terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

FILMES SOBRE O PROBLEMA DA FUNDAMENTAÇÃO DA MORAL 3 - CRIMES E ESCAPADELAS DE WOODY ALLEN

Filme 3 - CRIMES E ESCAPADELAS


Título Original: Crimes and Misdemeanors
Género: Drama
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Ano de Lançamento: 1989.
Elenco: Bill Bernstein, Martin Landau, Claire Bloom, Stephanie Roth, Anjelica Huston, Woody Allen, Zina Jasper, Dolores Sutton.
Duração: 104 minutos.
SINOPSE
Um oftalmologista bastante reputado, Judah Rosenthal (Martin Landau), mantém um caso com Dolores (Anjelica Huston) há muitos anos. Dolores quer que Judah escolha finalmente entre ela e a mulher. Caso Judah não faça, Dolores ameaça contar tudo. O irmão de Judah, que tem alguns contactos com a Máfia sugere-lhe que mate a amante. A partir daí, cabe a Judah decidir se vale a pena ir tão longe para manter sua reputação limpa.
O filme conta ainda a história do cineasta Cliff Stern (Woody Allen), que decorre em simultâneo com a primeira. Cliff está a tentar fazer um documentário sobre um professor de filosofia mas, devido à falta de financiamento, aceita um convite para participar num filme do seu cunhado Lester (Alan Alda), um comediante bem-sucedido, que Cliff detesta.
Enquanto trabalha no filme de Lester, Cliff apaixona-se por Hallie Reed, uma produtora de televisão. Lester está também interessado nela. Usando muito bem os clichés do género, Allen constrói o cenário perfeito para que os personagens entrem em rota de colisão.

DESCRIÇÃO E COMENTÁRIO
Em Nova York, Judah Rosenthal é um respeitado oftalmologista, apreciado pela sua comunidade. Com a mulher, Miriam, e a filha, Sharon, que o amam, mora numa espaçosa casa. Apesar da vida confortável, Judah é um homem perturbado. Há vários anos que tem um caso extra-conjugal. Tem sabido mantê-lo secreto mas a sua amante Dolores, saturada de promessas não cumpridas apresenta-lhe um ultimato: ou abandona a mulher e enceta uma nova vida consigo ou Dolores denunciará o caso à esposa.
Ben, um jovem rabino, afectado por uma rara doença que a pouco e pouco lhe vai enfraquecendo a visão, é o confidente de Judah, que lhe conta todos os pormenores do seu adultério. Ben aconselha Judah a confessar e a pedir perdão à mulher. O jovem rabino diz que há uma «ordem moral do mundo» e que confessar e pedir perdão é o dever de Judah sejam quais forem as consequências. Contudo, Judah é um indivíduo moralmente céptico. Preocupam-no as consequências negativas de contar a verdade à esposa. Parece-lhe mais vantajoso deixar as coisas como estão desde que consiga convencer Dolores a não contar nada a Miriam.

Ao deixar o consultório, Judah procura Dolores e oferece-lhe dinheiro em troca do seu silêncio. Ultrajada, Dolores rejeita. Além de não aceitar a proposta, Dolores insiste em que Miriam precisa de conhecer melhor o marido que tem. Diante da situação, Judah procura a ajuda do irmão Jack, um indivíduo pouco respeitável que se dá com gente ainda menos respeitável. Sem meias palavras, este diz-lhe que a solução é mandar assassinar a amante e que, para isso, só precisa de sua ordem e de dinheiro. O médico acha a solução radical e não a aceita.

Desesperada, Dolores telefona a Judah no dia do aniversário deste. Informa-o de que está a telefonar de uma estação de serviço muito próxima de sua casa. Insiste em falar com Miriam. Aflito, Judah concorda em encontrar-se com ela. Inventa uma desculpa para abandonar subitamente a festa, a família e os convidados. Evita mais uma vez que Dolores produza estragos mas também se convence definitivamente de que Dolores não vai mudar de ideias. Nessa noite, depois de tanta agitação e desassossego, Judah relembra as palavras do rabino Ben. Aparentemente, Ben transformou-se na consciência moral de Judah, levando-o a hesitar em fazer o que o seu irmão lhe sugeriu. Mas «Jack vence Ben». Judah telefona a Jack perguntando-lhe de quanto dinheiro precisa para resolver o problema. Dias mais tarde, enquanto decorre outra festa na casa de Judah, Jack telefona dizendo ao irmão que o problema está resolvido. Pousando o telefone, Judah murmura: «Deus tenha piedade das nossas almas, Jack». Visivelmente afectado, regressa à festa e enche o copo. Mas está demasiado ansioso. Jack informara-o de que a «transacção financeira» tinha sido um «roubo que não correra bem». O que queria ele dizer? Saindo da festa Judah dirige-se para o local do crime. Encontra Dolores morta. Apodera-se de algumas fotografias eventualmente embaraçosas e da agenda da amante. A investigação policial conclui que o assassinato foi praticado por um criminoso comum que tentara roubar a vítima.

O rabino Ben, agora quase cego, pergunta a Judah se o seu problema pessoal já foi resolvido. A resposta é seca e afirmativa. Ben afirma que está aliviado e felicita-o. Sentindo-se culpado pelo crime e envergonhado por ter mentido ao rabino, Judah vai dar uma volta de carro. Devido a um impulso do momento, para em frente da sua casa de infância. O actual proprietário permite que o oftalmologista reviva algumas das suas recordações e episódios da infância. Conforme vai circulando pela casa, as memórias regressam. Em especial, recorda uma conversa ao jantar entre o seu pai – um rabino – a sua tia e alguns convidados frequentadores da sinagoga. O problema em discussão era se havia ordem moral no mundo, se as boas acções eram compensadas e as más castigadas. Em suma, se havia justiça moral. Saul, o pai de Judah e a irmã – a sua tia Mae – tomam posições opostas. Mae perguntou a Saul: «Tens medo de que se não fizeres o que deves, se infringires a normas, Deus te castigará?». Saul retorquiu: «Deus não me punirá. Ele só castiga os maus». De modo sarcástico, Mae reage: «Tais como? Que maus? Hitler?».

Paralelamente, é narrada outra história.

Noutra parte da cidade, Cliff e Wendy Stern preparam-se para uma festa promovida por Lester, irmão de Wendy e produtor de filmes para a TV, que se encontra na cidade para rodar um documentário autobiográfico. Cliff, que tem coleccionado fracassos nas suas tentativas de rodar um documentário, implica com Lester, talvez por ele ser respeitado e bem-sucedido. Entretanto, a pedido da irmã, Lester convida-o para trabalhar no seu actual projecto. Cliff começa a rodar o documentário sobre Lester. Durante o trabalho conhece Halley Reed, uma produtora de televisão; nos intervalos, fala-lhe sobre um projecto para produzir um novo documentário sobre o Prof. Louis Levy. Ela acha a ideia interessante e promete ajuda para que ele consiga financiamento. Ao fim de pouco tempo, Cliff declara-se apaixonado. Halley diz que, naquele momento, não quer pensar num novo relacionamento, pois acaba de se divorciar.

Um desentendimento entre Lester e Cliff faz com que este se afaste do documentário que estava a rodar. Por outro lado, o inesperado suicídio do Prof. Levy inviabiliza seu projecto. Para completar a sua tristeza, Halley informa-o de que vai estar nos próximos quatro meses em Londres, pois aceitou um convite para produzir uma série de programas para a televisão britânica.

Quatro meses depois, na festa de casamento da filha de Ben, Cliff volta a encontrar-se com Halley, que surpreendentemente para ele, está noiva de Lester. Ela procura-o e diz-lhe que o romance começou em Londres, quando Lester lá esteve em serviço. A certa altura, Cliff e Judah encontram-se, começam a conversar. O médico diz-lhe ter um excelente roteiro para um filme policial sobre o assassinato de uma mulher pelo seu amante.


ACTIVIDADES SOBRE O FILME

1.Que dilema moral é vivido por Judah?

R: O dilema é este: seja qual for a escolha que faça – fazer a vontade a Dolores ou silenciá-la – as consequências serão sempre desagradáveis. O problema consiste em realizar a opção que tenha consequências menos devastadoras no que lhe diz respeito.

2. O problema moral que Judah vive é um problema moral controverso, de difícil solução?

R: As nossas intuições morais básicas dizem-nos o que Judah não deve fazer e o que deve fazer: não deve matar a sua amante e deve pôr fim ao caso extraconjugal e confessar a verdade à esposa. O rabino Ben é o representante da moralidade comum.

3. Como resolveria um kantiano o dilema que Judah vive?

R: Judah deve dizer a verdade independentemente das consequências. É esse o seu dever. Mentir é um acto moralmente incorrecto, que viola as exigências do imperativo categórico

4. Imagine que Judah aceita que o seu irmão mafioso mate Dolores e que este não consegue consumar o acto. Significa isto para um kantiano que Judah fica isento de censura moral?

R: Não. O critério para estabelecer o valor moral de um acto é independente das suas consequências. A intenção é o único factor que conta. Se era vontade de Judah que Dolores fosse assassinada, não é o facto de o assassinato falhar que o vai ilibar moralmente.

5. Qual é a questão que o filme coloca?

R: A questão que o filme coloca é a seguinte: «Estamos dispostos a fazer o que é correcto fazer mesmo se cumprir o dever é algo desagradável e contrário aos nossos interesses imediatos?»

6. Em geral, como avaliaria um utilitarista a decisão de Judah de se ver livre de Dolores?

R: Na sua versão clássica – utilitarismo dos actos – o utilitarismo diz-nos que devemos julgar um acto pelas suas consequências no que respeita à capacidade de promover ou causar o maior bem-estar possível ao maior número possível de pessoas a quem o acto de algum modo diz respeito. Judah livrou-se de Dolores. Permitiu que a assassinassem. Para a intuição moral comum trata-se de um acto moralmente errado. Mas para o utilitarista, antes de emitirmos juízos de valor sobre as acções temos olhar para as suas consequências. Judah é moralmente responsável pela morte de Dolores. Quais foram as consequências desse acto? Dele resultou mais ou menos bem-estar no mundo? Quantas pessoas foram prejudicadas pela morte de Dolores? Foi maior o número de pessoas prejudicadas ou o de beneficiadas? Se olharmos bem para o filme, Dolores era uma mulher solitária, com poucas pessoas que dela gostassem e, também, uma pessoa infeliz. Por sua vez, Judah era uma pessoa que gozava de boa reputação, era muito útil à sociedade em virtude da profissão que exercia, gozava de prestígio e tinha uma família que dependia do seu trabalho. O que acontece no filme? Dolores morre e Judah e a sua família continuaram unidos e a prosperar. Esta união e prosperidade só foram possíveis porque Judah pôs de uma forma radical termo à intransigência de Dolores. Excepto Dolores, é difícil apontar alguém que tenha sido prejudicado pela sua morte. Numa perspectiva utilitarista a sua morte foi mais do que compensada pela felicidade e bem - estar de Judah, da sua família, dos seus amigos e dos clientes do reputado oftalmologista. Num final relativamente cínico, a história dramática da relação entre Judah e Dolores servirá como roteiro para um filme de um até então frustrado realizador.

Este filme confronta-nos com um dos problemas mais frequentemente associados à teoria utilitarista, e que é normalmente referido como o problema dos direitos. O utilitarismo na sua versão mais vulgarizada não reconhece a noção de direitos. Neste caso o que está em causa é o direito à vida. Não há em si mesmo nada de errado em matar alguém desde que o assassínio produza maior felicidade ou bem-estar global do que não matar. Dolores foi morta. Teria sido globalmente pior do que se a família de Judah se tivesse desmembrado e a sua reputação afectada junto dos seus clientes.








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