terça-feira, 26 de abril de 2011

NIETZSCHE E O CRISTIANISMO (IV) – A FRAQUEZA E A FORÇA ESTÃO NA ORIGEM DOS VALORES


NIETZSCHE E O CRISTIANISMO (IV) – A FRAQUEZA E A FORÇA ESTÃO NA ORIGEM DOS VALORES

Foi o homem que, para sobreviver, atribuiu valores às coisas. Foi o homem que criou o sentido das coisas, um sentido humano. Por isso se chama homem, i. e., aquele que avalia. Avaliar é criar. Escutai-me! Sois criadores! A vossa avaliação converte em tesouros e jóias as coisas avaliadas.»
Para Nietzsche, viver é enunciar juízos de valor. Avaliar é interpretar a realidade de uma certa forma, é afirmá-la ou negá-la, valorizá-la ou denegri-la. O homem é o "centro" dessa interpretação. O que é característico de Nietzsche é remontar à origem dos nossos juízos de valor, revelar que eles são sintomas de um determinado tipo de vida que aquele que avalia manifesta. E para quê remontar ao centro de todas as avaliações? Precisamente para avaliar os valores que até agora (séc. XIX) o homem ocidental tem promovido, avaliando ao mesmo tempo o tipo de vida e a atitude perante a vida que eles manifestam. Se o homem é aquele que, por essência, avalia, nos valores que promove manifesta-se aquilo que é: ou um ser decadente e sem vitalidade ou um ser de vontade exuberante e afirmativa.
Assim, a partir dos valores morais, religiosos, filosóficos que até agora o homem ocidental estabeleceu, pode-se fazer o diagnóstico da cultura ocidental, do tipo de homem ou de vontade que está na sua génese'. Ora, para Nietzsche, os valores estabelecidos pela cultura ocidental são, como diz Éric Blondel, «a expressão de um tipo dominante de homem e de vontade: decadente. É decadente aquele que não tem força suficiente para enfrentar a realidade tal como ela é e diz não à realidade sensível (ao mundo do devi r, a "este mundo"), denigre a vida do corpo e o "aquém" para preferir uma razão abstracta e repressiva (em nome da qual se considera o "outro mundo" como real e superiormente verdadeiro desvalorizando
"Este mundo" - aquele em que vivemos - como aparente, sem realidade própria).
Ser fraco, para Nietzsche, não significa ser inferior em termos físicos, sociais, económicos, políticos (ou até intelectuais). É uma atitude que se revela quer em grandes pensadores, quer em homens fisicamente robustos, economicamente poderosos, etc. É uma atitude de homens psiquicamente frágeis que não conseguem dizer sim à realidade e perante o que nela é difícil de dominar (o corpo, os sentimentos, as paixões, o carácter enigmático e inconstante do mundo terreno), adoptam a renúncia e a vingança sobre o sensível como ideal de vida. Ora todos os valores morais, religiosos e filosóficos dominantes no Ocidente têm sido valores de doentes e de decadentes. São perigosos, sombrios (fúnebres) e debilitantes.
É imperioso recusá-los e propor uma reavaliação dos valores, instituir valores que não recusem a fidelidade à terra (que neguem a necessidade de consolações - envenenamentos celestes), que repousem sobre uma outra vontade (a vontade de poder afirmativa). Não a de doentes contaminados pelo ódio ao sensível e ao devi r e que, para patrono dessa vontade vingativa, inventam Deus.
Em suma, para Nietzsche, o homem, criador de valores, de perspectivas sobre a realidade, interpretou a realidade, o mundo, a vida, à luz de um sentido supra-terreno e a crença no "outro mundo", na "outra vida" é infidelidade e cobardia, negação do mundo e da vida. Os grandes valores da cultura ocidental são profundamente imorais, apesar de para os ''fracos"serem" tesouros e jóias". Para Nietzsche, a vida, o amor à vida, é o valor supremo e só
pode ser redimida liberta de todas as calúnias que sobre ela se lançaram mediante a morte do Redentor.
1 - Nisto consiste o "método genealógico».

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