quarta-feira, 13 de abril de 2011

O RACIONALISMO DE DESCARTES (III) - O MÉTODO CARTESIANO


O MÉTODO CARTESIANO
«Por método entendo um conjunto de regras certas e fáceis tais que, aquele que as cumprir correctamente, nunca tomará nada falso por verdadeiro; sem qualquer desperdício de esforço mental e aumentando o seu conhecimento passo a passo, chegará ao verdadeiro conhecimento ou entendimento de todas as coisas que não ultrapassam a sua capacidade». (R. D. E., 4).
- O método consiste num conjunto de regras.
- O método não é uma técnica que se aplica de tal modo que as capacidades naturais da mente humana são irrelevantes.
- As regras são guias para empregar correctamente as capacidades naturais e operações da mente. Se a mente não estivesse já em condições de operar, de efectuar as suas operações, ela seria incapaz de compreender e utilizar as regras ou preceitos do método. Se assim não fosse nenhuma técnica poderia curar a radical deficiência da mente.
- Entregue a si mesma, a razão é infalível. É afastada do caminho da verdade e da reflexão racional por factores tais como o preconceito, a paixão, a influência da educação, a impaciência e pressa exagerada de obter resultados. Então a razão, por assim dizer, torna-se cega e não emprega as suas operações naturais (intuição e dedução) correctamente. - O método visa, antes de mais, afastar a razão destes factores de erro, dando - -lhe regras de uso das suas capacidades, disciplinando a sua actividade.
As regras do método
O método consiste em regras para utilizar bem as duas operações fundamentais da razão: a intuição e a dedução. Consiste acima de tudo em pensar por ordem. O essencial é organizar o nosso pensamento, evitar a confusão, e só pensando por ordem isso se consegue.
As regras são apresentadas em duas obras: Regras para a Direcção do Espírito e Discurso do Método.
1ªRegra - Regra da evidência
«Nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa sem a conhecer evidentemente como tal, i.e., evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção (pré-conceito ou pré - juízo); não incluir nos meus juízos nada que se não apresentasse tão clara e distintamente ao meu espírito que não tivesse nenhuma ocasião para o pôr em dúvida» (Discurso do Método)
A observância deste preceito implica o uso da dúvida (por esse motivo chamada metódica). Quer dizer, devemos submeter à dúvida todas as opiniões recebidas de forma a descobrir o que é indubitavelmente certo e o que pode assim construir o fundamento do edifício da ciência. Verdadeiro é sinónimo de indubitável.
A evidência que é exigida é a evidência racional. Trata-se de exigir que todo o conhecimento seja fundado na razão.

2ª Regra - Regra da análise ou da divisão
«Dividir cada uma das dificuldades que tivesse de abordar no maior número possível de parcelas que fossem necessárias para melhor as resolver» (Discurso).
Esta regra consiste em decompor os múltiplos dados do conhecimento nos seus elementos mais simples. Aplica-se sobretudo às questões complexas e exige a sua decomposição nos seus elementos mais simples e por isso também mais claros e evidentes (intuitivos).
Já sabemos que Descartes foi influenciado na sua concepção de método pela matemática. No entanto, isso não implica que em matemática tudo seja perfeito. Por exemplo, a geometria euclidiana tem para Descartes uma deficiência séria, a de que os seus axiomas e primeiros princípios não são justificados. Ou seja, o geómetra não mostra como esses primeiros princípios são alcançados. Para Descartes a análise ou resolução «justifica» os primeiros princípios mostrando claramente de uma forma sistemática como são alcançados e porque são
afirmados como tais. Neste sentido, a análise é uma lógica da descoberta. E Descartes estava convencido de que tinha seguido a via anatica nas suas Meditações Metasicas, ao decompor os dados múltiplos do conhecimento na proposição existencial primordial Cogito ergo sum e ao mostrar como as verdades básicas da metafísica são descobertas na sua devida ordem: «Nas minhas Meditações usei a análise, que me parece ser a melhor forma de ensinar.»

3ªRegra - Regra da síntese, composição ou regra da ordem e da dedução
«Conduzir os meus pensamentos, começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer para subir pouco a pouco, gradualmente, até ao conhecimento dos mais compostos e admitindo mesmo uma certa ordem entre aqueles que não se prendem naturalmente uns aos outros» (Discurso).
Na síntese partimos dos primeiros princípios intuitivamente apreendidos, i.e.,das proposões mais simples, e procedemos à dedução de forma ordenada, assegurando que nenhum passo é omitido e que cada proposição sequente é na realidade uma consequência da precedente.
Este é o «todo» empregue pela geometria euclidiana. Para Descartes, enquanto a análise é o método da descoberta, a síntese é o método mais adequado para demonstrar o que já é conhecido.
Esta regra visa assegurar a homogeneidade e continuidade do encadeamento das razões, de modo a garantir que a Ciência seja um todo único de verdades dispostas e ligadas entre si como série ordenada.
É regra complementar da anterior; trata-se agora de, partindo das proposições mais simples, primeiras, captadas por intuição intelectual, nos elevarmos gradativamente ao conhecimento de todas as outras. Noutros termos: dispor todas as nossas ideias numa ordem tal que cada uma seja precedida de todas aquelas de que depende e que preceda todas aquelas que dela dependem.

4ªRegra - Regra da enumeração
«Fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais que tivesse a certeza de nada omitir»
Este processo de enumeração e revisão é necessário para determinar tudo o que se liga a uma dada questão para podermos chegar a uma percepção, por assim dizer, intuitiva das longas cadeias de razões que desenvolvemos.
Descartes sabe que a dedução também é um processo necessário (que não basta a intuição), uma vez que é impossível ter de todas as verdades de uma série de raciocínios a intuição imediata. O processo de enumeração visará suprimir progressivamente essa deficiência de modo a que a razão quase possa intuir a totalidade do seu saber.
Por exemplo: se diversas operações me levaram primeiramente ao conhecimento da relação entre as grandezas A e B, depois entre B e C, em seguida entre C e D e, por fim, entre D e E, nem por isso vejo qual é a que existe entre A e E e não posso fazer uma ideia precisa C.. )' a não ser que me recorde de todas.

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