sábado, 26 de fevereiro de 2011

NIETZSCHE 3 - SOCRATES E A ORIGEM DA DECADÊNCIA DA CULTURA OCIDENTAL


SOCRATES E A ORIGEM DA DECADÊNCIA DA CULTURA OCIDENTAL
Para Nietzsche, Sócrates (e Platão) é um momento decisivo no percurso cultural do Ocidente. Com ele acaba a grande época da tragédia grega — glorificação da vida mesmo nas suas dimensões dolorosas e sombrias — e começa uma época em que a ten­dência é a de procurar fugir às contradições, aos sofrimentos, a tudo o que a vida tem de sensível e de físico. Sócrates, no entender de Nietzsche, inventou a metafísica'0, trans­formou a filosofia na procura do inteligível e do eterno (supra-sensível) pregando a renún­cia ao mundo sensível, ao mundo do devir e ao corpo, considerado como o «o carcereiro da alma». Inaugura-se com Sócrates uma atitude que caracterizará, em geral, a cultura ociden­tal: a «calúnia do sensível», a desconfiança em relação ao corpo e aos sentidos, o desprezo e a condenação de tudo o que é natural. Com Sócrates faz-se da vida aquilo que deve ser julgado em nome da razão, em nome de valores considerados «superiores», tais como a Verdade e o Bem, identificados com o divino, o supra-sensível. A decadência, a atitude antivital ou antinatural surge claramente com Sócrates, que estabelecerá a distinção entre dois mundos, identificando o inteligível com o mundo real e verdadeiro e o sensível com o mundo ilusório e falso. Sócrates sobrevalorizou o aspecto lógico-racional, fez da razão o centro de toda a interpretação da realidade e da verdade o valor supremo. Nele está a raiz dessa «venerável» tradição que se resume na fórmula: «Filosofar é procurar a verdade com toda a nossa alma». Tudo submetendo ao juízo da razão, Sócrates vai, segundo Nietzsche, interpretar a arte trágica como algo irracional porque apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. Por isso deve ser ignorada. As tragédias — os escritos e as peças de Esquilo e Sófocles — afastavam o homem do caminho da verdade, não obedeciam à razão (que tudo quer claro e distinto). Sócrates colocará a tragédia clássica na categoria das «artes adulado­ras», como conjunto de emoções agradáveis mas inúteis, «indignas de filósofos». Sócrates é o radical oposto da concepção dionisíaca da vida, do homem trágico. Ele é o homem teórico:
(l) Pode-se chamar metafísica uma filosofia que se define como procura de uma verdade permanente e subsis­tente. O que é verdadeiro é entendido como aquilo que não pode nunca deixar de ser verdadeiro. A filosofia metafí­sica ou racionalista procura então verdades absolutamente estáveis e eternas. Para o metafísico a realidade de uma coisa, o seu ser «autêntico» (a sua substância ou essência) será aquilo que ela contém de eternamente verdadeiro, abstraindo do que nela existe de variável, i. e., identifica-se a realidade com o eterno e o imutável, o que não é sensí­vel. A metafísica, nesta ordem de ideias, procura o Ser. Tendo esse objectivo des­preza as coisas que o tempo modifica, as coisas em constante devir ou mudança. Assim, na perspectiva de Nietzsche, ela qualifica o devir como Não-Ser, porque o que está em devir, muda, deixa de ser o que é para se tornar diferente do que era. O primeiro grande traço do carácter dos filósofos, dos metafísicos, é a separação ou o dualismo do Ser e do Devir (Não-ser): a verdadeira realidade é o Ser. Ora o que é vivo e de natureza sensível é aquilo que está submetido à mudança, enquanto que só o que é abstracto e ideal (inteligível) tem uma verdadeira permanência. O que muda não merece o nome de Ser. O que é que muda, está em devir? A reali­dade que está ao alcance dos nossos sentidos, a realidade sensível. O que merece o nome de Ser, de Verdadeira realidade? O que não está em devir: o inteligível (lembre-se Platão), o que é de natureza ideal e não material ou sensível.


Enquanto que em qualquer homem produtivo o instinto é uma força afirmativa e criadora e a consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora». Com a sobrevalorização do homem teórico abandonou-se o fenómeno do trágico, que exprimia a natureza profunda da realidade. Distinguir o verdadeiro do aparente — «sublime ilusão metafísica» — era, para Sócrates, a única actividade digna do ho­mem. Querer a verdade, o conhecimento puramente raci­onal, eis o lema de Sócrates. Nietzsche interrogar-se-á sobre o valor deste querer. Porquê querer a verdade, a ra­zão? O que é que em nós quer a verdade? Que vontade, que tipo de vitalidade, se manifesta neste querer a ver­dade?
Para Nietzsche, Sócrates, sob o nome de verdade, oculta e ao mesmo tempo manifesta o ódio ao sensível, ao corpo, às paixões, ao devir, em suma, a procura da verdade racional traduz-se numa desvalorização da vida.
Com o racionalismo socrático-platónico começa a decadência.

«Em vez de confiar no corpo e nos instintos, Sócrates faz da razão a verda­deira realidade do homem, ó que consistirá em reprimir a natureza, os senti­dos, os instintos, ou seja, em transformar a decadência num modelo de huma­nidade.
A razão vai condenar a vida, os sentidos, os instintos. O doente que não pode suportar a vida no que esta tem de sensível, de físico, vai vingar-se maldosa­mente, vai amaldiçoar o corpo e glorificar os argumentos da razão. Transfor­mando a razão na «verdadeira força» do homem, o fraco, o homem de vitali­dade débil e enfraquecida, vai afirmar-se pretensiosamente como superior rebaixando o seu adversário através da dialéctica (discurso em que as teses do adversário são submetidas à tortura da negação racional). Nietzsche vê no diálogo socrático uma forma de o «homem da razão» ridicularizar o seu inter­locutor.
O ataque de Nietzsche a Sócrates é, em alguns aspectos, grosseiro e injusto. O que nos interessa é, contudo, ver o sentido desse ataque. Para Nietzsche a filosofia não é um puro discurso, racional e objectivo: confiar na razão é tam­bém escolher um certo tipo de combate que tem a ver como o tipo de homem que se é. Para Nietzsche, quando um homem decide escolher-se como ser racional e sobrevalorizar a razão é porque, muito provavelmente, tem necessi­dade de uma razão tirânica para reprimir e recalcar a desordem dos seus ins­tintos, o seu desequilíbrio psicofisiológico. Abandonar os instintos em favor de um mestre despótico, a razão, é, segundo Nietzsche, o sinal de uma vontade despótica, de um desejo de ser autoridade, de dominar-se a si mesmo e de do­minar os outros: ser racional a todo o custo é, diz Nietzsche, expressão de uma vontade muitas vezes sádica de dominar por certos meios. Ora, estes meios são mais sintomas do que remédios, porque a razão pode ser um falso médico que torna o homem cada vez mais doente ao pretender salvá-lo. Vendo na di­mensão sensível ou corpórea a fonte de todos os conflitos, desgraças e discór­dias que, segundo ele, transformam a vida humana num inferno, Sócrates julga ver na razão (a dita fonte do consenso e da concórdia) o remédio para todos estes males. Mas acaba por transformar o homem num ser anémico e mórbido, que deve auto-reprimir-se, calar completamente a voz dos instintos, chegando ao ponto de querer a morte do corpo para salvar a alma desta pri­são. É preciso já estar muito doente para querer este remédio: a salvação é, no fundo, uma perdição, sintoma ou manifestação de uma vontade doentia.
[Eric Blondel, Nietzsche — Comentário à Obra O Crepúsculo dos ídolos, Paris, Hatier, pp. 18-19.]

Nietzsche estende à história da filosofia ocidental as violentas críticas que diri­giu a Sócrates.
Podemos concentrar em quatro pontos a ontologia de Nietzsche, isto é, a sua concepção da realidade:
1  —   O mundo sensível, em devir, é real porque é mutável: é o mundo em que realmente vivemos.
2— 0 «Ser», «mundo verdadeiro» = nada, não são realidades propriamente falando mas sim abstracções, invenções.
3 — É absurdo falar de um «outro mundo» que não o mundo sensível. Para a análise genealógica, própria de Nietzsche, este absurdo é o sinal de que a metafísica manifesta uma vontade de se vingar do mundo sensível.
Por conseguinte, o dualismo (Ser-Devir); (mundo inteligível — mundo sen­sível) é um sinal de decadência e Nietzsche opõe-lhe a arte, mergulhada no sensível, e que afirma de uma forma dionisíaca (antidualista) a realidade.
Por que razões surgiram estas ficções, porque se inventou este dualismo (Ser--devir) que desvaloriza o mundo sensível, do devir? O método genealógico coloca a questão deste modo: que tipo de homem precisa desta ficção e se agarra a ela de tal modo que a transforma em verdade absoluta mediante a qual orienta a sua existência?
O dualismo próprio da metafísica e da moral ocidentais é uma perspectiva, uma ficção ou um erro útil a certos homens, a um certo tipo de vida. Vejamos como Nietzsche revela a génese ou a origem dessa atitude que ele considera um erro per­nicioso e uma ficção nociva, prejudicial.








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