sábado, 26 de fevereiro de 2011

NIETZSCHE 5 - A GÉNESE (I) MORAL DA METAFÍSICA OCIDENTAL

A GÉNESE (I) MORAL DA METAFÍSICA OCIDENTAL
a)    A prova da vida separa os homens, i.e., distingue ou revela dois tipos de homens:
— Os fortes ou afirmativos
— Os fracos ou negativos
b)    O que caracteriza o homem forte? O sim à vida na sua totalidade, a afirma­ção que não nega nem rejeita a coexistência do sofrimento e do prazer, da dor e da alegria, querendo a vida tal como ela é.
O que caracteriza o homem fraco? A incapacidade de suportar a vida, o ódio à mudança e à incerteza, a convicção de que a vida é assim, mas não deve­ria ser assim
c)    Dizer que a vida não é como devia ser é desvalorizá-la. A desvalorização ra­dical surge quando se chega à afirmação de que há uma «outra vida», infini­tamente melhor, onde não há lugar para a dor, o sofrimento, a angústia e a morte. Uma dualidade ou divisão se estabelece: a vida que se deseja arden­temente («a outra vida») e a vida que não se pode suportar e que é um ca­minho de lamentações («esta vida»).
dj Quando se considera a «outra vida» superior e preferível a «esta vida» não se manifesta só o desejo de o homem fraco se consolar das derrotas da vida. A invenção da «outra vida» do «outro mundo» nasce do desejo de vingança sobre «este mundo», «esta vida». Que melhor vingança há do que transfor­mar o mundo que nos faz sofrer em mundo inferior, imperfeito?
e)    Foi Platão o primeiro a falar do dualismo cosmológico: aquilo que o Cristia­nismo popularizou sob o nome de «outro mundo», «o Além», «O Reino dos Céus» era na filosofia platónica o «mundo inteligível, das ideias», «o mundo do ser».
O «Aquém», o «mundo terrestre» da moral cristã, era em Platão o «mundo sensível», o «mundo do devir», imperfeito porque, ao contrário do inteligível, estava constantemente a sofrer transformações.
f)    Em Platão (Sócrates) encontramos as raízes do pensamento ocidental. Nietzsche diz que encontramos em Platão aquilo que é característico do pensamento metafísico. Segundo Nietzsche, o metafísico é o homem que, incapaz de en­frentar a realidade única (o mundo do devir), inventa um mundo que satis­faça os seus desejos de segurança, certeza e estabilidade, para nele se refugiar. Tal invenção é obra do ressentimento: o mundo do devir é desconcertante, muitas vezes cruel, gerador de angústia e sofrimento. Facilmente
se odeia «este mundo». Facilmente se esquece o que tem de bom e agradá­vel. Então imagina-se um «outro mundo» e chama-se-lhe «mundo do ser», da «verdadeira realidade», porque se concebe esse mundo como perfeito,  inalterável e imutável. O mundo que para o fraco é o mundo ideal, desejado transforma-se, para ele, em «mundo real». O mundo que, para o fraco, é in­suportável (o único mundo real) transforma-se em «mundo aparente», falso.
g) Nietzsche diz que este dualismo metafísico (mundo do ser-mundo do devir tem um fundamento, uma raiz moral. Por que razão se considera o «mundo do ser» como o mundo verdadeiramente real, o mundo da verdadeira vida7 O mundo sensível, o mundo do devir é instável, enganador, causa sofrimento e dor; vivê-lo é uma dura e dolorosa experiência. É um mundo mau. Porquê" Porque faz sofrer. Chama-se-lhe então mundo do mal. O mundo inteligível, o mundo do ser, é um mundo que se imagina como re­gular, constante, estável. Dele estão ausentes a morte a dor e a incerteza essas intoleráveis realidades. Se não faz sofrer, o «mundo do ser» é bom Chama-se-lhe então mundo do Bem.
Está descoberta a raiz moral da metafísica. O mundo metafísico, transcen­dente, i.e., o mundo do ser, é considerado o mundo verdadeiro não por ser verdadeiro ou real mas por ser agradável, bom. Imaginou-se um mundo bom, oposto ao insuportável e mau mundo do devir. Deu-se-lhe o nome de mundo do ser, da realidade verdadeira porque se julga que ele permite fugir ao sofri­mento. A divisão ou o dualismo mundo do ser-mundo do devir tem a sua ori­gem na divisão entre o que é bom e o que é mau, entre o bem e o mal. Como bem e mal são conceitos morais diremos que a metafísica ocidental, de raiz platónica, tem um fundamento moral. A metafísica é uma moral disfarçada.
h) Esta moral que se esconde na metafísica é extremamente imoral. Analisá­mos a génese do mundo do ser e desocultámos os valores a que ele corres­ponde (a vontade de repouso, a falta de coragem perante «esta vida», a incapacidade de criar). O homem que preza o «outro mundo» e despreza «este mundo», seja um grande pensador ou um homem comum, é o homem mi­nado pelo ressentimento acerca de uma realidade que considera má e des­prezível porque se sente cobarde perante ela. A genealogia (a análise da génese) da metafísica ocidental revelou que esta é um idealismo de doentes e medíocres, de seres decadentes, i.e., incapazes de afirmar a vida na sua totalidade. A imoralidade, i.e., a vontade de denegrir, de caluniar o sensível e o corpóreo está na raiz do mundo do ser.
i) Inventou-se o «mundo do ser», entenda-se o «mundo do Bem», para decla­rar o ódio ao mundo que não se consegue suportar. Inventou-se o mundo do Bem absoluto, e transformou-se o mundo do devir, no qual bem e mal coexistem e são indissociáveis, no mundo do Mal, no mundo completamente mau. Na base desta falsificação está o ressentimento. A criação de um mundo dito superior é uma revolta dos frustrados, dos fa­lhados, contra tudo o que a vida tem de bem sucedido. Negando uma reali­dade que a sua impotência transforma em mundo doloroso e insuportável, o fraco estabelece como realidade suprema aquilo que resulta do seu desejo de negar «este mundo»: «o outro mundo».
Como é que esta visão moralista da realidade se tornou dominante? Como é que a moral que nega a vida (a moral dos fracos e vingativos, a moral cristã) se tornou a moral da humanidade, melhor dizendo, do homem ocidental?

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