sábado, 26 de fevereiro de 2011

NIETZSCHE 10 - A VONTADE DE PODER AFIRMATIVA E A SUA ENCARNAÇÃO SUPREMA: O SUPER-HOMEM


A VONTADE DE PODER AFIRMATIVA E A SUA ENCARNAÇÃO SUPREMA: O SUPER-HOMEM


Nietzsche considera que a vontade de poder é a essência de toda a realidade. No ser hu­mano, a vontade de poder manifesta-se como uma interpretação que pretende dar um sen­tido e um valor ao mundo. Portanto, ela manifesta-se sob a forma de juízos de valor que são sintomas de uma vontade forte ou de uma vontade débil.
No homem da moral tradicional, a vontade de poder é falsamente afirmativa, pois os seus valores são negativos, traduzem um esgotamento, uma falta de vontade de viver e um instinto de vingança contra toda e qualquer relação saudável com a vida.
O sim à vida, à afirmação da realidade tal como ela é, e não como deveria ser, tem como sujeito a vontade de poder afirmativa. O carácter criador da vontade de poder positiva im­plica que ao dizer-se sim, também se diz não, porque o sim não é sinónimo de resignação ou adaptação. A vontade de poder propriamente dita é criadora, transfigura a vida através da sua capacidade artística. Nesse sentido, ela é o contrário da vontade de poder negativa, que era caracterizada pela renúncia e pela impotência criadora, pela sua incapacidade em mergulhar no sensível e dele fazer surgir novas formas.
Nesta ordem de ideias, a vontade de poder saudável concebe a vida como metamorfose ou transfiguração, como dinamismo em que a criação está intimamente ligada à destruição. Se a vontade de poder forte e criadora é a expressão fiel da vida enquanto jogo em que a criação e a destruição dão as mãos, então a arte é a sua adequada manifestação.
A arte é a manifestação de uma vontade de poder que rejeita que haja uma realidade em si mesma, que considera o mundo do devir como a única e verdadeira realidade. A metafí­sica tradicional opunha o mundo do devir ao mundo do Ser, o mundo da transformação ao mundo da imutabilidade. A crença no outro mundo, dito estável e perfeito, era um convite à contemplação, a negação da arte que é poder de transfiguração do mundo.
A arte é a criação que encontra no sensível a sua matéria, que ultrapassa as oposições entre o aparente e o real e que, sendo ao mesmo tempo afirmação de novas formas e nega­ção de outras, está em completa sintonia com a vida. A destruição que é necessária a qual­quer actividade criadora é uma forma de dizer sim à Terra, pois ao fazer surgir novas for­mas, constantemente a rejuvenesce.
O mundo criado pela arte é uma aparência ou uma ilusão que, contudo, não nega a reali­dade, não a desvaloriza, não a submete a juízos morais, mas unicamente transfigura a maté­ria sensível, colocando o mundo para lá do bem e do mal.
Esta interpretação da vontade de poder forte como essencialmente artística evita uma concepção superficial e perigosa que a identificaria com a procura de poder eco­nómico, militar ou político. Ao definir o homem como vontade de poder, Nietzsche nega que o poder seja algo que a vontade estabelece como seu objectivo. A vontade de poder não procura adquirir valores estabelecidos porque se define como criatividade, como doação de novas formas ao mundo sensível. Nela o verbo dar sobrepõe-se ao verbo adquirir.
Por outro lado, a vontade de poder afirmativa caracteriza-se pela constante superação de si mesma, como perpétua metamorfose, como actividade eternamente criadora, isto é, como uma espécie de devir que não tem fim.
A vontade de poder artística é a expressão suprema da concepção dionisíaca do mundo e da vida. Nesta concepção, o mundo é visto como enigmática realidade que se cria sempre a si mesma e se destrói eternamente a si mesma. A vontade de poder é um eterno movimento circular, uma adesão criativa ao «eterno retorno», a afirmação do mundo do de­vir como acontecimento eternamente renascente, que tem em si a sua origem e o seu fim.
O homem que não conhece nem o desgosto nem o cansaço deste mundo; que eterna­mente gira em torno de si mesmo; que também nunca encontra na sua criatividade a sacie­dade ou a satisfação definitiva; que não descansa em nenhuma das suas realizações, afir­mando através da transfiguração sem fim a realidade plena deste mundo, nunca caluniando as constantes metamorfoses e transfigurações da realidade; que não se deixa seduzir e into­xicar pela vontade de imutabilidade característica do fraco, tem o nome de «super-homem».
Perante um mundo devastado e empobrecido pelo niilismo, o «super-homem» aprova a totalidade do real e faz da actividade criadora o novo sentido da existência terrena, liberta do Criador que impedia o desenvolvimento da vontade de viver e criar.
O Super-Homem é o homem que diz sim ao devir sem fim, porque eternamente retorna sobre si, arrancando-se à fixidez, à ilusória perfacção (perfeição) ou acabamento.
Sem ilusões consoladoras, o Super-homem, aquele que negou Deus para se afirmar a si como encarnação da vida plena, afirma a inocência do devir de tudo o que existe, diferenci­ando-se assim do fraco, cuja vontade de poder, enraizada no ressentimento, nega e calunia as constantes metamorfoses e transfigurações que a realidade manifesta, para desgosto da sua vontade de imutabilidade, de identidade e de repouso.
Força transbordante e isenta de ódio, vontade que não simplesmente quer viver, mas viver plenamente e cada vez mais, o Super-Homem é a encarnação da essência da própria vida: terrível, enigmática e ao mesmo tempo rica em promessas terrestres. Não a rejeita em nome de um ideal va­zio e alienante. A dor de dar à luz no­vas formas ou configurações é a sua sacralização da vida. Individualista, orgulhoso da sua impetuosidade cria­dora, cultivando a distância em rela­ção ao rebanho dos caluniadores da vida, facilmente será considerado por estes como um «demónio».
Mas, segundo Nietzsche, é ele o mais alto apelo que se pode dirigir ao homem que ainda é sub-homem. Poucos responderão a esse apelo. Não obstante, o Super-homem é o sentido da Terra e da vida porque todo o sentido tem de ser elevado e magnificente como a vida!

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