sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

DIÁLOGO SOBRE OS VALORES

Diálogos sobre a teoria dos valores
Paulo Andrade Ruas




Diálogo 1
O que são valores


Pedro: Julgo saber o que é um facto. Mas o que são os valores?
Joana: Não é muito difícil.
Pedro: Então explica.
Joana: Tenho a certeza que concordas com isto: os valores reflectem aquilo que achamos que é importante e significativo na nossa vida. Damos importância à honestidade, à democracia, à liberdade, à beleza, por exemplo. Todas estas coisas têm valor para nós. Queremos que elas façam parte da nossa vida.
Pedro: Concordo.
Joana: Então concordas que uma pessoa que dê importância à honestidade oriente a sua vida de forma honesta. Os valores são critérios de acção porque servem para guiar as nossas acções e decisões. Se um político acreditar realmente no valor da democracia, não fará nada para a limitar – por exemplo, aprovando leis que a ponham em causa. Os valores dirigem as nossas acções.
Pedro: Queres dizer que mesmo sem termos consciência disso, os valores dizem-nos como devemos agir? Por exemplo, que não devemos permitir a aprovação de leis que diminuam a democracia se acreditamos no seu valor, ou que não devemos mentir se acreditamos no valor da honestidade, etc.?
Joana: Os valores são critérios de acção. Critérios com base nos quais orientamos a nossa vida e tomamos decisões.
Pedro: Queres, então, dizer que um critério é uma espécie de regra que seguimos para fazer determinada coisa? Os árbitros, quando dirigem um jogo, têm critérios. Não o fazem ao acaso, só porque lhes apetece. As faltas são marcadas de acordo com certas normas ou regras fixadas antes.
Pedro: Julgo que percebi. Quando escolhemos dizer a verdade em vez de mentir, por exemplo, estamos a usar como critério a honestidade para decidir o que fazer. Quando um pintor usa certas cores e formas está a decidir em função de certos valores estéticos, como a beleza e a harmonia. A honestidade, a beleza etc. são algo a que damos importância e que queremos que esteja presente na nossa vida.

Diálogo 2

Fazer ou formular um juízo

Pedro: Parece que há uma diferença entre formar um juízo sobre um facto e formar um juízo sobre questões que envolvem valores. Mas não estou certo de perceber bem o que é um juízo. Consegues dizer-me?
Joana: Suponho que sim. Formar um juízo sobre um assunto é a mesma coisa que formar uma opinião. Formular um juízo significa emitir ou dar uma opinião. Dizer que Picasso foi um grande pintor, significa que, no meu juízo ou opinião Picasso foi um grande pintor. Como vês, não é difícil.
Pedro: Muito bem. Avancemos.

Diálogo 3

Juízos de facto e juízos de valor

Pedro: Os valores são critérios que usamos para orientaras nossas escolhas e decisões. Esta ideia já ficou clara. Mas os valores também estão presentes quando avaliamos os outros e as suas acções.
Joana: Exacto.
Pedro: Se eu disser que um quadro é bonito, estou a avaliá-lo esteticamente, e o mesmo se passa se disser que um deputado é honesto: também estou a avaliá-lo, só que desta vez no plano moral.
Joana: Acho que tens toda a razão. Os juízos de valor servem precisamente para exprimirmos as nossas avaliações.
Pedro: Dar uma opinião é o mesmo que dizer o que penso, não é? Estou a dizer como é que avalio as coisas.
Joana: Nem sempre. Ao formares uma opinião sobre a forma da Terra estás a limitar-te aos factos. Ao dizeres que a Terra é redonda estás apenas a constatar como as coisas são. Não há avaliação.
Pedro: Humm… E se disser que o 25 de Abril trouxe a democracia a Portugal? Parece-te um juízo de facto?
Joana: Sem dúvida. Não estás a avaliar esse facto, não disseste se isso ter acontecido foi uma coisa boa ou má. Estás apenas a descrever algo que aconteceu. Limitas-te a constatar o que se passou.
Pedro: Estou a ver. O que distingue os dois tipos de juízos é que os juízos de valor servem para fazer avaliações com base em valores. Se eu disser que o João é honesto, por exemplo, estou a avaliar o seu comportamento com base na honestidade. Estou a dizer que o João é uma pessoa como deve ser.
Joana: Concordo.
Pedro: Por sua vez, os juízos de facto servem para descrever a realidade tal como ela é. Não avaliam nada.
Joana: Exacto. Os juízos de facto limitam-se a dizer como as coisas são, sem fazerem qualquer avaliação. Dizer que a pena de morte é aplicada na China ou nos Estados Unidos, serve apenas para constatar factos.
Pedro: Só estarias a fazer uma avaliação se acrescentasses que a pena de morte é injusta, por exemplo. Os juízos de valor dizem como, de acordo com os nossos valores, as coisas deviam ser. Se pensas que a pena de morte é injusta é porque achas que ela não devia existir! Nada mais óbvio.
Joana: Deixa-me pegar outra vez no exemplo só para resumir. Um juízo de facto como “A pena de morte é aplicada na China” é apenas descritivo: limita-se a dizer como as coisas se passam na China.
Pedro: Certo. 
Joana: Mas um juízo de valor como “A pena de morte é injusta” não é apenas descritivo: faz uma avaliação. Diz-nos como as coisas deviam ser. Diz-nos que a pena de morte não deveria existir. Ora, ao dizermos como as coisas deviam ser, estamos a usar um critério de valor para fazer a nossa avaliação. Neste caso, o critério é a justiça. Quando há avaliação têm de existir critérios.
Pedro: Isso quer dizer que os juízos de valor, ao permitirem-nos fazer avaliações, reflectem-se certos critérios ou normas. As normas com base nas quais avaliamos. Critérios estéticos (como a beleza, por exemplo), morais (como a honestidade, a justiça, etc.) e outros. Os juízos de valor são, portanto, normativos.
Joana: Exacto. Os juízos de facto dizem apenas como as coisas se passam: são descritivos. Os juízos de valor, pelo contrário, fazem uma avaliação: dizem como as coisas deviam ser; são normativos.

Diálogo 4

Juízos de facto, valores de verdade e objectividade

Joana: Concordámos que os juízos de facto dizem como as coisas se passam na realidade. Mas ao fazer uma descrição podemos enganar-nos.
Pedro: Claro que podemos. Onde queres chegar com isso?
Joana: Um juízo de facto pode ser verdadeiro ou falso. Ainda hoje há pessoas que pensam que a Terra é plana.
Pedro: Certo. Há dois valores de verdade: o verdadeiro e o falso.
Joana: Estava a pensar que há uma certa relação entre um juízo ser descritivo e ser verdadeiro ou falso. Na realidade, acho que apenas um juízo descritivo pode ter valor de verdade. Se não for descritivo, não pode.
Pedro: Explica-te melhor.
Joana: O que é descrever? Descrever é indicar as características que algum objecto, pessoa ou situação supostamente têm.
Pedro: Certo.
Joana: Ao descrever, estamos a afirmar que as coisas são de uma certa maneira, que têm certas características.
Pedro: Já percebi. Só estou a dizer uma verdade ou uma falsidade se estiver a afirmar alguma coisa. Ou a descrever.
Joana: Portanto, os juízos de facto têm valor de verdade porque são descritivos.
Pedro: Concordo.
Joana: Agora repara. A verdade ou falsidade de um juízo de facto não dependem da opinião ou ponto de vista de quem o faz.
Pedro: Dá um exemplo.
Joana: É verdade que a Terra gira em volta do Sol. E isso já era assim quando as pessoas pensavam o contrário. Este juízo ser verdadeiro não depende da opinião que alguém possa ter. Quem pensar o contrário está errado e ponto final – mesmo que não lhe pareça. Não achas que é assim?
Pedro: Claro. Como poderia pensar o contrário?
Joana: Há uma importante diferença entre aparência e realidade. Quando um juízo se refere à realidade tal como ela é, e não ao modo como o sujeito a interpreta ou lhe parece que ela é, o juízo é objectivo. Posso pensar que o Sol gira em torno da Terra mas não é isso que se passa objectivamente.
Pedro: Quando falamos em verdade objectiva referimo-nos às características que os objectos de facto têm, e não às características que nos parece que têm. Às vezes, esta diferença passa despercebida.
Joana: Podemos, então, dizer que os juízos de facto são objectivos porque a sua verdade ou falsidade depende de como a realidade é e não da perspectiva ou opinião do observador. Que achas?
Pedro: Concordo.
Joana: Julgo, então, que chegámos ao fim da nossa análise sobre os juízos de facto: vimos que são totalmente descritivos, que têm valor de verdade, e a sua verdade ou falsidade depende de como a realidade é e não da opinião ou ponto de vista de cada pessoa: são, portanto, objectivos.
Pedro: Óptimo. Parece-me que chegámos ao fim.

Diálogo 5

Juízos de valor e sentimentos: o emotivismo

Joana: Vimos que os juízos de valor são normativos. Que ao dizer que o João é honesto quero dizer que ele é uma pessoa como deve ser. Estou a avaliá-lo com base em critérios ou normas morais.
Pedro: E então?
Joana: Parece-me que, associado a este aspecto, há ainda outro.
Pedro: Qual?
Joana: Ao dizer que o João é honesto estou a exprimir o meu sentimento de agrado por o João ser uma pessoa como deve ser.
Pedro: Estou de acordo. A tua avaliação reflecte agrado. Se pensasses o contrário, reflectiria desagrado.
Joana: Alguns filósofos pensaram que a função dos juízos de valor consiste apenas em exprimir os nossos sentimentos de agrado ou de desagrado a respeito de determinadas situações ou acções. Não reflectem conhecimento; reflectem apenas o que sentimos (as nossas atitudes) sobre certas coisas.
Pedro: Queres dizer que os juízos de valor não servem para comunicar conhecimentos? Que não são verdadeiros nem falsos?
Joana: Quero dizer que os juízos de valor não servem para mais nada excepto para manifestar aos outros as nossas atitudes e sentimentos. Para as manifestarmos, por assim dizer, publicamente. Ao dizer que o João é honesto não estou a afirmar algo; estou apenas a exprimir um sentimento.
João: Qual é a diferença?
Joana: Expressar uma emoção ou sentimento é muito diferente de fazer uma afirmação. Ao vestir-me de luto estou apenas a expressar tristeza e dor; não estou a afirmar seja o que for; não é a mesma coisa que sentar-me e descrever dor que sinto a alguém escrevendo-lhe uma carta, por exemplo.
Pedro: Estou a perceber onde queres chegar. Se dizer que o João é honesto servir apenas para expressar o meu sentimento de agrado pelo João, este juízo de valor é como dar um salto de contentamento ou dizer “Viva o João!” por ele ser uma pessoa como deve ser. Não estou a afirmar nada.
Joana: O que estarias a dizer não seria verdadeiro nem falso. Logo, os juízos de valor não são verdadeiros nem falsos.
Pedro: Mas isso é estranho. Porque se eu disser que o João é honesto, parece que estou a dizer uma verdade.
Joana: Sim. Se interpretarmos os juízos de valor deste modo teremos de concluir que não existem verdades ou falsidades morais. Chamam-se emotivistas os filósofos que defenderam esta ideia.
Pedro: Estou a ver onde queres chegar. Para um emotivista, a diferença entre juízos de valor e juízos de facto é muito radical. Os juízos de valor, além de não serem descritivos, também não têm valor de verdade.
Joana: Exactamente. No domínio moral haveria apenas diferentes sentimentos e atitudes, mas não verdades. Por exemplo, não seria verdadeiro ou falso dizer que «o aborto não é errado em algumas circunstâncias», por exemplo. Esta frase apenas manifesta uma atitude (um sentimento).

Diálogo 6

Avaliação crítica da teoria emotivista

Pedro: Não estou de acordo com a ideia de que os juízos de valor não são verdadeiros nem falsos. Um juízo como “A pena de morte é injusta” não apenas expressa um sentimento como comunica uma verdade. Claro que ao emitir este juízo estou a expressar desagrado; mas não estou apenas a fazer isso. Além de expressar um sentimento, estou a dizer algo verdadeiro (ou falso).
Joana: Concordo.
Pedro: O problema é que não consigo identificar claramente o que há de errado com a teoria emotivista.
Joana: Imagina que não te apetece fazer determinada coisa. Não te apetece, por exemplo, deixar de fumar. Tens, portanto, um sentimento desfavorável acerca de deixar a fumar. Nesse caso, se fores um emotivista, nunca poderás dizer “Não fumar é um bem”. Terás de defender o contrário.
Pedro: Julgo que percebi. Dizer que “Fumar é um bem” significa apenas, para um emotivista, expressar um sentimento favorável acerca de fumar. Mas fumar não pode ser um bem, visto que prejudica o organismo.
Joana: Um emotivista não poderá dizer que uma coisa é um mal se estiver inclinado a fazê-la (ou seja, se tiver um sentimento favorável a seu respeito) incluindo quando isso lhe seja prejudicial.
Pedro: Estou a perceber. Mas fumar é um mal mesmo que nos apeteça fazê-lo. Mesmo que tenha um sentimento favorável acerca de continuar a fumar não posso deixar de reconhecer que estou a prejudicar-me. Ora, tudo o que me prejudique é um mal. É a razão que me diz que isso me prejudica.
Joana: Para um emotivista, a razão não desempenha um papel importante. Apenas contam os sentimentos. Mas, neste tipo de casos, é a razão (e não os sentimentos) que me faz saber onde está o bem.
Pedro: Não são só os sentimentos que têm um papel a desempenhar nas nossas avaliações: a razão também.
Joana: Os emotivistas estão errados.
Pedro: Os emotivistas estão errados porque podemos ter sentimentos favoráveis acerca de uma coisa (a pena de morte, por exemplo) e ser um mal praticá-la. Sentir agrado pela pena de morte não chega para fazer dela algo de moralmente correcto. Pelas mesmas razões, ter um sentimento desfavorável em relação à pena de morte não chega para provar que a pena de morte está errada.
Joana: Exacto. Há mais nos juízos de valor do que apenas sentimentos. Os sentimentos são importantes mas não são tudo.



Diálogo 7
Juízos de valor e sentimentos: o subjectivismo


Pedro: Não temos de concordar com tudo o que os filósofos dizem. Mas numa coisa parece terem razão: na hipótese de os juízos de valor servirem apenas para exprimir sentimentos, não há verdades morais, estéticas, etc. Para haver verdades morais, os juízos de valor não podem ter só essa função.
Joana: Concordo.
Pedro: Pela minha parte, acho que ao dizer que o João é honesto estou a transmitir um sentimento de agrado mas também estou a dizer uma verdade. Estou a descrever o tipo de sentimento que tenho pelo João. Não é um sentimento qualquer. É um sentimento favorável ao João.
Joana: Achas então que, além de normativos, os juízos de valor são em parte descritivos. É isto?
 Pedro: Julgo que sim. Ao dizer que o João é honesto é como se estivesse a falar também de mim próprio, da minha experiência interior (dos meus sentimentos). Estou a descrever o que sinto.
Joana: Quando digo que o João é honesto não é como se estivesse apenas a dizer “Viva o João!” ou “Hurra pelo João!” como defendem os emotivistas. Estou a falar sobre mim próprio, estou a dizer algo do tipo “Gosto da atitude do João” ou, mais simplesmente, “Sinto agrado pelo João”. 
Pedro: Se bem me lembro, os filósofos que defendem essa ideia, são os subjectivistas. Estou a dizer bem?
Joana: Estás. Os subjectivistas pensam que os juízos de valor também podem ser verdadeiros ou falsos, como os juízos de facto.
Pedro: Neste aspecto não há, então, uma diferença?
Joana: Há sim. Lembra-te que os juízos de facto são objectivos. Não dependem do ponto de vista do observador. Se uma pessoa disser que aquela mesa é rectangular e outra disser que a mesa é quadrada, uma delas está obrigatoriamente errada. Uma mesa não pode ser ao mesmo tempo rectangular e quadrada. Isto é um dado objectivo. Estas pessoas não podem ter ambas razão.
Pedro: Certo.
Joana: Mas, se os subjectivistas tiverem razão, uma pessoa que diga “A eutanásia é injusta” está apenas a dizer algo como “Não gosto que a eutanásia seja aplicada”, ou seja, está apenas a descrever o que sente, que tem sentimentos negativos acerca da eutanásia. E se estiver a ser sincera, isso é verdade. Mas uma pessoa que diga “Permitir a eutanásia é uma questão de justiça” também estaria a falar apenas dos seus sentimentos. Neste caso, estaria a dizer que tem um sentimento positivo em relação à eutanásia. Como a primeira, se estiver a ser sincera, é verdade o que diz.
Pedro: Portanto, ambas podem estar a dizer a verdade. A verdade seria puramente subjectiva. Dependeria unicamente do modo como cada pessoa (ou talvez cada sociedade) vê ou sente as coisas.
Joana: Exacto.
Pedro: Em resumo: para os subjectivistas, há verdades morais mas cada um pode ter a sua, e nenhuma é melhor do que qualquer outra. Tudo depende do ponto de vista. A moral não tem de ser a mesma para todos. Pessoas diferentes ou sociedades diferentes podem ter morais diferentes. É isto?
Joana. Sim. Percebeste bem. Ninguém está objectivamente certo ou objectivamente errado em questões de valores.
Pedro: Resumindo. Para os subjectivistas, a diferença entre juízos de valor e juízos de facto não é a mesma que os emotivistas defendem. Os subjectivistas pensam que os juízos de valor são em parte descritivos e têm valor de verdade. Só que a sua verdade não é objectiva. Varia de acordo com o ponto de vista.


Diálogo 8
Juízos de valor e objectividade


Joana: Não sei se consigo levar a ideia a sério. A mim parece-me que se eu disser que o aborto é moralmente aceitável e outra pessoa disser que o aborto é errado, um de nós tem de estar certo e o outro errado.
Pedro: Queres dizer que podes sentir agrado por uma coisa e estares enganado quanto ao seu real valor?
Joana: Talvez sim. Quero dizer que acredito na existência de verdades morais como acredito que a Terra é redonda. Que isso não pode depender, em caso algum, apenas do ponto de vista de cada pessoa ou cultura.
Pedro: Humm …. Mas, nesse caso, se podemos sentir agrado pela eutanásia, por exemplo, e estarmos enganados quanto à avaliação que fazemos dela, os valores não dependem apenas dos sentimentos. Terão de depender de outra coisa. É isso que dizem os realistas em matéria de valores.   
Joana: Sim, os realistas, ou objectivistas, são aqueles filósofos que acham que, bem analisadas as coisas, a diferença entre juízos de facto e juízos de valor não é tão grande como os outros filósofos (emotivistas e subjectivistas) pensam. Afinal, ambos são descritivos (os juízos de valor apenas em parte, na outra parte são também normativos), ambos têm valor de verdade, e em ambos os casos esse valor de verdade não depende da opinião ou ponto de vista de cada um, pessoa ou cultura.
Pedro: Não concordas? Porquê?
Joana: Não é fácil responder a isso com segurança.
Pedro: Tenta.
Joana: O problema é o seguinte. As pessoas que acreditam em verdades morais objectivas acham que certas práticas são tão odiosas e repugnantes que apenas os preconceitos de certas sociedades permitem que as pessoas não reparem nisso. Mas, se formas além do que a maioria das pessoas pensa, se usarmos a nossa própria razão e sentido crítico, poderemos ver que essas práticas estão erradas. Não estão erradas apenas para mim. Estão objectivamente erradas. 
Pedro: Dá exemplos.
Joana: A excisão, por exemplo. A mutilação do clítoris que certos povos africanos têm o hábito de fazer às raparigas. Eu penso que é profundamente errado fazer isso, pensem essas pessoas o que pensarem.
Pedro: Pelos nossos padrões culturais, sem dúvida. Esse acto repugna profundamente a minha sensibilidade. Mas não acho que apenas o preconceito impeça esses povos de verem o que a mim parece razoável. A minha ideia do que é racional ou razoável nesta situação depende da forma como a minha sensibilidade foi educada. A razão está ao serviço dos meus sentimentos, isto é, reflecte o modo como os nossos valores e práticas culturais moldaram a nossa forma de sentir.
Joana: Eu gostaria que a excisão deixasse se existir. Todas essas práticas só criam sofrimento inútil.
Pedro: Também eu. E é isso que irá acontecer, mais cedo ou mais tarde. Os padrões ocidentais estão a ser adoptados em todas as partes do mundo em consequência da globalização, que começou há dois séculos. É de esperar que a sensibilidade desses povos vá mudando. Já está, aliás, a mudar.
Joana: Gosto do teu optimismo. Mas, segundo dizes, não é a razão que comanda o processo de mudança.
Pedro: Pois não. É o desenvolvimento histórico das relações e práticas sociais, o modo como os homens produzem as suas condições de vida, ou seja, a globalização. Os nossos padrões e valores tenderão a ser adoptados por todos os povos que substituírem o seu modo de vida pelo nosso.
Joana: Não estou convencida. É preciso pensar mais no assunto.





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