quinta-feira, 14 de abril de 2011

O RACIONALISMO DE DESCARTES (XVI) - A FÍSICA CARTESIANA


O RACIONALISMO DE DESCARTES (XVI)

A FÍSICA CARTESIANA
Sabemos já que a existência do mundo físico é uma afirmação posterior à certeza da existência do sujeito pensante e de Deus, fundamento da objectividade do nosso conhecimento e, por conseguinte, a verdadeira «raiz da árvore do saber».
Sabemos também que o conhecimento da realidade física deve partir não do plano confuso e complexo dos sentidos mas sim de algo muito simples e claro, concebido pelo entendimento do sujeito pensante.
O que concebemos como claro e distinto quando perguntamos em que consiste o mundo material? Que as coisas materiais são, por essência, extensas. Como já foi dito, a essência da matéria reside na extensão porque todas as qualidades da matéria podem alterar-se, não deixando esta, por isso, de ser uma realidade extensa. A matéria persiste desde que permaneça a extensão: «material» e «extenso» são conceitos inseparáveis.
O mundo material comporta todas as propriedades que a Geometria de Euclides atribuía ao espaço geométrico: tridimensional (comprimento, largura e altura), ilimitado e contínuo (exclui o vácuo), homogéneo (céu e terra sob as mesmas leis) e divisível até ao infinito (o que exclui a indivisibilidade dos átomos).
O universo físico é puramente material: é unicamente composto de matéria absolutamente inerte por si mesma (negação da ideia grega de uma alma do Mundo).
Assim se compreende a preocupação de Descartes em distinguir claramente a alma do corpo. O mundo físico não é um mundo animado, dotado de intenções ou finalidades.
Por isso a física cartesiana é anti-aristotélica. Passa a ser concebido à imagem de uma máquina e não à nossa imagem: só assim, abolindo o antropomorfismo segundo o qual eram estudados os fenómenos naturais, podemos constituir uma física objectiva, não obscura ou confusa.
A matéria, o mundo material, define-se pela extensão e pelo movimento. Este foi-lhe imprimido, na origem, por Deus e a sua quantidade permanece idêntica ao longo do tempo. O conjunto dos fenómenos é o resultado deste movimento que na matéria provoca reacções em cadeia.
A física cartesiana, por querer dar um quadro geral da natureza, foi considerada, mesmo pelos seus contemporâneos, como demasiado vaga, sem rigor científico. Descartes considerava o choque que transmite o movimento de um corpo a outro como causa dos fenómenos físicos. Ao adoptar simplesmente este princípio como explicação dos fenómenos naturais, Descartes sabia que daria uma visão geral da natureza que corria o risco de ser imprecisa quando se descia ao pormenor. Contudo, preferia isso a encontrar simplesmente «as razões de alguns efeitos particulares »: a natureza nos seus detalhes não era o objecto próprio do cientista, tal como ele o entendia.

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