terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

FILMES SOBRE O PROBLEMA DA FUNDAMENTAÇÃO DA MORAL 2 - HÁ LODO NO CAIS - ON THE WATERFRONT

FILME 2 – HÁ LODO NO CAIS

Realização: Elia Kazan
Actores: Marlon Brando; Karl Malden
Música: Leonard Bernstein
Duração: 108 min.
Ano: 1954


SINOPSE
O filme começa com um duplo assassinato nas docas de Nova York. Dois trabalhadores apareceram mortos. A investigação tem início mas ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. As condições de trabalho no cais são duras e o desemprego uma ameaça constante. Os patrões das docas não eram pessoas fáceis e os sindicatos procuravam defender os trabalhadores e os seus interesses. Mas à medida que o filme avança, o que poderia parecer uma história entre bons e maus começa a tornar – se mais complexo. Como acontece normalmente, a realidade não é a preto a branco. Os sindicalistas, ou melhor, alguns dos chefes dos sindicatos, estavam mais interessados em manter os seus privilégios do que os direitos dos trabalhadores. E isso traduzia-se em acções que prejudicavam os próprios trabalhadores. Todos estavam ao corrente do que acontecia. Eram como regras não escritas nem legais, mas o medo de perder o emprego não lhes permitia denunciar a situação. E como os que tinham sido mortos, tinham ousado pôr em causa isso, o medo instalara-se. Para os patrões esse estado de coisas também não era mau pois assim conseguiam ter sempre trabalhadores obedientes e que não levantavam problemas.
Surge então o personagem interpretado por Marlon Brando, num dos seus melhores papéis. Ele sabia o que acontecera e decidira, tal como os outros, não fazer nada. Mas ao conhecer a irmã de um dos assassinados, e confrontado com a injustiça de todo o sistema, decide actuar. É encorajado por amigos, mas tem consciência de que todas as consequências das suas acções recairão sobre si. É então que se joga não só o seu destino, como igualmente o de todos os colegas. Decide avançar, mas o preço a pagar será elevado.
Descrição
Johnny Friendly (Lee J. Cobb) é um gangster que actua nas docas de Nova Iorque. É também o chefe do sindicato, sendo assessorado por Charley Malloy (Rod Steiger), um advogado sem escrúpulos. Os dois usam um ex-boxeur, Terry Malloy (Marlon Brando), irmão de Charley, para atrair Joey Doyle (John F. Hamilton) até a um telhado, onde o empurram para a morte. O motivo do assassinato era impedi-lo de falar perante a Comissão do Crime. A vítima era um delator e, para quem controlava o sindicato, merecia morrer.
Terry atraiu Joey com uma certa dose de inocência, pois acreditava que iam só dar-lhe pancada ou atemorizá-lo. Edie Doyle (Eva Marie Saint), irmã do homem assassinado, revelou toda a sua revolta quando o padre Barry (Karl Malden) dava os últimos sacramentos a Joey. No dia seguinte, Glover (Leif Erickson) e Gillette (Martin Balsam), dois membros da comissão que investiga o crime nas docas, querem interrogar Terry, mas este diz que não tem informação alguma a dar-lhes. Após conhecer e conviver com Edie, Terry começa a sentir-se responsável pela morte de Joey. O padre Barry cede a igreja para os trabalhadores portuários se reunirem com segurança. Na reunião, o padre pergunta quem matou Joey Doyle. O medo faz com que todos mantenham o silêncio.
Lá fora, os capangas de Johnny começam a partir os vidros da igreja. Os poucos que tiveram coragem de ir à reunião são atingidos com canos e tacos de basebol ao saírem da igreja. Barry jura a "Kayo" Dugan (Pat Henning), um dos trabalhadores portuários com maior influência, que não se deixará intimidar com a agressão. Edie, entretanto, foi retirada da igreja por Terry. O pai de Edie detestou saber que a filha estivera com o irmão de Charley. Está ansioso que Edie volte para o colégio, mas ela diz que não partirá até que a morte do irmão seja esclarecida. A situação torna-se muito tensa quando Dugan decide cooperar com a comissão e, enquanto trabalhava, uma pesada caixa de whisky irlandês "acidentalmente" cai-lhe em cima, matando-o.
Ao lado do cadáver de Dugan, o Padre Barry exorta os trabalhadores das docas a apoiarem-no e demonstra o seu empenho ao discursar firmemente enquanto alguns dos cúmplices de Friendly lhe atiram fruta podre e latas de cerveja. A pregação de Barry resume-se a dizer que a morte de Dugan foi semelhante a uma crucificação. Abatido, Terry retira-se nessa noite para os telhados onde estão as gaiolas com pombos. Edie encontra-o e beijam-se de forma apaixonada. No dia seguinte, Terry confessa ao padre Barry o seu envolvimento na morte de Joey. O padre convence-o a contar a verdade a Edie, a irmã de Joey. É o que Terry faz com relutância. Destroçada, Edie foge dele.
Junto ao telhado, um membro da Comissão do Crime conversa com Terry sobre os prémios que recebia quando era boxeur. Cá em baixo, preocupado, Johnny Friendly pressiona Charley para assegurar que o seu irmão não vai colaborar com a Comissão. Quando os dois irmãos se encontram, as suas diferenças tornam-se manifestas. Terry quer que o seu irmão o ajude mas Charley só está preocupado em assegurar o silêncio do irmão. Num momento mais aceso, Charley aponta uma pistola a Terry que calma e tranquilamente a afasta. Charley relembra ao irmão os tempos em que era boxeur. Terry, por sua vez, relembra-lhe como foi obrigado a perder um combate para beneficiar Johnny Friendly. Lamenta que se Charley não tivesse traído, teria sido um grande campeão, e não um perdedor, como agora é. Depois da conversa, Terry corre para a casa de Edie. Charley é levado à presença de Friendly. Terry força a entrada da casa de Edie e beija-a. Alguém o chama entretanto da rua. Ele e Edie evitam um carro em alta velocidade e dão com Charley enforcado por não ter conseguido convencer o seu irmão a ficar calado. Jurando vingar a morte do irmão, Terry corre para o bar de Johnny Friendly, empunhando uma pistola. O padre Barry repara nele e vê que está bêbado e confuso. Terry amaldiçoa-o e o padre esmurra-o dizendo-lhe que não deve descer ao nível de Johnny Friendly, uma vez que se o matar levará a cabo a justiça à moda dos bandidos e não obterá qualquer protecção legal. Tenta convencê-lo de que a acção correcta a fazer é testemunhar contra os corruptos líderes dos sindicatos. Por fim, Terry concorda.
No dia seguinte Terry testemunha perante a Comissão do Crime. De regresso a casa é protegido por alguns polícias e insultado pelos seus antigos amigos. Tommy, o rapaz seu vizinho, matou todos os seus pombos. Sabendo o que tem a fazer para afirmar a sua identidade e reclamar a sua independência, Terry agarra o blusão de Joey Doyle no apartamento de Edie e em passo acelerado desloca-se pelas docas, observado por todos os trabalhadores. É então que chama por Johnny Friendly e anuncia bem alto que vai libertar-se da opressão dos mafiosos e tornar-se independente. Segue-se uma luta entre Terry e Johnny. Quando a luta faz com que os dois saiam do campo de visão dos trabalhadores das docas, os capangas de Johnny aparecem e espancam Terry impiedosamente. Os cúmplices de Johnny impedem uma reacção dos trabalhadores que, na verdade, não davam sinais de querer ajudar o agredido. Por fim, Edie e o padre Barry encontram Terry em muito mau estado. O padre exorta Terry a levantar-se para ser um modelo de força e de coragem para os outros trabalhadores. Terry levanta-se por si só com grande dificuldade, bastante aturdido e magoado. Sobe a rampa e olha para as docas dando a entender que está pronto para um honesto dia de trabalho. Inspirados pela sua coragem, os trabalhadores seguem o seu novo líder enquanto Johnny Friendly barafusta em vão.
ACTIVIDADES SOBRE O FILME
1. O filme sugere que o valor moral de uma acção pode estar associado às intenções com que é praticada bem como às consequências que dela resultam. Explique esta ideia.

R: Sabemos que as acções têm origem nas intenções dos agentes. Por outro lado, sabemos que as nossas acções têm consequências não só para o próprio agente como para os outros. Algumas consequências são boas, outras más. Isto sugere que o valor moral das acções pode depender quer das intenções com que foi praticada quer das suas consequências.

2. O peso que se deve atribuir às intenções e às consequências está na origem de uma distinção entre tipos de moral. O que distingue as éticas deontológicas das éticas utilitaristas?

R: Chamam-se deontológicas as teorias que fazem depender o valor moral das acções das intenções do agente. São chamadas consequencialistas as teorias que defendem que o valor moral das acções depende unicamente das consequências que delas possam resultar. As teorias deontológicas tendem a considerar que agir moralmente consiste em cumprir o dever pelo dever; as mais importantes teorias consequencialistas defendem que agir moralmente consiste em optar sempre pelas acções que previsivelmente maior bem-estar proporcionem a todos os envolvidos.
3. Que dilema moral é vivido por Terry Malloy?
R: Terry Malloy tem de decidir se vai contar a verdade ou se vai permanecer leal a Johnny e ao seu irmão Charley. Tem duas alternativas: ou informa a Comissão do Crime sobre os crimes do corrupto sindicato dos trabalhadores portuários - o que porá em risco o seu emprego e a sua vida - ou permanece calado ocultando o que sabe especialmente sobre o assassinato de Joey - o que pesará na sua consciência atormentando-o e eventualmente estragando a sua relação com Edie. Depois de expulso do mundo do boxe onde, ao que parece, poderia ter sido alguém, Terry sente-se grato a Johnny e ao irmão por lhe terem arranjado um emprego que lhe permitiu sobreviver. Sente um dever de lealdade para com eles, dever esse reforçado pela lei das docas que abomina os denunciantes. Mas, por se sentir em parte responsável por um assassinato que não previra, vive com um peso na consciência.
4. Quem contribui decisivamente para que Terry comece a ter problemas de consciência?
R: Podemos dizer que é o padre Barry que também contribui para que esse peso aumente, tentando convencê-lo de que há valores mais fundamentais do que a lealdade a gangsters. Denunciar a injustiça, sejam quais forem as consequências, é para o padre a escolha moral correcta.
5. O que contribui para que a lealdade de Barry comece a enfraquecer claramente e permite que se assista a uma espécie de conversão moral?
R: A lealdade aos mafiosos, liderados por Johnny Friendly e pelo seu irmão, Charley, enfraquecera com o crime testemunhado por Terry. As tácticas de persuasão do padre Barry e o seu crescente afecto por Edie distanciam-no gradualmente do mundo do crime. Quando o seu irmão é morto pela Máfia como um aviso de que não deve testemunhar, a sua conversão completa-se. Testemunha contra os gangsters que tiranizam o cais e torna-se persona non grata.
6. Imagine que Kant assistia ao filme. Diria que Terry agiu por dever?
R: Não. O que de acordo com Kant podemos dizer é que Terry cumpriu o seu dever mas por motivos que não o simples respeito pelo dever. Agiu em conformidade com o dever de dizer a verdade mas parece evidente que o fez para se sentir bem consigo, para não perder o amor de Edie e para não desiludir o padre Barry.
7. Na sua opinião, o facto de Terry não ter agido por dever retira valor moral à sua acção?
R: Kant pensava que todos os seres racionais encontram dentro de si mesmos o sentimento do dever. É este sentimento do dever que está na base da moral: só as acções praticadas por dever teriam valor moral. Mas Kant pensava ainda que é a razão que nos dita os deveres – isto é, que leis morais temos a obrigação de respeitar – e não, por exemplo, Deus ou os costumes da sociedade em que vivemos. Kant pensava que na base da moral não estão a religião nem os bons sentimentos. Terry agiu com base nos seus bons sentimentos e, sobretudo, agiu com coragem. Sabia que ao denunciar os mafiosos arriscava a sua vida. Mesmo que Kant, dado o seu rigor, não reconheça valor moral ao acto de Terry parece que temos boas razões para dele discordar. Esta parece uma limitação importante das éticas deontológicas – e também utilitaristas – que se centram excessivamente no princípio que determina a acção e não no carácter do agente. Insiste – se demasiado na moralidade da acção e não se reconhece devidamente como factor decisivo e valioso a moralidade do agente. Se o carácter ou a virtude das pessoas fossem o critério central da avaliação moral do que fazemos, seria descabido não atribuir grande valor moral ao que Terry fez.
8 – Afastando-nos um pouco do que é narrado no filme, imagine as duas seguintes situações:
A – Terry decide - sem qualquer pressão externa mas porque considera que esse é o seu dever e nada mais – denunciar as acções criminosas dos mafiosos. No entanto, é assassinado e as coisas continuam como dantes nas docas.
B - Terry decide - sem qualquer pressão externa mas porque considera que esse é o seu dever e nada mais – denunciar as acções criminosas dos mafiosos. É bem sucedido, os criminosos são presos, os trabalhadores portuários agradecem-lhe e uma nova era começa nas docas sem ameaças, extorsões de dinheiro e selecção arbitrária de quem vai ou não trabalhar.
A que acção atribuiria Kant mais valor moral?
R: Ambas as acções teriam igual valor moral porque para Kant as acções valem pelo sentido do dever que as motiva – a vontade de cumprir o dever por que o dever é que importa – e não pelas suas consequências. Uma não é moralmente mais louvável do que outra.

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