sábado, 26 de fevereiro de 2011

NIETZSCHE 2 - A CONCEPÇÃO DIONISÍACA DA VIDA


A CONCEPÇÃO DIONISÍACA DA VIDA


Diónisos, deus da dança e da vida, segundo uma cerâmica realizada no Sul de Itália.
A filosofia de Nietzsche pretende ser um sim sem reservas à vida, uma forma de aquiescência superior e exuberante que abraça e celebra a vida na sua totalidade, mesmo nos seus aspectos chocantes, problemáticos e enigmáticos.
Esta celebração da vida, para além do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, encontra--se, segundo Nietzsche, nas tragédias gregas, mais propriamente em Esquilo e Sófocles. Essas obras apresentavam um tipo de homem que assumia o carácter trágico da vida, as suas contradições, os seus sofrimentos e caprichos, sem lhe opor valores pretensamente su­periores que permitissem julgá-la e condená-la. Bem pelo contrário, os gregos da «Idade trágica» embora reconhecendo o carácter aterrador da vida — o terrível poder do destino — celebravam alegremente esta vida. A consciência e a crença vigorosa de que a vida é a uni­dade enigmática da criação e da destruição, da dor e do prazer, da morte e da vida, eis aquilo em que consiste a visão trágica ou dionisíaca da vida.
«Semelhante fé é a mais elevada de todas as crenças possíveis: baptizei-a em nome de Diónisos.
É, pois, nos mistérios dionisíacos, na psicologia do estado dionisíaco, que se exprime o facto fundamental do instinto helénico — a sua 'vontade de viver'. Que é que o heleno garantia para si, com estes mistérios? A vida eterna, o eterno retorno da vida; o futuro prometido e consagrado no passado; o sim triunfal à vida para além da morte e da mudança; a verdadeira vida como a sobrevivência global mediante a procriação, através dos mistérios da sexuali­dade. Por consequência, o símbolo sexual era, para os gregos, o símbolo ve­nerável em si, o autêntico sentido profundo dentro de toda a religiosidade an­tiga. Cada pormenor no acto da geração, da gravidez, do nascimento, suscitava os mais elevados e festivos sentimentos. Na doutrina dos mistérios, a dor é sacralizada: as 'dores da parturiente' santificam a dor em geral — todo o devir e todo o crescimento, tudo o que garante o futuro, tem por condição a dor [...] Para que exista o prazer de criar, para que se afirme eternamente a vontade de viver, deve também eternamente existir a 'dor da parturiente' [...] tudo isso significa a palavra Diónisos; não conheço simbolismo mais elevado do que este simbolismo grego, o das Dionísias. Nele se experimenta religiosa­mente o mais profundo instinto da vida, o do futuro da vida, o da eternidade da vida — o próprio caminho para a vida, a procriação, como o caminho sa­grado [...] Só o cristianismo, com o seu ressentimento básico contra a vida, fez da sexualidade algo de impuro: cobriu de imundície o começo, o pressu­posto da nossa vida [...]»
[Nietzsche, O Crepúsculo dos ídolos.]
A concepção dionisíaca da vida sacraliza os instintos fundamentais, afirma festivamente a unidade do homem com a natureza, colocando-se assim nos antípodas da moral cristã que, segundo Nietzsche, é profundamente antinatural. O representante supremo da religiosidade pagã — Diónisos — é a forma suprema de divinização da vida.
«É aqui que eu colocaria o ideal dionisíaco dos Gregos: a afirmação religiosa da vida no seu todo, de que não se nega nada, de que nada se corta (notar que o acto sexual acompanha-se aí de profundidade, de mistério, de respeito).»
[Nietzsche, A Vontade de Poder. ]
A adesão firme de Nietzsche à visão dionisíaca da realidade determinará profundamente o seu pensamento e a sua crítica à cultura ocidental desde Sócrates até à época em que viveu.
A sua fórmula será, então: «Preferir a vida a todo e qualquer outro valor, ser a sua má­xima afirmação, santificá-la como totalidade em que bem e mal, dor e gozo, crueldade e alegria estão necessariamente enlaçados»
Referindo-se à sabedoria trágica dos grandes gregos pré-socráticos, Nietzsche dirá:
«A afirmação do desvanecimento e da aniquilação, o elemento decisivo numa filosofia dionisíaca, o dizer sim à oposição e à guerra, ao devir, com a radical renúncia ao próprio conceito de 'ser' — eis o que em todas as circunstâncias devo reconhecer como a minha maior afinidade com o que até agora foi pen­sado.»
[Nietzsche, Ecce Homo.]

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