sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O LIBERTISMO EM SARTRE


O libertismo radical de Jean-Paul Sartre.
A versão mais radical do libertismo foi exposta por Jean-Paul Sartre, famoso romancista e filósofo francês cujas obras obtiveram grande sucesso em meados do século xx.Podemos resumir o argumento central de Sartre do seguinte modo:
1- Os seres humanos são radicalmente livres e pessoalmente responsáveis pelo que fazem.
2 – A liberdade humana e a responsabilidade moral são totalmente incompatíveis com o determinismo causal.
3 – Logo,as acções humanas não são determinadas por causas anteriores(pelo passado) nem pelas leis da natureza.
Concentremo-nos na primeira premissa. Como a defende Sartre?
Imaginemos uma mesa colocada no meio de uma sala. Podemos pensar acerca da mesa de vários modos: podemos pensar que está mal colocada, imaginar que ficaria melhor no meio da sala se fosse rectangular, que está mal decorada e que é feita de bom material. A mesa como é óbvio não pode realizar estas operações. Não pensa nem imagina porque não é dotada de consciência. A consciência é, para Sartre, uma actividade exclusivamente humana que lhe permite imaginar, negar, questionar, mentir, escolher e  traçar projectos, planear, sonhar e ter ambições, distinguir o que é do que não é, o que foi do que ainda não é. A consciência é distanciamento em relação ao dado, ao que é e ao que foi, «fuga» em relação a qualquer determinação exterior e interior. Ao contrário da mesa não limitamos a estar no mundo e a sofrer os efeitos das acções do meio, quer dos agentes humanos quer dos agentes naturais. A consciência é a raiz da nossa liberdade.
É o facto de sermos conscientes que torna possível sermos agentes que escapam ao encadeamento causal que caracteriza a natureza. A tese libertista de Sartre é radical porque como vais ver no texto seguinte, a liberdade não é algo que temos ou possuímos mas sim algo que somos. Vejamos como Sartre defende a sua posição recorrendo ao texto seguinte:

É estranho que os filósofos tenham argumentado ao longo de milénios sobre o determinismo e o livre-arbítrio, citando exemplos a favor de uma tese ou de outra sem primeiro terem tentado explicitar a própria ideia de acção…Devemos notar em primeiro lugar que uma acção é em princípio intencional…Ora se assim é, devemos dizer que uma acção implica como sua condição necessária o reconhecimento de algo que se deseja (desideratum), ou seja, o reconhecimento de uma lacuna objectiva ou de uma negatividade, de algo que falta ou que ainda não existe.A intenção do imperador Constantino de construir uma cidade cristã que rivalizasse com Roma ocorreu-lhe ao reconhecer uma lacuna objectiva… faltava uma cidade cristã.
Isto significa que desde o momento da concepção desse acto, a consciência foi capaz de se distanciar do mundo do qual tinha consciência, deixando o plano do ser( do que existe) para se aproximar do plano do não – ser(do que ainda não existe).
Daqui resultam duas importantes consequências:
1- Nenhum estado de facto seja ele qual for (a estrutura política e económica da sociedade, estados psicológicos, etc) pode por si mesma determinar e motivar qualquer acto. Um acto é uma projecção do ser humano em direcção ao que não é ainda e o que é ou existe não pode de modo nenhum determinar por si o que não é.
2 – Nenhum estado factual pode determinar a consciência a vê-lo como negatividade ou lacuna.
A realidade humana é livre porque é perpetuamente arrancada a si mesma (ao seu passado e ao que é)e porque foi separada do que é ou existe e por um nada (a consciência).A liberdade é precisamente esse nada que constitui o centro da realidade humana e que a força a fazer-se a si mesma em vez de simplesmente ser.
Jean-Paul Sartre, L’Être et le Néant. 
Tentemos compreender o que Sartre quer dizer.
Todos nós temos projectos na vida, objectivos que queremos realizar. Neste momento queres concluir o teu curso, queres vir a ser médico/a, advogado/a, entre muitas outras coisas que ainda não és e ainda não tens. Há escolhas e opções que já fizeste e vais tentar realizá-las mediante certas acções. Segundo Sartre, ter projectos significa que a partir de uma situação presente, de algo que existe, projectamo-nos em direcção a um futuro, a algo que ainda não existe. Isto implica que somos capazes de nos distanciar do que existe, do mundo tal como ele é, concebendo e sendo motivados pelo que ainda não é,por um estado de coisas futuro a que desejamos dar realidade. A esta capacidade de conceber e ser motivado pelo que não é dá Sartre o nome de negatividade. O que é (os acontecimentos passados ou presentes) não pode, segundo Sartre, determinar o que não é. O ser não pode determinar o não-ser. A nossa capacidade de conceber o que ainda não é, permite-nos formar planos e projectos que não são o simples desfecho causal do passado ou do presente, do que somos ou fomos, do que fizemos ou fazemos. A liberdade é para Sartre esse modo de ser da realidade humana que em cada escolha suspende o passado e o presente. Cada escolha que efectuo, cada projecto que me proponho realizar significam que o futuro não é uma ramificação do passado ou do presente, mas sim o resultado de uma livre escolha. Mediante os seus projectos e escolhas o ser humano afirma a sua radical liberdade. O futuro não está pré-fixado. Está, enquanto a vida dura, sempre em aberto. Como disse Simone de Beauvoir «O homem é o único soberano e senhor do seu destino se efectivamente quiser sê-lo». A vida humana não é o cumprimento de um plano previamente traçado por um suposto criador que seria Deus nem algo sobre o qual o passado pesa de forma esmagadora. Somos o que fazemos de nós apesar das influências do meio e da hereditariedade.
Esta ideia é expressa por Sartre numa frase famosa: «No homem a existência precede a essência». Vejamos um exemplo: esta caneta existe, mas antes de existir foi pensada, imaginada, desenhada por alguém. Foi concebida para escrever e construída segundo um modelo. Ou seja, foi uma essência, um conceito, uma ideia na cabeça de quem a desenhou e construiu, antes de ser uma realidade con­creta, uma existência.
O homem, pelo contrário, existe antes de ser isto ou aquilo, ou seja, existe antes de se definir, de formar a sua essência. Não há nenhuma ideia que se possa fazer de um homem antes de ele existir e agir. A minha personalidade (o que eu sou) não é cons­truída com base num modelo antecipadamente traçado e para um objectivo previamente delineado. Sou eu que decido ser isto ou aquilo.
Sartre liga a negação de uma essência prévia do homem (não há natureza humana, não há um destino previamente traçado) à negação de Deus (não há Deus para definir o que o homem é). A liberdade humana exige a negação da existência de Deus. Ver a existência como liberdade é correlativo de uma tese ateísta. O que Sartre aqui nega é um Deus criador assimilado a um artesão supe­rior. Esse Deus conceberia no seu entendimento uma certa noção ou essência do homem e criaria em seguida por um acto da sua divina vontade a espécie humana, conforme à essência ou ideia previamente concebida. O homem não seria então livre, não teria o poder de definir através dos seus próprios actos a sua essência, aquilo que é. O conceito de homem, no espírito de Deus, seria semelhante ao conceito de caneta no espírito daquele que a desenha e constrói.
Como não existe uma natureza humana pré-fixada, como em cada acto ou escolha podemos modificar o que somos, não podemos dizer, por exemplo, que o ser humano é naturalmente sociável, ou egoísta, ou bom, ou agressivo. Só somos, por exemplo, sociais se nos envolvermos em actividades sociais, ou bons se praticarmos actos bons. São os nossos actos que definem aquilo que somos.
Embora não haja uma natureza humana universal há uma condição humana comum. Todos nós em ambientes e culturas diferentes enfrentamos os mesmos desafios, as mesmas questões e as mesmas limitações próprias da nossa condição de seres humanos. Chegados a este ponto uma questão surge: Não serão essas limitações obstáculos que podem negar a afirmação tão radical da liberdade por parte de Sartre? Não será um exagero dizer que o homem é o dono e senhor do seu destino?
Sartre pensa que não.
Podemos pensar que há acontecimentos passados e presentes que escapam ao meu controlo. Não escolhi nascer em Portugal, ser educado numa família da classe média, ser do sexo masculino, sofrer de miopia, etc. Estes factos ou acontecimentos são alguns dos dados da minha situação. Contudo, para Sartre, os factos em si mesmos não têm significado ou sentido. Somos nós mediante as nossas escolhas e projectos que lhes atribuimos sentido. Nasci em Portugal. Não posso mudar esse facto. Mas o que significa para mim esse facto? Que sentido tem? É uma fonte de orgulho por ser natural de um país que pertence à comunidade mais rica do mundo, a Comunidade europeia, ou uma fonte de embaraço por esse país ser um dos mais pobres da referida comunidade? E se tivesse nascido na América ? Estaria inchado de orgulho nacionalista por ser natural de um país que é a grande superpotência actual ou sentir-me-ia incomodado e embaraçado com o comportamento do meu país em relação a outros? Agito a bandeira com fervor nacionalista ou queimo-a por causas dos pecados da grande potência? Tudo isto são escolhas que eu tenho de fazer e não me são ditadas pelos factos mas sim pela minha posição em relação a eles. O próprio Sartre fala-nos de um padre jesuíta que conheceu quando ambos foram feitos prisioneiros pelos nazis durante a segunda guerra mundial. Esse homem parecia uma vítima das partidas desagradáveis do destino. Tinha ficado orfão bem cedo, o negócio que dirigia falhou deixando-o na pobreza, as suas relações amorosas terminaram todas em rotundo fracasso e falhara no acesso a uma carreira de militar que tanto desejara. Interpretou estes acontecimentos como sinal de que a sua vocação era servir Deus e não envolver-se em assuntos mundanos como ter uma família, um emprego e uma carreira. Sartre afirmou que que este foi o sentido que o indivíduo escolheu atribuir aos acontecimentos vividos. Mas também poderia ter escolhido ser um revolucionário. Quer com isto dizer que os acontecimentos passados não determinam causalmente o nosso futuro. Somos nós que decidimos como os factos e os acontecimentos vividos se encaixam no que actualmente somos e nos nossos projectos. Parece que o passado pesa e determina o que sou mas esse peso depende dos meus projectos e das minhas acções actuais. Casei. Estou vinculado a um compromisso que aparentemente limita as minhas possibilidades de acção mas isso só acontece porque em cada dia eu reafirmo esse compromisso e me defino como homem comprometido. Poderia muito bem considerar os votos de fidelidade como um estúpido erro, como algo que actualmente é uma fastidiosa monotonia e considerar esse compromisso um simples momento de um passado morto. Em cada momento da nossa existência criamos o nosso modo de ser actual. O futuro está sempre em aberto mediante as nossas escolhas, os nossos planos, sonhos e ambições. Mesmo a continuidade de uma duradoura  relação amorosa significa que continuamente reafirmamos as nossas escolhas passadas. O passado depende das nossas opções e não estas daquele.

Esta  concepção de liberdade tem tal importãncia aos olhos de J.-P. Sartre,
que reforça-a através de múltiplos exemplos
Um operário não pode pensar nem sentir como um bur­guês; a evasão é-lhe impossível; está condicionado pela sua classe, pelo seu trabalho e pelo seu salário. Mas um homem não existe como um seixo. É preciso que se faça operário. É ele quem decide do significado a dar à sua condição proletá­ria: tem a liberdade de criar um futuro de humilhação ou de orgulho, conforme se queira resignado ou revolucionário. Escolhe o seu destino.
Se uma doença fizer de mim um enfermo, não posso modificar a minha situação. Todavia, sou livre na "maneira de arquitectar a minha enfermidade", tenho a liberdade de a tornar um pesado fardo, humilhante e intolerável ou, pelo contrário, um estado desejável, interessante e útil; tenho a liberdade de a transformar em desculpa para os meus fracas­sos ou em meio de desenvolver a minha personalidade. "A própria tortura não nos desapossa da nossa independência: é livremente que lhe cedemos". J.-P. Sartre julga que, se o meu lugar no universo está submetido a circunstâncias acidentais, depende, não obstante, da minha liberdade: "É certo que, nas­cendo, eu ocupo lugar, mas sou responsável pelo lugar que ocupo. Em certo sentido, escolho ter nascido", porque posso regozijar-me com isso ou surpreender-me ou envergonhar­ - me.
O mesmo é preciso dizer-se do meu passado. Compete­-me a mim decidir se o sobressalto religioso dos meus 15 anos foi a última chama da minha fé moribunda ou o primei­ro indício da minha conversão futura. E faço-o optando, aos 30 ou 40 anos, pelo ateísmo ou pela crença. Não há factos históricos objectivos e imutáveis. O passado está sempre em "prorrogação". O seu valor único vem-lhe do futuro. É o futuro que decide se está vivo ou morto.

Estamos condenados a ser livres.A liberdade não é uma propriedade entre outras que tenhamos como a inteligência ou a beleza.A liberdade é o nosso modo de ser porque em cada momento da nossa existência estamos a definir o que somos e só a morte encerra este processo criativo.
Estamos constantemente confrontados com possibilidades e escolhas e mesmo recusar escolher e deixar que as coisas aconteçam é também uma escolha. Dada a nossa radical liberdade somos responsáveis pelo tipo de pessoa que somos. Recusar a liberdade e a responsabilidade é estar de má-fé.(NOTA NA MARGEM- A má-fé é o termo  que em Sartre designa a recusa em admitir a liberdade e a responsabilidade pelo que somos.)Para Sartre não há compatibilidade entre liberdade e determinismo. Ou somos 100% livres ou 100% determinados. Afirma radicalmente a liberdade embora não a entenda como algo que flutua por cima das situações concretas. A liberdade é sempre liberdade em situação. Podemos pensar que os factos da nossa experiência desmentem uma afirmação tão radical da liberdade. Que dizer de uma guerra que não declarei e na qual me vejo envolvido? Faz sentido falar de liberdade? Não é um acontecimento que escapa ao meu controlo?
Para Sartre é evidente que apesar de me encontrar numa situação que não criei isso não é razão para negar que sou livre de escolher como lhe responder. Mesmo uma situação dramática como a guerra não é um limite ou um obstáculo inultrapassável que negue a minha liberdade. Apesar de não ter escolhido a guerra tenho de definir o que sou em relação a ela. Posso aceitá-la entusiasticamente ou escapar-lhe através da deserção, da objecção de consciência ou do suicídio. Não podemos, seja em que circunstância for, deixar de escolher e de agir. Estamos condenados a ser livres.
                                                           














            















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