terça-feira, 12 de abril de 2011

PALAVRAS QUE MATAM

Dust jacket of the book Mein Kampf, written by...Image via Wikipedia
Umberto Eco afirmava que havia livros que matavam. Pensava no Mein Kampf, no Manifesto Comunista e também em livros considerados sagrados. É evidente que são certos leitores e autores que matam. O que Eco queria dizer é que há ideias que matam ou mais precisamente em nome das quais se cometem assassinatos, se levam a cabo genocídios e extermínios. O que me parece mais curioso - tragicamente curioso -  é que por vezes a mudança no significado de um conceito pode ter consequências catastróficas. 
 Pensemos no conceito de judeu. O que significava antes do final do século XIX? Em geral, significava membro de um grupo religioso que rejeitou a divindade de Cristo e a revelação cristã. Em parte devido a isso foram odiados e perseguidos mudando muitos publicamente para o grupo dos cristãos. Judeu era então um conceito com um significado religioso. Os judeus podiam deixar de ser judeus para se tornarem cristãos e não serem mortos ou perseguidos e discriminados. No final do século XIX, o conceito perdeu em grande parte esta conotação religiosa e passou a designar um grupo racial. Falava-se nessa altura em brancos, caucasianos, negros, amarelos e judeus como grupos raciais. Ora, de raça não se muda - não, não me falem do Michael Jackson. O judeu já não podia proteger-se abraçando o Cristianismo. O «sangue judaico» permanecia. Uma vez judeu, sempre judeu. Uma vez odiado, sempre odiado. Sabe-se que esta mudança de significado do termo judeu se transformou numa narrativa transmitida de geração em geração. Foi aceite pela esmagadora maioria das pessoas numa dada época em diversos contextos culturais. Criou um ambiente mental acerca dos judeus. Teve as consequências que muitos conhecemos: para evitar a sanha assassina de Hitler, de nada valeria aos judeus refugiarem-se no Cristianismo nem em qualquer outro grupo religioso. Não podiam deixar de ser judeus e sendo judeus eram alvos a exterminar. Só restava a fuga. Como se sabe, poucos fugiram e os outros acabaram fuzilados ou nas câmaras de gás.

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