terça-feira, 26 de abril de 2011

SERÁ QUE TODOS OS VALORES SÃO RELATIVOS?


SERÁ QUE TODOS OS VALORES SÃO RELATIVOS?
Uma mulher adúltera é apedrejada até à morte - uma morte lenta e humilhante - num país governado por uma versão da lei Sharia. Na Grã-Bretanha de hoje, nenhuma lei é aplicada contra o adultério. Algumas pessoas considerariam o adultério dela imoral, outras, possivelmente incluindo o marido, não veriam nada de errado nisso. Na Grã-Bretanha, na Europa e em todo o lado, grande maioria das pessoas julgaria o castigo por apedrejamento como horrendo e profundamente errado. Algumas pessoas acham que estes assuntos são relativos. O que ela fez foi errado em relação à sua cultura, mas não foi assim tão errado na cultura ocidental moderna. Em relação à moral idade muçulmana e lei daquele país, ela foi correctamente castigada.
Há muitos anos, num debate escolar, eu falei a favor da moção «Abaixo a minissaia!» Apoiar a moção permitiu envolver-me no humor dos rapazes da escola sobre o duplo sentido de «abaixo a». Na altura, as minissaias estavam na moda, uns anos mais tarde não. As modas vêm e vão – assim como as palavras da moda - «chique», «fixe», «boa onda», «estiloso», «muita louco», «está com tudo». O que achamos atraente, desafiador, aceitável ou ofensivo é relativo de acordo com o contexto. Dizem que antigamente os homens desfaleciam diante do vago aparecer do tornozelo de uma mulher.
Compare como o vinho tinto lhe sabia quando era criança (desagradável?) com o sabor que sente agora. Observe o contraste entre as reacções a um grelhado canino com queijo servido na Coreia e as reacções proporcionadas pelo mesmo prato servido na Grã-Bretanha; entre relações sexuais envolvendo rapazes na Atenas antiga e as mesmas relações no Ocidente da actualidade; ou entre as reacções dos escoceses à música da gaita-de-foles e as dos ingleses a esse barulho - quero dizer, sons.
Os relativistas culturais costumam estender essas relatividades à moralidade. O que é moralmente certo ou errado depende, segundo eles, da sociedade. Os relativistas expansivos
(como eu lhes chamo) ainda expandem mais a relatividade, alguns até mesmo a todas as verdades. Dizem, por exemplo, «Deus existe» é verdade para os crentes mas falso para os não crentes; ou «a Terra é plana» era verdade para a maioria das pessoas na Idade Média, mas não é verdade para nós agora. Eles podem argumentar que quando eu tento dizer que alguma coisa é verdade em absoluto – quer dizer, não relativamente - tudo o que estou a fazer é dizer
que acredito. Não posso sair da minha própria pele e descobrir como as coisas são realmente. Alguns relativistas argumentam que «são realmente» não existe de forma alguma. É tudo relativo.
Será que todos os valores e verdades são relativos?
Discutivelmente, o relativismo parece ser mais persuasivo quando as verdades aparentes têm a ver com a moralidade - com o que nós devemos ou não moralmente fazer - do que quando têm a ver com o mundo que nos rodeia. O relativismo moral é apoiado por muitos seculares ocidentais. Esses relativistas, em relação ao apedrejamento, por vezes concluem enganosamente que é errado interferirmos com as práticas de outro país. Se essa conclusão é proferida como uma afirmação não relativa, designadamente que interferir é errado e ponto final, então contradiz a afirmação de que todos os julgamentos morais são relativos. Não podem agarrar-se consistentemente à sua posição. Essa é uma razão clara para rejeitar o seu relativismo.
Talvez os relativistas morais estejam a dizer que é errado, quanto aos valores de um grupo (presumivelmente o seu), interferir nos valores (relativos) de outro país. Se é essa a história,
posso achar interessante, mas, como se trata apenas de um assunto relativo, por si só não me fornece uma boa razão para aceitar os valores deles.
Embora o relativismo pareça ter uma relação natural com a tolerância liberal - dentro do possível, não interfira na vida dos outros - não existe razão de ser para isso. Não podem coerentemente dizer às nações, facções de indivíduos, que eles estão errados e ponto final quando impõem os seus valores aos outros, pois essas nações podem muito bem valorizar a difusão dos seus valores (relativos) pelos outros. O facto de todos os julgamentos morais serem relativos não justifica que tiremos a conclusão, ainda que de forma relativa, que não devemos interferir nas práticas de outros países, assim como não justifica o contrário.
Uma vez que a moral é considerada relativa, põe-se a questão: em relação a quê? À sociedade em que vivemos? A subgrupos - facções, partidos políticos, uniões, clubes? A alguma outra autoridade? A mim? Seja qual for a resposta, devíamos perguntar aos relativistas: a vossa resposta é apenas relativamente verdade, ou seja, apenas verdade para vocês ou para o vosso grupo? Se for, será que devo dar-lhe atenção? Se não for, então vocês não são verdadeiros relativistas.
Os estudantes por vezes professam uma crença nos relativistas. Eles vêem-se confrontados com a insensatez da sua crença quando lhes fazem ver que se estiverem certos, não devem protestar que esteja errado que eu lhes dê notas baixas. «Os nossos trabalhos estão bons», insistem. «Absolutamente», digo eu, «mas como não existem valores não relativos, os vossos trabalhos merecem notas baixas, relativamente ao que sinto neste momento».
Muitos radicais de esquerda são atraídos pelo relativismo moral, porque querem respeitar a identidade cultural das outras pessoas. Isto leva -os à difícil situação de tentarem enquadrar o seu relativismo no julgamento (certamente correcto) de que as mulheres não deviam ser obrigadas a andar cobertas, submetidas a mutilações genitais ou apedrejadas até à morte. É claro que, apresso-me a acrescentar, existem muitos males nas sociedades ocidentais: as mulheres sentem - se pressionadas a terem filhos, um homem ou, não terem homem nenhum.
O respeito pela cultura e tradição não deve ser visto como implicando que todas as culturas e tradições devem ser respeitadas.
Esse respeito implica sim que alguns aspectos são certos em absoluto, não apenas relativamente. A questão está em estabelecer os limites ou onde os encontrar. O sofista da Grécia antiga, Protágoras, é visto como a principal fonte do relativismo expandido e expansivo. «O homem é a medida de todas as coisas», diz. A sua posição é que o que é verdade o é para alguém. Não existe nenhuma verdade e ponto final. Uma resposta rápida (e correcta) é questionar o status da afirmação de Protágoras - tal como devíamos questionar qualquer afirmação que defenda o relativismo.
«Todas as verdades são relativas». Isso é relativo ou não? Se não for, então é uma auto-refutação, por isso devíamos rejeitá-la. Se for, devíamos responder: «Isso está tudo muito certo, senhor. Protágoras, mas porque havíamos de ter em conta o que diz? Afinal, o senhor está apenas a falar de como as coisas lhe parecem a si, não como elas são».
O senhor Protágoras bate com os pés e grita: «Mas eu sou o grande Protágoras que pensou nestas coisas e que viu...» Aqui hesita - o que ele tem de dizer para nos influenciar não consegue dizê-lo com consistência, pois tem de dizer que os seus argumentos são melhores do que os de outros e não é assim apenas relativamente a si. Tem de dizer que viu... ahm ... ahm ... a verdade. E ponto final.
Ponha um relativista moral diante de uma criança inocente a gritar por estar a ser torturada. Pergunte-lhe se ele ainda pensa que o que está a ser feito é apenas relativamente errado. Ponha um relativista expansivo nos carris antes da passagem de um comboio expresso. Pergunte-lhe se pensa mesmo que é apenas relativamente verdade que ele está prestes a morrer.
Peter Cave, Duas Vidas Valem Mais Que Uma? Academia do Livro, pp 85-89.

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