sábado, 26 de fevereiro de 2011

NIETZSCHE 6 - COMO A MORAL CRISTÃ SE TORNOU INTERPRETAÇÃO DOMINANTE


COMO A MORAL CRISTÃ SE TORNOU INTERPRETAÇÃO DOMINANTE
A moral cristã é produto de um determinado tipo de homem, um homem: fraco, incapaz de assumir a vida na sua complexa união de sofrimento e prazer, criação e destruição, nas­cimento e morte, horror e alegria. O que Nietzsche, em geral, critica nessa moral é o facto de ela corromper e atrofiar a vida humana. Eis os pontos essenciais da sua crítica:
A moral cristã é decadente porque dignifica os falhados da vida.
É imoral porque transforma em dever a vontade do nada, a negação da vontade de viver plenamente «esta vida».
É criminosa porque declara que é preciso matar as paixões, os instintos. Esta moral é antinatural, declara guerra à natureza.
É doentia porque exige, como condição da santidade, a mortificação e a crucifi­cação da vida (do corpo).
É dualista porque baseada na proliferação das antinomias: alma-corpo, aquém--além, céu-terra, profano-sagrado, etc.
Este dualismo é empobrecedor porque transforma um dos termos, que é ilusório e fictício, em realidade, para tentar reduzir a nada o outro termo, que é real e efectivo.
É profana, não sagrada, porque declara como baixo aquilo que é supremo: o sim à vida na sua totalidade. Profana «esta vida» e proclama sagrado o que de­riva desta profanação.
É niilista porque visa negar esta vida e este mundo. Nietzsche diz que o mundo que se inventou para dar um sentido a «este mundo» é um contra-senso porque não se dá sentido a este mundo negando-o e caluniando-o.
Pretende ser uma moral de salvação, mas a «salvação» é a suprema perdição porque implica a mortificação, a castração dos instintos superiores de vitali­dade. «Salvai-vos!» significa «Afundai-vos!», «Perdei-vos para esta vida porque ela não merece ser vivida por si». Há algo de fúnebre nesta receita «salvadora».
Como é que esta visão moralista da realidade se tornou dominante? Como é que a moral que nega a vida (a moral dos fracos e vingativos, a moral cristã) se tornou a mo­ral do homem ocidental?
Como pode o fraco dominar o forte?
Fazendo com que este prefira o que lhe é desfavorável, ou seja, conduzindo-o à depreci­ação dos instintos que o definem como forte. Numa só palavra, intoxicando-o, fazendo-o sentir a sua exuberância, a sua esplêndida harmonia com o caos da vida, como pecado, como privilégio indevido.
Como se dá no nobre, no forte, a infiltração da mentira mais ignóbil, a mentira do Ideal, eis o que veremos em seguida.
O «padre ascético» como agente da intoxicação e da corrupção generalizada da vida
No princípio era a força bruta, a bestialidade. A violência pura e simples presidia às re­lações entre os homens. Os senhores primitivos manifestavam o seu ser na dominação bru­tal e selvagem dos que a eles se submetiam. Era o reino do ferro e do sangue, da pura força instintiva. Como se dá a passagem do estado animal ou estado natural ao estado social?
Os mais fortes, os dominadores, os conquistadores, constrangem os mais fracos ao res­peito de determinadas regras de vida. A força fez deles organizadores natos. A organização das relações sociais não nasce, portanto, de um contrato mas sim de um constrangimento. A lembrança do ferro e do sangue transforma os fracos em seres obedientes, capazes de obedecer, força-os a criar a consciência do dever. O temor da punição obriga o fraco a re­nunciar à satisfação imediata dos seus desejos, a respeitar a ordem estabelecida pelo forte, a saber cumprir as exigências da vida social. Esta repressão dos instintos, necessária à orga­nização da vida em sociedade, está na origem da «má consciência». Ela surge primeira- ' mente no fraco, no escravo, que, incapaz de se impor ao senhor, interioriza a sua agressivi­dade, dirige-a contra si mesmo, recrimina-se, sente como uma «falta» a exteriorização e expansão dos seus instintos. Os senhores estabelecem o seu ser como ponto de referência de toda a acção e de toda a valoração. O que entrava a afirmação do seu ser e do seu agir é considerado «mau». A sua moral baseia-se no orgulho, na independência a respeito de toda e qualquer norma exterior. A dúvida («será que estou a proceder bem?») não faz parte da sua moral. Esta consiste na criação de valores que se fundam na espontaneidade agressiva da sua acção, uma espontaneidade que não sabe o que é a falta. Confiantes, inocentes opres­sores (porque não sabem o que é a «falta»), são violentos nas suas obras e nos seus gestos porque a natureza assim faz os fortes e os senhores.
Das considerações já expostas podemos perspectivar o tipo de operação que permi­tirá ao fraco submeter o forte: dar a este má consciência, ou seja, impedi-lo de satisfa­zer os seus instintos agressivos, conduzindo-o à introversão, à interiorização dessa agressividade.
Contudo, para que isso aconteça, o conceito de «má consciência» vai sofrer uma trans­formação religiosa: nascendo no escravo como consciência de estar em falta quando não cumpre a ordem estabelecida pelo senhor, a má consciência vai transformar-se em pecado, em falta livremente cometida contra a vontade de Deus. Veremos que a tentativa de genera­lização da má consciência, entendida como consciência pecadora, é a forma de o ressenti­mento característico do escravo triunfar. O fraco vive ao mesmo tempo a experiência da in­teriorização, da introversão dos seus instintos, e a do ressentimento, da inveja daquele que é e age plenamente. Trata-se de envenenar o forte, intoxicá-lo aproveitando de algum modo o abalo que nele provoca a passagem brusca do estado animal ao estado social. Com efeito, a vida em sociedade determina que no forte a consciência gradualmente se imponha ao ins­tinto como princípio do agir. A entrada em sociedade é uma armadilha para o forte. A perda da inocência que progressivamente se verifica conduzirá ao extremo da consciência de si como pecador.
O agente, o promotor desta intoxicação, é o «padre ascético». A sua acção é com­plexa, pois capta o ressentimento da massa dos fracos, inverte a direcção deste ressentimento (assim surge a má consciência como pecado) com a finalidade de subtilmente conta­minar os fortes e sãos, que sentem alegria e empenho em viver. Desmontemos, nos seus momentos essenciais, este processo.
 a) A fase do ressentimento
Já referimos em que consistia o ressentimento, no capítulo anterior. Surge naquilo que podemos chamar a fase judaica da moral ocidental. Os judeus representam, em termos his­tóricos, a figura da revolta contra os senhores. Os judeus são, não por determinismo gené­tico mas por conjuntura histórica, o «génio vingativo» por excelência. Tendo a sua raiz num tipo de vida enfraquecida, débil e impotente, o ressentimento exprime-se do seguinte modo: aquele que é forte é a causa da minha fraqueza, aquele que afirma a vida é a causa do meu desgosto dela. Em suma:
«Eu sofro, logo a culpa é deles».
[Nietzsche, A Genealogia da Moral, vol. III, § 15. °
   b) A mudança de direcção do ressentimento
Corresponde à fase propriamente cristã da moral, à valorização do espírito e à desvalorização do corpo. A mudança de direcção do ressentimento consiste na sua interiorização. O padre ascético transforma o «Eu sofro logo a culpa é deles» no «Eu sofro logo a culpa é minha».
«Eu sofro: alguém deve ser a causa — assim raciocinam todas as ovelhas do­entes. Então, o pastor, o padre ascético, responde-lhe: — É verdade minha ovelha, alguém deve ser a causa disso: mas és tu, tu mesmo, que és causa de tudo isso.»
[Nietzsche, A Genealogia da Moral, vol. III, § 15. °]
Perguntando pela causa do seu sofrimento, o fraco procura, perante o seu pastor, um responsável para se vingar. Baseado no dogma do pecado original, o «padre ascético» diz--lhe que o seu sofrimento é o resultado de um castigo divino provocado por uma falta livre­mente cometida contra a Sua Vontade. Ao homem doente que procura uma explicação para o seu sofrimento, um sentido para a realidade, o padre ascético pinta o quadro de uma hu­manidade enraizada no mal, infeliz, porque originariamente pecadora. A sua capacidade em compreender o pessimismo, o desencanto do fraco, é profunda: o ódio a esta vida, determi­nado pela incapacidade de dela triunfar, só poderá ser aplacado com a invenção de um reino onde todos os males serão curados. Encarnação do desejo de viver noutro lado, no Além, ou seja, do ideal ascético, o padre, o pastor do enorme rebanho dos falhados, acrescenta ao dogma do pecado original o dogma da redenção dos pecados. De algo que simplesmente destruía o sofrimento torna-se meio de salvação ou redenção. Do «Eu sofro» passamos ao «Eu quero sofrer», esta vida é um «vale de lágrimas» mas devemos suportá-la para merecer a outra, a «verdadeira vida». O «padre ascético» 1, declara o homem radicalmente culpado, fala seriamente de um Deus juiz, que pune e castiga o pecado e que exige submis­são e obediência.
  c) A contaminação dos fortes
A má consciência, a consciência de si como pecador, apesar de poder parecer o contrá­rio, não favorece os senhores, melhor dizendo, não conduz os escravos à humildade e obe­diência. Estas agora só têm sentido perante Deus, aquele perante o qual, como ensina o pa­dre ascético, estamos em falta.
O ressentimento, a vontade de vingança e de triunfo sobre os valores dos fortes, é o que determina a intervenção do pastor do rebanho dos fracos. A má consciência (o sentir-se cul­pado, originariamente culpado) acaba por envenenar o forte, que, na passagem à civiliza­ção, à organização social, vê progressivamente a consciência sobrepor-se ao instinto. Da consciência passa-se à má consciência. De orgulhoso nos seus instintos agressivos e sãos, o forte, impressionado com o semblante sério e com o aparente auto-domínio do padre ascé­tico, passa a sentir-se culpado, a perder a confiança nos seus valores. O poder espiritual do pastor abala a confiança que ele tinha em si e no seu corpo e, julgando o seu privilégio o re­sultado de uma qualquer acção maldosa ou faltosa, o forte é enfraquecido pela culpabili­dade.
«Há vergonha em ser feliz perante tanta miséria e sofrimento.»   
[Nietzsche, A Genealogia da Moral, vol. m, § 14. °
(I) O padre ascético é o agente da intoxicação e da corrupção generalizada da vida. É um fraco, um ho­mem que, consumido pelo desejo do Além, despreza esta vida, julgando-a inferior, mas é também determinado pelo desejo de exercer um ascendente sobre os homens.
É essa vontade de domínio que o liga à terra. O pecado e o ressentimento dos «pecadores» a respeito desta vida são os «filões» dos quais não pode prescindir. Só pode conservar o seu poder envenenando ao mesmo tempo que cura. «Os teus pecados estão perdoados mas tu continuas a ser, em virtude do Pecado Original, um pecador.»
Tornados todos os homens pecadores, o padre ascético está em condições de exercer o seu domínio sobre os homens. Ele tem a receita que visa salvar os pecadores da perdição. Essa receita de salvação é a moral cristã.

A vitória do ideal ascético, a venenosa transformação do homem em pecador e em pe­nitente, corresponde a uma perversão da moral dos nobres, dos fortes; transforma-se em virtude a incapacidade de viver, a renúncia à vida, considera-se forte aquele cuja alma, de­sejosa de comunhão com Deus, luta penosamente contra os instintos, as paixões, contra o corpo.
Os valores resultantes desta inversão perversa são determinados pela vontade de poder vingativa dos falhados e invejosos, conduzidos pelos inimigos mais maldosos da vida: os padres. O que era considerado bem torna-se mal. A força, a agressividade tornam-se injus­tiça, a coragem dos fortes torna-se brutalidade, a sua alegria de viver, gozo egoísta e debo­che. Exalta-se a fraqueza, a impotência, a mansidão.
Infiltrando a ideia de pecado original na consciência humana em geral, fazendo de cada homem um pecador que deve penitenciar-se mediante a luta contra os afectos, as paixões e tudo o que o prende à terra, ao sensível, o padre ascético homologa o ressentimento dos fra­cos e faz com que os seus valores triunfem. Apresentando uma doutrina que corresponde à vontade de vingança dos doentes e dos vencidos da vida, o austero pastor satisfaz ao mesmo tempo a sua vontade de domínio sobre a vida dos homens. São estes impotentes as­tutos, estes homens cansados do real e intoxicados de Ideal, que determinam a figura que o homem ocidental, segundo Nietzsche, apresenta.
«Homens não suficientemente aristocratas para perceber a hierarquia dos se­res e o abismo que se estende entre um homem e outro, eis os homens que, com a sua 'igualdade perante Deus', reinaram até aos nossos dias sobre o destino da Europa, até finalmente obterem uma espécie em estado de menori­dade, quase risível, um animal gregário, qualquer coisa benevolente, doentia, medíocre, o Europeu de hoje.»
[Nietzsche, Para além do Bem e do Mal, §62.°]
 Deus como instrumento de crucificação da vida
Como já vimos, a vontade de vingança sobre os que vencem a prova da vida e domi­nam os incapazes é decisiva para a invenção do supra-sensível.
Deus é o instrumento desta vingança, desta calúnia da vida, do sensível. Com efeito, o mundo do ser, da verdadeira realidade, é o «reino de Deus», o ser omnipotente, eterno e in­finito.
O fraco vai compensar a sua impotência real numa potência imaginária (Deus), juiz que condena os fortes e os seus instintos e consola os débeis. Deus nasce da vontade de vin­gança sobre a vida bem sucedida, sobre a vida ascendente, ou seja, a vida que glorifica a terra, o sensível, e procura dar forma à pluralidade dos fenómenos, isto é, ao devir. Fiel à terra, não a ultrajando, o nobre afirma a vida na sua caótica e infinita riqueza, não fugindo às contradições que ela naturalmente contém. Negando uma realidade que a sua impotên­cia transforma em mundo doloroso e insuportável, o fraco instaura como suprema rea­lidade uma negação. Interpreta Deus como uma aranha que tece o mundo segundo as leis da não contradição, porque a sua (do fraco) incapacidade é alérgica à contradição. Contraditório, «este mundo» não está à altura do criador. É um mundo mau, em falta.
Não sendo capaz de educar os seus instintos, o impotente tortura-se e recalca-os. Esta luta contra a anarquia dos seus instintos esgota-o, debilita-o. O Deus-Espírito que ele pro­jecta no Além como consolação para esta longa tortura que é a vida não é o simples Consolador. O impotente, dada a sua mesquinhez, transforma o «seu» Deus num ser mes­quinho, que, em troca da «paz de espírito» numa outra vida, exige a dilaceração do corpo. O preço da consolação é a virtude entendida como recalcamento e tortura dos instintos, da­quilo que no homem é natural. O Deus-Espírito transforma-se em Deus-Pai a quem o filho (paradoxalmente seu criador) presta contas. Assim, através de um Pai imaginário, o falhado justifica o seu sofrimento: «Sofro, devo sofrer para me tornar virtuoso e digno do Além, do verdadeiro Ser, de Deus.»
«Descobre em 'Deus' o que pode haver de mais oposto aos seus verdadeiros e irremissíveis instintos animais, reinterpreta esses instintos animais como uma falta para com Deus (como hostilidade, rebelião, revolta contra o 'Senhor', 'o Pai', o antepassado e princípio do Mundo) e vive a tensão da antítese entre Deus e o Diabo; o não que ele diz a si mesmo, à natureza, à espontaneidade, à realidade do seu ser, torna-se fora de si mesmo um Sim, algo real, Deus, Santidade de Deus, juízo de Deus, execução das altas obras de Deus, Além; eternidade, martírio sem fim, inferno, castigo e falta incomensuráveis.»
[Nietzsche, A Genealogia da Moral, trad. do Autor, vol m, § 22.°]
O ressentimento cria valores contra-naturais que pretendem anestesiar e entorpecer esta vida, vingando-se das contradições, do desconcerto e da terrível imprevisibilidade que ela manifesta. A criação máxima desse ressentimento, Deus, o Senhor do «mundo do ser», é uma ilusão, um Nada que a vontade de poder vingativa, obstinada em retirar qualquer valor ao mundo, à terra e à vida, eleva à condição de Suprema realidade, de Ens realissimum. Atribuir ao Irreal (ao simples produto do desejo de vingança e de amparo) o estatuto de ver­dadeira realidade e a uma utopia (o «mundo do ser») o estatuto de lugar ou mundo de elei­ção não é um erro, uma simples consequência de um delírio. É uma ilusão útil que permite ao falhado sobreviver (dar à sua vida miserável um sentido que para o forte é um contra--senso) e alimentar o seu desejo de vingança, ansiando pelo Juízo Final.
A baixeza está na origem do Todo-Poderoso. As características que o definem, em radi­cal oposição ao que define a realidade humana, são o sintoma de que Deus é criado para ne­gar, desvalorizar, falsificar. Evidenciemos esse contraste:
Sendo Eterno e Imutável, é uma forma (a forma suprema) de desvalorização do mundo temporal ou do devir. Só se considera verdadeiramente real aquilo que é eterno, não tem começo nem fim.
Sendo o Pai que está no céu, é uma forma de desvalorização do mundo terrestre ou sensível. Este separa os «filhos» do «Pai».
Sendo puro Espírito, é a forma suprema de condenação do corpo: a crucificação do corpo (1) é a condição da ascensão à paz de alma. O corpo é o que nos prende ao mundo sensível, ao mundo imperfeito e perigoso do devir, a este «vale de lágrimas».
Deus como Bem supremo é a forma suprema de culpabilização da existência hu­mana, um legislador cujas leis e exigências esgotam a vida humana, transformando-a num calvário em troca de uma recompensa no Além (imortalidade da alma). Para a moral cristã «este mundo» é contraditório, absurdo, não está à altura do criador. É um mundo mau, em falta.
 Deus definido como Absoluto opõe-se flagrantemente ao relativismo inerente à existência humana. Esta é um texto passível de inúmeras interpretações, das quais nenhuma é absolutamente exacta. A omnisciência do Absoluto, de Deus, tem como função desvalorizar o conhecimento humano, sempre relativo.



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