terça-feira, 26 de abril de 2011

NIETZSCHE E O CRISTIANISMO (VII) – O SUPER - HOMEM


NIETZSCHE E O CRISTIANISMO (VII) – O SUPER - HOMEM


«Eis que vos anuncio o super-homem. O super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: possa o super- homem tornar-se o sentido da terra!
Exorto-vos, meus irmãos, a que permaneceis fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supra terrestres. Conscientemente ou não, são envenenadores.
São menosprezadores da vida, moribundos, intoxicados de quem a terra está cansada; que pereçam pois! Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfémias, mas Deus morreu e com ele morreram esses blasfema dores. De ora em diante, o crime mais atroz é blasfemar da terra e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que o sentido da terra.»

A)O super-homem é o homem que ultrapassa a moral do ressentimento.
Não desvaloriza a realidade do devir mas diviniza-a. O super-homem interpreta o devir e a instabilidade do mundo sensível como possibilidade de uma criatividade perpétua e não como desgaste e degradação irremediáveis.
b) Consciente de que dar sentido ao mundo do devir exige a criação permanente, exige que se seja um artista da vida, o super-homem sabe que, na transfiguração da realidade, o bem e o mal dão as mãos, porque engendrar é indissociável de destruir.
 A criação é uma mistura de prazer forte e de áspero sofrimento. O super - homem é aquele que afirma esta conjugação e a põe ao abrigo de qualquer condenação moralista. Assim, abraça a existência nos seus múltiplos e contraditórios aspectos. Nele dá-se a afirmação mais sagrada da vida: o super-homem venera a vida para lá do bem e do mal, não a julga nem a condena.
c) O super-homem rejeita a ideia de Juízo Final porque a vida, o mundo do devir, é inocente e não tem fim.
É assim que ele quer a vida. Ultrapassa a cisão platónico - -cristã entre o ser e o devir. Dizer sim à vida é concebê-la como existência que eternamente retorna. Podemos dizer que o super-homem é o homem de uma nova metafísica: a metafísica do eterno retorno. Esta vida, este mundo é todo o ser, não tem um sentido transcendente porque tem em si o selo da eternidade. A metafísica dualista, platónico-cristã, dizia que «este mundo», o mundo do devi r, era o mundo da temporalidade desgastante que tudo reduzia a nada ou a pó. Opunha-lhe o «mundo do ser", o mundo da eternidade, onde tudo se mantinha como era. O super-homem
nega esta desvalorização do mundo do devir ao proclamar o eterno retorno desta vida: tudo o que acontece, infinitamente volta a acontecer. Afirmar uma infinidade de vezes que tudo retorna é colocar o mundo do devi r à margem do desgaste e da imperfeição provocados pela temporalidade, pelo curso do tempo. Com efeito, se cada momento que constitui o devi r se repete uma infinidade de vezes, podemos dizer que ele dura uma eternidade. Assim implanta-se no devir o carácter do Ser platónico-cristão: a eternidade, desde que entendida como infinitude do tempo e do devir e não como eternidade transcendente ao mundo do devir. Anula-se assim a cisão (o dualismo) entre o Ser e o Devir, entre o eterno e o efémero. Para o super-homem o Ser não é Deus mas o eterno retorno do devir. Eleva-se o mundo sensível à categoria de realidade suprema, que merece ser vivida por si mesma. Acaba-se com a alucinação do «Além», da «Vida futura» que empobrecia esta vida até ao limite da insensatez. A finalidade desta vida está em si própria e não noutra.
d) Dissemos que o super-homem era o homem de uma nova metafísica. É também o homem de uma nova moral: a moral antidualista do eterno retorno desta vida.
Ao contrário da moral dualista ou niilista, determinada por uma vontade de poder negativa ou vingativa, a moral do eterno traduz uma afirmação total e sem limites desta vida e exprime uma transformação, aliás uma transfiguração do homem.
Quem afirma o eterno retorno de todas as coisas, que esta vida que agora vivemos será revivida eternamente, quer esta vida (a única) na sua totalidade, quer a divinização de toda a existência, mesmo nos seus aspectos mais dolorosos. Que o eterno retorno seja uma verdade científica ou não, é, de certo modo, indiferente para quem adere a esta ideia. Ela é uma perspectiva sobre a existência que a afirma de uma forma exuberante e plena. Quem venera a vida deste modo rejeitando a teologia moralista e a abdicação niilista, adora a vida incondicionalmente, aprova a alegria e a dor e liberta-se da vontade de vingança. A vida humana adquire uma terrível gravidade para aquele que incorpora e encarna o pensamento dos pensamentos (a ideia de que toda a vida será revivida infinitas vezes). Ao realizar qualquer acto ele deve perguntar a si mesmo: «Este acto, quero-o de tal modo que quererei realizá-lo um infinito número de vezes?» Dizer sim é assumir um pesado fardo, é manifestar a vitalidade de um super-homem.
Força transbordante e isenta de ódio, vontade que não simplesmente quer viver mas viver plenamente e cada vez mais, o super-homem é a encarnação da essência da própria vida: terrível, enigmática e ao mesmo tempo rica em promessas terrestres. Não  rejeita a vida em nome de um ideal vazio e alienante. A dor de dar à luz novas formas ou configurações é a sua sacralização da vida. Individualista, orgulhoso de uma impetuosidade criadora, cultivando a distância em relação ao rebanho dos caluniadores da vida, facilmente será considerado por estes como um "demónio». Mas é ele o mais alto apelo que se pode dirigir ao homem que ainda é sub-homem. Poucos responderão a esse apelo. Não obstante, o super-homem é o sentido da terra e da vida porque todo o sentido tem de ser elevado e magnificente como a vida!

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