domingo, 8 de maio de 2011

É A LITERATURA UMA FORMA DE CONHECIMENTO DO MUNDO E DA VIDA?


É A LITERATURA UMA FORMA DE CONHECIMENTO DO MUNDO E DA VIDA?
Aristóteles disse que a grande literatura - e referia-se somente à tragédia grega – nos dava conhecimentos e verdades importantes acerca da vida e da natureza humana.
Esta afirmação de Aristóteles acabou por conquistar grande adesão na cultura ocidental, sendo generalizada a outras formas literárias. Contudo há quem conteste de uma forma radical e de uma forma moderada a pretensão de transformar a obra literária numa forma de conhecimento.
Tentaremos, em termos gerais, apresentar a diversidade de perspectivas sobre a relação entre literatura e conhecimento.
PERSPECTIVA 1 - A LITERATURA NÃO NOS DÁ QUALQUER CONHECIMENTO
O artista cria o seu próprio mundo imaginário. Este mundo fictício pode ser interessante e produzir emoções estéticas, pode fascinar-nos, arrebatar-nos, comover-nos, mas quando lemos um poema e uma novela não é do mundo real que se trata.
De uma forma mais extrema esta perspectiva surge no discurso daquele que diz: «Eu nunca leio ficção. Para quê ler coisas acerca de gente que não existe?» Romances, peças de teatro, poemas contêm personagens e lugares que são fictícios e as afirmações que surgem acerca desses personagens e lugares não devem ser consideradas como afirmações verdadeiras acerca do mundo real.
PERSPECTIVA 2 - AS OBRAS LITERÁRIAS CONTÊM CONHECIMENTOS, MAS EXPÕEM AQUILO QUE NÓS JÁ SABEMOS
Esta perspectiva mais moderada continua, contudo, a defender a tese de que a literatura não é uma fonte de conhecimento. Para ela, compreender o que um romance ou um poema nos diz exige o contributo de conhecimentos ou crenças que já possuímos acerca do mundo real por mais simples e comuns que elas sejam. Não adquirimos conhecimentos sobre a vida a partir da literatura. Bem pelo contrário chegamos ao encontro com a obra literária já equipados com grande variedade de conhecimentos e se não os possuirmos a obra de arte será incompreensível.
Esta perspectiva tal como a primeira partilha a seguinte ideia: nenhuma obra literária
deve ser avaliada enquanto obra artística com base no seu conteúdo informativo. Um romance, por exemplo, deve ser avaliado nos seus méritos pura e simplesmente artísticos, i.e., como romance e não como possível documento social.
PERSPECTIVA 3 - A LITERATURA É UMA FONTE DE CONHECIMENTO DO HOMEM E DO MUNDO.
Os defensores desta perspectiva apresentam, entre outros, o exemplo das obras literárias de um célebre escritor russo, Dostoiewsky. Além de grande escritor, Dostoiewsky é considerado um grande psicólogo, que de uma forma literária nos dá a conhecer as profundidades do psiquismo humano. Na sua obra Crime e Castigo podemos aprender o modo como o orgulho, a humilhação, a raiva e o ressentimento, se podem transformar em forças maléficas que se alimentam umas às outras e dão energia a ideias de grandeza desmedida e de desprezo pelos outros. Podemos aprender como sob o disfarce de uma inocente preocupação maternal se procura manipular as ideias e sentimentos dos filhos, orientar e dirigir autoritariamente a sua vida. Podemos compreender como a passividade do filho pode ser uma resposta definitiva à tentativa da mãe de o controlar através de exemplos de auto-sacrifício e acusações indirectas. Podemos compreender como alguém perturbado por estes comportamentos passivos procurará ultrapassá-los através da libertação da violência acumulada. As penetrantes análises psicológicas de Dostoiewsky levaram alguns comentadores da sua obra a considerá-lo como um precursor de Freud - o criador da psicanálise. Mais, afirmou-se que todas as penetrantes análises do psiquismo inconsciente divulgadas por Freud já estavam de algum modo presentes no grande escritor russo.

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