sábado, 26 de fevereiro de 2011

NIETZSCHE 8 - O NIILISMO COMO CONSEQUÊNCIA NECESSÁRIA DA EVOLUÇÃO DA CULTURA OCIDENTAL

O NIILISMO COMO CONSEQUÊNCIA NECESSÁRIA DA EVOLUÇÃO DA CULTURA OCIDENTAL

O niilismo é uma consequência da morte de Deus. O reino de Deus, a «outra vida», era o Sentido, a bússola ou o centro de referência da vida humana. Deus era o fundamento dos valores essenciais que orientavam a vida humana. Morta a fé em Deus, os valores tradicio­nais perdem qualquer valor, a Terra deixa de estar ligada ao céu e a luz divina já não se pro­jecta sobre a vida humana.
Uma vez perdido o seu Centro de referência ou o seu Sentido, a vida e o mundo pare­cem não ter sentido nenhum. A sensação de que já nada faz sentido, de que falta uma finalidade, de que tudo fica à deriva, corresponde à experiência do niilismo. Extinguindo--se a Luz e o Sentido, todos os valores tradicionais perderam a validade, a vida humana fica à deriva sem qualquer bússola que a oriente, sem qualquer Luz que a ilumine.
O niilismo significa, portanto, a desvalorização de todos os valores «superiores», de to­das as respostas que a metafísica ocidental deu ao problema do sentido do mundo. A ex­pressão «a morte de Deus» resume esse acontecimento que é a perda dos valores fundamen­tais que até agora a cultura ocidental tinha promovido, dado que Deus era o fundamento último desse sistema de valores ou dessa interpretação dualista do mundo.
Contudo, o niilismo não é simplesmente algo que decorre da morte de Deus, por­que ele significa não só a desvalorização dos valores da cultura europeia como tam­bém a lógica interna do desenvolvimento dessa cultura. Com efeito, todos os valores cri­ados pela cultura ocidental são falsos valores, são a negação da própria vida, são o resultado de uma vontade de nada. Assim, o niilismo pode ser visto como consequência da interpretação que ao longo dos séculos se deu do mundo e da vida. Os valores da cultura ocidental são niilistas e embora se tenha encoberto esse niilismo através de ideias como verdadeira vida, reino de Deus, etc., ele acaba por revelar-se completamente ao declarar-se incrível o Ser no qual todos os valores negativos e prejudiciais se fundamentavam.
Colocou-se o sentido desta vida numa outra, afirmou-se que a finalidade da existência terrena era o «reino dos céus». Por isso, a «morte de Deus» revela não só que os valores tra­dicionais nada valiam (eram prejudiciais) como também que a vida e o mundo humanos não têm um sentido em si mesmos. É preciso dar-lhe um novo sentido para ultrapassar o ni­ilismo, que é uma consequência da visão doentia, racionalista, que se teve da vida humana.
«Por que razão é o advento do niilismo algo de necessário ? Porque os nossos valores anteriores atingem com ele as suas consequências últimas; porque o niilismo é a consequência lógica dos nossos valores1'1 e dos nossos ideais mais altos, porque foi preciso passar pelo niilismo para descobrir o valor real des­tes valores.»
[Nietzsche, A Vontade de Poder, vol. III, § 9. °]
(1) A metafísica dualista é niilista, ergue um outro mundo para abater este, para dizer que ele, em si mesmo, nada é. Este dualismo percorre a cultura ocidental quer falemos de religião ou de filosofia, de psicologia ou de ci­ência. Estas disciplinas são como que as várias línguas nas quais se traduz o dualismo sensível-inteligível.
A religião opõe a existência terrestre e a vida sobrenatural, o profano e o sagrado; a filosofia opõe o fenó­meno e o númeno, o sensível e a Ideia; a psicologia opõe a alma e o corpo; o cientista desconfia do imediato, do facto bruto, opondo-o à lei matemática que o torna inteligível. Mais ou menos acentuado, há em todas estas cliva­gens o sinal de um desprezo pelo sensível, pelo terrestre, pelo devir.
l. l. O niilismo como grande perigo
A morte de Deus, a boa nova, pode, de acordo com o tipo de vida que a interpreta, dar lugar a diferentes, a opostas formas de comportamento. O niilismo será interpretado de forma negativa ou de forma positiva de acordo com a realidade (intérprete fraco — intérprete forte) daquele que avalia esse evento. Assim, a morte de Deus encerra as mais altas promessas e os mais temíveis riscos.
A negação de Deus é acompanhada pela preocupação de permitir a expansão da vontade criadora do homem. Se Deus existisse, existiria uma ordem de valores absolutos que seriam dados objectivos que a vontade humana encontraria já estabelecidos. O homem, que Nietzsche concebe como criador de valores, veria a sua criatividade atrofiada e negada por Deus. Ora, saber estar à altura desse enorme acontecimento, desse acto tremendo que é a morte da fé no Absoluto, exige que o homem se torne diferente do que tem sido até agora. Esta transfiguração do homem, que cria novos valores e se supera a si mesmo tor­nando-se vontade que afirma plenamente esta vida, tem como símbolo o super-homem.
Nietzsche espera que a «morte de Deus» seja o começo de uma nova etapa da história. Chegou o momento de o homem ser o senhor de si mesmo. Há que fazer da «morte de Deus» um grandioso renascimento e uma contínua vitória sobre nós mesmos. Há que cor­responder à grandeza desse acto. O homem, que assume a responsabilidade do acto que fez desaparecer o juiz absoluto do Bem e do Mal, vive o calafrio da liberdade, da inocência: esta vida não está sujeita a juízos morais absolutos, ela está para além do Bem e do Mal. Há, contudo, dois tipos de situações possíveis que impedem a ultrapassagem do niilismo, da ausência do Sentido e do contra-senso que a vida do homem até agora tem sido.


1.1.1. O niilismo passivo: o «homem superior» e o «último homem»
a)   Pode fazer-se como se nada tivesse acontecido, ou seja, recebe-se a notícia da morte de Deus mas continua-se a agir como se os valores dos quais ele era o fun­damento não morressem com ele, ou seja, ainda se acredita em valores absolutos, objectivos.
E a figura do «homem superior» que aqui se apresenta. A moral do «homem su­perior» é o produto irrisório de um ser débil que, morto o Pai, não deixou de ser o «menino de Deus».
O «homem superior» já não acredita em Deus, mas, contudo, não se libertou total­mente da dependência em relação ao Ser Supremo. Com efeito, paira sobre os seus actos a sombra de Deus. O «não» ao ilusório «outro mundo» não se transforma em «sim» à terra. Um certo «instinto teológico» continua a envenenar a sua relação com o mundo, com a rea­lidade em devir ou em mudança. Não se apercebendo de que com Deus morreu o Absoluto, a sua metafísica mantém os traços de uma teologia mascarada. Vive ainda segundo os pres­supostos da metafísica que o Deus extinto fundamentava, ou seja, continua a desvalorizar o mundo do devir, a segregar o veneno do ressentimento. A «sombra de Deus» encobre a sua existência e estende-se sobre os novos ídolos (os novos absolutos) — a Razão, o Estado, a Pátria, a Justiça — que permitem ao homem desprezar o devir. Desaparecido o Senhor, este homem não abandona totalmente o papel de escravo. É demasiado débil para estar à altura de um acontecimento enorme no qual participou: a morte do Deus da culpa e do ressenti­mento. De tal modo assim é que o ressentimento define a sua relação com o devir, fonte de todo o sofrimento porque condena a vida ao desgaste, à insatisfação, à imperfeição. A sua procura do absoluto, mesmo sob forma não religiosa, é ainda o sintoma de uma vontade de poder negativa, que se recusa a dar valor próprio a «este mundo». Desconhecendo ou es­condendo a si mesmo que nenhuma moral absoluta é possível sem Deus, o Absoluto, o «ho­mem superior» revela-se como uma suprema decepção, um ateu débil e inconsequente. É incapaz de assumir o destino grandioso que a morte de Deus exige do homem, é impotente para levar às suas últimas consequências criadoras a denúncia da «mentira sagrada» ou «te­ológica». A sua negação de Deus é uma manifestação de impotência porque, para se prote­ger da realidade temível do devir, abriga-se à sombra de Deus, seguindo, em termos gerais, o tipo de moral que nele se fundava.
A sua conduta é ambígua: acredita no Diabo, não compreendendo que este só existia em relação a um Deus que morreu. Acreditar no Diabo significa que, apesar de derrubado o fundamento dos antigos valores (sagrados, celestes), estes permanecem sob uma forma lai­cizada (terrestre, humana).
Como a sombra não é senão a projecção de uma determinada realidade, a sombra de Deus, morto Deus, é uma ficção, uma ilusão maior do que o próprio Deus.
b)    Pode haver uma entrega complacente e desprezível à ausência de qualquer sen­tido ou valor, ou seja, rejeitam-se quer os antigos valores quer a necessidade de criar um novo sentido para a vida.
Temos aqui a figura do mais desprezível dos homens — o «último homem». Para ele Deus era um senhor demasiado exigente, que impedia um sono tran­quilo, uma existência confortável, sem deveres pesados. Não quer fardos antigos nem novos.
O «último homem» é o homem sem qualquer valor, o homem que quer dormir tran­quilo e viver longe de qualquer tarefa pesada ou grandiosa.
O «último homem» é o mais desprezível dos homens, porque rejeita quer os valores an­tigos quer a criação de novos valores. Nele a humanidade atinge o extremo da mediocridade e da degradação. Se o «homem superior» sucumbia ao fascínio da consolação da moral teo­lógica, o «último homem» não quer carregar o fardo dos antigos valores nem trilhar a via árdua da criação de uma nova axiologia (de novos valores).
Se acolhemos a «morte de Deus» como uma espécie de novidade milagrosa cujas razões nos escapam, podemos ser niilistas passivos, como é o caso do «último homem». Este inter­preta a «morte de Deus» como sinónimo de desaparição de qualquer ideal e de qualquer va­lor. Não se empenha em dar um novo sentido à vida, desresponsabiliza-se, fazendo desse acto o seu valor supremo. O «último homem» é o homem sem qualquer valor, sem qualquer finalidade a não ser uma existência tranquila e fácil no meio desse agradável vazio criado pela «morte de Deus».
Neste tipo de homem — último porque é o tipo mais baixo de humanidade — a medio­cridade atinge o seu extremo. Deus era invenção de medíocres e de falhados, mas mais vil do que o «sentido» nocivo que o crente dava à vida é a vontade de não lhe dar sentido ne­nhum.
Deus era um Senhor demasiado severo que, exigindo que o homem vivesse à sua ima­gem, impedia um sono tranquilo, uma existência confortável, sem responsabilidades. O des­vanecimento do Ideal é interpretado pelo mais desprezível dos homens como manifestação do contra-senso de qualquer ideal. É o homem que com um riso cínico se entrega a um pra­zer e a uma «felicidade» à sua altura, ou seja, mesquinhos. Eis, de acordo com Jean Granier, o programa de vida deste homem sem valor:
«Eliminação, engenhosamente programada, de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão — logo de superação de si. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência aprazível e ininterrupta, a uma irresponsabilidade divertida. Reconhecemos aqui os traços da moderna 'socie­dade de consumo' versão técnica e publicitária do niilismo passivo.»
[Jean Granier, Nietzsche, Paris, PUF, p. 34.]
1.2. O niilismo activo: a «morte de Deus» como grande vitória
Contra o niilismo passivo do «último homem» e do «homem superior», Nietzsche faz a defesa do niilismo activo. Por esta expressão deve entender-se a consciência de que os anti­gos valores que serviram de fundamento à vida humana não caíram por si , mas por obra de uma vontade que já não conseguia suportar a calúnia e o desprezo acerca desta vida e deste mundo.
O niilismo activo não consiste em dizer não pura e simplesmente mas em negar aquilo que negava a vida, propondo novos valores em harmonia com a realidade, uma nova atitude perante a vida.
Aquele que se alegra com a «morte de Deus», que a saúda como uma Boa Nova, não o faz por ressentimento, para se vingar dos que intoxicaram a humanidade. Esmagado sob o peso de valores e de instituições que revelaram o seu fundamento ilusório, o homem da vontade de poder afirmativa sente abrir-se e expandir-se o horizonte da sua acção. Os valo­res supremos perdem a sua validade, o seu carácter intocável e puro, e mostram a bai­xeza, a «imoralidade» que está na sua origem.
«O niilismo é então a consciência de um enorme desperdício de forças, a tor­tura do 'em vão', a vergonha de si mesmo, como se tivéssemos mentido a nós . mesmos demasiado tempo.»
[Nietzsche, A Vontade de Poder, vol. i, § 12.° A.]
A «hora do grande desprezo» por si mesmo é uma hora estimulante, porque, envergo­nhado com a sua mediocridade o homem sente que é imperativo ultrapassar-se a si mesmo. O homem que tem vergonha de se assemelhar ao homem do dualismo moralista é aquele que nega o que foi em favor do que será. Descobre que a destruição e o declínio são condi­ções de passagem a uma vontade de poder construtiva. No seio do grande desprezo abriga--se a grande veneração.
A morte de Deus clarifica o que se pretendia ocultar (que o Ideal é uma mentira) e entrega o homem a si mesmo e à realidade que durante tanto tempo foi negada. Todo o reino dos valores supra-sensíveis, na perspectiva da vontade de poder criadora, de­saparece e, com ele, as normas e os fins que orientaram até agora a existência humana. A ideia de outro mundo, superior ao do devir, lugar onde imperam eternamente o Bem, a Verdade e a Justiça, é uma ilusória projecção dos nossos desejos mais inconfessá­veis. O mundo além da morte, da mudança, da dor e do engano é um simples nada, um ideal vazio, uma mentira confeccionada pela inversão das características do mundo real, que consideramos indigno de ser vivido por si mesmo. A mesquinha origem dos valores su­premos não deve conduzir-nos ao pessimismo, ao niilismo passivo, que consiste em julgar que o mundo perdeu o seu sentido, se desvalorizou radicalmente. Ao olhar desencantado que vê o sentido da realidade desvanecer-se deve sobrepor-se uma atitude que com­preende a negação daquilo que nega a vida (Deus, a Verdade, o Ideal) como condição da afirmação desta (1)
A vontade de poder afirmativa deve, para evitar que a culpabilidade e a desvalorização do mundo, da Terra, subsistam mesmo depois de desaparecido o Deus que as justificava, constituir como seu imperativo o advento do super-homem. O super-homem é aquilo que o homem pode e deve ser.
«Eu ensino-vos o super-homem. O homem é algo que deve ultrapassar-se.»
[Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, «Prólogo», § 3.°]
("É característica essencial de Nietzsche criticar as «verdades» da metafísica tradicional, não por serem falsas ou ilusórias, mas por serem erros nocivos, que não estão ao serviço da vida ascendente
O Super-Homem é aquele que recusa Deus, não acredita no além mas simplesmente na terra. As esperanças supra terrestres são a forma de sobrevivência de seres fracos e rancoro­sos.
«O Super-Homem é o sentido da Terra. Outrora o ultraje de Deus era o maior dos ultrajes, mas Deus morreu e com ele os que o ultrajavam. Ultrajar a Terra é agora o que há de mais temível. Como conceder mais atenção às en­tranhas do insondável do que ao sentido da Terra?»
[Nietzsche, op. cit., «Prólogo», § 3. °]
Definiremos melhor a figura do Super-Homem ao sabermos em que consiste o «sim» supremo, a vontade suprema de afirmação da vida.

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