quinta-feira, 14 de abril de 2011

O RACIONALISMO DE DESCARTES (VI) – OS NÍVEIS DE APLICAÇÃO DA DÚVIDA

O RACIONALISMO DE DESCARTES (VI) – OS NÍVEIS DE APLICAÇÃO DA DÚVIDA
1º Nível - A dúvida vai aplicar-se em primeiro lugar às informações dos sentidos, ou seja, vamos verificar se podemos ou não considerar válidas essas informações.
Os sentidos enganam-nos algumas vezes como quando, por exemplo, nos dão a impressão de ser redondo o que é quadrado, verde o que é amarelo, quebrado o que está inteiro. Apliquemos então o princípio hiperbólico que orienta a aplicação da dúvida: se devemos considerar como sempre enganador o que nos engana algumas vezes, então os sentidos não merecem qualquer confiança. Não são fontes de conhecimento verdadeiro mas sim obstáculos que, como tal, devem ser postos de parte, ou seja, não interferir no processo de conhecimento.
Assim, Descartes rejeita um dos fundamentos do saber tradicional, de inspiração aristotélica: a convicção de que o conhecimento começará com a experiência, com as informações dos sentidos.
Conclusão deste primeiro nível de exercício da dúvida: os sentidos enganam - -nos acerca das qualidades dos objectos sensíveis.
Note-se que a dúvida hiperbólica neste nível não põe em causa a existência dos objectos. Os sentidos enganam-nos acerca das qualidades ou propriedades das coisas e nada mais. São incapazes de fornecer um verdadeiro conhecimento das coisas, pois as qualidades que delas captam não só são erradas, como não podem, dado o seu carácter sensível, corresponder à natureza ou essência das coisas que é de ordem inteligível, como Descartes provará mais tarde.

2º Nível - Neste nível Descartes vai pôr em causa outro dos fundamentos essenciais do saber tradicional: a convicção ou a crença imediata na existência das realidades físicas ou sensíveis. Mas como encontrar uma razão para duvidar daquilo que parece ser tão evidente? Como duvidar da existência das realidades sensíveis ou corpóreas?
Descartes inventa um argumento engenhoso que se baseia na impossibilidade de encontrar um critério absolutamente convincente que nos permita distinguir o sonho da realidade. Há acontecimentos que vividos durante o sonho são vividos com tanta intensidade como quando estamos acordados.
Exemplo: «Estou ao pé da lareira, vestido com uma camisa de dormir, folheando um livro»; «Como poderia negar que estas mãos e este corpo são meus?»; «Seria preciso que quase me igualasse àqueles loucos que se julgavam vestidos de ouro e púrpura quando afinal estão completamente nus».
Contudo, argumenta Descartes, já me aconteceu em sonhos representar as mesmas coisas ou até menos verosímeis que esses insensatos quando estão despertos. Já me aconteceu, em sonhos, ter a impressão muito viva de que estava junto à lareira, vestido, quando afinal estava no meu leito completamente nu. Uma vez que a impressão que agora, desperto (ao que parece), tenho de estar junto à lareira não é mais viva e intensa do que aquela que tinha em sonho,
«Vejo manifestamente que não há nenhuns indícios certos por onde possamos distinguir a vigília do sono, que fico estupefacto. E o meu assombro é tal que é quase capaz de me persuadir que durmo»
Se assim é, não havendo uma maneira clara de diferenciar o sonho da realidade, pode surgir a suspeita de que aquilo que consideramos real não passe de um sonho.
Deste modo, posso supor (desconfiar) que os acontecimentos e as coisas que julgo reais nada mais são do que figurantes de um sonho. Basta esta suspeita, basta esta mínima dúvida, para transformar acontecimentos e coisas que eu julgava absolutamente reais em realidades meramente imagináveis: todas as coisas sensíveis podem não passar de realidades que só existem em sonho. Como, segundo o princípio ou regra hiperbólica que orienta a dúvida, basta a menor suspeita ou dúvida para rejeitar uma convicção e considerá-Ia falsa, eu posso declarar falsa a convicção de que as coisas sensíveis, físicas ou corpóreas, existem realmente. O meu próprio corpo do qual posso desconfiar que não passa de figurante de um sonho, é alvo da dúvida e desde logo, a sua existência é negada. A existência real do mundo é negada (a realidade física em geral) uma vez que desconfiamos da sua realidade existencial (pode ser um grande sonho mesmo quando eu julgo estar acordado).

Conclusão: dada a impossibilidade de distinguir de forma absolutamente nítida o sonho da realidade, todas as coisas sensíveis, inclusive o corpo do sujeito que duvida são alvo de desconfiança e, hiperbolicamente, aquilo de que se suspeita é declarado falso porque como diz a primeira regra do método só o absoluta e totalmente indubitável é verdadeiro e real: excessivamente devemos dizer que não são objectos reais, não existem realmente ou verdadeiramente.


No fim destes dois níveis façamos o ponto da situação:
a)      Foram rejeitados os sentidos como fontes de conhecimento e
b) Foi declarada falsa a crença na existência real das coisas sensíveis. Em suma, toda a dimensão das realidades sensíveis, inclusive o corpo do sujeito, todas as substâncias corpóreas, não resistiu ao exame rigoroso da dúvida. Há razão para duvidar da sua existência real.
             Logo são falsos.


3º Nível - Neste nível Descartes vai pôr em causa aquilo que até então ele considerara o modelo do saber verdadeiro: o conhecimento matemático. As matemáticas são produtos da actividade do entendimento e por isso constituem a dimensão dos objectos inteligíveis. Sendo estas realidades inteligíveis consideradas as mais evidentes se as pudermos pôr em causa todos os outros produtos do entendimento serão postos em dúvida. A estratégia é simples e sempre a mesma: devemos encontrar um motivo, uma razão, um argumento, para suspeitar, por muito pouco que seja, da validade dos conhecimentos matemáticos. Se essa suspeita, essa
Dúvida, for possível, esses conhecimentos serão considerados falsos como manda o princípio hiperbólico que rege o exercício da dúvida.
O argumento que vai abalar a confiança depositada nas noções e demonstrações matemáticas baseia-se numa hipótese ou numa suposição: a de que Deus que supostamente me criou, criando ao mesmo tempo o meu entendimento, sendo um ser omnipotente (capaz de tudo) pode fazer tudo mesmo aquilo que eu acho incrível.
O facto de Deus (cuja existência é suposta, é uma hipótese) ser omnipotente e me ter criado leva-me a suspeitar (por pouco que seja e por fantasioso que pareça) de que Deus ao criar o meu entendimento, ao «depositar» nele as «verdades» matemáticas, pode tê-lo criado «virado do avesso» sem disso me informar. Ou seja, logo à partida o meu entendimento pode estar radicalmente pervertido, tomando por verdadeiro o que é falso e por falso o que é verdadeiro (por isso se diz «virado do avesso», pervertido). Deus pode ter posto na minha mente conhecimentos que eu considero verdadeiros quando no fundo podem ser falsos, porque ele sendo omnipotente (capaz de tudo) pode ter-me enganado. Podendo fazer tudo, Deus pode ter baralhado as evidências, levando-me a considerar real e verdadeiro o que pode ser ilusório e falso. A hipótese de um Deus enganador capaz de tudo porque omnipotente, por mais «metafísica» e vaga que seja é suficiente para abalar radicalmente a certeza que sentíamos acerca da validade do nosso entendimento e das suas operações e produtos.
E se objectarmos que isso se opõe à «bondade» que se atribui ao Deus da tradição (o Deus judaico-cristão), resta pelo menos o facto de que o Bom Deus tradicional, cuja ideia é confusa, fez-me de tal maneira que eu me engano algumas vezes. Melhor dizendo, Deus «permite que eu me engane algumas vezes». Ora, aplicando o princípio orientador da dúvida hiperbólica, aquilo que me engana algumas vezes pode enganar-me sempre. Está assim lançada a suspeita de que, sempre que me aplico em cálculos e demonstrações matemáticas, posso enganar-me. «Há prudência em nunca confiarmos inteiramente naqueles que nos enganaram uma vez.» A certeza que sentíamos a respeito da validade do nosso entendimento e das suas operações é radicalmente abalada. Como a suspeita, baseada nesta hipótese, se instalou, e como basta a mínima dúvida para considerar algo falso os conhecimentos matemáticos são desacreditados e o entendimento não é digno de confiança. Assim 2 + 2 podem não ser igual a quatro. Enquanto a hipótese de Deus enganar não for rejeitada não podemos ter a certeza de que as mais elementares «verdades» matemáticas são realmente verdadeiras. Se isto vale para as «verdades» mais elementares e simples mais se aplica ainda às mais complexas.

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