ainda mais perigosa do que a clonagem: não resistimos à tentação de fazer algo que podemos, só porque podemos. Observando o meu sobrinho de 1 ano, percebi que ele, ao desenvolver coordenação motora suficiente para pegar numa colher de feijão e a atirar contra a parede branca, simplesmente o fez. Por nenhum outro motivo a não ser por ser capaz de o fazer – mas ele tem só um ano. Amadurecer ou não amadurecer? Eis a questão. Já sujámos algumas paredes ao longo curso da história – as bombas atómicas, a floresta tropical, a camada de ozono, etc. Vamos resistir à tentação de macular o nosso património genético e de utilizar de forma inteligente e benéfica estes novos e admiráveis conhecimentos da genética?
 Professora Doutora Lygia da Veiga Pereira, Instituto de Biociências - Departamento Biologia - Universidade de São Paulo (texto adaptado)
1 – A autora do texto opõe-se à clonagem?
R: Não. Opõe-se à clonagem reprodutiva, mas não se opõe em princípio à clonagem terapêutica.
2 – Podemos dizer que não se opõe à clonagem humana?
R: Não. Opõe-se à clonagem humana quer na vertente reprodutiva quer na vertente terapêutica. A passagem esclarecedora é esta: «Os mesmos conhecimentos que nos permitirão clonar um ser humano podem ser aplicados em estudos que trarão reais benefícios à humanidade. Continuemos, sim, as pesquisas em clonagem, porém, em modelos animais e voltadas para aplicações científicas e terapêuticas!»
3 – Por que razão se opõe à clonagem reprodutiva?
R: Opõe-se à clonagem reprodutiva porque esta ameaça a integridade do genoma humano. O património genético humano poderá ser alterado de forma irreversível.
4 – Resuma a tese que o texto defende.
R: A clonagem não é um mal em si, mas devemos impedir a clonagem reprodutiva e terapêutica em seres humanos. A clonagem terapêutica deve limitar-se à pesquisa que utilize outras espécies animais.
Texto complementar

Prós e contras da clonagem
«A clonagem de seres vivos tem sido um vasto campo de experiências científicas há várias décadas, porém só chegou ao público em 1997, quando foi anunciada a primeira clonagem bem sucedida de um mamífero – a ovelha Dolly. Desde então, vários cientistas expressaram o objectivo de clonar um ser humano. Além da ovelha Dolly, muitos animais já foram clonados, tais como ratos, vacas, outras ovelhas e, recentemente, uma gata de estimação chamada Cc.
Alguns países sancionaram leis proibindo a clonagem de seres humanos. Porém, para os cientistas, as leis não são um impeditivo. Parece difícil impedir legalmente a clonagem de seres humanos.
Os custos de uma clonagem são bastante elevados. Porém recursos financeiros não faltam para o desenvolvimento desta tecnologia para obter fama e uma possível fortuna ou, por razões emocionais, para satisfazer o desejo de duplicar uma pessoa querida que está doente ou que já faleceu.
Aqueles que se opõem à clonagem humana afirmam que a raça humana está a tomar um caminho bastante perigoso e possivelmente irreversível que pode trazer graves consequências ao mundo. Lembram que a tecnologia de clonagem é ainda bastante pobre. A média de sucesso em experiências de clonagem é de apenas 3%. Muitos clones nascem defeituosos e morrem pouco depois do seu nascimento. Além disso, a duplicação de seres humanos implica com questões éticas e morais.
Neste artigo, explicaremos o processo de clonagem. Vamos também analisar alguns prós e contras da prática. Tentaremos ser objectivos e não defendermos qualquer ponto de vista – apenas apresentaremos argumentos sobre os possíveis benefícios e malefícios da clonagem humana.   O leitor deverá decidir se a clonagem de seres humanos deve ou não ser permitida.

A tecnologia de clonagem
Em Janeiro de 2001, um selecto grupo de cientistas liderado por Panayiotis Zavos, ex-professor da Universidade de Kentucky, e por um pesquisador italiano, Severino Antinori, anunciaram o objectivo de clonar um ser humano. Estes e quaisquer outros cientistas que desejem clonar seres humanos provavelmente utilizarão o mesmo procedimento que foi usado para criar a ovelha Dolly. Esta técnica de clonagem é chamada transferência nuclear da célula somática.
A transferência nuclear da célula somática tem início quando o médico tira o óvulo de uma doadora e remove o núcleo do óvulo. Fazendo isso, cria um óvulo desprovido de núcleo. Uma célula contendo ADN é então retirada da pessoa que está a ser clonada. Por meio de electricidade, o óvulo desprovido de núcleo é fundido com a célula contendo o ADN do ser humano que está a ser clonado. Forma-se então um embrião, que é implantado na “mãe de aluguer”, aquela que forneceu o óvulo. Caso o procedimento seja bem sucedido, a “mãe de aluguer” dará à luz à uma cópia exacta da pessoa clonada (de quem foi retirado a célula com ADN) ao fim de um período normal de gestação.
Este mesmo procedimento foi usado para criar a ovelha Dolly, em 1997. Ian Wilmut e os seus colegas do Instituto Roslin, em Edimburgo, na Escócia, transplantaram o núcleo de uma glândula mamária de uma ovelha Finn Dorsett num óvulo desprovido de núcleo de uma ovelha blackface escocesa. A fusão do núcleo ao óvulo foi realizada por meio de electricidade, que também resultou numa divisão celular. A nova célula, agora dividida, foi implantada no útero de uma ovelha blackface. Alguns meses depois nasceu a ovelha Dolly. É geneticamente idêntica à ovelha Finn Dorsett e não à blackface, que serviu de “mãe de aluguer”. A clonagem foi bem sucedida, mas foram necessárias 276 tentativas para criar a Dolly. A partir de então, desenvolveu-se e tornou-se apta a procriar de forma natural
A tabela abaixo explica como funciona a transferência nuclear da célula somática no processo de clonagem:
Os prós da clonagem humana
Nem toda a forma de clonagem humana envolve a criação de um ser humano completo. Em vez de replicar pessoas, o processo de clonagem pode ser usado para ajudar pessoas com problemas médicos graves. Por exemplo, os cientistas poderiam clonar as células de uma pessoa e “consertar” genes mutantes que causam doenças. Em Janeiro de 2001, o governo britânico sancionou leis permitindo a duplicação de embriões humanos com fins específicos na pesquisa das doenças de Parkinson e de Alzheimer.
Um dos propósitos da clonagem humana é a clonagem terapêutica, processo pelo qual o ADN de uma pessoa é utilizado para criar um embrião. Em vez de inserir este embrião numa “mãe de aluguer”, as suas células são usadas para produzir células-tronco que são capazes de evoluir para diversos tipos de células do corpo. Estas células-tronco podem, portanto, ser utilizadas para criar órgãos humanos, tais como corações, fígados e pele. Estas células-tronco também podem fazer crescer neurónios capazes de curar aqueles que sofrem de doenças como a de Parkinson, a de Alzheimer ou a síndroma de Rett.
Como funciona a clonagem terapêutica
1. O ADN é extraído de uma pessoa doente.
2. O ADN é então implantado no óvulo de uma doadora, desprovido de núcleo.
3. O óvulo então divide-se como uma fertilização típica e forma um embrião.
4. Células-tronco são removidas do embrião.
5. Qualquer espécie de tecido ou órgão pode ser formada a partir destas células-tronco para tratar o doente.
Para muitos cientistas, o verdadeiro milagre da clonagem é que este novo tecido humano pode ser desenvolvido em laboratórios para substituir partes do corpo doentes ou danificadas. Como estes órgãos seriam produzidos usando células-tronco do próprio paciente, não haveria mais riscos de rejeição do transplante pelo corpo da pessoa.
A clonagem humana também pode ser utilizada por casais que não conseguem ter filhos, mas que desejam ter filhos que possuam atributos biológicos de pelo menos um dos pais. Os cientistas que trabalham para clonar seres humanos – o Dr. Zavos e o Dr. Antinori, em particular – declararam que ajudar casais inférteis é o objectivo principal da sua pesquisa. Esta forma de clonagem envolveria a injecção de células de um homem estéril num óvulo, que seria implantado no útero da mulher. A criança seria então igual ao pai.
O propósito mais polémico da clonagem humana é o de replicar pessoas que já faleceram. Um casal norte-americano, que não se consola com a morte da filha, está a oferecer $42.000 euros para que um laboratório chamado Clonaid clone a filha falecida, utilizando células preservadas da sua pele. Se a morte é uma tragédia para a maioria dos seres humanos – tanto de pessoas como dos animais –, alguns vêem na clonagem uma forma de a amenizar, substituindo a pessoa ou animal de estimação por alguém exactamente com a mesma composição genética.
A clonagem de seres humanos tem um aspecto social e familiar. Muitos homens e mulheres desejam ter filhos biológicos sem estarem necessariamente casados. Os homossexuais, por exemplo, teriam a oportunidade de ter filhos que partilhem as suas características genéticas. Mas este argumento pode também ser considerado um aspecto negativo da clonagem. Pessoas que acreditam nos fortes valores familiares – que uma criança deve crescer com um pai e uma mãe – considerariam esta uma razão para banir a clonagem humana.
Os contras da clonagem
Foram necessárias 276 tentativas para a duplicação da ovelha Dolly. Recentemente, uma gata doméstica chamada Cc foi clonada, após 87 tentativas – menos do que no caso de Dolly, mas ainda apresentando uma baixa média de sucesso. Será que a sociedade permitiria a morte de tantos embriões e recém-nascidos até que a tecnologia da clonagem se aperfeiçoasse? O próprio Ian Wilmut disse que os projectos de clonagem humana são um crime irresponsável. A tecnologia de clonagem está ainda na sua fase inicial e quase 98% das tentativas de clones não têm sucesso. Os embriões geralmente não são adequados para serem implantados no útero ou morrem durante a gestação ou pouco antes do nascimento.
Os poucos clones que sobrevivem ao processo costumam não ter vida longa ou saudável. Normalmente têm problemas com órgãos como o coração, sofrem de sistema imunológico fraco e morrem pouco depois do nascimento. É quase certo que o mesmo venha o ocorrer com os primeiros clones humanos. As crianças poderiam morrer no parto, nascer com deficiências físicas e provavelmente faleceriam prematuramente. Pode a nossa sociedade permitir o sofrimento dos primeiros clones humanos para colher os benefícios quando a clonagem estiver aprimorada? Esta é provavelmente a questão mais difícil a respeito da clonagem humana.

Também existe a polémica de que a clonagem de seres humanos produziria bebés planeados. As crianças passariam a ser iguais a qualquer outra comodidade que adquirimos: tamanho, cor e outros traços seriam predeterminados pelos pais. O mistério da individualidade humana seria uma coisa do passado. Além disso, crianças que forem clones de pessoas que já faleceram poderão ser consideradas meramente a continuação da vida daqueles que já se foram.
Porém, deve lembrar-se que clonagem humana não significa ressurreição. Um clone pode ser idêntico a um ser humano clonado, mas isto não significa que são a mesma pessoa. Irmãos gémeos, por exemplo, são duas pessoas diferentes. Se um gémeo morresse, nenhum pai ficaria intocado porque uma pessoa fisicamente idêntica permanece viva.
Muitos acreditam que a criação de vida é um assunto exclusivo do Criador. Acreditam que a vida é uma dádiva divina, que deveria estar além dos poderes humanos. A Igreja acredita que a alma é criada no momento da concepção, e por isto o embrião merece protecção. Para aqueles que concordam com a Igreja, a tecnologia não aperfeiçoada da clonagem significa assassinato em massa.
Quando a possibilidade de duplicar seres humanos foi anunciada, muitos temeram que terríveis figuras da nossa história seriam trazidas de volta à vida. Mas, a não ser que acreditemos que o mal está presente no gene de uma pessoa, este não é um motivo de preocupação. Como discutimos acima, a clonagem somente duplica o corpo, não necessariamente o carácter ou personalidade de uma pessoa. A mesma pessoa não voltaria ao mundo, mas alguém fisicamente idêntico seria criado.
A clonagem de seres humanos pode causar graves efeitos nos nossos relacionamentos familiares. Um pai pode ter um filho idêntico a si e estar feliz com o facto, mas como é que isso afectará a relação entre filho e mãe? Ele crescerá e ficará igual ao pai – o homem pelo qual ela se apaixonou e com quem se casou. O mesmo também vale para uma filha que nascesse fisicamente idêntica à mãe. Como isso afectaria o seu relacionamento com o seu pai? Ao analisarmos os prós e contras da clonagem humana, temos de pensar como esta afectaria outras pessoas na nossa sociedade. Outro exemplo: um casal tem um filho clonado igual ao pai e o casal acaba por se divorciar. A esposa agora odeia o ex-marido, mas o filho é fisicamente idêntico ao homem que ela menospreza. Como irá isso influenciar o seu relacionamento?
Conclusão
Neste artigo tentámos abordar o processo da clonagem humana. Também apresentámos alguns argumentos a favor e contra o processo. Existem muitos outros aspectos – científicos, morais e religiosos – a analisar. O núcleo da questão é saber se os seres humanos estão preparados para lidar com esta nova tecnologia, que pode ser uma grande fonte de benefícios ou malefícios para a humanidade. Todos nós devemos analisar as possíveis consequências da clonagem humana, pois esta é, sem dúvida, uma das mais controversas e revolucionárias novidades da nossa história.
Adaptado de 10 em tudo


  
Bibliografia
1 – Stephen Holland, Bioethics: A Philosophical Introduction, 2003, Cambridge, Polity Press, 2003.
2 – Glen McGee (org.), The Human Cloning Debate, 1998, Berkeley, Berkeley Hills Books.


Recursos na Internet
1Cloning in Focus

2 - Eugenics - What is eugenics?


3 – Definition of Eugenics

4 - Clonagem "Reprodutiva" versus Clonagem "Terapêutica"
http://www.ghente.org/temas/clonagem/index_txr.htm
5 – Hollywood Cloning Movies
http://www.abc.net.au/thingo/txt/s1155468.htm
6 – HumanCloning.org: All The Reasons to Clone Human Beings.
Videografia


1 - Clone. Vídeo da National Geographic.
O potencial benéfico e as aterradoras possibilidades da clonagem genética.


2 – Blade Runner (1982) por Ridley Scott.

«Blade Runner é um filme de ficção científica realizado por Ridley Scott e apresentado ao público em 1982, ilustrando uma visão negra e futurista de Los Angeles em Novembro de 2019.
O filme descreve um futuro em que a Humanidade inicia a colonização espacial, para a qual cria seres geneticamente alterados – replicantes –, utilizados em tarefas pesadas, perigosas ou degradantes nas novas colónias. Fabricados pela Tyrell Corporation como sendo "Mais Humanos do que os Humanos", os modelos Nexus-6 são fisicamente idênticos aos humanos, mas são mais fortes e ágeis. Devido a problemas de instabilidade emocional e reduzida empatia, os replicantes tendem a um desenvolvimento agressivo, pelo que o seu período de vida é limitado a 4 anos.
Na sequência de um motim, a presença dos replicantes na Terra é proibida, sendo criada uma força policial especial – os Blade Runners – para os caçar e "aposentar" (matar).
No filme conta-se como um ex-Blade Runner – Deckard (Harrison Ford) – é forçado a voltar ao activo para caçar um grupo de replicantes que se revoltou e veio à Terra procurar o Criador, para tentar aumentar o seu período de vida e escapar à morte que se aproxima.»
(Adaptado de Wikipédia)

3 - The Boys from Brazil (1978) de Franklin J. Schaffner
Yakov Liebermann é um velho caçador de nazis. Em Viena, comanda um centro que recolhe documentação sobre crimes contra a Humanidade perpetrados durante o Holocausto.
Em Setembro de 1974, Liebermann recebe um preocupante telefonema de um jovem que o informa de que acaba de interceptar conversações telefónicas de Josef Mengele, o médico dos campos de concentração que realizava terríveis experiências em judeus durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com o jovem, Mengele accionara o Kameradenwerk (rede de apoio aos oficiais nazis depois da guerra) para levar a cabo um estranho trabalho: seis nazis deveriam matar 94 homens, que compartilham alguns traços comuns. Todos os homens são civis e todos devem ser assassinados numa determinada data. Mengele quer fazer clones de Hitler.
Antes que o jovem possa terminar o telefonema, é abruptamente interrompido e a ligação é cortada.
Liebermann hesita sobre o que fazer, pois recebe muitas pistas falsas. Todavia, aquilo que o jovem lhe contara parece verosímil e decide agir. Tem início uma caçada a Mengele e aos seus "meninos".
4- The Island (2005) de Michael Bay
 Filme de ficção científica que explora a clonagem.
«O filme retrata, no ano 2050, um grande complexo de regras muito rígidas nos Estados Unidos. Todos os seus moradores vivem acreditando no que os administradores dizem: são os únicos que sobreviveram ao ataque de um vírus mortal que infectou toda a Terra. O único lugar na Terra onde esse vírus não chega é um lugar paradisíaco chamado A Ilha, e por vezes um morador ganha a "lotaria" e vai para a ilha. É quando o ingénuo Lincoln Six-Echo (Ewan McGregor), depois de se despedir de um amigo que foi mandado para a ilha, segue um estranho espécime (uma borboleta) e descobre a parte secreta do complexo. Aí, vê uma cena chocante: os médicos do complexo matam o seu amigo tirando-lhe partes do corpo. Ainda muito chocado, descobre várias bolsas de água com mais moradores dentro.
Quando Jordan Two-Delta, por quem é apaixonado, ganha a lotaria, faz uma corrida contra o tempo para a salvar. Depois de a raptar já inconsciente dos tiranos médicos, encontra novamente a borboleta e consegue ver-se fora do complexo. Aos poucos, com a ajuda de diferentes pessoas, descobre que os moradores do complexo são, na verdade, clones idênticos a pessoas no mundo exterior. Pessoas que podem pagar para ter um corpo de reserva se precisarem de uma parte dele.
Então, Lincoln e Jordan fogem para o mundo desconhecido, que, ao contrário do que pensavam, é habitado. Jordan descobre que fora mandada para a ilha por causa de uma doença contraída pela pessoa que originara e Lincoln descobre o seu eu verdadeiro, um famoso tirano, rico e fútil. Aí começa a sua jornada para salvar os clones desta situação atroz idealizada e administrada principalmente por um homem sem escrúpulos, Dr. Merrick (Sean Bean).» (Adaptado de Wikipédia)

5 - Multiplicity (1996) de Harol Ramis.
Comédia sobre um homem que, sempre muito ocupado e sem tempo para realizar todas as suas tarefas, recebe de bom grado a possibilidade de ser duplicado.

4 comentários:

  1. Mt bom os textos, me ajudaram mt a entender melhor sobre o assunto

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  2. Sobre o conteúdo do blog: F A N T Á S T I C O!
    Me AJUDOU MUITO sobre um debate que minha turma irá fazer no colégio, a favor e contra a clonagem.
    Espero que meu grupo de defesa seja melhor, haha, sou a favor :)

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